Abdication

22 Capítulo 22


Notas iniciais
Desculpem pela demora. A semana de provas finalmente acabou, mas essa época do ano tem a preparação para o vestibular, so... bom, estou aqui. Espero que gostem. Boa leitura.

Um mês atrás

Melanie pensa em quando tomará coragem para levantar da cama.

Ela olha para cima, para Josh. Ela sorri diante da sua visão. O cara mais lindo que ela já havia visto. Alguém com quem jamais poderia imaginar estar, muito melhor do que se fosse um sonho. Era real, ela sabia. Ela sentia.

Josh olha para baixo, sorrindo de volta, ao vê-la encará-lo.

– O quê?

– O que o quê?

– O que está acontecendo? — ele pergunta.

– Nada. Por quê?

– Por que você está me olhando assim?

– Assim como?

– Melanie... — ele ri de leve. Ela sabe o que ele quer saber, só não sabe se está pronta para dizer novamente.

A única vez que disse a Josh que o amava foi quando ele disse primeiro, quando eles dormiram juntos pela primeira vez. Melanie sabia que o que sentia era verdadeiro, mas as vezes, quando sentia vontade de se desiludir desse relacionamento sem futuro, ela se perguntava se não havia dito apenas no calor do momento.

Porém ela sabia a resposta. O amava desde o momento em que ele a rejeitou. Ninguém nunca havia o feito e isso... isso mexeu com ela de uma forma...

Apesar de ter virado prostituta nas ruas, os homens sempre vieram fáceis e ela até podia ser dar ao luxo de escolher os mais jovens e mais bonitos. Ela nunca havia sido olhada de outra forma por um homem que não fosse desejosa e Josh também a olhou daquele jeito desde o primeiro momento, ela sabia, porém tentou esconder em respeito ao irmão. Porque ele sabia que o irmão gostava dela.

Talvez em tempos tão obscuros, com pessoas tão más, egoístas e ridículas, o respeito de Josh por Andrew tenha feito Melanie admirá-lo.

E, consequentemente, amá-lo.

– Porque você é melhor do que eu poderia imaginar — ela sussurra, ajeitando os cabelos loiros e suados dele para trás. — Você é mais do que eu mereço e isso as vezes me assusta.

– Te assusta? — ele murmura de forma preocupada, mas Melanie vê um esboço de um sorriso em seus lábios pelas outras palavras dela.

– Sim, me assusta. Me assusta porque, se algum dia eu chegar a perdê-lo, eu acho que eu vou literalmente enlouquecer.

– Mellie...

– Por favor, guarde muito bem o que eu vou dizer. Eu provavelmente nunca vou repetir e se você me disser algo sobre, eu vou jurar pela minha vida e pela minha morte que eu disse isso no calor do momento, mas... — ela o olha nos olhos. Aquele mar misterioso azul escuro... ela se sente tão absorta, tão mergulhada, que quase se perde no que iria dizer. — Você é o meu porto-seguro e eu sei que foi tudo muito rápido, mas está sendo tão intenso que eu realmente não me importo se dure uma semana, um mês, um ano ou apenas um minuto a mais. Eu só quero que... eu quero que você saiba que eu te amo e esse tipo de paixão não morre.

Josh a puxou para um beijo, a envolvendo em um ar de amor e desejo, tudo misturado com desejo e várias outras emoções que ela não sabia descrever naquele momento. Melanie nunca imaginou que pudesse sentir algo assim, tremer a cada vez que alguém a tocasse e isso... isso era um mar de rosas do qual ela nunca mais queria sair. Uma realidade boa demais para acabar.

Mas acabou. E foi tão destrutivo. Aconteceu da pior maneira possível: com Josh fingindo que nada do que eles sentiam era real. Por mais que se negasse a acreditar, Melanie se perguntava algumas vezes se Josh realmente não havia a enganado esse tempo todo, se fingindo de irmão respeitoso e tudo o mais para fazê-la ficar interessada, para levá-la para a cama e depois jogá-la fora.

Afinal é isso que as pessoas fazem com ela: a usam por um tempo em benefício próprio e depois que cansam a afastam como se ela fosse fria, uma pedra de gelo sem amor próprio...

Acontece que desde que Josh entrou em sua vida ela sente, por mais que não demonstre sempre e sentir... sentir é o seu pior erro.

Sentir a levou, literalmente, a loucura. Sentir a destruiu completamente.

+++

Dias atuais

Melanie se joga de costas do lado esquerdo da cama, completamente suada. Ela pega o controle na cabeceira da cama e liga o ar condicionado.

– Hum, Ty? — ela sussurra, se aninhando em seu peito. — Eu estou atrasada.

– Eu realmente gostaria de saber como você se livrou da prisão perpétua depois do atentado contra a princesa herdeira.

A morena se lembra da semana passada em que conversou com Vincent no escritório de Frederick depois de tentar acertar uma faca em Amber e, na verdade, parecer que estava tentando matar a futura rainha de Frömming, sua nação.
Ele havia lhe dito que na próxima vez que ela quisesse matar Amber, não deveria ficar apenas no tentar. Melanie pensava que Vincent tivesse o mínimo de respeito ao seu aliado Frederick, pai de Amber, mas pelo jeito não. Ele era completamente sem escrúpulos.

Melanie realmente reconhecia que estava agindo impulsivamente e sem pensar direito. Matar Amber porquê ela está a fazendo ter ciúmes dela com Josh é passar dos limites. Amber merece uma surra, mas não a morte. Melanie sabia disso.

A questão é que toda vez que via Amber, ela se lembrava do sangue falso do boneco em suas mãos, dela imaginando a loira no lugar do lego e... tudo parecia tão mais dark, cheio de raiva e tão, mas tão desumano. Porém Melanie havia se acostumado. Ela até gostava da ideia de matar Amber e isso a assustava.

Tudo o que ela não queria era ficar igual a Vincent.

– O Senhor de Meurer em pessoa veio falar comigo — ela fez de tudo para deixar encoberto as intenções de Vincent com ela. Não precisava de mais um, especialmente Tyler, a dizendo que estava errada de se vender pela vida do irmão.

– Ele me disse que a própria princesa Katerina me pediu para não ser presa.

– Sim, eu estava lá. Eu ouvi quando ela disse, a questão é que... bom, você tentou matar minha irmã. Meu pai não deixaria isso assim.

– Como Frederick poderia saber que eu tentei matar Amber? — não adiantava nem negar, Tyler sabia de tudo. Que ela havia se envolvido com Josh, que ela sentia um ciúme incontrolável quando o homem que ela ama está com outra, que por acaso é irmã dele e...

– Porque ele sabe de você e Josh — ele conta. — Todos sabem.

O queixo de Melanie cai e ela sente que pode se desfazer em mil pedaços a qualquer momento porque aquilo... isso, isso não é nada do que ela planejou. Ela só queria manter tudo em segredo, mas...

– Como assim, todos sabem?

– Quero dizer, além de mim e do meu pai? Minha mãe, Amber, Savannah... os treinadores e o pessoal da Diretoria. Bom, Vincent também sabe, é claro. Ele tem câmeras por todo o canto dessa ilha.

Vincent. Claro.

– Há pessoas desconfiadas — ela conta. — Hillary me perguntou e eu... bom, eu neguei, claro. Não havia muito que eu pudesse fazer.

– Isso vai destruir a carreira dele para sempre.

Melanie o encara, tentando decifrar o que seus olhos transmitem.

– Ah, não. Eu não quero isso. Sério. Josh foi meu amigo por muito tempo. Eu quero você, não a desgraça dele ou algo do tipo.

Ela força um sorriso e o beija, logo pulando da cama e juntando as suas roupas.

– Eu espero que você seja discreto.

– Eu sempre sou, amor.

+++

Melanie entra na sala. Não há janelas e a estreita porta pela qual entrou some em meio as paredes de aço reforçado. É tudo tão igual que chegar a dar dor de cabeça.

A fumaça esbranquiçada começa a entrar pelo sistema de ventilação e ela respira fundo, a inalando.

Vai começar.

Assim que abre os olhos, Melanie se vê em casa. Derek está doente, vegetando em sua cama, enquanto Jessica limpa a testa dele com um pano úmido. Valentina dorme na sala, pronta para ficar de pé caso algo aconteça.

De repente, uma arma surge em suas mãos. Ela fica confusa, até que vê Derek de pé em sua frente, tão pálido, com tantas olheiras e com sangue escorrendo dos lábios.

– Ele está morrendo de qualquer jeito — a voz de Vincent soa em seus ouvidos, mas ao olhar para trás, não há ninguém. Jessica e sua mãe sumiram. — Não há cura, você sabe.

– Você me prometeu.

– Sim, eu prometi e cumpri com a minha promessa, mas há vidas que nem mesmo o Senhor de Meurer pode salvar.

Ela respira fundo, tenta jogar a arma para longe, mas ela está grudada em sua mão, seu dedo fixo no gatilho.

– Atire — Vincent diz. — Mate-o.

Melanie percebe que Valentina nunca o deixaria sozinho, não nessas condições. Ela o amava, não deixaria que nada acontecesse a ele.

Não é real.

Ela mira em Derek. Apesar de tudo, ele parece tão doente, tão verdadeiro que...

– Sinto muito.

Ela fecha os olhos ao ouvir o estrondo e quando abre-os novamente, está agora na sala de treinamento subterrânea vendo Josh e Amber juntos. Sim, colados. Como um só. Transando.

Ela se sente desconfortável no começo, logo depois fica arrasada e em seguida com raiva. O seu corpo é tomado pelo ódio.

Melanie anda até eles e tira Amber de cima de Josh, a arrastando pelos cabelos para longe. A loira se debate, tentando se soltar, mas a morena a joga contra a parede, fazendo um corte em seu rosto.

– Melanie, para com isso — Josh a puxa para trás, a fazendo encará-lo.

Seus olhos se enchem de lágrimas.

– Por que você faz isso? — ela pergunta. — Por que você sempre faz de tudo para me afastar?

– O mundo não gira ao seu redor, Melanie. Eu e Amber vamos nos casar. Estamos apenas treinamento para a lua de mel.

A morena sente vontade de vomitar e logo em seguida espancá-lo junto com ela.

– Josh, olha só... você não precisa fingir para mim. Eu sei que você e Andrew tem algum tipo de acordo, mas isso não importa agora.

– Melanie, acabou. Eu nunca te amei.

Aquilo é um soco no estômago para ela. Pela primeira vez nos últimos dias, Melanie tinha certeza que ele falava a verdade.

– Você...

Ela respira fundo. Amor próprio, orgulho, raiva, indiferença, mágoa... tudo passa por ela como um turbilhão. Várias emoções na superfície, prontas para transbordar a qualquer momento.

Ela escolhe.

– Eu não preciso de você.

Ela decide que mentir um pouco para machucá-lo tanto quanto ele a machucou não seria nada demais. Ele podia não ter seus sentimentos feridos como ela teve, mas o seu ego não sairia inteiro.

– Eu só te usei como eu usei tantos outros. Amor — ela ri — não é algo que eu me apegue. Sou fascinada pelo proibido. Quando eu vi que o irmão do meu namorado me rejeitou, eu não tive escolhe. Você me fascinou, sim, mas amor... isso é algo que você jura no calor do momento e esquece assim que veste as roupas novamente.

Melanie olha para Amber e faz cara de nojo.

– Vocês dois se merecem.

Ao sair da sala de treinamento, ela está novamente diante do seu padrasto Callum. No dia em que ele a bateu, a machucou, a ameaçou. A torturou...

Ela sente seu corpo estremecer quando o objeto frio toca seu braço.

– Melanie, você dirá a sua mãe para voltar para mim.

– Eu não.

– Melanie, não seja uma menina má.

Ela era tão pequena, tão jovem... não tão inocente, mas ainda assim uma criança. Ninguém merecia passar por isso.

– Você não a merece, Callum. Minha mãe é uma mulher boa e você é tão perverso que tem coragem de torturar uma criança.

– Você não é uma criança qualquer, Melanie. Ambos sabemos disso.

– Eu só quero ir para casa...

– Você vai morrer aqui.

Essa parte era diferente. Bem diferente de como ela se lembrava. Jessica deveria entrar no galpão, golpear Callum e salvá-la, mas ela não havia aparecido.

Não é real.

– Me mate então — ela fala. — Pode me matar. Eu realmente não me importo.

Então ele puxa a arma e atira em sua testa. Ela nem chega a sentir o ato, a dor, a sensação, porque está agora em um grande quarto. A cama é enorme, as luzes são amareladas, deixando o ambiente mais aconchegante, com uma decoração escassa, porém refinada. Vincent está lá.

– Onde eu estou?

– No meu quarto.

– Por que eu estou aqui?

– Você me pediu para vir, não lembra? Você que me ofereceu o acordo.

Ela respira fundo e percebe que está vendo a cena como se fosse um filme, não como se ela estivesse mesmo lá. Era estranho e isso acontecia pela primeira vez. Era como se sua alma estivesse fora do seu corpo, pairando no nada, observando tudo, solitária e pensativa.

Apesar disso, ela sentia o que a outra Melanie sentia. O toque de Vincent em seu braço, os seus sentimentos e... isso a assustava, porque a outra ela estava gostando.

Vincent a colocou na cama com cuidado e beijou suas bochechas, seu queixo, seu pescoço, sua clavícula, sua barriga...

A outra Melanie arfa e a observadora se levanta, exasperada demais para ficar parada. Ela não podia...

Vincent é uma pessoa terrível, ela diz a si mesma. Eu não, eu nunca, posso...

Ele a toca e isso a faz ter rápidos surtos, momentos enlouquecedores e duradouros. A Melanie onipresente só quer que isso acabe, mas a Melanie que está vivendo aquilo quer que o tempo congele.

Isso a faz se desesperar.

Seus medos. Tudo isso... essas coisas eram tão imprevisíveis, tão impensáveis.

As coisas não deveriam ser assim.

Agora ela está diante dos quatro. Andrew, Josh, Tyler e Vincent. Os quatro homens que estão em sua vida. Cada um com uma arma de fogo apontada para ela.

– Hum, o que estamos fazendo aqui?

– Nós estamos aqui para te matar.

Ela não sabe como reagir. Com dois ainda poderia lutar, mas quatro... era demais.

– Você me traiu com o meu irmão — Andrew começa, acertando-lhe um soco na cara.

– Você tentou matar a minha irmã — Tyler diz, a empurrando contra a parede.

– Você me destruiu completamente — Josh fala, a chutando no estômago.

– Você acabou com o meu país — Vincent puxa a arma e atira.

Uma. Duas. Três vezes.

Ela perde as contas, porque provavelmente está morta.

Quando acorda, está na sala de alucinação novamente. A fumaça branca já se dissipou e Josh está lá, em uma poltrona azulada no canto. Ele não estava lá antes.

– E então?

– Melanie, você sabe por quanto tempo você alucinou?

– Sei lá. Quinze minutos?

– Três. Cinco vezes mais rápido do que o normal.

Ela dá de ombros.

– Sorte.

– Você sabia o tempo todo que não era real e essa sua consciência a fez superar os seus medos de primeira.

Não são todos que eu pensei que não eram reais, ela quer dizer, e eu também não superei meus medos.

– Você viu tudo?

Ele concorda com a cabeça e ela sente uma queimação no rosto.

– Você tem que se preparar. Daqui vinte dias os seus medos serão apresentados na frente de todos os treinadores e do pessoal da Diretoria.

Melanie respira fundo.

– E quanto ao número de medos?

– Poucos. A maioria tem de dez a vinte, mas você... é estranho, sabe? A maioria dos seus medos são obscuros, delirantes...

– Por que delirantes?

– Porque eu sei que Andrew nunca a machucaria.

Ela engole em seco.

– E você? — ela pergunta. — Se fosse necessário, você faria?

– Melanie...

– Eu sei que você viu o meu medo em que você estava com Amber. Eu sei que você sabe que eu penso que você não me ama. Eu só não entendo porquê isso está acontecendo...

– Eu não a mereço.

– Esse é o problema, Josh. Você acha que não merece uma coisa ou uma pessoa e então a machuca para afastá-la. Você não precisa fazer isso. Você é bonito, é um cara bom e há pessoas que te amam. Você não tem que se esconder.

Ela se aproxima mais e mais.

– Por qual trauma você passou?

– O quê?

– Por que você é assim? Você se isola, você age como se não fosse bom o bastante, mas Josh... você é melhor do que pensa.

Ela percebe que os olhos dele estão distantes, mas percebe que estão brilhantes, úmidos, cheios de lágrimas... é como se ele estivesse se segurando e ali ela viu um lampejo de humanidade.

– Você pode pensar que ninguém se importa, mas saiba que eu me importo — ela sussurra, tocando o rosto gélido dele com os dedos. — Eu prometi a mim mesma milhares de vezes que não me importaria, mas eu me importo.

– Como você pode saber que isso não é mais um dos seus medos?

– Porque isso parece mais um sonho do que um delírio.

Não havia nada ali para ser temido. Ela já havia lidado com a rejeição de Josh anteriormente. Não poderia ter o mesmo medo duplicado.

– Você pode pensar que ninguém te ama, Josh, mas eu amo — Melanie toca os lábios rosados dele com os dedos finos e trêmulos enquanto crava seu olhar verde no mar azul dele. — E... eu não estaria aqui se não tivesse fortes sentimentos por você. Sabe, você não me conhecia antes e me submeter assim não era algo que eu faria, mas... eu te amo e eu odeio me sentir assim, mas não tem como negar e nem como você me afastar, porque eu vou persegui-lo igual eu fiz no começo e você cederá novamente, você sabe.

Ela vê Josh sorrir brevemente.

– Eu sei que por mais que você negue, você me ama tanto quanto eu te amo. Eu sei que foi real, eu sinto. Por favor, não jogue isso fora.

– Eu só queria te proteger — ele admite.

– Eu sei me cuidar.

Ele sorri diante daquilo. Josh sabe como Melanie é badass.

– Eu senti muito a sua falta — ele fala.

Antes que ela possa dizer qualquer coisa, ele a puxa pela cintura e depois de tantos dias de espera, finalmente a beija.

Notas finais
Uma reconciliação... o que acharam? xoxo