Abelha Operária

1 Capítulo único


− Sabrina? Você ao menos está me escutando? Agh. Não tem problema, eu repito. Aquela garota é ridícula, completamente ridícula!

A garota mais tímida apenas concordava enquanto Chloe reclamava sobre alguém da escola, sem nem se importar muito com o assunto do monólogo da vez. Ficava apenas observando a amiga enquanto sua mente estava longe.

Desde que conseguia se lembrar, seu pai lhe dizia umas coisas com mensagens sobre um propósito na vida e outros papos motivacionais. Muitas vezes, as palavras dele ficavam se repetindo na sua cabeça, como ocorria no momento.

"Servir é muito importante. É algo que completa nossas vidas. Eu, por exemplo, sirvo à justiça. É gratificante ser um agente dessa missão, fazer parte disso. E eu espero que um dia você também tenha isso com alguma coisa, alguma ideia. A sua missão."

O problema era que, bem, Sabrina já servia a algo. Ao amor − adolescente, inexperiente e facilmente impressionável, porém, amor do mesmo jeito. A parte de servir se referia mais especificamente ao alvo desse amor. De maneira completamente platônica, é claro, apenas seguindo a abelha rainha. Sem conseguir avançar, sem conseguir esquecer. Uma escrava do amor.

Sabrina admirava Chloe desde sempre. A sua confiança, postura e perspicácia sempre impressionaram a garota mais tímida. Ela queria ser amiga dela e pensava que se se aproximasse mais de Chloe, conseguiria ser pelo menos um pouco como ela. Às vezes, no começo, o que a impedia de chegar tranquila, conversar com ela e se tornar uma amiga como uma pessoa normal, era o pensamento de que Chloe era tão perfeita, tão ideal, que nunca ia querer alguém tão básica, tão amadora como amiga. Para o seu alívio, foi acontecendo naturalmente ao longo do tempo e se tornarem mais próximas. Parecia que Chloe não se importava de ser amiga de alguém como Sabrina, no final das contas. Devia inclusive gostar, porque se não fosse o caso, já teria dado um pé na bunda dela há muito tempo − no sentido de amizade. Obviamente. Chloe nunca foi do tipo de esconder quando não gostava de algo ou alguém.

Com tudo isso, Sabrina pode conhecer a garota Bourgeois melhor. Então, mais aprofundada na matéria Chloe, pareceu que esta se mostrou ainda mais inalcançável.

Essa profunda admiração continuou, até que Sabrina começou a pensar que poderia ser algo completamente diferente. Não foi uma revelação repentina ou nenhuma grande epifania. Apenas possibilidades que vagarosamente começavam a abrir caminho em sua mente, cada vez parecendo mais prováveis e explicativas.

Nas vezes em que se fantasiavam de Ladybug e Chat Noir e fingiam salvar Paris para saciar as fantasias de Chloe, Sabrina podia perceber irônicas semelhanças que a dinâmica delas tinha com a dos super heróis. Assim como a heroína joaninha, Chloe era a liderança naquela dupla. Era quem tinha grandes ideias e atitude. E Sabrina, muito como o gato preto, acabava sendo reconhecida apenas como uma assistente ou uma ajudante. Além, claro, da queda monumental que o herói tinha pela Ladybug, que nunca retribuía seus avanços (mas pelo menos ele tentava e isso era algo que Sabrina admirava).

Sabrina fazia tudo em seu alcance para agradar Chloe, esperando conseguir atenção ou reconhecimento. Eram tentativas falhas, mas isso não a levava a desistir. E mesmo nas raras ocasiões em que Sabrina conseguia se destacar e receber algum elogio de Chloe, como era qualquer vantagem para aquela paixonite? A filha do prefeito certamente não tinha nenhuma segunda intenção quando proferia um elogio, não como Sabrina na busca por eles, sempre tentando identificar alguma mísera pista que pudesse clarificar se por um milagre, Chloe tinha alguma inclinação romântica em relação a ela. Que grande bagunça. Como é que ela ia reconhecer um fracasso quando não tinha nem um objetivo definido?

O que a impedia de tomar a atitude de tornar seus sentimentos explícitos era o fato de eles serem tão confusos e intimidantes. Como diabos explicar tudo aquilo para alguém?

"Querida Chloe,

Eu gosto muito de você. Realmente gosto. Tipo gostar gostar. Quero ficar com você.

Você me fez questionar a minha sexualidade, a propósito.

Eu não tenho a menor ideia do que você vai querer fazer com essa informação. Mas aí está, não quero mais esconder.

Se não quiser nada disso, por favor ignore tudo isso e continue sendo minha amiga, sem ficar estranha comigo. Por favor. Eu valorizo muito a nossa amizade.

Obrigada."

Que porcaria era essa? Agora Sabrina estava elaborando discursinhos para o caso de arranjar coragem e querer abrir o jogo com a Chloe?

Ela ficou repetindo as palavras vez após vez, imaginando um cenário ideal. Não poderia ser no Hotel dos Bourgeois. Teria que ser um território neutro, para qualquer uma das duas poder sair correndo em pânico se fosse necessário. Talvez um parque? Não, Chloe não ia gostar. No shopping favorito dela? Não era uma programação que Sabrina queria estragar, para o caso de ser uma rejeição particularmente constrangedora que definisse um antes e depois na amizade delas. "Hey, está vendo aquele banco do lado daquela loja? Foi ali que você se declarou para mim, lembra? Eu tive que dizer não, né. Ridículo, completamente ridículo." Não que Sabrina achasse que Chloe fosse dizer algo tão maldoso a ela, mas não tinha dúvidas de que ela pelo menos pensaria coisas como aquela.

Sabrina se recusava a escrever aquelas poucas frases da suposta declaração, mesmo que fosse para esconder o papel numa gaveta ou nunca mais abrir o dito arquivo no computador. O simples fato daquele discurso existir tornava tudo real. Suas emoções eram reais: era ou não era a coisa mais louca de todas?

Pelo mesmo motivo, ela nunca poderia contar para ninguém. Ninguém entenderia uma situação tão bagunçada quanto aquela. E Sabrina não suportaria a pressão de ter alguém que olhasse para Chloe e ela e soubesse o que passava pela sua cabeça quando se tratava da amiga.

Sabrina ficou remoendo essas mesmas ideias repetidamente, como se uma resposta fosse cair do céu. Era um grande paradoxo. Ela tinha as possibilidades à frente dela, mas nunca ia saber o que a aguardava por trás delas a não ser que efetuasse os mil planos hipotéticos formados em sua mente e descobrisse — o que ela sabia, não iria acontecer, pelo menos não tão cedo. E isso levava de volta para o ciclo vicioso e inútil que ocupava mais do seu tempo e pensamentos do que gostaria, sem nunca alcançar uma resolução.

Sabrina não tinha nem mesmo como saber se Chloe gostava de meninas, o que com certeza era um problema. E mesmo se ela gloriosamente gostasse de meninas, por que diabos gostaria dela em específico? Era apenas uma qualquer que por acaso cruzou o caminho dela. Sabrina não tinha nada a oferecer além da sua devoção. Isso provavelmente não seria o suficiente, por mais que ela se esforçasse para agradar.

Os motivos para nunca discutir sobre a questão com Chloe pareciam sobrepor qualquer coisa boa que pudesse vir daquilo (sendo sincera, Sabrina sabia que a probabilidade de dar em algo bom era como a de vencer a loteria).

a) Não queria ser rejeitada. Claro que ninguém quer isso, é um cliché, mas não deixava de ser um fator importantíssimo a ser considerado. Sabrina nunca teve uma autoestima particularmente boa e achava que um golpe desses poderia deixá-la bem mal. Nunca tinha feito nada do gênero com ninguém na vida, então era complicado. Se acontecesse uma terrível rejeição, Sabina poderia até ficar traumatizada — um trauma não é algo que ela queria levar para os próximos anos da sua vida — e complicar possíveis ocasiões em que ela tivesse que expressar seus sentimentos a alguma outra pessoa (mesmo que imaginar ter o desejo de fazer isso com qualquer outra pessoa parecesse uma imagem tão, tão distante da realidade atual).

b) Não queria deixar Chloe desconfortável.

c) Não queria estragar a amizade. Ela estava insegura a respeito de tudo aquilo. Isso porque a sua relação com Chloe era importante, mesmo se desse para desconsiderar toda e qualquer inclinação romântica. Sabrina pensava que valia mais a pena manter a amizade do que botar ela em risco. Isso mostrava o valor impossível de calcular daquela amizade. Poderia parecer patético, mas essa era a verdade: ela preferia ter apenas uma parte de Chloe do que não ter nenhuma.

"Não gosto de correr riscos.", Sabrina pensava com convicção. Uma pessoa retraída e insegura como ela saberia muito bem disso. "Eu deveria conseguir superar isso, certo? Afinal, se é amor, deve valer a pena. Mas o medo é maior. Desculpa, mundo. Eu abaixo a minha cabeça e me escolho em um canto, porque não tenho a força para enfrentar a realidade."

Ela também não era burra e tinha plena consciência de que não era exatamente saudável colocar Chloe em num pedestal o tempo todo, ainda mais se um dia fossem mesmo ter um relacionamento. "É, bem, trabalhamos com possibilidades por aqui. Tempos que pensar em todos os rumos que a encruzilhada poderia levar, pois só assim se calcula todos os riscos."

O ciclo de reflexão e apreensão a respeito de um futuro que podia ou não estar prestes a acontecer − dependendo de uma atitude − perdurou por meses. A proximidade mantinha as questões frescas em sua mente. Tudo que Chloe precisava fazer era existir ali do lado que a abelha operária dela poderia passar horas de aula com a mente zumbindo com as mesmas ladainhas. O tempo foi passando e Sabrina continuava empacada, sem avançar e sem esquecer.

A situação começou a causar raiva. Se não estudassem juntas, talvez, nada disso teria acontecido. Se não fossem amigas. Se Chloe tivesse se afastado dela antes que sentimentos pudessem florescer na pobre coitada da Sabrina. Talvez, então, nada disso teria acontecido... Era estranho pensar em algo que "acontece" quando se trata apenas dos pensamentos de dentro de uma única mente. Como definir o que é real e o que é imaginação? A maneira como as coisas "acontecem" ali é diferente, mas ainda assim, esses acontecimentos causam reações que de uma forma ou de outra, vão acabar interferindo no mundo maior.

Quando Sabrina se deu conta, a raiva que ela sentia por aqueles devaneios conflituosos acabou se direcionando a Chloe. A justificativa disso era imaginar o cenário da pior reação...

Entretanto, não era justo ressentir Chloe por algo que ela nunca fez. Nunca a rejeitou. Deus, ela nem fazia ideia do que a levaria a rejeitá-la. Porém, Sabrina precisava culpar alguém por toda aquela bagunça de sentimentos e dilemas hipotéticos. E quem melhor para isso do que a própria Chloe? Meu Deus, que coisa horrível de se fazer. Sabrina se sentia uma bosta. De certa forma, a raiva direcionada à Abelha Rainha poderia até ser um mecanismo de autodefesa. Ressentir ela para não ressentir a si mesma (tanto). Exatamente como uma daquelas pessoas amarguradas pelo amor, o que era esquisito na situação, visto que não tinha sequer acontecido alguma coisa na prática pra ser superada. Estava tudo na cabeça dela.

Tão preocupada com a possibilidade de Chloe notar alguma mudança de comportamento, ficar estranha com ela e isso levar ao desmoronamento da amizade delas, Sabrina esqueceu de considerar que talvez quem ficasse estranha fosse ela mesma. Mas era tão difícil de evitar! Talvez os sentimentos fossem desaparecer se ela evitasse a Chloe... Mas isso era uma péssima ideia, porque Chloe ainda era sua melhor amiga, independentemente das emoções confusas.

Sabrina tentou tomar jeito na vida e começou decidindo que não perderia uma amizade por qualquer besteira. Deu o seu máximo para superar as incoerências que eram a raiva e o ressentimento para manter a relação delas nos conformes. Às vezes pegava a si mesma tentando evitar Chloe, mas daí pensava melhor e continuava com a ação que faria em circunstâncias normais.

Ainda mais que se ela se afastasse subitamente de Chloe, ia levantar questionamentos demais. A turma delas era lamentavelmente fofoqueira e a maioria adorava se intrometer na vida dos outros com a desculpa de estar tentando ajudar. Sabrina teria que andar com pessoas diferentes e cultivar novas relações para ocupar o espaço vazio. Logo iam querer saber se tinha acontecido alguma coisa entre ela e Chloe... Não, não, seria pressão demais. Era melhor continuar onde estava (ou melhor, com quem estava) e lutar consigo mesma para não estragar a amizade.

Quando estava com Chloe, se questionava com frequência se a maneira como agia era diferente devido aos seus sentimentos. Se fosse isso mesmo, será que era algo perceptível e confuso para Chloe? Alguém de fora observando elas conseguiria detectar?

Às vezes Sabrina pensava que ser tão invisível era sua bênção nesse aspecto. Não era famosa ou popular, a probabilidade de ter suas ações e atitudes analisadas era muito menor. Poderia dar eventuais surtos ou deslizes sem ninguém notar.

Toda a dinâmica adolescente era muito estranha e seletiva. Os alunos da sala eram bastante sensíveis para questões emocionais em algumas situações e com certas pessoas, mas cegos a um nível absurdo em outras. Sério, tinha coisas que até uma deslocada como Sabrina conseguia notar. As mesmas pessoas que se consideram altamente observadoras e perspicazes nem enxergam quando tem alguém em crise logo à frente. Se convenções sociais adolescentes são tão elaboradas, porque alguém não fazia um guia para casos desesperados, para realmente fornecer algum apoio útil? Será que realmente tinha algo indicado, um certo ou um errado? Sabe-se lá.

Sabrina ia ficar com o que fosse mais fácil. (Será que era fácil ficar com aqueles pensamentos presos na cabeça? Talvez não, mas era mais do que as outras opções).

Ela e Chloe continuariam sendo simplesmente amigas e isso teria que ser suficiente. Sabrina estava conformada.

Notas finais
Essa história toda é meio sei lá kkk
Sem conclusão específica porque assim é a vida
Comentários?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!