Abismo
19 A cirurgia
Notas iniciais
Capítulo 19 – A Cirurgia
Ben acordou na manhã seguinte e ficou observando aquela cena no sofá, suas mães dormiam abraçadas. O menino não sabia o que aquilo significava, mas gostou do que via e abriu um sorriso. Ficou quieto deitado para não acordá-las, até que Rachel se moveu e acabou acordando Quinn.
Quinn ficou um tempo olhando para Rachel, admirando o rosto da morena enquanto dormia. Sentiu que estava sendo observada e olhou para a cama, onde viu Ben com um sorriso no rosto.
Levou o indicador ao lábio fazendo sinal para que ele não fizesse barulho e ajeitou Rachel melhor no sofá para que pudesse ir até ele.
– Bom dia, anjinho. – falou baixo – Como você está se sentindo?
– Minha garganta tá doendo, Mamãe.
– Mesmo? – falou colocando a mão na testa e em seguida no pescoço dele, verificando que estava um pouco quente — A Mamãe vai ali chamar a enfermeira para te ver e já volta, ok? Você cuida da Mami enquanto eu vou ali? – o menino anuiu e Quinn saiu.
Quinn voltou com uma enfermeira que medicou Ben e posteriormente trouxe o café da manhã para ele.
– Mamãe, você me ajuda a comer?
– Claro, meu anjinho. O que você quer primeiro: seu leitinho ou uma frutinha? – perguntou carinhosa.
– Leitinho.
Rachel havia acordado há poucos instantes e se surpreendeu ao ver a loira cuidando de Ben com tanto zelo. Agia como se houvesse feito aquilo a vida toda.
– Bom dia, Mami. – Ben falou ao ver Rachel acordada.
A morena lançou um sorriso para o filho e dirigiu-se a seu lado.
– Bom dia, bebê. Bom dia, Quinn. Você precisa de ajuda aí?
– A Mamãe está indo muito bem, Mami. – Ben respondeu por Quinn que esboçou um sorriso.
Rachel ficou encantada admirando aquele sorriso e o carinho com que Quinn agia com Ben. Aquilo aqueceu seu coração, sentindo seu peito vibrar. Sua divagação foi interrompida por uma preocupada Judy que adentrou ao quarto, fazendo com que os três se surpreendessem.
– Onde está meu neto? Como você está, querido? A Vovó ficou tão preocupada... – falou beijando e abraçando Ben.
– Mãe, deixa ele respirar. – falou Quinn divertida, diante da cena.
Olhou para Rachel que sorria e adorava o que estava vendo.
– Deixa de ser ciumenta, Quinnie. Será que não posso nem dar carinho para o meu neto favorito?
– Ele é seu único neto, mãe. – falou revirando os olhos enquanto Ben ria.
– Vem cá dar um abraço na sua mãe, Quinnie. Eu estava morrendo de saudade de você, filhote. – disse abraçando Quinn carinhosamente, dando-lhe um beliscão logo em seguida, surpreendendo a loira – Isso é por você não me ouvir e fazer sexo sem proteção. – sussurrou em seu ouvido.
– Ai, Mãe. – falou enquanto esfregava o braço – Foi só dessa vez, eu juro.
– Espero que seja verdade, mesmo. – disse reprovadora, sorrindo logo em seguida – Venha cá, Rachel. Deixa-me dar um abraço na mãe do meu neto.
Rachel recebeu um carinhoso abraço de Judy, que apesar de ter repreendido Quinn por sua inconsequência, estava adorando a novidade. Sempre quisera um neto, já considerava Ben praticamente como se fosse um antes mesmo de saber a verdade, agora iria mimá-lo e bajulá-lo ainda mais.
...
Os dias se passaram e Ben já estava totalmente curado da infecção na garganta. O dia da cirurgia já estava marcado e isso trazia um nervosismo cada vez maior para suas mães.
O médico já havia conversado com Ben e explicado sobre a cirurgia de uma forma que ele entendesse e não ficasse ansioso. Apesar de ser apenas uma criança, ele percebia que os adultos a sua volta estavam bastante nervosos e isso o estava deixando agitado.
– Mami, eu quero ir para casa. – falou chorando.
– Bebê, você sabe que ainda não podemos... – falava Rachel, abraçando o filho enquanto o consolava.
Aquela situação deixava Rachel totalmente perdida. Estava sozinha com Ben, enquanto Quinn tinha saído para resolver umas questões urgentes e o menino aproveitou para tentar fazer uma chantagem emocional com a mãe.
Apesar de fazer apenas poucos dias que Quinn havia entrado em suas vidas, já era uma peça importante e Rachel via nela um apoio e uma segurança que nunca havia sentido antes, apesar de sempre ter seus amigos por perto.
– Mas Mami, eu não quero fazer cirurgia nenhuma. – falava soluçando.
– Filho, olha para a Mami. A gente já conversou sobre isso, né? O Dr. Marcus já te explicou que precisa fazer essa cirurgia para consertar uma coisinha que tá errada aí dentro e você poder voltar a brincar e correr sem se sentir cansado e com dores no corpo. Vai ser rapidinho para você melhorar, você vai ver.
– Mas Mami... Eu tô com medo. – aquilo fez o coração de Rachel se partir.
– A Mami promete que vai ficar tudo bem, ok? Não vou deixar nada de mal acontecer com você. Não precisa ficar com medo.
POV Rachel
Ver Ben chorando daquele jeito e dizendo que estava com medo cortava meu peito. Parecia que alguém segurava meu coração e apertava com toda a força. Tentava passar uma segurança para ele que nem eu sentia. Apesar de o médico ter nos tranquilizado quanto ao procedimento, não deixava de ser uma cirurgia e riscos sempre existiam.
Dizia para mim mesma que não ia perder meu filho, como forma de me convencer que tudo ia ficar bem.
A cirurgia seria no dia seguinte e estávamos todos apreensivos. Quinn teve de sair para resolver uns problemas e eu havia ficado sozinha com Ben. Desde que voltara e eu revelara que ela era mãe de Ben, não havia saído do nosso lado e eu já havia me acostumado com aquilo, apesar do pouco tempo.
– Será que a Mamãe vai demorar? – Ben me perguntou, já mais calmo.
– Acho que não. Ela teve que ver umas coisas do trabalho e já volta.
Aproveitei que estávamos sozinhos para ver como Ben estava se sentindo com relação a Quinn, afinal era tudo muito recente e ele ainda era apenas uma criança.
– O que você está achando de ter a Quinn como Mamãe? Você está gostando?
– Você não vai ficar com ciúmes, Mami? – me surpreendi com a resposta dele.
– Não, bebê, não vou.
– Eu tô amando ter outra mãe. – falou com um sorriso enorme. Aquilo me tranquilizou. – Minha Mamãe é linda, você não acha, Mami?
Aquela pergunta me pegou desprevenida. Não esperava que Ben a fizesse. Fiquei pensativa e diante disso ele ficou me encarando com olhos indagadores, esperando minha resposta.
– Sim, sua Mamãe é linda. – respondi sem ver que Quinn havia entrado no quarto.
– Obrigada. – me assustei quando ouvi a voz atrás de mim – Você também é linda.
Ela estava com um sorriso de lado no rosto, o mesmo que me dera quando veio a minha mesa na noite que nos conhecemos na boate. Minhas mãos ficaram úmidas na mesma hora e senti um frio na espinha. Não esperava que ela tivesse escutado.
– O-obrigada. – falei constrangida.
– Não precisa ficar com vergonha, Rachel, é a verdade. – falou e se dirigiu à cama, dando atenção a Ben – Oi, meu anjinho. Como passou enquanto a Mamãe não estava aqui?
– Bem, Mamãe. – abriu um sorriso.
– Eu trouxe um filme para vermos juntos, você quer? — Ben abriu um sorriso enorme.
– Claro que sim. É desenho?
– É sim. É o que você me disse que era seu favorito.
– Obaaa. Vamos ver agora?
– Daqui a pouquinho, filhote. Antes eu vou ali na lanchonete buscar alguma coisa para sua Mami comer, está bem? – falou.
Me surpreendi com aquele ato de Quinn, até porque eu mesma poderia ir até o local pegar um lanche, mas ela insistiu e eu acabei cedendo.
Quando ela voltou ao quarto trazia um sanduíche natural e um suco de laranja para mim. Santana e Brittani haviam chegado não fazia muito tempo para dar um beijo em Ben e estavam nos fazendo companhia.
POV Quinn
Ao voltar para o quarto com o lanche de Rachel me deparei com San e Britt. Elas tinham ido todos os dias ao hospital desde que Ben fora internado. Santana vinha demonstrando um carinho por Ben que eu nunca imaginaria que ela demostrasse por alguém que não fosse Britt.
Santana me olhou de um jeito malicioso, que eu bem conhecia, ao me ver estendendo o lanche que tinha em mãos para Rachel. Se aproximou de mim enquanto Rachel conversava com Britt e Ben brincava com alguns carrinhos que as meninas haviam trazido para ele.
– Quanta gentileza, heim loirinha? Se fosse em outra situação eu pensaria outra coisa... – falou do mesmo jeito malicioso.
– Estava demorando, não há nada de mal em trazer um lanche para a Rach. Afinal eu tive que sair e ela ficou todo esse tempo aqui sozinha com o Ben. – falei dando de ombros.
– Rach? Já está assim? – falou rindo.
– Sim, Santana. – falei impaciente – Nós somos amigas, temos um filho juntas. Nada mais natural que eu a trate com carinho.
– Tá bom, tá bom. – falou erguendo as mãos em rendição – Vou fingir que acredito.
Revirei os olhos e fiquei observando Ben. A cirurgia seria amanhã, e por mais que procurasse não transparecer, estava nervosa.
– Não se preocupe, ele vai ficar bem. – Santana falou afagando meu braço.
– Espero que sim, San. Recém descobri meu filho, não posso perdê-lo... – falei baixo, para que só ela ouvisse.
– Não vai, Quinnie. Não vai. – disse me abraçando.
Aconcheguei-me nos braços de Santana. Agora só nos restava esperar e rezar que tudo desse certo.
POV Quinn — Fim
Se há alguns meses atrás dissessem a Quinn que ela tinha um filho de três anos, e que ela se apaixonaria por ele à primeira vista, ela diria que não, que isso era impossível. Mas quando descobriu sobre Ben o que aconteceu foi totalmente o oposto. Já possuía um carinho pelo garoto e o amor que tomou conta de si não tinha explicação. Era como se o conhecesse desde que nascera, como se convivessem desde sempre.
Era uma afinidade inexplicável. Um amor incondicional entre os dois. E tudo conseguia ser ainda melhor em ter sua família e amigos tão apaixonados por seu filho.
Rachel mostrava-se uma pessoa reservada, mas de fácil convivência. Assim como Quinn, tinha poucos amigos, mas a sintonia entre as duas fora praticamente imediata, principalmente no que se referia a Ben.
Já era o dia da cirurgia e todos estavam no hospital. Ben foi levado cedo pelas enfermeiras para ser preparado. Antes de iniciar os procedimentos o médico foi até Rachel e Quinn dar mais algumas explicações sobre o processo.
– Bom dia.
– Dr. Marcus, vai correr tudo bem, não é? – Rachel perguntou logo que viu o médico, sem ao menos responder ao cumprimento.
– Espero que sim, Rachel. Apesar de ser um procedimento cirúrgico simples sempre há riscos. A cirurgia durará em torno de três horas. O pós-cirúrgico é bastante delicado e provavelmente teremos que mantê-lo em coma induzido por uns dois dias.
– Mas isso não é perigoso, Doutor. – questionou Quinn, preocupada.
– É o procedimento padrão para que ele tenha uma melhor recuperação. Quando sair do coma ficará ainda uns três dias hospitalizado, conforme for sua recuperação, e depois será liberado. Em casa precisará de acompanhamento constante, tem que evitar esforços e muita agitação. Como eu já tinha dito antes para vocês seria bom ele não ficar muito tempo dentro do apartamento, é bom que fique ao ar livre pelo menos umas três horas durante o dia. Repouso máximo até a alta total.
– Vou ver o que posso fazer, Dr.
– Bom, vamos dar inicio aos procedimentos. – falou se retirando para a sala de cirurgia.
Quinn se aproximou de Rachel e a envolveu em um abraço. Ficaram assim por um longo período, até que resolveu romper o silêncio.
– Rachel, eu queria te dizer uma coisa. – Quinn falou suave – Era para ser uma surpresa, mas eu não vou conseguir ficar sem te contar. Até porque eu não quero que você se sinta pressionada e obrigada a aceitar.
– Você está me deixando curiosa, Quinn.
– É que... Eu... Não sei se é o momento...
– Fala logo, Quinn. Não me deixa mais nervosa do que já estou.
– Sabe aquele dia que eu saí à tarde para resolver umas coisas? – Rachel confirmou com a cabeça – Pois é, eu comprei uma casa para nós...
– Como assim você comprou uma casa? Como assim para NÓS? – perguntou sem entender.
– Calma! É que eu fiquei preocupada com as orientações que o Dr. Marcus nos deu, pois nós duas moramos em apartamento. Aí eu comecei a ver alguns imóveis e comprei uma casa. E como agora de início o Ben vai precisar de cuidados e depois eu não quero ficar longe dele, eu queria pedir que vocês fossem morar comigo...
– Mas Quinn... Eu não posso aceitar isso. Não quero atrapalhar sua vida e você nem me conhece...
– Nesse pouco tempo que convivemos não tem como negar que nos tornamos amigas e você não vai atrapalhar em nada. Por favor, não me negue isso. Me deixe ficar perto do nosso filho. Já perdi mais de três anos da vida dele...
Diante daquele pedido de Quinn não havia como Rachel negar. Também não podia deixar Ben longe de sua outra mãe, ainda mais depois de toda essa situação que o pequeno estava passando.
– Olha, por mais que eu ache isso precipitado, temos que ver o bem estar do Ben acima de tudo e acho que uma casa por hora é o ideal para a recuperação dele. E você tem razão no que se refere a convivência de vocês, há todo esse tempo perdido a ser recuperado e eu com certeza não vou ficar longe do meu filho.
– Então você aceita?
– Nós vamos morar na sua casa, Quinn.
– Obrigada, Rach. – falou com um sorriso enorme, dando um caloroso abraço em Rachel.
Quando Quinn soltou Rachel do abraço, sentiram um vazio se instalar entre elas. Parecia que algo estava faltando. Ficaram se olhando por uns instantes até que foram interrompidas por um sempre inconveniente Puck.
– Então, Big Mama, a Litle Mama aceitou ir brincar de casinha com você? – falou na verdade para descontrair os presentes que estavam bastante tensos.
– Puuuck!!! – as duas falaram ao mesmo tempo, repreendendo o rapaz.
– Quê? – disse inocentemente.
Puck ainda falou mais algumas besteiras tentando dispersá-los da preocupação, mas logo ficaram todos quietos novamente, aguardando apreensivos o final da cirurgia.
...
Quando uma enfermeira entrou com o semblante sério na sala de espera e chamou Quinn e Rachel, estas entraram em pânico, não havia dado tempo para a cirurgia ter acabado ainda e Dr. Marcus ficou de avisá-las pessoalmente quando ocorresse.
POV Rachel
Vendo aquela enfermeira se aproximar de mim e de Quinn fez meu coração parar de bater por um instante. Olhei para Quinn e esta havia perdido toda a cor de seu rosto. Aguardamos ansiosamente o que a mulher tinha para nos dizer. Eu já sentia o chão se abrindo mais uma vez sob meus pés.
– Srta. Berry?
– Sou eu. – falei me aproximando ainda mais.
– Sinto ser portadora de más notícias...
Senti meus olhos escurecerem. Ia desmaiar a qualquer momento. Quinn se agarrou em mim na mesma situação em que eu estava. Sentia que ela tremia junto a mim.
– Por favor não se preocupem. – a mulher tentou amenizar a situação – Ben teve uma hemorragia durante a cirurgia, mas ela foi controlada. O Dr. Marcus pediu que eu transmitisse para vocês que nosso banco de sangue está em falta para o tipo O negativo, que é o do Ben. Vim então verificar se a Srta. por acaso possui este tipo sanguíneo, para podermos fazer uma transfusão.
– Ai, meu Deus. Não, eu sou O positivo. E agora? – falei entrando em desespero.
– Eu sou O negativo e a Kitty também. Nós vamos doar. – Quinn falou categórica sem nem ao menos perguntar para Kitty, que concordava com a cabeça logo atrás.
– Eu também sou O negativo. — disseram Puck e Blaine juntos.
– Então, passem comigo para a sala onde é feita a coleta das doações.
Os quatro se dirigiram até a sala o mais rápido possível, não podiam perder tempo naquela situação.
Fiquei ansiosa na sala de espera enquanto os outros não voltavam. A primeira a retornar foi Quinn, dizendo que havia sido a primeira a doar o sangue e que já tinha sido liberada. Me abracei a ela como forma de agradecimento.
Cerca de uma hora depois o médico entrou na sala de espera e corremos em sua direção. Tínhamos ao menos que aliviar a aflição que nos tomava. Não aguentando mais perguntei.
– E então, Dr., como o Ben está?
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