Aberração

1 Ódio, melancolia, calidez e Tarantino


Notas iniciais
Música sorteada para mim: Duality, do Set It Off.

Aberração

Por Valentine Deimos

Era mais um dia nublado naquela cidade onde só chovia. As enchentes recorrentes sequer mais faziam parte dos pesadelos de Luca, que lhe perturbavam pela noite e o acordavam duas, três, quatro vezes ao longo de uma madrugada. Seu medo de morrer sufocado continuava vívido a ponto de ter sonhos com afogamento, mas enchentes deixaram de protagoniza-los há tempos.

Qualquer ser que vivesse no cotidiano daquela cidade sem ter ao menos um momento de infelicidade pela manhã, provavelmente, era criança ou insano. Apesar de Luca ter toda a cara da primeira opção, não era o caso. Já a segunda… Seu terapeuta ainda não tinha certeza.

Segunda-feira. O despertador tocava aquela bendita música que devia ter trocado há meses. Sua infelicidade matinal já era grande o suficiente todos os dias. Agora que o cantor da música que o despertava havia falecido dias atrás, sua vontade era ficar ali na cama até a hora do almoço. Por que não trocava aquela droga?

Obviamente, a procrastinação e o esquecimento eram maiores do que a vontade de tirar a voz de Chester Bennington de seu despertador.

Alguma hora, só não soube dizer qual era, se levantou da cama. O celular estava do outro lado da cama, e sua preguiça era tamanha que não quis nem ao menos se debruçar para pegá-lo e checar o horário. Apenas ficou em pé e, em poucos passos meio capengas, atravessou a pequena kitnet até chegar ao balcão da cozinha.

Ao esperar para que o café terminasse de passar, decidiu poupar tempo e ir ao banheiro dar um jeito na cara e no cabelo. Seus olhos se encontraram no reflexo e se assustaram com estado deplorável de seus cabelos. Parecia que não os escovava à semanas.

Mas o que o deprimia não era a visão dos cabelos desgrenhados ou das olheiras fundas a ponto de poder enfiar os dedos nelas. Descendo o olhar, ele os via.

Ele queria que sua existência não passasse de um pesadelo, mas eles estavam sempre ali. O volume no colo debaixo do camisão cinza largo. Sempre que se lembrava de que tinha seios, um pedaço de sua alma parecia secar e cair como uma folha sofrida com o frio do inverno. Se os visse, sua vontade era arrancá-los com as próprias mãos à força, não importava o quanto iria doer. Ele só queria aquele maldito volume debaixo da camisa fora de seu caminho, só queria parar de ter que usar binder e voltar a respirar normalmente ao longo do dia.

Bem, querer não é poder. Se fosse, não estaria numa kitnet agora. Nem estaria morando naquela cidade.

Seus devaneios de desgosto foram interrompidos por um bipe. O café estava pronto, e seus cabelos continuavam para o alto. “Meh, foda-se”

Como em todas as manhãs, tomou seus remédios antes do café e o mesmo ficou com um gosto horrível. Não sabia mais se era esquecimento ou autoflagelação, mas aquele gosto horroroso na boca era forte o suficiente para que não conseguisse pensar em nada.

Café tomado, remédios tomados, celular na tomada com a bateria cheia, só faltava se vestir e tomar o ônibus.

Quando acabou de se arrumar, finalmente olhou as horas no celular e, grande novidade, estava em cima da hora. Definitivamente precisava dar um jeito em si mesmo. A única coisa que devia tomar tanto tempo de si era a tarefa de colocar o binder. Mas Luca insistia em, quando olhava-se ao espelho de manhã, contemplar sua imagem por vários minutos.

Todo tipo de pensamento passava por sua cabeça, a maioria pejorativos contra si mesmo. Sobre suas olheiras fundas, sobre seus cabelos desgrenhados, sobre sua aparência muito jovem, sobre como era sortudo de ainda ter um namorado com todos aqueles defeitos.

A coisa piorava quando se olhava ao espelho de corpo inteiro. Antes e depois de colocar as roupas. Divagava sobre como achava seu corpo estranho, sobre como achava suas coxas grossas demais, sobre como era baixinho e gordinho, sobre como era infantil e pequeno, sobre como ficava bem apenas com o binder lhe sufocando. Sobre todas as merdas que fez ao longo da vida e sobre as merdas que com certeza faria no futuro, já que não tomava jeito.

É, esses momentos contemplativos eram definitivamente uma perda de tempo.

Felizmente, conseguiu chegar ao ponto na hora certa. O ônibus passaria em poucos minutos, e tinha esperança de que o dia melhoraria depois que chegasse à faculdade. Errou, pois seu humor já se levantou um pouco ao ouvir aquele toque especial no celular. Ainda no ponto, recebeu uma ligação do namorado.

— Oi, Nando! — atendeu com um mínimo sorriso no rosto.

“Bom dia, docinho”, ele respondeu. Luca podia ouvir seu sorriso, era uma sensação morna e aconchegante, aquela. “Você já está no ônibus?”

— Estou no ponto. Deve chegar em alguns minutos. — respondeu descontraído, brincando com o que restou da unha roída na mão livre. — E você, onde está?

“No trânsito. Acabei de chegar na cidade.”

— No trânsito? Você tá usando o celular no carro?

“Mais ou menos. Comprei aquele Kit Bluetooth novo. Você está estreando a função de ligação dele, sinta-se honrado”, brincou, arrancando um risinho mínimo do namorado. “Nosso encontro hoje de tarde tá de pé, certo?”

— É claro que sim. — respondeu ainda sorrindo. — Não te vejo faz tempo, tô morrendo de saudades.

“Eu também, meu amor”, sentiu seu coração se aquecer com o carinho do namorado. “Você tá com uma voz tão cansada. Dormiu bem?”

— Não. Tive aquele pesadelo outra vez.

“Eu queria poder fazer alguma coisa… Pelo menos se eu pudesse dormir contigo pra ver se acalma você, sei lá.”

— Eu adoraria, seu abraço é muito quentinho. — sorriu sem perceber ao pensar no namorado lhe abraçando naquele momento. O dia estava tão frio, cairia muito bem… — Mas eu fico feliz só de saber que você se preocupa, Nando. Tá tudo bem. Eu vou ficar bem.

“Eu tô sempre aqui se você precisar, Luca.”

— Eu sei. — suspirou, com dezenas de considerações vagando por sua cabeça. — É melhor eu desligar. O ônibus já vai chegar. A gente se fala depois.

“Até mais então”, falou num tom bem humorado. “Te amo, baixinho.”

— Também te amo, seu pau-de-sebo. Até mais. — respondeu, mandando um beijinho pela ligação, e finalmente desligou.

Dezenas de considerações. A ideia de Nando lhe abraçando naquela hora, e lhe fazendo companhia durante o sono, era tudo muito aconchegante. E saber que podia confiar no namorado… Pelo menos é no que queria acreditar. Seus medos ainda eram muito mais fortes, nada vinha com tanta facilidade. Fernando ainda não sabia que Luca era trans. E não sabia como contaria.

Parte de si acreditava que poderia contar sem nenhum problema. Ele tinha a cabeça muito aberta e era uma pessoa muito inteligente e atualizada. Cada conversa que tinha com ele era uma aula de geopolítica, praticamente. Mas outra parte de si acreditava que a reação dele podia ser negativa. Muito negativa.

Por mais que tentassem convencê-lo de que não tinha nada de errado com ele, Luca se olhava nu ao espelho e via uma aberração. Seu corpo meio gordinho, ainda em transição hormonal, sua aparência infantil demais, e partes femininas que o perseguiriam até conseguir dinheiro para uma cirurgia. Não conseguia gostar de si mesmo. Não era o amor de Fernando que mudaria isso. As coisas, definitivamente, não vinham com tanta facilidade.

Mas pelo menos a sensação imaginária de um abraço naquele momento aqueceu seu coração por um tempinho. Por parte do trajeto de ônibus, ele seguiu com um sorrisinho bobo e sonhando acordado com as únicas coisas que ainda conseguiam lhe manter vivo por dentro: A faculdade de cinema e Fernando Gabriel Amaral.

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— E dessa forma, a fotografia em Beleza Americana leva o espectador a… — o professor explicava tranquilamente, até ser interrompido pelo sinal. — Continuamos na próxima aula. E repito: Espero sinceramente que já estejam trabalhando no TCC. Dispensados.

Luca, já sentado perto de Manoela, foi junto com ela ao encontro do resto do grupo do Trabalho de Conclusão de Curso. Para a decepção do professor, o grupo ainda estava na fase dos brainstormings para decidir a trama principal do curta-metragem que iriam apresentar. Não conseguiam entrar em um consenso, estava tudo um caos. Se um pequeno grupo de seis pessoas não conseguia passar meia hora de reunião sem arrumar problemas, eles tinham medo do que iria acontecer quando fossem trabalhar em um estúdio…

Naquela sala, o grupo não estava completo. Estava apenas Manoela, uma dos roteiristas, Matias, o cenógrafo e figurinista, Helena, uma dos editores, e Luca, que trabalharia na fotografia e na edição também. Eles, todavia, discutiam sobre assuntos do projeto mesmo sem o grupo todo reunido, sob a promessa de atualizar os outros via WhatsApp.

— Eu acho que devíamos fazer outro brainstorm hoje. Que tal na biblioteca? — Helena sugeriu, enquanto prendia os cabelos cacheados mais uma vez.

— Não. Nenhum de nós sabe discutir uma ideia sem fazer barulho, iríamos atrapalhar todo mundo. — Manoela respondeu, olhando para o colega que a acompanhou até ali, e ele concordou com a cabeça. — Que tal na cafeteria aqui da frente?

— Por que não na minha casa, que nem na última vez? — Matias arqueou as sobrancelhas ralas.

— Por que será? — Helena retrucou, e todos os outros deram a ele o mesmo olhar, lembrando-se do desastre que foi a reunião do começo da semana na casa do loiro. O homem morava num apartamento literalmente cercado de vizinhos barulhentos e problemáticos. No apartamento de cima, no de baixo, nos lados…

— De qualquer jeito, vocês podem ir sem mim, se for agora. — Luca advertiu, dando de ombros. — Vou sair com o Nando.

Viu então três cabeças se virando automaticamente para ele, com sorrisos enormes e expressões maliciosas.

— O que foi, gente? — se encolheu, acanhado por ter tanta gente olhando para ele.

— Nada. — Helena se fingiu de desentendida, seguida por Matias.

— Você sorri assim sempre que fala dele, é fofo. — Manoela comentou, apertando a bochecha vermelha e gordinha do amigo.

— Para, Manú.

— Hoje tem, Luca? — Matias provocou, rindo, e se divertiu ao ver o rosto do colega ficar ainda mais vermelho.

— Hein?! Eu… Uh, que isso, Matias?! — empurrou a mão de Manoela para o lado, agora irritado de verdade. Mas sua irritação era adorável naquele rostinho infantil… — Vocês são insuportáveis, eu vou embora.

E foi mesmo. Se virou, sendo seguido por um coro de pessoas desejando felicidades aos pombinhos (e Matias dizendo para usarem camisinha).

É, eles eram insuportáveis. Mas, no fim do dia, ele continuaria amando aquele bando de loucos. Eles eram os únicos que compreendiam suas ideias estranhas e mirabolantes sobre fotografia e roteiro, e que o incentivavam a fazer mais estranheza. Eles faziam parte daquele fragmento de sua vida que ainda o permitia se sentir vivo por dentro. Por mais que o irritassem, ele os adorava.

Era o fim do dia, não teria mais aulas durante a noite. Luca continuou no campus por um tempo até dar o horário de encontrar seu namorado na frente do prédio. Sentado na escadaria da fachada, com seu caderninho de ideias no colo.

Estava matando tempo relendo sua extensa lista de filmes que queria assistir antes de morrer. Vários deles já estavam com um check, e vários ainda não foram vistos. Alguns dos filmes na lista vira ainda criança, e olhava seus nomes com pura nostalgia no coração. Muito provavelmente ele nunca conseguiria ver tudo aquilo antes de seu leito de morte. E às vezes pensa que ele não está lá muito distante.

Era sua paixão. Cinema era a maior paixão da sua vida. Filmes eram seus melhores amigos para todos os momentos. O melhor consolo para si em um momento ruim era se acalmar, deitar-se na cama com o laptop no colo e assistir um bom drama. E quando estava feliz ou sereno, sem nada para fazer, nada como um clássico dos anos 80 para lhe fazer companhia. E se precisava de inspiração, se deliciava assistindo e reassistindo vencedores do Prêmio da Academia.

Mesmo que perdesse tudo, se ainda pudesse assistir filmes, conseguiria sobreviver por um tempinho.

Era praticando sua paixão que deixava toda sua angústia sair. Criando sua arte. Tinha tantas ideias afloradas de frustrações dentro de si que mal conseguia escolher uma apenas para representar em seu TCC, compondo mais ainda a bola de neve que era a discussão pelo tema do curta-metragem.

Sentia que todo aquele universo representava a única coisa na qual era bom de verdade.

Mal viu o tempo passar, enquanto divagava, e podia ouvir uma buzina alta e característica vinda do portão da faculdade. Escandaloso, Fernando adora chamar atenção e fazer graça. Não sabia se devia se esconder ou se orgulhar de ter um namorado tão sui generis.

— Se você não parar, pode esquecer tudo. Vou embora andando. — ameaçou, brincando, enquanto se aproximava do carro preto.

— Aí eu vou te seguindo buzinando até você morrer de desgosto. — Nando, retrucou a brincadeira. Finalmente saiu do carro, de braços cruzados, olhando para o namorado com um sorriso gigantesco.

— Esse momento está próximo, só pra sua informação. — levantou as sobrancelhas, cruzando os braços de volta.

— Oi, amor. — enfim, o abraçou para cumprimentá-lo. Aquele toque pelo qual esperou o dia inteiro. Naquele abraço, com um riso brincalhão, Fernando o prensou contra a porta do carro e se aproximou suavemente para lhe dar um beijo. E Luca o recebeu sem hesitar.

Aquele toque suave em sua boca, aquele corpo quente bem pertinho de si, as mãos firmes e grandes dele em sua cintura, o cabelo macio dele debaixo de seus dedos, era tudo que ansiava há dias. Não se viam há duas semanas, e isso era demais. Aquela sensação de calor no peito e frio na barriga, do corpo febril e da cabeça nas nuvens. Parece que o tempo para sempre que sente isso. Como sentia falta daquilo!

— Que saudade que eu tive de sentir o seu gostinho. — sorriu entre os beijos carinhosos, já viajando pela boca já bem conhecida com a língua, brincando com os piercings do namorado.

— Que saudade que eu tive de você todinho. — retrucou, rindo, brincando com as mechas dos cabelos escuros do namorado. E mesmo entre os beijos, os dois riam. No meio de tanta paixão e carinho, era como se todo o ambiente ao redor estivesse vazio. Sem mais pessoas, carros, ou mesmo prédios. Só os dois apoiados no carro preto entre beijos e risos. O resto era névoa, era frio, aquecido pelo calor do corpo um do outro.

— Precisamos ir. — Nando advertiu entre os beijinhos e risadinhas.

— É. — Luca concordou, e viu o namorado se distanciar um pouquinho para pegar as chaves.

E enquanto ele o fazia, percebeu que todos em volta os olhavam com desconforto e desaprovação. Pessoas de diferentes idades, provavelmente num misto entre intolerância com um casal homossexual e o estranhamento por Luca parecer um adolescente aos beijos com um homem adulto. Pensando no que eles pensavam, todos aqueles olhos virados para si, e viu até uma mãe tampar os olhos da filha e sair andando rápido, aquilo era estressante, era desconcertante, sentia como se estivesse nu no meio da rua.

— Luca?

E caiu de seus devaneios com um baque seco.

— Não liga pra eles, amor. — ele o consolou, gentilmente lhe tocando no queixo, ao perceber o que prendia atenção de Luca. — Essa noite é para nós. Pense só na gente, okay? — sorriu, confiante.

Ainda se sentia alvejado. As palavras dóceis do namorado pouco faziam para aquela sensação sumir. “Meu Deus”, ele pensava, “por que existem tantos olhos no mundo?”. Mas deu um suspiro, abriu um sorriso amarelo e murmurou quase sem mover os lábios:

— Eu vou tentar.

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Aquele restaurante. O restaurante favorito deles. Parecia uma lanchonete típica de filme americano, com um clima anos 50-60. O piso xadrez, a decoração em tons pastéis e até uma jukebox tocando Chuck Berry. Se sentiam no meio de uma cena de Pulp Fiction.

— Quando foi a última vez que viemos pra cá? — Luca perguntou com um sorriso.

— Seis meses. — ele respondeu de sobrancelhas erguidas, olhando com uma espécie de nostalgia para a decoração excêntrica. E ao olhar em volta, viu uma garçonete se aproximando. Elas ainda usavam aquele mesmo uniforme vintage cor-de-rosa.

— Boa noite. Posso oferecer alguma coisa para beberem? — a garçonete se prontificou com um enorme sorriso no rosto.

— O de sempre? — Fernando perguntou com um olhar cúmplice.

— O de sempre. — Luca respondeu com o mesmo sorriso.

— Um copo da cerveja artesanal da casa e um Martini Azul, por favor. — Fernando pediu. A garçonete estava para levar a caneta até o bloco, até que rapidamente virou a cabeça para Luca.

“Já sei o que ela vai me perguntar…”

— Preciso da sua identidade.

“Eu sabia”, revirou os olhos, já remexendo a mochila para pegar o RG. A garçonete, sem fazer mais perguntas, apenas conferiu a idade, devolveu o documento com um olhar meio desconfiado, mas ainda assim anotou o pedido e foi embora.

— Já estou acostumado. — Luca apoiou os cotovelos sobre a mesa. — Como foi seu dia?

— Foi tranquilo. A loja está recebendo vários pedidos, ajudei a montar e a testar vários computadores hoje. Foi bastante produtivo. — ele levantou as sobrancelhas. — E você? Como vai o TCC?

— Um desastre. Ainda não chegamos a um consenso. E a cada dia que passa, cada pessoa do grupo tem mais e mais ideias. Nunca vamos conseguir decidir só uma pra fazer o filme.

— Vocês não podem juntar várias ideias?

— Já tentamos, mas todos conseguiram a proeza de ter ideias completamente diferentes. Nem sei como chegamos a esse ponto. — massageava as têmporas. Quanto estresse, quanto estresse… — E amanhã o dia vai ser ainda mais cheio. Eles vão se reunir agora.

— Ô, Luca… Você faltou à reunião pra vir jantar comigo? — arqueou as sobrancelhas grossas e escuras. — Vamos só beber aquilo e eu te levo pra sua reunião, amor.

— Nem pensar. Eu não te vejo faz tempo, e sei lá quando vou te ver outra vez. Eu me viro depois. — tirou as mãos das têmporas para colocá-las sobre as de Fernando. — Você mesmo disse. Esse dia é para nós. Quero tentar pensar só na gente. Eu preciso de um descanso.

— Você que sabe. Faça o que for melhor pra você, eu vou te apoiar. — entregou, entrelaçando seus dedos com os pequenos e magros do namorado.

A conversa seguiu. Luca se lembrou de um filme de sua lista que ainda não tinha assistido, e decidiram que, se tivessem tempo, eles poderiam assistir juntos ainda naquela noite. Fernando também era um cinéfilo incorrigível, os dois se completavam perfeitamente nesse quesito. Era muito comum eles apresentarem filmes um para o outro, e compuseram sua bagagem tão diversificada de cinema desse jeito.

Em poucos minutos, a mesma garçonete loira voltou com as bebidas.

— Nossa cerveja artesanal especial para o senhor… — entregou o copo para Fernando —… E um Martini Azul para a moça.

Não fossem os dois erros…

Luca, na frente da garçonete mesmo, trocou o Martini e a cerveja de lugar, com um sorrisinho amarelo mínimo para a mulher.

— E eu sou um cara. — disse, um tanto constrangido. A mulher nem sequer se deu ao trabalho de olhar o nome no documento, que fora renovado recentemente para seu nome social.

Olhava para a garçonete, esperando um pedido de desculpas, ou pelo menos uma expressão de “fiz merda”, mas ela apenas franziu o cenho e, aparentemente, ignorou a adição feita.

— Bem, já vão fazer os pedidos? — ela perguntou diretamente para Fernando.

Luca ficou travado, inutilmente esperando algum tipo de resposta da garçonete. A cada segundo que passava, sua expressão de descrença crescia. Mesmo quando a garçonete lhe perguntou o que pediria, ainda se referindo a ele como “senhora”, foi como se ele não tivesse ouvido uma palavra. Ficou preso no franzir de cenho que recebeu como sua única resposta.

Precisou que Fernando o acordasse daquele transe de indignação para que voltasse a si. E depois de feitos os pedidos, a garçonete mal educada finalmente partiu.

— Dá pra acreditar? — Nando se inclinou sobre a mesa com as sobrancelhas arqueadas.

— Não. — “Na verdade estou acostumado…”

— Já vi acharem que você é criança, mas uma garota… Isso eu nunca vi. — riu, pegando a taça de Martini e dando um gole. — Vai mesmo beber essa cerveja toda?

— Vou, e se você reclamar eu peço mais um desses. — levantou o pesado caneco de vidro para tomar um belo gole da cerveja gelada. Era daquilo que precisava depois de um dia cheio de tempestades internas. — E você vai beber só isso? — retrucou, olhando quase com desprezo com o raso copo de Martini do namorado.

— Eu sou fresco. O que posso fazer? — deu de ombros, inaugurando uma boa sessão de risadas perfeitas, dignas de claque de sitcom.

Aquela risada gostosa, aquele sorriso lindo, era tudo que Fernando precisava naquela hora. Aquela sensação deliciosa de provocar riso e felicidade naquela pessoinha tão cinzenta. Ele sabia muito bem da depressão e da ansiedade do namorado, é claro. E também não era ingênuo o suficiente para achar que conseguiria resolver esses problemas. Mas ele era o apoio do qual Luca precisava. O riso, para situações menos drásticas, é o melhor remédio.

A noite passava, e a garçonete não cooperava. Ela fingia que não ouvia as correções que vinham de ambos. A mesma desgraçadinha os atendeu durante a noite toda. Ela tinha um olhar petulante e parecia estar muito satisfeita ao se fazer de sonsa. Mas Fernando, de alguma forma, até conseguiu amenizar a irritação do namorado. Puxava assuntos descontraídos, e até que dava certo.

Aquela faísca de raiva e mágoa não se apagaria com facilidade, mas contê-la de causar uma explosão era o que Fernando melhor fazia naquele momento.

Quase ao fim da noite, tarde, eles agora falavam animadamente sobre uma nova série que Luca começou a assistir. Por alguns segundos, foi como se a garçonete desgraçadinha nunca tivesse nem existido.

— E a série é cheia de referências aos anos 80 e 90. Não fosse pelo roteiro atual e a fotografia moderna, eu acharia que estava assistindo algum filme da sessão da tarde.

— É tipo Stranger Things?

— Quase… Mas tem uma pegada menos sobrenatural, é bem mais pé no chão. Mas não sei se você vai gostar, é meio infantil. Eu me senti meio crianção por ter gostado tanto. — revirou os olhos, dando um último gole no cafezinho.

— Não duvide de mim, ultimamente eu tenho gostado de cada coisa… Eu até me assustei. — respondeu num tom cômico, também ao terminar seu expresso.

— Então podemos ver juntos, algum dia. — apoiou o rosto preguiçosamente sobre o punho, o cotovelo deitado na mesa e a vontade de ir logo para casa tomando conta de si. — Bem, vamos pedir a conta?

— Sim. Moça! — chamou educadamente a garçonete que fora tão grossa com eles durante a noite inteira. Às vezes Fernando parecia um santo, Luca ficava até desconfiado.

Enquanto Fernando assinava a conta, a garçonete tirava os pratos da sobremesa e limpava a mesa. Apesar de quase inaudível, Nando pôde ouvir do outro lado da mesa ela, mais uma vez, chamando Luca, dizendo algo como “licencinha, moça”.

— Okay, isso é estúpido. Qual é a sua? — interrompeu bruscamente a limpeza.

— Tá falando do quê?

— Vai mesmo se fazer de sonsa? — não esperava ter que fazer isso no dia em que encontraria seu baixinho. — Já corrigimos você um monte de vezes e você continua fingindo que não escutou. Ele. É. Um. Cara. Cacete. Qual é o seu problema?

— Senhor, por favor, não se exalte. As pessoas estão olhando.

— Não apela pra essa agora, filha. Eu quero falar com o gerente. — começou a se levantar da cadeira, quando sentiu uma mãozinha magra lhe puxando de volta para o assento.

— Nando, para. Não precisa disso. — Luca tentou parar a discussão, puxando gentilmente seu pulso. Tinha a doce e ingênua ilusão de que aquele dia seria perfeito, mas aquela dor de cabeça e frustração acumuladas eram um terremoto espiritual. Só queria ir para casa e assistir um bom clássico com seu namorado. Saber que aquele escarcéu era para defendê-lo não ajudava a amenizar a sensação de turbulência interna que tinha.

Fernando não desistiu. Continuou defendendo seu namorado e confrontando a garçonete, que se fazia de desentendida e continuava tentando fazê-lo parecer o maluco escandaloso daquela situação. Mas água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Em algum momento, Luca já nem tentava mais impedir a desgraça de acontecer e só observava, quando a garçonete saiu para chamar o gerente.

— Finalmente uma autoridade aqui. — Fernando bufou, impaciente, enquanto procurava o crachá do gerente. — Senhor… Lacerda. Sr. Lacerda, a sua funcionária está desrespeitando o meu namorado. — ele gesticulou para o pequeno do outro lado da mesa. E para a sua decepção, o gerente teve basicamente a mesma reação da garçonete. Olhou para os dois com uma expressão quase de nojo.

— Quantos anos essa menina tem?! — ele perguntou descaradamente.

— Eu tenho vinte, e eu sou homem! Céus, Nando. Vamos embora.

— Vinte? Vinte?! Não, você não tem vinte.

— Ela tem mesmo vinte, chefe. Eu vi a identidade dela.

Ele. — Fernando estava desacreditado com toda aquela situação. A garçonete cochichava alguma coisa no ouvido do gerente. Pareciam duas patricinhas no colegial. Aquilo era um completo absurdo, e fazia menos sentido ainda na cabeça dele! Na de Luca, bem… Era puro costume e melancolia.

O gerente apertou as têmporas, bufando com impaciência. Era como se já estivesse preso na situação há horas.

— Olha, minha senhora: Não interessa se você acha que é homem ou não, o seu documento…

Luca não disse nada para interrompê-lo. Tudo que o interrompeu foi o levantar brusco da cadeira, e o choro que se rompeu no rosto infantil. Luca saiu andando sem dizer nada. Tudo que saía de si era o ruído dos soluços, até sair daquela droga daquele lugar.

E depois daquilo, o que não interessava mesmo era a discussão com aqueles dois boçais. Nando o seguiu, se demorando um pouco apenas para pegar suas coisas e as que Luca deixou para trás no meio da agonia e aflição de continuar cercado por aquelas vozes que o acusavam de existir. Foi o procurar do lado de fora, e o encontrou no estacionamento.

Tremia. Parecia um terremoto dentro de seu peito, de seu estômago, de seu cérebro, de sua alma. Era quase impossível conter os espasmos. Suas mãos vibravam sozinhas e seus pés não queriam parar quietos. A sensação mais desesperadora que já tivera. Era demais para aquele corpo. Foi como se estivesse enjaulado na própria existência, como se estivesse preso dentro da própria pele. Ele queria fugir de si próprio, como um animal selvagem. Queria sair gritando pela rua até ficar rouco. Gritar até ficar louco.

— Luca! Luca! — chegou correndo ao encontro do namorado, e sentiu que se tentasse tocar seu corpo tão trêmulo, poderia se machucar. Como se tocasse numa hélice em alta velocidade. — Luca, calma. Olha pra mim.

— Sai, Nando. Sai. Eu vou pra casa.

— Eu te levo. Eu te levo, Luca. Não precisa ficar… Respira, tá? Respira. — tentava se aproximar dele com cuidado, mas ele recuava bruscamente e quase caía. Tropeçava no próprio desespero. Não queria ficar parado de jeito nenhum.

— Eu quero ficar sozinho. Eu preciso ficar sozinho. Eu vou chamar um Uber.

— Você não vai ficar sozinho no Uber, Luca. — ele tomava o cuidado que cuidaria com um cachorro bravo. Um cachorro de rua ferido que tinha acabado de levar vários chutes, contaminado com raiva. — Luca, você me conhece. Eu não vou te incomodar. Só vou te deixar em casa e vou embora. Tá tudo bem, okay?

Ele sentia que a qualquer hora ficaria seco de tanto chorar. Seu rosto inchado, seu corpo trêmulo, não aguentava mais. Seus joelhos se enfraqueceram, e quase caiu de bunda no asfalto do estacionamento, mas Fernando o segurou firmemente por debaixo das axilas, e o ajeitou em seus braços.

— Respira. Respira, meu amor…

— Me solta. Me solta. Só me solta e me leva pra casa. — falava rápido, embolado, desesperado, desnorteado.

Cuidadosamente, o ajudou a se levantar outra vez e o soltou aos poucos, e começou a buscar pela chave no bolso. Arriscou secar algumas das lágrimas que corriam ansiosas por seu rosto, mas recuou. Todo aquele nervosismo e angústia aparentes, ele parecia uma bomba relógio. Então, apenas respondeu com um olhar firme:

— Vou te levar.

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Não o olhou, não se despediu, na verdade mal se mexia além dos movimentos necessários para se levantar e abrir ou fechar portas. Seu corpo estava alheio a si. Ele não sabia mais o que estava acontecendo. Só se sentia caindo num abismo por dentro, enquanto uma parte de si continuava lá em cima, semiviva.

Luca entrou pela portaria, subiu até seu apartamento, e nada disso percebeu. Só se deu conta de si quando estava debaixo do chuveiro, sentindo a água escorrendo sobre sua pele nua, e se grudando ao tecido duro e desconfortável do binder. Tudo que sobrou das roupas que arrancou antes de entrar no banheiro.

No seu dia-a-dia, ele não tinha uma relação de amor-e-ódio tão intensa com seu binder quanto tinha agora, naquele momento. Aquela merda era tão desconfortável que queria tirar para nunca mais colocar. Mas sabia que se tirasse, veria um par de coisas que também queria arrancar com as próprias mãos. Não importava o quanto doesse.

Tombou a cabeça para trás, sentindo a água caindo sobre seu rosto e quase o afogando por vários momentos. Céus, por que a existência tinha que ser tão agonizante? Que diferença faria aquela água lhe afogar se seu cérebro já se afogava num caos sem precedentes? Todos os gatilhos que podiam ser disparados já foram. Suas lágrimas imundas de aberração se perdiam no meio da água do chuveiro.

Só faltava um gatilho para disparar.

Escorregando uma vez ou duas, sem se incomodar com a dor lancinante nas partes que batiam nos cantos e quinas do banheiro, e sem ao menos desligar o chuveiro, andou até a pia. A tempestade dentro de si escurecia e trovejava cada vez mais. Não conseguia respirar. Era o binder, só podia ser. Será que tinha encolhido com a água? Não conseguia respirar. Inexpressivo, via seu rosto ao espelho ficando roxo, tudo começando a ficar embaçado. Não conseguia respirar. Mas ele se importava?

Bruscamente, com toda a força que tinha nos braços e toda a pouca vontade de viver que lhe restava, puxou o binder por baixo e os fechos que o prendiam se arrebentaram, alguns chegaram a arranhar a pele de sua costela. Seu rosto voltava ao tom normal, o binder estava atirado no chão, molhado, e a água do chuveiro se espalhava pelo banheiro. Mas ele se importava?

Lá estavam eles. Os intrusos aparecendo diante de si no espelho. A maldição que o assombrava por todos os seus momentos. O que o fazia sentir vontade de se destroçar a todo momento que se lembrava de sua existência. Por que não fazer isso agora? Morreria de hemorragia se sentasse, mas seria bom, não seria? Uma aberração a menos no mundo.

No meio de toda aquela tempestade, no meio de tantos trovões, ouviu um pequeno, baixo, quase inaudível, sonzinho abafado. Alguém chamando por seu nome. Acreditava veementemente ser uma alucinação, mas não era.

— Luca? Luca, eu te ligo sem parar já faz duas horas. Você largou a porta aberta. Cadê você? — Fernando perambulava pelo apartamento, procurando por um sinal de vida. — Você está no chuveiro, meu amor? Me responde…

Sem resposta.

— Luca.

Ainda nada.

— Luca? Luca, não faz isso comigo.

Silêncio.

— Luca… Luca, por favor… Não me… Fala comigo, meu amor, por favor…

Estilhaços. Som estridente e desesperador de algo de vidro se quebrando.

Luca!!! Luca, abre a porta, por favor!!! Me deixa entrar!!! — batia desesperado na porta. Aquela que ele se deu ao trabalho de trancar. E tantas outras. — Luca, eu vou arrombar. Abre a porta. Abre a porta, não faz isso comigo.

Um som de trinco. Esperança.

Abriu a porta com cuidado. Estava pesada, ele devia estar apoiado nela. O chão completamente molhado, a água fluindo para o resto do apartamento. O chão coberto de cacos de espelho, a pia preenchida por um secador de cabelo quebrado. E o pequeno corpo nu, molhado e encolhido no canto, abraçando as próprias pernas.

— Luca!

Se ajoelhou no chão molhado, sem se importar nem se cortaria a pele com os estilhaços. Tentava puxar seus braços e pernas para ver se estava ileso, mas ele se prendia com muita força.

— Você se machucou, meu amor?

— Não fisicamente. — a voz embargada abafada pelos braços que escondiam seu rosto.

— Luca… Luca, deixa eu ver você. Por favor.

— Não.

— Por quê? Não precisa ter vergonha, meu amor. Nem medo. Só quero ver se você está bem.

— Eu sou uma aberração.

— O quê? — arqueou as sobrancelhas.

Ele voltava a tremer, voltava a soluçar, e agora além de não saber se devia tocá-lo, Fernando estava muito confuso.

— Eu sou uma aberração. Eu não escolhi ser assim, eu não sei como explicar, eu só… Você vai me odiar. Eu estou avisando.

— Do que você tá falando?! Eu não estou entendendo nada!

Toda turbulência que houve dentro de sua cabeça, de toda angústia que sentiu dentro de seu peito por toda a sua vida, debaixo do binder que o amarrava… Debaixo da sociedade que o amarrava, por mais que ele não se desse conta e se culpasse por todo martírio. Nada disso, nada superaria o medo que sentia agora de desprender os braços e pernas.

Aqueles momentos pareceram eternos. Fernando o olhava confuso, mas paciente. Ele queria saber a fonte de todo aquele problema, afinal. E Luca tinha tanto medo de entregar…

Mas entregou. Não soube dizer quanto tempo se passou, mas o fez. Abriu as pernas e os braços, deixando exposto seu corpo nu em pelo. Seios, vulva, estrias, cicatrizes, marcas de nascença, gordura, tudo que o fazia tão inseguro.

Fernando, definitivamente, não podia dizer que não se surpreendeu. Apesar de todas as pistas que teve ao longo da noite, ele só encaixava as peças agora. E agora, tudo estava claro como o dia.

Sua expressão era indecifrável. E Luca odiava isso. Queria que ele dissesse alguma coisa. Queria saber o que ele pensava. Só a surpresa em seus olhos não ajudava.

— Você é trans. — não soube mais o que dizer além disso. Apenas soprou, soltando os músculos tensos e quase arriscando se sentar no chão, até se lembrar do piso molhado e dos cacos.

— Eu sou.

— Por que não me contou?

— Por que será? — meneou a cabeça, voltando a se cobrir, mas com menos força e prisão.

Num longo e exausto suspiro, Fernando se levantou e fechou a válvula do chuveiro, logo depois pegando uma toalha no gancho ao lado do box. Voltando a ficar à mesma altura do namorado, arriscou tocá-lo para secar seus cabelos e rosto. Gentilmente pressionava o tecido macio sobre a pele dele, ouvindo a respiração gradualmente se tranquilizando.

— Luca, olha pra mim.

Os olhos grandes, chorosos, marejados, se levantaram para Fernando. Mesmo tão tristonhos, eles ainda o encantavam. Era quase uma medusa. Poderia ficar o dia inteiro observando aquele par de olhos.

— Não é uma aberração. De jeito nenhum. — secava as lágrimas que ainda caíam e acariciava sua pele com a delicadeza que tocaria num cristal. — Eu nem imagino o sofrimento deve ser estar na sua pele, com o preconceito e a disforia… E eu nunca vou saber… Mas eu sei que você não é aberração nenhuma. Você é lindo, é inteligente, empático, criativo, culto… É isso que você é.

Não sabia o que dizer, como responder àquilo, como reagir àquele sorriso. Deixou seu corpo agir sozinho. Foi como um reflexo, praticamente pulou em seus braços e o abraçou na cintura, ouvindo seu coração batendo forte ao lado do ouvido.

Fernando se assustou, mas logo riu e o abraçou de volta, lhe acariciando os cabelos úmidos e secando suas costas com a toalha ainda em mãos. Era daquilo que Luca precisava. Logo sua respiração voltava ao normal, o choro parava aos poucos, se tranquilizava. A sensação de ser querido o consolava.

— Nando… — chamou baixinho, depois de alguns minutos de silêncio e paz. — Me ajuda a me levantar, por favor…

— Claro. Vem.

Firmemente o segurou por baixo das axilas, usando a toalha para que suas mãos não escorregassem na pele molhada, e já começou a ajudá-lo a se secar.

— Olha essa bagunça, gente… — Luca massageou as têmporas, vendo os cacos de espelho no chão completamente molhado.

— Você se preocupa com isso amanhã. — abafou o caso, se inclinando para beijá-lo na testa, antes de começar a se virar para sair do banheiro. E mais uma vez naquela noite,

Luca o segurou pelo braço e puxou de volta.

— Não vai! — suplicou, rápido e embaralhado. Limpou a garganta, e soltou seu braço suavemente, com um olhar cabisbaixo e envergonhado. — Não vai embora… Fica aqui comigo hoje, por favor…

O sorriso brando dele foi como a luz do sol.

— Eu só vou trancar a porta e apagar as luzes. — lhe lançou uma piscadela, antes de finalmente ir até a porta, partindo com a última visão de um sorrisinho mínimo do namorado.

Luca continuou a se secar, sentindo o frio da pele molhada bater com o vento vindo da janela, e foi andando com cuidado para fora do banheiro. Antes de chegar à cama, já estava seco. Acendeu a luminária de sabre de luz na cabeceira, logo antes de Fernando finalmente apagar as luzes e encontrá-lo na cama, já apenas de camiseta e cueca.

Infelizmente, seu sono não foi tranquilo. Acordara uma ou duas vezes pela madrugada. Mas Fernando ainda estava ali, o envolvendo nos braços com seu calor e carinho, e logo voltava a dormir.

Era aquela realidade que queria para si, para o resto da vida.

.

.

.

Estranhamente, uma manhã ensolarada naquela cidade onde só chovia. Os pesadelos que o incomodaram de noite não foram dor alguma perto da dor de cabeça da ressaca que o despertou.

Qualquer ser que vivesse no cotidiano daquela cidade sem ter ao menos um momento de infelicidade pela manhã, provavelmente, era criança ou insano. Bem, a criança dentro de Luca, apesar de assolada pela dor de cabeça, o fez acordar até que se sentindo bem.

Fernando não estava mais lá. Ao ir para o balcão preparar o café, viu mensagens dele em seu celular.

[Pau-de-sebo :: 5:54] Só queria dizer mais uma vez que não estou triste por ter escondido de mim.

[Pau-de-sebo :: 5:54] Segredos são importantes. Seria muito esquisito se todo mundo contasse tudo e.e

[Pau-de-sebo :: 5:55] A gente se fala mais tarde. Te amo, meu baixinho ♥

Lia e relia aquelas mensagens com um sorriso bobo no rosto. E com o celular em mãos, checou o horário e só então percebeu que acordou muito mais cedo do que o horário que costumava. Podia jurar ter ouvido a música do despertador… Bem, talvez fosse só a ressaca.

E já que estava adiantado e já desperto, resolveu pegar o laptop para checar algumas coisas. Depois de começar a passar o café, encontrou o case preto do laptop em cima da península, perto da mochila. Não se lembrava se tinha largado as coisas ali ou em cima da cama, já que só se deu conta de si quando já tinha chegado ao banheiro na noite anterior. Bem, talvez Nando tivesse as arrumado antes de sair? Quem sabe…

E ao abrir o laptop, estranhou o mesmo se destravar sozinho, sem a senha. E a falta de seu background de Pulp Fiction. Desde quando tinha aquele wallpaper de Matrix? Raciocinar com ressaca era tão difícil…

“Merda… Acho que ele trocou os computadores.”, acabou concluindo, depois de ponderar muito com a dor de cabeça tentando lhe impedir.

Definitivamente, aquele era o laptop do Nando. Os ícones tinham os programas que ele usava. Seus aparelhos eram iguais, já quase trocaram uma vez, muito tempo atrás. Sabia que era questão de tempo para acontecer de vez.

Apertando os olhos para enviar uma mensagem a ele, avisando sobre a troca, quando viu um quadradinho subindo no canto da tela. Uma notificação na área de trabalho. Por reflexo, se inclinou tentou ler, como se fosse seu laptop, e só se deu conta do que fazia depois que o estrago já estava feito.

Uma mensagem de uma menina, do Facebook.

“tbm te amo nando. xau”

“………???”

Não devia. Não devia fazer aquilo, mas fez. Clicou na notificação. E se arrependeria para sempre.

Uma extensa conversa.

Quanto mais subia as mensagens, sentia uma confusão crescendo em si que nunca havia sentido antes, que foi logo percebendo ser, na verdade, raiva. Uma raiva, uma mágoa, um sentimento de traição avassalador que o devastava a cada mensagem a mais que lia. Era invasão de privacidade? Sim. Mas já era um ponto sem retorno. Não tinha condições de pensar racionalmente naquela hora. Dividia-se entre a dor de cabeça e a dor no peito, não dava para pensar em nada além de ódio, ódio, ódio, ódio.

Ele não queria acreditar. Não queria acreditar em nada daquilo. Queria ainda estar sonhando, mas continuava subindo e tudo ficava cada vez mais real. Não era possível… Não fazia sentido… Como podia… Sua vontade era jogar aquele laptop na parede. Jogar aquele laptop nele.

O vocabulário da menina não era dos mais vastos. Teve medo de uma coisa, e clicou no perfil dela para confirmar. E seu medo era real: Era uma criança. Era mesmo uma criança. Não era como Luca, que parecia ser uma. Era mesmo uma criança. A menina tinha oito anos, estava no fundamental ainda.

Pequena, alegre em todas as fotos, era uma menina linda. Uma menininha inocente. E as mensagens eram da sujeira mais baixa que sequer pôde imaginar em toda a sua vida.

Era tudo mentira. Talvez não tudo, mas era mentira.

Aquele cara, que foi o único que o quis durante toda a sua vida, depois de ser dispensado tantas vezes por parecer uma criança… Mentira.

Aquele sentimento de traição, todo o carinho e gratidão que sentiu na noite anterior se transformou em ódio. Devia aceitar aquilo, só porque Fernando o aceitou? Não saberia dizer agora. Porque tudo no que pensava era na raiva que sentia, que se espalhava por cada fibra de seu ser e se libertava com volumosas lágrimas de ódio que umedeceram seu rosto vermelho em fúria.

O que fazer agora?

Notas finais
Obrigado pela leitura, espero que tenham gostado e espero que tenha feito juz à música designada para mim.

E por favor, se apontarem algum errinho, me avisem.

Esse fim em especial foi muito difícil de escrever, e eu pretendo reescrevê-lo, pois sei que pode ter ficado meio desconexo... Mas eu não podia simplesmente dispensá-lo. Se alguém tiver uma dica para melhorar, sem ter que tirar essa parte, eu agradeço.
Eu não estou muito bem, não estou em condições de mexer mais nessa parte no momento.

Obrigado novamente e boa sorte pra quem ainda não postou.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!