Aberrações da natureza

1 Capítulo Único: Uma rosa final floresce na véspera


A floresta se rende ao inverno, mas a vida continua e continua

E assim como cada dia se desvanece no crepúsculo

Cada o crepúsculo é seguido pelo amanhecer

E enquanto a escuridão se aproxima

Uma rosa final floresce na véspera deste inverno

Winter's Eve – Nox Arcana

— Devo dizer: eu vim do que vocês consideram um submundo. E talvez nunca exista ninguém além de Jayce ou Sky que me amem de verdade, mas apenas os dois me bastam.

Por eles que eu ainda tento algo. Por eles que eu tento lutar contra a minha doença. Por mais nada. Por mais ninguém.

Na realidade, Viktor não dizia aquilo para alguém em específico. Não precisava ser ouvido e não importava em ser ouvido, só precisava resmungar ao longe, enquanto segurava uma taça de vinho naquela fútil comemoração. Fútil, mas Jayce e Sky o convenceram de participar, desejando que o cientista se divirta um pouco, ao invés de apenas ficar enfurnado dentro do seu laboratório.

Viktor ficava tantas horas trabalhando que era comum esquecer até mesmo de se alimentar ou dormir. Ali, mesmo sendo uma comemoração fútil, ao menos ele se alimentaria minimamente. Ainda mais já estando tão fraco…

A festa era para comemorar o sucesso de seus projetos com Jayce. Ao menos, era a desculpa. Parte do Conselho adorava uma comemoração qualquer: poderia ser grandes salões com bebidas e comidas ou um magnífico teatro. Não importava.

Viktor bebeu o resto de seu vinho, deixou sua taça em um lugar qualquer e procurou por onde sentar. Já estava cansado tanto de olhar para toda aquela futilidade e ainda em pé. Sua perna doía. Sentou-se um pouco, mas logo decidiu que deveria ir embora. O que fazia ali? Uma aberração da natureza que não conversava com ninguém. O Povo do Alto não se importava com quem não era da mesma classe que eles, mesmo alguém com a genialidade de Viktor. Então, sem que Jayce ou Sky notassem, simplesmente foi embora.

Eles estavam se divertindo, enquanto dançavam ao som da música e riam.

Mas aquele era o lar deles. Não poderia culpá-los por amar o próprio lar, mas Viktor sentia como se seu laboratório fosse seu próprio universo. Quem ele realmente era estava ali.

Ele deixou ambos no salão e, mesmo sendo tarde da noite, voltou para o seu laboratório. Não achou que estivesse bêbado o suficiente para continuar sua investigação.

— É certo que vocês me levaram com vocês para eu me divertir antes de minha morte – sussurrou, apenas seu equipamento lhe ouvindo. – Ou simplesmente vocês acreditam na imbecil frase de vocês que tudo vai dar certo no final. Vocês não querem assumir que estou doente…

Mas estava bêbado.

Percebeu quando sua visão piorou de vez. Em um acesso de fúria, jogou tudo que lhe fosse possível nas paredes, não se importando de quebrar tudo – era quase prazeroso ver os objetos tão quebrados quanto seu coração.

Durante o acesso de fúria de Viktor que Jayce chegou no laboratório. O mais alto ficou em silêncio, se encostando na parede enquanto o outro terminava de descontar toda a sua raiva. E demorou para que reparasse em Jayce ali.

— Eu senti sua falta na festa, Viktor.

— Por qual milagre, Jayce? Você está sempre rodeado de pessoas que te desejam por perto.

— Eu sempre sinto a sua falta, embora nem sempre você deseje minha presença. Sabe, você está parecendo Caitlyn, ultimamente. Você e eu trabalhamos juntos, mas parece que você nunca está perto de mim… Vocês são as duas pessoas que eu mais gostaria de ter por perto, mas se isolam. O que tem de tão errado comigo que vocês abominam?

A pergunta de Jayce deixou Viktor ainda mais irritado. Um dos únicos objetos intactos no laboratório agora se quebra nas mãos do cientista.

— “O que tem de errado comigo” é o que você pergunta algumas vezes, para se fazer de vítima ou para esquecer que a aberração sou eu. Eu vim de onde vocês odeiam. Eu nasci…

— Nasceu o que? O pobrezinho aleijado, como choraminga toda vez que bebe? O pobrezinho aleijado, como se isso não tivesse sido justamente a sua motivação para estar aqui hoje. E você nunca responde a pergunta: por que você sempre se afasta de mim?

Jayce resolveu se aproximar, precisando pular todos os cacos espalhados pelo chão até chegar em Viktor, que apenas resolveu ficar quieto. Seu acesso de fúria passou, então apenas olhava o amigo, mas sem saber como proceder à aproximação. Soube muito menos reagir ao abraço do mais alto.

— Por que eu não posso simplesmente ser o melhor amigo da aberração da natureza, Viktor? Você esteve sozinho por anos e eu sei perfeitamente disso, mas já tem um tempo que você está ao meu lado. Quando já te deixei sozinho?

Viktor apenas retribuiu o abraço, sem resposta alguma. Talvez, aquela fosse a primeira vez que eles se abraçassem e Viktor apenas iria aproveitar aquele momento. Tão próximo à morte, não sabia se voltaria a abraçar alguém novamente.

Ele apenas sabia que ele não precisava se entender tão bem assim com o Povo do Alto. Ele poderia ligar apenas o seu modo narcisista: importar com os seus próprios desejos e também o seu afeto para com seu lar e para com os amigos.

Sim, ser tão narcisista quanto o Povo do Alto. É assim que eles conseguiram o que desejam juntamente à sua prosperidade.

E não, ele não desejava ser fraco novamente, ao ponto de se embriagar e fazer seu amigo ver todo o seu caos interno.

— Eu sou o puro caos, Jayce… – foi a única resposta que o cientista conseguiu dizer.

— Você é como a rosa que floresce na véspera do inverno. Talvez não faça sentido, mas flores assim são as mais fortes…

Mal sabia Viktor que Jayce não se importava. Jayce ficou alguns dias felizes que conseguiu finalmente abraçar o seu amigo e ter um mínimo de conversa com ele.

O problema foi quando descobriu que Sky morreu em meio a um experimento de Viktor. Não sabia como proceder diante daquilo.

Viktor continuará sendo a rosa que floresce na véspera do inverno?

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