Abdication

24 Capítulo 24


Notas iniciais
Desculpem a demora, xuxuzinhos (adoro chamar vocês assim hehehe). Aqui está. Sem mais delongas, boa leitura.

Melanie passeia pela ilha. Não tem mais rumo, não sabe que decisão tomar. Sentia que estava sendo egoísta, mas ninguém nunca havia sido generoso com ela também, então não sabia o que era pensar em alguém que não fosse ela mesma.

A morena para na ilha improvisada perto do lago e atravessa a ponte de madeira, indo parar na pequena terra, na areia clarinha e rala, embaixo da palmeira. Era de noite e apenas as luzes perto do refeitório estavam acesas. A depressão caiu sobre ela. A nostalgia.... sentia falta da sua infância, por mais dura que tenha sido. Ia ao colégio, estudava, de tarde dormia, brincava com os amigos, ia à fábrica de armas com sua mãe e a madrinha. Sentia falta de Derek, Valentina, de Jessica...

Derek. Seu irmão. Ela tem uma dívida com Vincent pela vida do mais novo. Iria pagá-la.

Quando se dá conta, vê alguém se aproximando. Uma sobra se arrastando pela escuridão.

A pessoa se aproxima e pela forma ela percebe que é um homem. Ele se senta ao lado dela. Melanie prefere não olhar. Talvez se ignorá-lo, ele vá embora. Eles ficam em silêncio. A curiosidade a corroendo aos poucos.

– O que você veio fazer aqui? — ela pergunta, como se já estivesse familiarizada com a pessoa, como se sequer tivesse a visto.

– Eu gosto de vir aqui de noite — ele fala e ela reconhece a voz. — Você é a intrusa aqui.

Ela ri. Claro. Benjamin Beckering.

– Bom, eu prefiro conversar com a outra gêmea.

– Não sou bom o bastante, tô ligado, mas devo servir. Ninguém é insubstituível.

Isso a faz parar para pensar em sua situação e como essa frase se aplica a sua vida.

Josh não é insubstituível, ela diz a si mesma.

– Por que você tem complexo de inferioridade?

Benjamin tira algo do seu lado.

– Eu não estou bêbado o suficiente para essa conversa.

Ele entrega a garrafa a ela depois de beber dois grandes goles. Melanie aceita.

Os dois ficam em silêncio, compartilhando o álcool. Melanie nunca pensou que beberia com Benjamin, um dos garotos mais antipáticos do PMI.

Quando sente a vodka subir a sua cabeça, Melanie volta ao assunto.

– Os gêmeos — Benjamin começa. — O garoto e a garota. Sonho de qualquer pai: um casal de gêmeos. Acontece que a menina é mais ligada ao pai e o menino a mãe. Bom, quando a mãe não é o melhor exemplo materno que se pode ter, se você for o menino, você se torna exatamente como eu.

Melanie vira a garrafa novamente.

– Pelo menos você tem um pai. O meu morreu e o meu padrasto me agredia.

– É como se não tivesse. Tudo o que ele vê é a gêmea caçula e Paige, a mais velha, o orgulho da família, a soldado do Primeiro Exército... ele nunca viu futuro em mim. Sempre me achou um fracassado.

– Mas você é o único filho homem dele. Ele deveria te apoiar, ser seu melhor amigo...

– Mas não é. Não culpo minha irmã, sabe. Nenhuma delas. Sou ligado demais a Beatrice e sei que ela não pediu para isso.

– Sinto muito.

Benjamin vira o último gole da vodka.

– Os caras são legais, sabe. Andrew é gente boa com todo mundo, é natural, mas Tyler é totalmente antipático e ele fica bem diferente quando você está por perto.

– Diferente? — ela questiona, curiosa. — Diferente como?

– Igual ao Destruidor.

– O que ele tem a ver com isso?

– Melanie, conseguir com que uma pessoa mude é algo raro e você conseguiu um verdadeiro milagre: você mudou duas!

– Eu não mudei ninguém — ela resmunga. — Nunca quis que ninguém mudasse.

– Tem razão — loiro se levanta. — Eles só acharam que valia a pena mostrar o lado bom de ambos para você.

Melanie fica em silêncio.

– Eu não sei por quem minha irmã torce, mas eu torço por você e eu estou falando sério que é melhor escolher antes que isso se torne mais confuso ainda. Os dois Comandantes já brigaram muito por causa de Heather, mal consigo imaginar as insanidades que ambos fariam para ficar com você.

Antes que ele possa ir embora, ela pergunta:

– Já que estamos bêbados e não vamos lembrar de nada amanhã, você pode me dizer o que eu devo fazer?

Ele se vira para ela e sorri de leve. Ele tem um sorriso tão pequeno e harmonioso. O tipo de sorriso que faz qualquer um se animar.

– Escolha a si mesma.

+++

Hoje é o dia das lutas. Vincent estava lá, de novo. Hoje é o último dia de Melanie junta de sua liberdade.

Ela podia dizer que sentia muitas coisas. Tristeza, raiva, impotência de mudar a situação, frustração, amargura, medo, receio do que Vincent fará com sua família ou até com outras pessoas queridas se ela desobedecê-lo. Ela sabe o que ele quer: o que todos os homens querem. Melanie podia dizer que sentia tudo isso naquele momento, mas seria mentira. Seu peito havia se enchido de sentimentos e emoções e ela até chorou baixinho durante uma noite, mas depois se recusou a dar importância para isso. Poderia ainda estar nas ruas, passando fome e frio. Viciada em drogas e bebidas, como ela estava antes de Andrew encontrá-la. Ela era tão grata a ele por isso e por introduzi-la nesse novo mundo e agora não pode fazer nada além de observá-lo se afastar.

Machuca tanto ver alguém querido longe de você.

+++

Ela caminha até o tatame e então olha ao seu redor. Era uma estrutura nova, um ringue grande no centro com divisões vermelhas e azuis, uma mesa prateada no canto com quatro cadeiras para os treinadores e luzes mais baixas e amareladas, dando um ar sombrio e até mais quente ao lugar. Melanie se sentia sufocada. As lâmpadas tinham um cheiro que a embrulhava o estômago. Ela nem sabia que lâmpadas tinham cheiro.

Olhou para cima. O vidro que separava ela do Diretor Frederick, dos Lordes e do Senhor de Meurer parecia diferente. Parecia mais brilhoso.

– Não é vidro dessa vez — Martin se aproxima dela sorrateiramente. Há um sorriso maníaco nos seus lábios, como se ele estivesse satisfeito consigo mesmo por saber o que outras pessoas não sabiam. Como se ele sentisse prazer em explicar coisas que ninguém entende. — Simplificando, é uma estrutura magnética protetora, por isso alguns pontos brilhosos nas extremidades. É bem resistente, sim. Ele é meio elástico, dá para perceber. Parece que alguma coisa deu errado na última vez para eles tomarem essas medidas.

Melanie engole em seco. Ela deu errado.

– Se alguém quisesse atacar alguém protegido com essa estrutura, deveria apenas atirar na extremidade brilhosa.

– Você gosta de Beatrice?

A pergunta sai rápida e sem pensar. Melanie só percebe o que disse depois que vê os olhos de Martin fixos nos seus tênis.

– Por quê?

– Porque, se sim, é bom você aproveitar que vocês podem ficar juntos. Há pessoas que se gostam que não tem a mesma sorte.

Ela sai antes que ele pudesse fazer perguntas ou antes que ela começasse a chorar na frente dele.

A morena engole o choro e segue os outros treinandos.

Hoje ela lutaria com Matthew.

+++

Quando o punho dele a atinge com um soco no estômago, Melanie cai com as mãos ao redor da cintura, gemendo de dor. Tudo embrulha dentro de si e ela cospe sangue no tatame. Não faz diferença, ele é negro.

É assim que ela se sente: como se sair machucada daquele lugar não fosse fazer diferença, porque o mundo é escuro demais para perceber sua dor.

Ela se arrasta até os pilares e se apoia em um deles, manchando as brancas estruturas de sangue.

Melanie deixa que Matthew venha até ela. Quando ele está próximo o bastante, ela percebe que deixá-lo vir primeiro foi um erro. Ele a atinge com mais um doloroso soco no estômago, mas dessa vez ela agarra seus pulsos e apoia nas suas mãos todo o seu peso, impulsionando suas pernas para cima, para o pescoço de Matthew.

Ela sente o estrondo quando suas costas se encontram com o duro tatame, mas apesar da dor latejante que começa desde a base da sua espinha e vai até os seus ombros, ela não desiste. A parte de trás do seu joelho envolve o pescoço de Matt, mantendo-o sufocado contra o chão. Ele tenta se desvincilhar, mas suas mãos estão presas no chão por Melanie. Ele bate no tatame de modo desesperado, em sinal de desistência.

Melanie o solta e fica estirada no chão, com falta de ar, mesmo que quem tinha sido quase sufocado tenha sido Matt.

Ela suspira. Havia encontrado na luta uma saída onde não havia. Encontraria também uma saída para a sua vida. Poderia apanhar do destino, mas daria uma chave de pescoço nele e um dia se livraria de Vincent.

Uma mão grande e masculina aparece no seu campo de visão. Ele veste terno, Melanie percebe, porque a manga da camisa social aparece embaixo do paletó. Quando olha mais para trás, ela o vê.

Falando no diabo, pensa.

– Precisa de ajuda?

Ela olha ao redor, mesmo sem se levantar. Todos encaram os dois, perplexos. Até Hillary, no tatame ao lado, está espantada. As lutas pararam para encará-los.

Melanie se sente embaraçada.

– Não.

Ela tenta se levantar, mas a dor nas suas costas é muita e ela não suporta, faz uma careta e cai para trás novamente.

Ao ver a mão de Vincent ali estendida, ela a aceita. Ela é grande e apesar de ter traços de masculinidade, como os dedos levemente ásperos, a palma é macia.

Melanie não consegue deixar de pensar como ele é na...

Pare!, ela se detém.

– Eu vou te levar para a enfermaria — ele diz.

– Não precisa — ela garante, se afastando. — Eu estou bem. Hoje foi a última luta, amanhã todos iremos embora...

Vincent se aproxima e, para total surpresa de Melanie, a pega no colo. Todos estão estarrecidos com a ação do temido Senhor de Meurer, mas ninguém diz nada.

Assim que sai da sala de treinamento subterrânea por um elevador recentemente instalado, Melanie tenta se desvincilhar de Vincent, mas ele a carrega mesmo até a enfermaria.

– Por que você está fazendo isso?

– De madrugada terá um circuito surpresa — ele confessa. — Quero que você se destaque e para isso seu corpo precisa estar tão perfeito quanto o seu rosto.

– Por que você quer que eu ganhe?

– Eu preciso de um motivo para tê-la no Exército, não é?

A forma como ele sussurra em seu ouvido com a voz rouca a faz se arrepiar completamente. E ele a encara com seus olhos tão escuros, dois buracos negros, como um poço que depois de toda a profundidade, há água brilhando, chamando pro ela, clamando para ser bebida...

– Eu não tenho experiência militar alguma. Eu nem sei se é isso que quero para a minha vida.

– Você vai poder decidir isso depois, sweetheart– ele murmura. — Estando comigo, você pode ser o que quiser.

Melanie percebe que Vincent sempre emana poder, não importa a situação. O seu tom de voz, mesmo estando um tanto descontraído, ainda é sério e cheio de glória, como se ele fosse o rei do mundo. É isso que ela sentia: tamanho poder que emanava por todas as extremidades do corpo. E quando estava perto dele, sentia uma adrenalina forte, como se ela pudesse ser poderosa um dia também, a forma como ele fala, ela sente como se pudesse reinar sobre o mundo.

Ela se sentia tão gloriosa perto dele. Sentia o poder a invadindo também.

Mas então lembrava a si mesma que faria o necessário para pagar a sua dívida e depois voltaria para a sua família. Eu amo Josh, ela diz a si mesma.

Amar Josh não foi difícil. Por mais que ele seja o irmão daquele que um dia foi seu namorado, é mais fácil do que sentir qualquer coisa que seja por Vincent. Ela sabia que não podia se deixar atrair, porque se ele conseguisse, não haveria volta.

Melanie sempre foi muito intensa. Quando ela sentia algo, ela realmente sentia e de uma forma tão grande que chegava a doer. E isso estava doendo: ela sabe que ama Josh, ela sente o amor dentro dela quando está com ele, mas estar perto de Vincent é uma sensação tão diferente, tão perigosa e... selvagem. Ela se sentia uma guerreira amazona. Ela nunca se sentiu assim e para ela era tão estranho, porque ela não costumava ter sentimentos por ninguém além da sua família até sentir gratidão por Andrew e amor por Josh.

Mas agora...

– Chegamos — Vincent entra na enfermaria sem bater. — Sage, tem uma garota que precisa dos seus cuidados.

A mulher de jaleco tem cabelos loiros escuros e de um liso ondulado nas pontas, pele bronzeada, sorriso grande, branco e amistoso. Ela é bem alta, quase da altura de Vincent. E, com certeza, ela se surpreendeu ao ver o Senhor de Meurer carregando uma garota até ali daquele jeito.

Bom, se se surpreendeu, não demonstrou e nada comentou.

– Por aqui — ela apontou para a sala ao lado.

Depois de fazer perguntas sobre a luta e examiná-la, a Dra. Sage Dupke disse que ela precisava descansar e deu a ela uns calmantes. Disse que ela dormiria até a hora do jantar.

Melanie sentiu a cabeça pesar até que pegou no sono, com a visão de Vincent sentado na ponta da cama a observando até os olhos dela se fecharem.

+++

Hillary caminha de um lado para o outro, chocada. Matthew tenta acalmá-la, mas é quase impossível.

– Que papelão foi aquele? — ela bufa. — Sim, Melanie estava machucada. Entendemos, mas não era necessário nada daquilo!

– Ele meio que a comprou, Hill, todos sabemos disso. Ele só quis garantir que ela fosse inteira para ele.

– HAVIA MAIS DE CEM PESSOAS NAQUELA MERDA DAQUELE LUGAR, ELE PODIA TER ORDENADO A QUALQUER UM PARA LEVÁ-LA, MAS NÃO... ELE TINHA QUE...

Ela suspira. Seu coração palpita com o ritmo mais do que acelerado. Ela está descontrolada. Completamente descontrolada.

– Hill, se acalma...

– Matt, ele não pode fazer isso, você não entende... todo mundo já está sabendo e a minha mãe, meu Deus tem a minha mãe... Matt, minha mãe, ela...

Os olhos de Hillary se enchem de lágrimas e Matt a abraça.

– Ele não pode fazer isso com a minha mãe.

– Se acalma, Hill. Respira fundo. Você pode lidar com o seu pai mais tarde, agora o que você precisa fazer é se acalmar.

Matt sabia o que acontecia quando Hillary se alterava daquele jeito e não estava animado para ver.

Porém acontece.

Ela começa a perder ar, a tentar falar e não conseguir, a chorar compulsivamente e...

Hillary está tendo um ataque cardíaco.

Matt não sabe o que fazer. Tenta balançá-la, fazer qualquer coisa. Hillary é cardíaca. Ela pode até morrer...

Não, ele diz a si mesmo. Ela não pode.

Em um ato desesperado, Matt segura o rosto dela entre suas mãos e se inclina rapidamente, a beijando.

O choro parou. Hillary não soluça mais, não está desesperada e nem nada do tipo. Pelo contrário, ela se acalmou. Ela não treme mais, o que faz Matt pensar, aliviado, que seus batimentos desaceleraram.

Hillary aprofunda o beijo e Matt não nega. Há tempos queria fazer isso, porém nunca encontrava uma maneira para beijá-la novamente depois de tanto tempo.

Atualmente ele tem vinte anos. Hillary, dezenove. Eles tiveram uma intensa e conturbada história dois anos atrás e desde então não se encontravam. Até que surgiu o PMI. Matt pensou que tinha a superado, mas a morena sempre foi seu único amor, não havia como negar.

Por falta de ar, eles se afastaram. Matt olhou para cima, só para ver Hillary o encarar.

– O que você tem na cabeça? — ela sussurra.

– Eu li uma vez que se você prender a respiração, você se acalmar e seus batimentos desaceleram.

– Você leu? Quando?

– Depois do seu primeiro ataque, aquele dia na piscina...

– Você leu sobre o meu problema?

– Eu tenho vários livros falando sobre problemas cardíacos.

– E por que isso?

– Para te ajudar — ele sussurra -, caso fosse necessário.

Hillary não consegue deixar de sorrir e então o puxa para mais um beijo.

– Eu senti sua falta.

+++

Melanie acorda e dá de cara com Vincent.

– O que você está fazendo aqui?

– Eu não sai daqui.

Ela olha para o lado, para o relógio, e vê que marca oito e meia.

– Você... — ela faz careta. — Você está aqui há quatro horas?

– Claro que não, você acha que eu sou um fanático? — ela suspira, aliviada, e ele ri da situação. Melanie nunca o viu rir daquele jeito, tão... descontraído, tão leve. — Assisti alguns outros treinos, depois fui comer alguma coisa. Vim para cá as sete.

Ela assente com a cabeça. A morena o encara, enquanto ele olha para o nada, os dois em silêncio. Depois disso, ele vira-se para ela e a flagra o olhando.

– Sabe, você deve pensar que eu sou uma pessoa má...

– Terrível — ela o corrige.

Ele dá um risinho leve fraco, de lado. Triste.

– Eu não sou essa pessoa. Bom, eu sou, mas não inteiramente.

Ele se aproxima da cama dela.

– Eu quero ser bom, pelo menos pra você.

Ela se surpreende com a leveza da sua voz. É como se quilos e quilos de armadura tivessem quebrado, o ferro que o acorrentava dentro da sua própria arrogância tivesse se partido e o cubo de gelo que ele tivesse no lugar do coração tivesse derretido. Por algum motivo, Melanie sentia que ele estava sendo sincero. Ela queria acreditar nele, mas sabia que não podia. Queria realmente acreditar, afinal passaria um bom tempo ao seu lado, mas simplesmente não lhe saia da cabeça as maldades que soube que ele fez.

– Você poderia ser bom com todo mundo.

Ele fica em silêncio. Já que começou, Melanie decide terminar:

– Não precisa manter a fama de badass para que as pessoas o escutem e o obedeçam. O povo gosta de pessoas boas, eles as respeitam.

– Eu sou assim, não há o que mudar.

– Não mudar. Realmente não há como ninguém mudar, porém há como mostrar o lado bom trancado a sete chaves dentro de você. Porque eu sei, lá no fundo, que você tem esse lado enterrado.

Vincent a encara, os olhos levemente marejados. Melanie pensa que ele irá se render, que ele confessará e se arrependerá das coisas que fez. Pensa que ele perdoará sua dívida e que a deixará livre para ir, para ficar com a pessoa que ela realmente ama, simplesmente porque gosta dela o bastante para deixá-la ir ou porque simplesmente simpatiza com ela ou porque ela disse algumas verdades... Melanie não se importava. Só queria ir.

Porém é claro que o Senhor de Meurer, o Temido, não faria nada do tipo. Ela até tentava se convencer disso, mas algo dentro dela a dizia que dessa vez era diferente.

Vincent se virou para trás quando uma dolorosa e solitária lágrima caiu. Melanie sentiu seu coração se partir em dois. Ela queria levantar e dizer que estava tudo bem, mas sabia que não havia esse tipo de sentimentalismo com Vincent. Por mais que tivesse sendo sincera com ele sobre ser bom, sabia que precisava dobrá-lo. Não havia outro jeito.

A Dra. Dupke entra no quarto sem bater e chama Vincent em um canto, entrega algo para ele e sai. Ele se aproxima da cama e Melanie vê que parece um vidro, com uma espécie de creme incolor dentro dele.

– Sage disse que passar Kalxifor nas suas costas irá curar completamente a dor.

Ela, com a ajuda de Vincent, fica deitada de barriga para baixo. É constrangedor.

Vincent abaixa o zíper da blusa dela e deixa suas costas livres. Ele tira o paletó e puxa para cima as mangas da camisa social.

Melanie sente o líquido gelado contra as suas costas e se arrepia. Ela sente Vincent sorrir atrás dela e fecha os olhos.

– A Dra. Dupke não podia fazer isso ela mesma? — ela pergunta. — Ou mandar outras pessoa fazer?

– Eu me voluntariei.

Melanie treme por dentro ao ouvir isso.

As mãos de Vincent deslizam para os seus ombros, fazendo uma espécie de massagem neles. Ela estava tão tensa e ele a desarma completamente. A morena mantém os olhos fechados, aproveitando aquele momento relaxante.

Depois suas mãos deslizam para o meio das costas dela e para a sua cintura e... ele é tão calmo, porém aplica a força cerca, fazendo uma espécie de massagem, e não simplesmente passando a pomada curativa.

Melanie fica assim por uns minutos, provavelmente dez, esperando a pomada secar. Vincent ajeita a blusa dela e ajuda a virar-se.

Ele está perto, muito perto...

No seu ouvido, ele sussurra:

– Todos amam os bons, mas exploram-nos. Todos detestam os maus, mas temem-nos e obedecem-lhes.

– Quê? — ela murmura, perturbada pela obscuridade que ele usou em seu tom de voz.

– Vittorio Buttafava.

Vincent sorri sombriamente.

– O povo não pensa que eu sou mau, Melanie. Eu os ajudo financeiramente e para eles, isso está ótimo. Um senhor que os mantém é o suficiente.

– Você não...

– Maquiavel uma vez indagou se era melhor ser temido ou ser amado. Pois bem, ser amado garante fatores positivos, mas com isso pessoas se tornam intrometidas e quando você tem que agir em nome de um bem maior, interferem e questionam suas ordens, achando que tem o direito só porquê você é bom.

Ele a encara intensamente.

– Não, eu prefiro ser temido, é mais seguro e garante mais do que respeito, garante-se ordem e obediência.

Ela entende o que ele quer dizer, mas simplesmente não consegue concordar. Não vê benefício algum para o povo naquilo e a forma como as palavras saem da sua boca, como se ele realmente acreditasse que estava fazendo um bem para alguém. Ele era como um lunático, alguém que faz merda achando que é certo.

– Deve-se saber enveredar pela trilha do mal, se isso lhe for conveniente, ainda que sem esquecer de manter as aparências.

Ela treme diante daquilo. Ele percebe, se aproxima e lhe beija a testa.

– Existem crueldades bem praticadas, Melanie. Você terá que aprender isso se viverá com o Senhor de Meurer.

Notas finais
O que acharam?