Abismo
2 Quinn
Notas iniciais
Capítulo 02 — Quinn
Quinn Fabray sempre foi uma garota séria e nunca foi muito de aprofundar relações. Tinha apenas duas boas amigas, além de sua irmã, de quem era bem próxima. Sua mãe morava em Miami há alguns anos e não voltou a ter qualquer relação mais séria após a morte de seu marido. Seu pai faleceu quando tinha 11 anos, vítima de um câncer, deixando uma rede de hotéis distribuídos em todo os EUA e na Europa para sua esposa e filhas.
Não era como todas as outras garotas, pois nasceu hermafrodita sem que a causa real jamais fosse descoberta. Quando era mais jovem chegou a se tornar um tanto quanto introspectiva em razão de sua situação, mas seu pai sempre foi extremamente protetor e sabia exatamente como contornar todos os medos que possuía.
Acabou por superar seus temores e na adolescência era bastante popular entre as garotas. Mas sempre as achava muito vazias e nunca chegou a ter um relacionamento mais profundo com qualquer delas.
Atualmente andava evitando qualquer tipo envolvimento fosse sentimental ou meramente físico. Não tinha ganas de se envolver com ninguém, em razão dos seus compromissos profissionais e também porque constatou que seus dois últimos envolvimentos foram com mulheres aproveitadoras que só queriam saber de prazer e de status.
Contava com 24 anos e apesar da pouca idade era presidente, juntamente com sua irmã Kitty, dos Hotéis Fabray e já fazia alguns meses que vinham desconfiando de que o diretor executivo que haviam escolhido para administrar dois de seus hotéis na Europa estava na verdade dando um jeito de desviar fundos para a própria conta bancária.
Caso isso fosse verdade teriam que tomar atitudes drásticas, além de ter que tomar medidas pessoalmente para que o caso fosse resolvido da melhor forma possível. O desfalque tinha sido tanto que os hotéis passaram a apresentar prejuízos, causando a demissão de vários funcionários, e isso não podia ficar assim.
...
Isso não poderia estar acontecendo, mas tudo indicava que realmente era verdade. Quinn estava em seu escritório sentada junto a sua mesa. O lugar era bastante sóbrio, com móveis escuros e clássicos, tudo de muito bom gosto, refletindo muito a personalidade de sua dona, que estava analisando o relatório enviado pelos profissionais que havia contratado para monitorar os passos de Michael dentro dos Hotéis Fabray que este administrava em Londres e Paris.
Estava resignada com o que lia, enquanto aguardava sua irmã para lhe repassar as informações tidas. Ainda guardava um pouco de esperanças de que suas suspeitas não fossem verdade, pois Michael fora um amigo de longa data de seu pai e o designaram para o cargo por ser uma pessoa, aparentemente, confiável.
Não sabia qual seria a reação de sua irmã, que sempre gostara muito dele por ser amistoso e por contar histórias relacionadas a seu pai, mas teria que ser a portadora de tais notícias tanto a ela quanto a sua mãe.
Realmente não era fácil lidar com o que estava acontecendo. Não era tanto a questão financeira que lhe afetava, mas sim o sentimento de ter sido traída por uma pessoa que confiava, em quem sempre acreditara.
Levou alguns meses até que realmente cressem no que estava acontecendo, chegaram a pensar até mesmo que a queda nos rendimentos era em razão do desaquecimento da economia global, entretanto estavam erradas.
POV Quinn
Quando Kitty entrou em minha sala senti um frio na barriga, nunca gostei de ser portadora de más notícias, ainda mais a ela, pois prometi a meu pai sempre cuidá-la. Ela era três anos mais nova que eu e um pouco mais baixa, tem os cabelos loiros como os meus, olhos verdes e nossos temperamentos sempre foram bem parecidos, acho que por isso sempre nos demos muito bem. Ela sempre foi meu xodó e eu fazia de tudo para protegê-la e para fazê-la feliz.
Ao me olhar diretamente nos olhos já captou praticamente tudo que eu tinha para lhe falar e vi minha dor refletida em suas orbes.
– É tudo verdade, então? Nossas desconfianças são reais? – me disse ainda com um pouco de esperança de que eu negasse tudo.
– Sim, Kitty. Infelizmente todas as nossas desconfianças são reais. – eu respondi com a voz baixa.
Seus olhos marejaram, mas mesmo assim tentou manter uma postura profissional, o que estava sendo difícil até mesmo para mim naquele momento.
– Então, o que vamos fazer? – perguntou, já recobrando a postura.
– Acho que primeiramente temos que comunicar o ocorrido a nossa mãe para depois disso decidirmos o que fazer. – disse.
– Você tem razão. Acha que contamos a ela por telefone ou marcamos uma reunião para ela vir aqui.
– Acho melhor contar pessoalmente, até mesmo para que tomemos uma decisão conjuntamente, pois apesar de sermos as presidentes da empresa ela também é uma das proprietárias.
– Vou ligar para ela então e pedir para que venha o quanto antes a NY para efetuarmos uma reunião. – falando isso se dirigiu ao telefone em minha mesa e pediu que minha secretária fizesse uma ligação para nossa mãe.
– Sim Lauren, pode passar a ligação. – disse quando o telefone tocou anunciando a ligação para nossa mãe – Oi, mãe. Como a Sra. está? ... Que bom, eu também estou bem... Kitty também, ela está aqui comigo. Na verdade nós ligamos porque precisamos ter uma conversa séria e você precisa vir a NY para termos uma reunião e queremos saber quando fica bom para a Sra.? ... Amanhã à tarde então? Vamos lhe esperar, até amanhã. ... Também te amamos, mãe. Beijos.
– Ela vem amanhã à tarde? – perguntou minha irmã já ansiosa.
– Sim, em torno das 14h ela disse que já estará aqui. Até lá vamos pensando em ideias do que poderemos fazer. – falei olhando para ela, que apenas consentiu.
...
Desvio a atenção dos papéis que estou analisando quando ouço uma leve batida na porta e esta se abre. Quando olho naquela direção vejo minha mãe entrando com um sorriso enorme dirigido a mim.
– Mamãe! Que saudades da senhora. – falo já me levantando e atravessando a sala — Parece que faz meses que não nos vemos, a senhora só quer saber do calorzinho de Miami agora e nem quer mais suas filhinhas, né?
– Oh, meu bebê chorão. Vem aqui com a mamãe. – dou um abraço apertado em minha mãe, que se afasta e me dá um beijo de cada lado do rosto.
Nesse meio tempo Kitty entra na sala e já vem a nosso encontro também recebendo abraços e beijos de nossa mãe. Conversamos por alguns instantes até que minha mãe fala:
– Mas não foi para conversarmos trivialidades que vocês me chamaram aqui com tanta urgência. O que está acontecendo?
– Bom, mãe, realmente não foi para isso. – falou Kitty me dirigindo um olhar que dizia que era para eu contar os fatos.
– Mãe, estamos com um problema. – ela me dirigiu um olhar preocupado quando falei isso e me dizendo que prosseguisse – Kitty e eu viemos desconfiando a alguns meses de que verbas de dois hotéis na Europa estão sendo desviadas e em razão dos desfalques eles passaram a ter prejuízos e alguns funcionários tiveram que ser demitidos.
– Mas como isso? Há quanto tempo vocês vêm desconfiando disso? – perguntou apreensiva.
– Já faz uns seis meses que temos essas suspeitas e há dois meses contratamos uma equipe de especialistas que monitorou todos os procedimentos dos hotéis e constatou as irregularidades.
– E que hotéis são esses? – questionou olhando alternadamente de mim para Kitty.
– São as filiais de Londres e Paris, mamãe. – Kitty respondeu esperando a reação dela.
– Mas não pode ser... Essas são as filiais que o Michael é encarregado de administrar e ele sempre foi amigo de Russel e nunca faria isso. – falou, chocada com a notícia.
– Infelizmente é tudo verdade, mamãe. – eu disse de forma calma, tentando tranquilizá-la – Nós já estávamos desconfiadas de que ele vinha desviando dinheiro das contas dos hotéis e superfaturando notas de produtos adquiridos e serviços contratados e com o relatório que recebemos ontem nossas suspeitas foram confirmadas.
– E então, o que vocês acham que devemos fazer? – perguntou.
– Acho que devemos denunciá-lo para que a polícia tome as medidas necessárias e eu vou para a Europa resolver tudo pelo tempo que for necessário para estabilizar a estrutura dos dois hotéis novamente. – eu falei, mesmo não querendo me afastar de NY por motivos pessoais, mas motivos pessoais agora não vinham ao caso e eram menores que os problemas que estávamos passando. Eu tinha que recuperar a quantia desviada e dar um jeito de recuperar os hotéis e recontratar todos os funcionários que haviam sido demitidos, pessoas inocentes não poderiam sofrer em virtude da falta de caráter alheio.
– Quinn, não sei se deveríamos envolver polícia nesse caso. Isso não viria contra a imagem da nossa rede de hotéis? – mamãe perguntou preocupada.
– Muito pelo contrário, mãe. – falou Kitty, que até então estava apenas ouvindo – Nós temos que divulgar sim esse desvio e buscar a punição de Michael, e mostrar que queremos reestruturar aqueles dois empreendimentos, até mesmo para dar esperanças aos nossos funcionários que foram demitidos.
– É, você tem razão, filha. Ainda não consigo acreditar que Michael tenha feito isso conosco, ele sempre foi tão amigo nosso. – mamãe estava desolada.
– Para nós também está sendo muito difícil de acreditar, mãe, mas todas as provas apontam somente a ele. – explicou Kitty – E o pior de tudo é que ele agiu sozinho, sem ter ao menos um comparsa em quem pudesse tentar por a culpa.
– Se ele fizesse isso eu o acharia uma pessoa ainda mais suja e vil do que já mostrou ser. – eu disse com ar de repugnância.
– Com certeza, mas ao menos ainda teríamos a mínima esperança de que ele poderia ter sido coagido pelo comparsa em ter tais atitudes. – Kitty falou tristonha.
– Sim, minha irmã, eu te entendo. Também está sendo muito difícil para eu acreditar no que está acontecendo. – falei me abraçando a ela.
– Então você vai mesmo cuidar de tudo pessoalmente, Quinn? – questionou olhando diretamente para mim.
– Sim, com certeza irei e tentarei solucionar tudo o quanto antes para retornar a NY, vocês sabem que não consigo ficar muito tempo longe de vocês. – falei pensando nelas e tentando afastar a lembrança de uma morena que tomava conta de meus pensamentos e que até então tinha esperança de reencontrar.
Fazia três meses que havia conhecido uma garota em uma boate, e apesar de ser convicta na minha decisão de jamais me envolver com alguém, não conseguia tirá-la da cabeça. Mas realmente não teria outra opção, teria que ir a Londres por tempo indeterminado e tentar esquecer aqueles olhos cor de chocolate que há três meses atormentavam minha mente, os olhos de Barbra.
Fale com o autor