Notas iniciais
abandono a.ban.do.no sm (de abandonar) 1- Ação ou efeito de abandonar. 2- Desamparo, desprezo. 3- Desistência, renúncia. A. do lar: afastamento voluntário de um dos cônjuges. Ao abandono: sem amparo, sem cuidados.

Ser abandonado era seu maior medo. Isso quando ainda nem amava ninguém. Depois que Félix descobriu o que era o amor, ser abandonado pelo grande amor da sua vida era seu maior pesadelo. Mas, como todo pesadelo, era apenas um sonho ruim.

Com o passar do tempo, esse medo foi diminuindo, esse sonho ruim foi ficando no passado. Se entregou à vida em familia, se dedicou ao homem que ama, às crianças que adotou e aos cuidados com o pai doente.

Uma de suas maiores alegrias era sentir o filho menor, com pouco mais de dois anos, lhe agarrar as pernas gritando “papi, papi” e pedindo colo. Era puro amor que recebia daquela criaturinha que enchia seu coração. Além disso, se sentia valorizado e importante por ser considerado o ser mais inteligente do planeta por seu filho do meio, a quem ajudava com todos os deveres e trabalhos da escola.

Adorava a vida em familia e, sobretudo, se considerava o homem mais feliz do mundo quando caminhava com ele, seu carneirinho, de mãos dadas pela praia. Ou quando trancava a porta do quarto e dizia, maliciosamente em seu ouvido: “enfim, sós”.

Félix finalmente deixou de ter medo e passou a ter a certeza de que aquele amor era para sempre, e aquela familia seria a sua, até o fim de seus dias.

Ele jamais poderia imaginar que o abandono viria sim, e não como um sonho mau, mas como a mais cruel das realidades.

...

– 5 semanas antes-

...

Uma das maiores redes de resorts do planeta havia chegado à Angra. Instalações de primeiro mundo abrigavam um complexo contendo diferentes prédios de apartamentos, vilas, cabanas, piscinas, quadras de esportes, bares e restaurantes se espalhando por terra e interligando duas ilhas.

Félix e Niko compareceram à festa de inauguração, que contou com a presença de autoridades e convidados que incluiam comerciantes e pessoas influentes da região.

À certa altura da festa, Niko notou o moreno alto e bem vestido que, de vez em quando, observava eles dois. Em determinado momento ele se aproximou se apresentando. Era o diretor de todo aquele resort. De perto era ainda mais bonito, charmoso e cheiroso. Cabelo impecavelmente no lugar, olhos castanhos claros, pele bronzeada de sol e um físico de dar inveja, que se notava mesmo com a roupa que vestia. E ele trajava um famoso terno de griffe, do tipo daqueles que, no passado, lotavam o closet de Félix.

– Muito prazer, você é Nicolas Corona, não? Meu nome é Ricardo Lobato. Sou o diretor de tudo isso aqui. – O homem falava sorrindo. No entanto, com uma certa arrogância.

– Prazer, mas você me conhece?

– Sou muito bem informado! – Disse seguido de uma gargalhada. – A verdade é que muita gente conhece o famoso chef do Gian, o melhor restaurante japonês de Angra. E eu já estive lá algumas vezes.

– Ah, sim, estão está explicado.

Félix estava parado ali ao lado de Niko, com cara de poucos amigos, observando atentamente a conversa que se desenvolvia entre os dois. Até que Niko os apresentou:

– Esse é Félix, Félix Khoury, meu com... – Niko foi interrompido.

– Sou o companheiro dele. Como vai? – Félix disse com uma certa insatisfação em seu rosto.

– Ah, sim? Companheiro! Pois muito que bem. – Ele estendeu a mão cumprimentando Félix, olhando bem nos olhos dele. — Fiquem à vontade. É um grande prazer, grande mesmo. Tê-los aqui é um grande prazer.

Ricardo se afastou, mas antes sorriu de uma maneira que desagradou Niko e ele não soube bem porque. Mas foi uma péssima sensação, quem sabe intuição, que aquele homem e seu jeito lhe causaram. À distância os seus olhares se cruzaram por diversas vezes pois, invariavelmente, Ricardo olhava na direção deles. Félix também, por algumas vezes, olhou disfarçadamente na direção de onde estava Ricardo. Niko percebeu mas nada disse, então decidiu fazer uma coisa que, mais tarde, se arrependeria pensando que talvez o que os olhos não veem o coração não sente mas, naquele momento, ele precisava tirar uma dúvida: para quem Ricardo está olhando? Eu espero que não seja pro Félix. – Ele se determinou a averiguar.

– Amor, eu vou ao toalete, tá?

– Eu vou com você, Carneirinho.

– Não, fica aqui. Olha lá, aqueles nossos conhecidos donos de pousada, já nos viram e vem pra cá. Fala com eles, eu já volto.

Niko saiu em direção ao banheiro, ou assim fingiu. Na verdade ele se afastou até o outro lado do salão e ficou de onde conseguia ver Félix conversando. Agora precisava achar Ricardo e não o encontrava, até que uma mão tocou em seu braço e era a dele.

– Oi Niko, está me procurando?

– Eu? Não, imagina... – Niko não sabia mesmo mentir, sua fisionomia o denunciava mas ele disfarçou o mais que pode. — Eu estou indo ao toalete.

– Se perdeu então? — Ricardo disse com um sorriso irônico. – É lá do outro lado.

– Você me chamou de Niko?

– Imagino que é assim que seus amigos te chamam, não? Posso me considerar seu amigo?

– Sim... claro. Bem, preciso ir. Dá licença.

– Vem, eu te levo. – Ricardo lhe disse segurando-o pelo braço de maneira gentil, mas com firmeza. E se aproximou de seu rosto para continuar: — É um prazer te fazer companhia.

Aquela aproximação não fez Niko sentir-se bem. Ele duvidou se aquele homem estava passando uma cantada, ou fazendo uma brincaderia de mau gosto. Fosse o que fosse, ele educadamente retirou a mão de Ricardo do seu braço e disse com gentileza:

– Não, obrigado, eu encontro sozinho.

Niko caminhou até o banheiro. Já que disse para Félix que iria até lá, achou melhor ir nem sabe porque, talvez porque não conseguisse mentir para ele. Entrou e apenas lavou as mãos, se olhou no espelho, ajeitou o cabelo com o dedos e saiu. Imaginou rapidamente que Ricardo estivesse interessado nele, por isso os observava tanto. Melhor assim.– Ele pensou.

Quando retornava até o lugar onde havia deixado seu companheiro, o avistou de longe. Félix balançava a cabeça em sinal de desaprovação olhando para alguém do outro lado, Niko seguiu na direção em que ele olhava e viu Ricardo, que sorria para Félix, que continuava balançando a cabeça e agora... sorria também. Félix sorriu de volta para o tal Ricardo. Logo em seguida olhou para o chão de cara feia, preocupada, encenando seu habitual gesto de ajeitar a sobrancelha.

Niko viu tudo isso enquanto, isntintivamente, continuava caminhando até ele, sem conseguir formular nem um pensamento lógico, nem tirar nenhuma conclusão pois aquilo o desconcertou completamente. Ele não sabia o que era, mas algo estava acontecendo entre Félix e Ricardo. Ou era sua imaginação? Afinal Ricardo havia passado uma cantada nele mesmo, ou não?

O que Niko também não sabia era que Félix viu tudo o que aconteceu antes dele chegar no banheiro. Viu que ele foi até o outro lado do salão, que Ricardo se aproximou, segurou em seu braço e lhe disse algo.

Quando os dois, finalmente, ficaram próximos, Félix segurou possessivamente a mão dele e o puxou para perto.

– Pelas contas do Rosário! Porque você demorou tanto, Niko?

– Tinha, fila. É, tinha fila no banheiro.

– Fila?

Bastava um olhar de Félix direto em seus olhos para que Niko não conseguisse mentir. E ele contou que foi até o outro lado do salão, apenas não explicou para que, antes de ir até o banheiro. Também contou que o tal Ricardo o abordou e ofereceu ajuda para encontrar o local.

– Aquele tal diretor do resort, me chamou de Niko. Achei estranho. Achei ele com muita intimidade comigo. Segurou em mim de uma maneira que, não sei. Não gostei. – Niko olhava para Félix também fixo em seus olhos. No seu olhar havia dúvida, confusão e uma certa tristeza provocada por uma angústia que, ele não sabia explicar porque, enchia seu peito.

Naqueles poucos segundos em que olhava para Félix, perguntava a si mesmo porque não tinha coragem de falar do que viu entre ele e Ricardo. Félix ouviu tudo e não disse nada, mas arregalou os olhos quando Niko contou sobre o que Ricardo fez. E segurou a sua outra mão, com força. E disse após alguns segundos de silêncio:

– Vamos embora, Carneirinho?

Niko, que não era mesmo chegado a ficar até altas horas nestes tipo de evento, concordou. Foram para casa com Niko ao volante do carro, pois era ele quem não bebia alcool quando o casal saía. Durante todo o caminho de volta, Félix segurava nele, colocava a mão em sua coxa, acariciava-lhe o rosto e apertava-lhe o braço colocando a cabeça em seu ombro. E quando o carro parava em algum sinal de trânsito, Félix o beijava no pescoço, no rosto, na boca.

– O que deu em você hoje? – Niko perguntou com um sorriso.

– O que me dá sempre: vontade de ter você.

Niko vivia sentimentos conflitantes. Ele viu o que viu e, embora não tenha entendido nada, tirava algumas conclusões. Na verdade desde aquele momento ele já havia tirado várias conclusões. Pensava em como entrar no assunto, no que falar e como falar. Mas Félix não lhe deu chance. Todas aquelas carícias no carro terminaram por fazer os dois entrarem às pressas em casa, direto para o quarto e direto para a cama.

O sexo foi apaixonado e ardente, nada diferente de como sempre foi nesses últimos dois anos e alguns meses. A paixão e o desejo deles não dava sinais de esfriar e aquela noite não foi distinta. Como todo domingo, as horas acordados se estendiam noite à dentro, já que o dia seguinte era quase sempre um dia de folga para o casal.

Aquela foi mais uma noite especial, como de hábito, mas Niko não esqueceu o acontecido. Apenas antes de pensar em qualquer coisa lógica ou racional ou pronunciar qualquer palavra que não fosse “Félix”, ele adormeceu exausto de tanto sexo.

–-- continua ----

Notas finais
Gostaram? No próximo capitulo as coisas começam a se esclarecer. Pelo menos para o leitor.