Ab Aeterno- Principium
1 As Mudanças
Notas iniciais
O sol começava a se por no horizonte, o vento batia levemente nas folhas e na grama, fazendo um delicado movimento. No lago que cercava o vilarejo pequenos peixes nadavam lentamente de um lado para o outro, tudo parecia calmo, calmo demais aos meus olhos. Faziam mais de seis horas que os grupos de caça e guardas haviam saído.
Do outro lado a garota Nina olhava para a floresta, esperando a volta de seu pai que era general dos grupos de guardas, ela passou a mão na cabeça e agachou, parecia em desespero, mas tentava esconder aquilo de todas as formas possíveis, seus olhos começaram a lacrimejar e ela limpou rapidamente, mantendo seu semblante duro e persistente. Realmente não era hora para chorar.
Todos no vilarejo estavam estressados, nos últimos dias correram noticias de que muitos vilarejos haviam sido atacados durante a noite, a população dizimada, e segundo pessoas próximas aos cidadãos, sempre, uma garota, normalmente a mais bonita do vilarejo, desaparecia. Ao informe todos do meu vilarejo ficaram loucos, aos poucos parecia que todos seriam pegos.
Sim, nosso mundo é um tanto quanto diferente, nada surpreendente para o ano de 2432. Considero nosso mundo hostil em comparação com a bela época que os mais velhos contam, uma época onde havia comida e humanos de alguma forma eram os mais fortes predadores em todos os sentidos.
Há muitos anos, quando ainda era pequena minha avó me contara como tudo ocorreu, segundo ela tudo aconteceu por volta de 420 anos atrás entre 2010 e 2060, nosso mundo era estável e por meio de um tipo de magia estranha podíamos conversar com todos sem estarmos na frente destes, minha avó costumava dizer que era magia negra o que fazia isso, todos podiam arranjar comida por preços baratos em lugares comuns, e haviam todos tipos de comidas, de muitos lugares diferentes, não existiam animais selvagens e imensos para matar a população. Disse minha avó que se gastava dinheiro em descobrir o passado, por mera curiosidade, e que eles sabiam curar todas as doenças com capsulas de pó. Eles sabiam tudo sobre todas as coisas do universo. Mas segundo minha avó em um certo momento algo aconteceu, ela não sabe se foi algo feito por eles próprios ou pela mãe natureza, só se sabe que em poucos anos eles surgiram, Arclaros, seres de mais de três metros de altura, que se alimentam de carne humana e assolam a humanidade durante as luas, eles só eram dóceis com um grupo, chamado de Signata, os Signatas eram magos poderosos que viviam em harmonia com Arclaros, eles ajudavam os Arclaros a conseguir comida e os Arclaros os ajudavam com o que pedissem, de alguma forma Signatas conseguiam se comunicar com Arclaros.
Entrei em casa, não havia nada que pudesse fazer à esta altura do campeonato, peguei a grande panela da casa e fui buscar água no poço, tomaria um banho quente para ver se conseguia ficar um pouco mais segura, afinal, nada mudaria agora. Quando estava terminando de virar o balde de madeira cheio de água na panela, Nina se aproximou.
─ Como pode Anne? Todos não voltam e você vai se dirigir ao banho? ─ falou ela com uma expressão de repulsa, seus olhos castanhos estavam cheios de lágrimas.
─ O que mais posso fazer? Chorar? Me lamentar? Estamos perdidos caso eles não voltem querida Nana, então que pelo menos no fim eu tenha aproveitado de um bom banho, se sua decisão foi ficar se lamentando, então não interfira na minha.
Me virei e segui com a grande panela e a coloquei no fogo da ferraria, joguei algumas toras de madeira e abanei o fogo, em pouco tempo ele estava alto e extremamente quente, não demoraria mais que dez minutos para que a água fervesse.
O sol já descera trazendo lamentos por todo o vilarejo, ignorei-os, mesmo deixando uma lágrima descer. Me dirigi à ferraria tirando a panela fervente do fogo e adicionando água fria, estava uma temperatura incrível quando tomei o banho.
Quando terminei a noite já caíra, sai aos prantos, era podia ser o nosso fim esta noite, sequei-me e vesti com um vestido simples longo, branco e liso, apenas com um babado nos ombros e decote redondo. Me sentei na mesa, há pouco tempo minha mãe havia sido morta, ela gostava de ir caçar ao lado de meu pai e meu irmão, em certo dia foi atacada por algo que não é de nosso conhecimento, ela simplesmente foi encontrada morta e completamente estraçalhada, foi uma das maiores tristezas de nossas vidas.
Agora talvez tudo acabasse, saí uma ultima vez e olhei para ver se eles haviam chegado, ouvi choros e pessoas se aglomeravam nas ruas.
Ouviu-se um som estranho ao longe, um ser muito pesado caminhando, um guincho invadiu nossos ouvidos. Todos correram imediatamente, eu corri até o porão, era um quarto escavado em terra, simples, fechei a porta de metal e me encolhi no canto do porão, por sorte toda a parte de cima era de metal, o que evitaria deslizamentos, me sujei de terra para me livrar do cheiro humano e continuei encolhida no frio, os guinchos ficaram mais altos e estridentes, ouvi o barulho de um desmoronamento, gritos e a grande confusão se armara, choros altos misturados com gritos e urros de monstros, uma lágrima desceu, mas me mantive em absoluto silêncio, qualquer mínimo barulho chamaria a atenção dos monstros.
Se passaram horas de gritos, e após um período de tempo tudo que ainda se ouvia era alguns choramingos, provavelmente de pessoas agonizantes, quando os sons cessaram continuei ali, parada em completo desespero, deixei o sentimento fluir, o mundo se tornara mais perigoso ainda, um turbilhão de pensamentos invadiu minha mente, após tanto tempo no mesmo lugar já não podia me imaginar em outro, talvez agora devesse ir para um vilarejo próximo, talvez reconstruir algo por aqui na cidade acabada, talvez por já terem vindo aqui eles não voltassem, mas estaria exposta à todos os outros seres da floresta sem uma força masculina para me ajudar a realizar nada. Tudo estava confuso, não havia nenhuma solução plausível em minha mente, nem amanhecera lá fora, talvez já fossem umas quatro da manhã, o tempo passara sem que eu nem percebesse, estava preocupada com o que veria ao sair.
Deitei a cabeça nos joelhos e não me contive, caí em um sono profundo e ao mesmo tempo alerta.
Um fio de luz invadiu o porão, acordei e fui até tentar sair, a chapa de metal estava tão quente que me queimei ao encostar, sentei na terra e me perguntei como sairia de lá agora,
Devia ser o sol de meio dia para estar tão quente, sujei minha mão na terra molhada e tentei abrir novamente, não demoraram dois segundos para que a chapa voltasse a me queimar, mesmo com a mão suja de terra e molhada. Me joguei novamente na terra, só conseguiria sair de lá quando o sol baixasse, mais tempo trancada naquele lugar e tinha a impressão que ia ficar louca.
Sentei-me no canto e lembrei-me da infância com meu irmão e minha mãe, agora tudo estava longe demais pra se repetir.
Ao longe ouvi sons, podiam ser pessoas de outros vilarejos, eram passos humanos, um novo fio de esperança brotou firmemente dentro de mim. Desesperadamente, sujei as mãos de terra e comecei a bater na tampa metálica, ignorando a dor que era causada por minhas inconsequentes investidas, não me importava desde que fosse salva.
Ouvi as vozes em uma língua que era desconhecida para mim, logo consegui reconhecer e me arrependi amargamente por ter feito o que fiz, a tampa se abriu, o primeiro que vi confirmou minha tese, homem alto de cabelos loiros e olhos verdes, a pele branca marcada por três queimaduras vermelhas posicionadas na vertical em cada bochecha, era o que identificava muitos da raça dele, queimaduras mostrando o nível de seus cargos, tudo marcado nos rostos e braços, era assim que se distinguia um Signata.
Ele me olhou e falou alto, estendeu a mão e eu segurei, queria sair de lá pelo menos. Quando saí a visão foi aterradora, automaticamente lágrimas desceram e sentei no chão com todos os sete homens me olhando, coloquei as mãos sobre o rosto, depois levantei os olhos e olhei eles com ódio, era tudo que tinha pelo que tinham feito.
Eles continuaram a conversar entre si, enquanto isso, continuei sentada chorando, após alguns minutos notei que havia outra garota do outro lado, Nina estava lá.
─ Nina, esta bem? ─ perguntei.
Ela se virou para mim com os olhos em fogo.
─ O que acha sua desgraçada insensível?! ─ gritou ela praticamente voando encima de mim. O homem loiro se adiantou e segurou ela quando ela começou a me atacar com suas unhas longas. ─ Você deveria ter morrido. ─ disse ela sendo segurada pelo alto.
Fechei os olhos e continuei lá, no chão, olhei ao redor, havia sangue em todos os lugares, ainda alguns pedaços de corpos jogados de um lado para o outro, apertei os olhos e pedi que tudo fosse mentira, continuou.
Os Signatas voltaram a conversar entre si, então reparei que havia um líder, um homem um pouco mais baixo que o loiro, se cabelos negros que batiam na cintura, não havia nenhuma marca nele, seus olhos eram escuros quase pretos e a pele quase transparente. Ele era um general.
Ordenou algo com palavras duras, o loiro discordou e o general repetiu com mais ênfase, então o loiro jogou Nina no chão, desembainhou a espada e com um movimento rápido decepou a cabeça dela antes que pudesse intervir.
Chorei alto e estiquei a mão para ela, sangue havia voado em mim, estava completamente suja agora.
─ Por que chora por alguém que quis seu mau? ─ perguntou o general não entendendo.
─ Cresci com ela... ─ falei chorando.
─ E ainda sim ela lhe odiava, por que chorou?
Olhei para ele com rancor.
─ Porque ela era uma companheira, uma semelhante, devo chorar por meus irmãos, mesmo que um deles me negasse, não deixava de ser um dos meus. ─ falei rancorosa.
Ele apertou os olhos.
─ Vamos Lhogran, passe um cicatrizante nas queimaduras da garota. ─ falou ele se virando.
─ Sim. ─ disse se abaixando e tirando um pote com uma massa verde, pegou minhas mãos e, delicadamente, passou o remédio. ─ Belas queimaduras, senhorita. Não vão ajudar muito caso no castelo. Qual teu nome?
Olhei pra ele com receio.
─ Annabelle.
─ Bem vinda à caravana. ─ Lhogran se levantou e me ajudou a levantar. ─ Me chamo Lhogran.
O homem de cabelos pretos veio até mim.
─ Você vai ter que andar, e não quero que fuja. ─ disse ele pegando uma espécie de coleira.
─ Vai me prender?
─ Vou, ─ disse ele seco. Então fechou a coleira ao redor do meu pescoço e amarrou uma espécie de guia, uma longa corrente de metal e me puxou. ─ vamos.
Me senti como um cachorro.
As horas correram e não suportava mais andar, minha pele estava extremamente vermelha de queimada, o sol estava fortíssimo e meus pés começavam a sangrar, o chão de pedras estava muito quente, e muitas vezes pisava em pedras com pontas, os Signatas estavam em cavalos, eu comecei a diminuir o ritmo.
A dor lancinante percorria meu corpo em ondas, tropecei e cai. Os cavalos pararam.
─ Por que parou?
─ Não aguento... ─ falei chorando.
Ele jogou algo ao meu lado. Era uma chinela de madeira.
─ Calce e continue. ─ falou ele frio.
Peguei e calcei, doeu muito no inicio, mas depois me convenci que era a melhor saída,
Andamos até o por do sol, então o líder parou no meio do deserto mesmo e tirou panelas e comidas de dentro da bolsa na lateral do cavalo. Preparou uma sopa altamente temperada e falou que estava pronto. Lhogran tirou pães redondos que nunca tinha visto da carga de seu cavalo.
Lhogran me entregou um e me puxou.
─ O nome dele é Thomas, ele é bem seco às vezes, mas é um ótimo companheiro, vai se acostumar com ele. ─ falou ele mastigando e engolindo um pedaço do pão. Então ele pegou um prato e colocou um pouco da sopa e mergulhou o pão dando mais uma mordida. ─ É assim que se come. Pegue um prato para si e se sirva.
Assenti e fui pegar, então me sentei novamente ao lado dele e fui matar minhas curiosidades.
─ Por que ele não tem marcas?
─ Na nossa sociedade, a cada erro cometido no treinamento uma marca é feita e seu cabelo é cortado, as marcas sempre são feitas no rosto para ficar exposto para todos, é uma vergonha ter uma cicatriz no rosto, no corpo é uma honra. Ter cabelos longos também se trata de honra, Thomas é o dito general mais incrível da existência de nosso povo, sem uma marca, com apenas uma cicatriz e seus cabelos nunca foram cortados. Ele é como o mais importante dos guerreiros de nosso tempo, não é a toa que ele é um dos conselheiros do rei.
Olhei meio assustada, mergulhei o pão na sopa e mordi, era incrível. Sorri para Lhogran, mas logo um pensamento invadiu minha mente e não consegui segurar.
─ Por que e pra onde me levam?
Ele olhou para o céu.
─ Ah, bom, os deuses decidiram que o mundo deveria ser limpo, logo nosso povo decidiu o fazer, não só nosso povo quanto os próprios Arclaros decidiram sozinhos, eles assolaram um povo perto de nosso país, e deixaram apenas uma garota, então entendemos, as puras eram deixadas por eles, em troca de nos trazer as garotas nós damos lar para eles. Então começamos a separar grupos de guerreiros para pegar as meninas e levá-las pra nossa cidade natal. De todas, apenas sete foram salvas até agora, sempre existem empecilhos, tudo dá errado para elas não chegarem ao destino. ─ falou ele perdido. ─ Mas voltando, respeite Thomas, ele tem apenas trinta e dois anos e já é um dos maiores.
─ Ele parece ser forte, por não ter cicatrizes.
─ E é. ─ respondeu ele.
─ Vamos. Temos que chegar ao próximo vilarejo o quanto antes, em torno de meio dia chegaremos a ele. E ai teremos a ajuda dos Arclaros, o mundo sul está quase dominado. ─ falou Thomas, não entendi quase nada do que ele dissera.
─ Então voltamos para o reino? ─ perguntou um garoto do outro lado.
─ Sim. ─ respondeu Thomas.
Haviam outros cinco homens no grupo, dois de cabelo castanho e curto, um dos dois tinha o cabelo na altura dos ouvidos, ele tinha muitas marcas, no rosto contei dez e nos braços oito, o outro tinha o cabelo cortado curto e bagunçado, este devia ter umas sete nos braços, o outro tinha cabelos loiros e curtos e duas marcas circulares na testa, o penúltimo tinha cabelos do mesmo tamanho de Lhogran e castanho, tinha cinco marcas no rosto apenas e aparentava ter a mesma idade que Lhogran. O ultimo parecia muito novo, tinha cerca de nove marcas no rosto e outras nos braços, os cabelos eram negros azulados e curtos e olhos azuis.
Ao observar minha curiosidade Lhogran começou.
─ O de cabelo castanho curto se chama Loki, o de cabelo castanho no ouvido é Darthan, o loiro é Veemont, o de cabelos longos e castanhos é Thaircont e o de cabelos pretos é Hoxy. ─ falou ele sorrindo e se levantando. ─ Temos que ir, termine de comer logo.
─ Certo.
Me apressei em minha comida, estava gostoso e terminei logo. Seguimos caminhando, meus pés doíam muito, já quase não conseguia aguentar. A caminhada ainda duraria muito, ainda estava cedo, eu teria de aguentar até a chegada, mesmo não gostando de estar com eles.
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