Abatedouro

1 Capítulo único


Notas iniciais
Boa leitura, potterheads! ♥

— Você o criou como um porco para o abate — disse Snape em um tom acusatório que só piorou ao ver que Dumbledore não fez a menor menção de tentar negar.

O professor fez menção de sair da sala do diretor, mas o mesmo logo disse:

— Espere, Severo... vamos conversar melhor — o velho senhor ergueu uma mão, em um gesto pacificador. — Há algumas coisas que precisa saber à respeito de Harry e que nem ele nem ninguém podem saber de jeito nenhum. Ao menos... por enquanto.

Snape o olhou, desconfiado, mas acabou voltando a se aproximar do outro, o esperando recomeçar a falar, sem muita paciência.

[...]

Após a conversa deveras acalorada com o diretor de Hogwarts, que ocorrera cerca de meia hora atrás, mas que ainda assim, não havia conseguido digerir, Severo Snape, pela primeira vez em muito tempo, sentia-se perdido. Nem mesmo seu trabalho como agente duplo, o havia o colocado em um dilema tão grande de como prosseguir. Dessa forma, ao invés do mestre de poções voltar ao seu dormitório, ele preferiu caminhar sem rumo pelos corredores da escola, tentando absorver as informações.

Não tão longe dali, usando a capa da invisibilidade, Harry Potter sairá do dormitório da grifinória, atravessando com pouca dificuldade o quadro da mulher gorda que por mais que estivesse, como sempre, mal-humorada, também já estava acostumada com as saídas noturnas de Harry ou do trio de ouro em geral.

Mas nesse dia em questão, o apanhador da grifinória resolvera sair sozinho.

Por mais que apreciasse a companhia de Rony e Hermione, estava afim de pensar um pouco, então caminhou sem pressa rumo a sessão reservada. Hermione havia mencionado um livro em questão de feitiços contra a insônia que eram meio que “proibidos” e ficara louco para testar.

Obviamente, não louco a ponto de contar a amiga que pretendia testá-los. Não duvidara nem por um momento que a mesma o denunciaria para Minerva para sua segurança. Por mais que soubesse que a mesma (como sempre) estava com a razão, com os pesadelos que andava tendo, junto com as várias noites sem pregar os olhos a ideia de ter que lidar com efeitos colaterais deveras perigosos, não o assustava nem um pouco, se o feitiço realmente o botasse para dormir na marra.

Decidido, o adolescente seguiu rumo a biblioteca, sem saber, que ao mesmo tempo, o mestre de poções seguia a mesma direção, enquanto se lembrava das palavras de Alvo:

— Então... — Snape deu um passo a frente, enquanto inclinava a cabeça, torcendo par ter entendido errado as palavras do velho diretor. — O garoto deve morrer...

— Sim, ele deve morrer — Dumbledore concordou com uma tranquilidade de quem comentava à respeito do clima.

Snape apertou os punhos e deu as costas para o diretor.

Snape pela primeira vez em sua vida sentiu raiva do diretor. Queria arrancar aqueles oclinhos meia-lua e sacudi-lo, enquanto o questionaria como era possível ele não demonstrar nenhuma emoção à respeito daquilo.

— Severo, você precisa entender que isso é inevitável... — tentou novamente o diretor.

— Eu não quero saber!

Snape respirou fundo, voltando a se concentrar no presente, atravessando o corredor da biblioteca, fazendo sua longa capa dançar atrás de si, ao mesmo tempo que Harry, coberto pela capa, abria a porta para sair da biblioteca, com o livro de feitiços na mão, dando de cara com aquele que mais temia ver em uma situação como aquela.

O professor de poções estancou no lugar, que tudo que pode ver foi a porta da biblioteca se abrindo magicamente, não demorou mais de dois segundo para ligar os pontos, erguendo as mãos para frente, tentando encontrar o rapaz.

— Potter! — exclamou, se exaltando. — Eu sei que é você! Apareça!

Harry deu alguns passos para trás, mas no susto, acabou esbarrando as costas na porta, denunciando sua localização para o professor, que se esgueirou como um morcego, até conseguir agarrar a sua capa, a puxando, revelando a imagem do grifinório, que bufou, irritado.

Snape analisou o rapaz por alguns momentos. “Aquelas feições tão semelhantes a seu odioso pai. Até mesmo os óculos estúpidos...”

E olheiras.

Snape reparou bem nelas. Era nítido que o adolescente não andava dormindo bem, e não era difícil imaginar o porquê. O lorde das trevas não andava dando sossego para o jovem, uma bela estratégia para atormentá-lo ao mesmo tempo que tentava conseguir obter alguma informação relevante, que o ajudasse a se livrar do menino que sobreviveu.

— Pelo isto as aulas de oclumência entraram porém ouvido e saíram de outro não, Potter? — Snape provocou, ácido sentindo um gosto amargo na boca.

Agora sabia que tais “pesadelos” com o lorde das trevas não poderia ser parados com a oclumência. Tais visões adivinham da alma do próprio lorde...

Snape sentiu a garganta secar.

— Não, senhor — Harry respondeu, seco. — Elas me foram muito úteis, e continuarão sendo.

— Eu vejo... — Snape murmurou, enquanto cruzava os braços, tentando manter a compostura fria a qual todos estavam habituados a ver em si.

Após alguns poucos segundos, que pareceram inquietantes minutos, o professor resolveu começar a falar:

— O que está fazendo fora da cama a essa hora, Sr.Potter?

Harry não respondeu a principio, fazendo o outro franzir o cenho de maneira cínica, enquanto usava as mãos para ajeitar sua longa capa.

Antigamente a feição do mais novo demonstraria estar intimidado com a sua presença imponente, mas não mais.

Ele já havia crescido...

— Eu apenas queria muito pegar um livro na biblioteca, senhor.

— Essa hora da noite? O que seria tão urgente para fazê-lo sair do dormitório dessa forma?

— Eu não estava conseguindo dormir, então queria pegar um livro para me distrair.

— E suponho que nenhum de seus colegas, grifinórios... — Snape não conseguiu conter o cinismo ao mencionar a casa rival. — ...não teriam nenhum livro que fosse de seu agrado, não?

— Na verdade não, senhor — rebateu, cínico.

Snape franziu as sobrancelhas. Quanto mais o garoto crescia mais desafiante e prepotente se tornava. Como por exemplo no evento em que teve a audácia de invadir suas memórias durante uma das sessões de oclumência.

— Isso não é uma desculpa! Menos vinte pontos para a grifinória.

Snape abriu um pequeno sorriso de conto ao ver o mais novo se irritar.

Talvez fosse mesmo um tantinho sádico, afinal.

— Vejo que não está acompanhado de seus fiéis escudeiros... — o professor inclinou a cabeça, teatralmente. — O que aconteceu com eles?

— Nada, senhor. Estavam dormindo e não quis incomodá-los.

— Que nobre de sua parte, Potter...

O garoto apenas olhou feio em sua direção, antes de desviar o olhar.

Sabia que estava provocando-o de uma forma deveras imatura para alguém de sua idade e posição, mas não conseguia evitar. A presença do adolescente a sua frente trazia a tona seu lado cínico. Sabia que era devido a semelhança física que o rapaz possuía com ele.

Harry não disse mais nada, encarando os quadros adormecidos na parede, mas Snape também não estava mais prestando atenção ao seu redor. Ainda se sentia inquieto graças a maldita conversa com o diretor. Suas próprias palavras ecoando em sua cabeça:

Então é isso? Você o criou como um porco para o abate?

Snape abriu um amargo sorriso.

De fato, Hogwarts era nada mais nada menos que um abatedouro, para aqueles jovens, tão cheio de vida e sonhos. Jovens ingênuos, aspirando pelo desejo de poder fazer magia, sem se dar conta dos perigos as quais eles eram expostos. Perigos ainda mais para aquelas que não nasceram em uma família bruxa, onde poderiam estar mais preparados para saber dos riscos que poderiam enfrentar, além de terem que lidar com outros perigos.

Aqueles que os odiaram simplesmente por sua linhagem sanguínea.

Valia mesmo a pena, ali viver?

No seu caso sim. Uma esperança de viver em um lugar longe de seu pai trouxa desprezível. Se sentia mal apenas em deixar a mãe sozinha para enfrentar os abusos do pai...

Aquele que por tanto tempo o fizera odiar os trouxas, como se todos fossem um só...

O mestre de poções respirou fundo, só então se lembrando do jovem à sua frente.

— Bom, Potter. Pode me explicar que livro é esse em sua mão?

— É um livro, senhor — respondeu o grifinório, sem conter o sarcasmo, enquanto erguia o livro levemente.

— Não me trate como um idiota, Potter. Não sou um de seus amiguinhos que o idolatram!

— Eu apenas respondi a sua pergunta, professor — respondeu Harry, em um tom falsamente inocente.

— Eu já lhe disse, e não repetirei novamente — Snape falou calmamente, em tom ameaçador. — Não há nada para você na sessão reservada, Potter. — Snape abriu um meio sorriso, provocativo. Mas é claro que o famoso Potter é bom o bastante para estar acima das regras, não? A fama é realmente algo que sobe a cabeça não?

— Na verdade não é isso. Era um assunto realmente importante.

— Compreendo. Deve ser mesmo urgente, a ponto de tira-lo da cama — debochou o professor — Eu fico com o livro, Potter.

Harry respirou fundo, visivelmente irritado, enquanto entregava o livro para o mais velho, que o pegou bruscamente.

— Que feitiço estava buscando fazer, Potter? Espero que não seja nada que ponha em risco a sua segurança ou dos demais alunos dessa escola — concluiu, ainda em tom debochado.

Harry não respondeu, olhando para os lados, parecendo pensar em uma forma de fugir daquela situação. Snape sentiu-se tentado a confiscar a capa da invisibilidade do mais jovem, mas Dumbledore lhe alertou a não fazer isso, pois era uma importante ferramenta para o mesmo e para sua segurança.

“Só se for para ele descumprir as regras da escola”, pensou, irritado, lembrando-se de tantas “pegadinhas” a qual fora exposto pelos marotos que envolveram a maldita capa.

Mas Harry não era James.

Snape sabia disso.

Sempre soube.

Harry nunca fora como o pai, por mais que as vezes ele desejasse que fosse. Tudo seria tão mais fácil se pudesse simplesmente odiá-lo como fizera com James Potter.

Mas não.

Esse “Potter” era diferente.

No começo, negou para si mesmo. Tentou se encobrir com a semelhança física que via nos dois, para não enxergar o quanto o mesmo era basicamente o oposto daquele que tanto o atormentara em sua juventude.

Todas as vezes que fora obrigado a reparar o quanto ele não tolerava injustiças contra os outros alunos. Sempre se botando à frente para defendê-los.

Se Harry estudasse com ele, teria feito algo assim por ele? Seria ele capaz de desafiar o próprio pai, se observasse uma situação que fosse contra os seus princípios de justiça?

Snape balançou a cabeça, afastando os devaneios. Não adiantava ficar pensando em possibilidades absurdas. De nada adiantaria.

Assim como de nada adiantaria ficar remoendo o passado, e menos ainda ficar revivendo-os em sua mente, quase como se pudesse enxergá-los como um telespectador, como em uma penseira.

Mas mesmo sabendo que não adiantava, não pode evitar de uma nova lembrança surgir em sua mente.

Quase não se reconhecia estando em tal estado tão emocional. Talvez a conversa com o diretor tivesse o abalado mais do que havia pensado a princípio...

Lembrou-se perfeitamente de quando o mesmo era um estudante. Em uma aula de defesa contra as artes das trevas que tivera com os alunos da grifinória. Estava próximo dos sonserinos, obviamente. Lúcio foi o primeiro da sala a conseguir executar o feitiço do patrono, logo sorrindo arrogantemente ao ver o belo cisne bater as asas por alguns momentos antes de desaparecer por completo.

— Muito bem, senhor Malfoy — elogiou o professor. — Continuem tentando, classe!

— Expecto patronum... — Snape murmurou, agitando sua magia, mas nada aconteceu, fazendo-o franzir o cenho.

— Tente lembrar de algo positivo... — Lúcio o aconselhou, enquanto guardava a varinha nas vestes.

Snape fechou os olhos, tendo se concentrar, mas nada de bom lhe veio a mente. Logo teve a sua atenção tomada por uma voz que lhe era irritantemente conhecida:

— James! Olhe! — Sirius gritou animado, enquanto um enorme cachorro sai de sua varinha.

— Mandou bem, almofadinhas! — O Potter respondeu, sorridente, antes de ajeitar os óculos.

Snape sacudiu a cabeça, fazendo os cabelos oleosos balançarem, enquanto voltou a murmurar, dessa vez em um tom irritado:

— Expecto patronum!

Mas nada além de umas pequenas fagulhas saíram de sua varinha, fazendo-o estalar a língua.

Logo, o próprio James fez seu belíssimo cervo sair saltitando pela sala, logo sendo aclamado pelo professor, o que deixou o sonserino ainda mais irritado, e consequentemente, ainda mais longe de seu patrono.

— James... — O Black cutucou o amigo, apontando para o outro lado da sala, com os olhos arregalados, onde estavam as maioria das garotas grifinórias reunidas.

Entre elas, estava Lily, que agitou a varinha, fazendo em meio as luzes que saíram de sua varinha, a imagem de uma corsa majestosa correr pela sala, logo se desmanchando próximo ao grupo dos marotos.

— Brilhante, senhorita Evans! — elogiou o professor.

— Cara, era uma corsa... — Snape ouviu Sirius dizer, visivelmente chocado. — Isso significa que...

James não respondeu, apenas olhava, boquiaberto para a garota ruiva, que também parecia surpresa com o próprio patrono.

Por um breve momento, os olhos verdes de Lily se cruzaram com os de James, antes da mesma desviar o olhar, enquanto era parabenizada pelas amigas, que estavam alheias ao que havia acabado de acontecer entre os dois.

A varinha na mão de Snape tremeu, enquanto o mesmo a apertava com tanta força, que por muito pouco não partiu-a.

— Bom... boa noite, professor — disse Harry, de repente, de forma educada apesar de haver um certo sarcasmo em suas palavras.

Só então Snape se deu conta do tempo em que ficou perdido em suas próprias lembranças e que estava parado frente a frente do adolescente, em completo silêncio. O garoto o olhava de esgueira, com seus olhos verdes penetrantes, parecendo realmente intrigado com sua atitude.

Só não estava mais intrigado que si próprio. Consigo mesmo.

— Volte de uma vez para seu dormitório, Potter — disse Snape, enquanto se virava de costas para Harry.

Estava decidido a voltar também para seu próprio quarto, já que de nada adiantaria ficar perambulando pelos corredores de Hogwarts, se lembrando de sua adolescência como estudante.

Lembrando-se de tudo que colocou a perder graças ao próprio rancor.

Por estranho que pareça, Snape se considerava ser alguém menos rancoroso agora que estava mais maduro. E não podia negar que realmente gostava de tais discussões com ele, por mais que terminassem com Harry irritado...

Snape passou uma mão pelos cabelos oleosos, recompondo a compostura, enquanto fingia dar atenção ao livro em sua mão. Viu o adolescente se afastar, carregando a capa de invisibilidade em um dos ombros, o que lhe dava a impressão de que o mesmo estava fatiado ao meio.

Sem que se desse conta, o professor abriu um singelo sorriso de canto.

“Ele é mesmo um...”, pensou o professor, logo se interrompendo, como se um balde de água fria fosse jogado em seu corpo.

Por quanto tempo ele poderia andar despreocupado por ai?

Apenas ele e o velho diretor sabiam o que destino cruel que o aguardava.

E não era justo.

Não parecia certo...

Ele era apenas um adolescente.

Ele era...

Sem mais se conter, Snape andou à passos largos na direção ao garoto, o agarrando pelo ombro e exclamou:

Potter! Espere!

Harry não escondeu a surpresa ao se virar para trás.

Professor? questionou confuso.

Severo não respondeu, apenas encarou seu próprio reflexo refletido nos olhos verdes do rapaz.

— Não é nada... — murmurou pausadamente, enquanto desviava o olhar para os próprios pés, soltando bruscamente o ombro do outro. Apenas volte logo para o salão da grifinória!

O rapaz ergueu um sobrancelha, visivelmente confuso, mas achou melhor obedecer antes que o outro resolve retirar mais pontos de sua casa.

Snape não ergueu o rosto.

Não poderia.

Não poderia deixar que ele visse aquele lado seu.

Especialmente ele, entre todas as pessoa, não poderia ver o brilho da única lágrima que apareceu nos olhos do frio professor de poções.

Se antes de conhece-lo sentia que deveria proteger Harry por ser o que havia restado de sua amada Lílian, agora não era só mais isso...

E então a lembrança da conversa com o sábio diretor voltou a sua mente:

— Oh... isso é comovente, Severo — Dumbledore parecia um pouco incrédulo. — Você acabou se afeiçoando ao menino no final das contas?

Snape não respondeu, apertando os olhos com força antes de murmurar:

Expecto Patronum...

A belíssima corsa correu pela sala do diretor, saltando entre livros e artefatos mágicos espalhados na longa mesa, próximo a fênix, até atravessar a janela, desaparecendo em seguida.

Se antes Dumbledore, parecia incrédulo, agora os olhos arregalados de uma surpresa e comoção genuína.

Lily...

Snape não disse nada, encarado o vazio, com a expressão desolada, que o diretor nunca havia visto naquele rosto, a não ser quando Lily Evans fora morta.

Dumbledore encarou o professor de poções e perguntou:

— Depois de todo esse tempo?

Com um sorriso triste, Snape sentiu uma única e solitária lágrima tentar descer pelo seu rosto, mas a segurou, então o respondeu com uma a única palavra.

Palavra essa que ficaria, para sempre, eternizada na mente do diretor:

— Sempre.

Notas finais
Espero muito que tenham gostado! A história do Snape sempre me comove bastante... Comentários me deixariam feliz ♥ até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!