ASNY. You Need Somebody.

1 Um fim de noite para recordar.


Notas iniciais
Millis, eu escrevi o capítulo do ponto de vista do Erick. Sei que com certeza peguei algumas coisas erradas, porque os personagens não são meus, mas espero que não se importe. ;P Eu continuei o último capítulo postado na Vida de Nerd (https://fanfiction.com.br/historia/485647/Vida_de_Nerd/ ...para quem tenha interesse).

Era por volta de quatro da manhã. Nem me pergunte como eu sabia disso (envolve um cara pelado e uma varinha de bruxo). Sarah e eu ainda estávamos conversando, nós tínhamos saído da quadra de tênis e ido para dentro da casa, na sala de estar. Havia algumas outras pessoas ali também, mas o ambiente estava bem silencioso.

— Mas sabe aquela fase de The Last of Us, uma que o cara tá dentro de um prédio caído e ele tem que dar umas voltas e tentar não ser detectado? – Sarah dizia. Seus olhos pareciam brilhar enquanto ela falava.

— Aham. – confirmei, sem conseguir tirar meus olhos dos dela.

— Então, foi nessa fase que eu fiquei presa. Eu perdi as contas de quantas vezes eu fiz ela, mas dai eu fiquei muito frustrada e devolvi o jogo pro meu primo.

— Ah, essa fase é facilzinha. – tentei me gabar.

— Sei. – ela disse me dando uma cara engraçada, seus olhos apertados.

Nós estávamos bem perto um do outro. Eu queria muito beijar ela, mas querendo ou não, a droga da minha moral me impedia. A garota tinha namorado.

— E tem outro jogo que você desistiu porque ficou presa numa fase? – perguntei, tentando me distrair de seus lábios.

— Mais ou menos. Battlefield 4. Tem uma fase, a do parque, que você tem que passar com o tanque. Eu fiquei muito tempo nessa. Também na do navio que transporta aviões e ele começa a afundar. Eu tentei de tantas maneiras passar dali. Mas no final eu consegui. Nossa, quase chorei no final, foi muito emocionante.

— Quem você escolheu? – questionei enquanto observava seu sorriso estonteante.

— Eu mandei a garota asiática explodir o Valkyrie. – ela respondeu.

— Eu também! – exclamei.

Droga, ela não pode ser minha alma gêmea, ela tem namorado, porra!

— E eu achei que tinha certeza da minha escolha, sabe? – ela continuou – Mas nos créditos finais eles colocaram áudios dela falando coisas tipo “juntos até o fim”, eu não lembro direito, e a atriz que dublou ela em português é muito boa, e eu juro que eu quase chorei.

— Ah, eu não. – tentei me passar por forte, apesar de acreditar que eu não tinha mesmo ficado emocional. – Eu não queria que o negão morresse então eu mandei a menina lá.

Ela só gesticulou com a cabeça.

Tomei um gole do copo de cerveja que tinha em mãos. Eu buscava um assunto pra começar, mas nem precisei, porque nessa hora, quatro Teletubbies entraram pela porta da frente.

Quatro homens com cara de mal acabados caminhavam dentro da casa com fantasias mal feitas de Teletubbies.

— A sua festa acabou de começar. – disse a Lala com os braços erguidos e um sorriso maroto.

Mas cadê o dono da festa nessas horas? Esses caras não pareciam estar a fim de fazer coisa boa.

— Eai, gatinha? – disse Pou para Sarah quando passou em frente a nós.

Sarah pareceu meio constrangida. Aqueles caras eram mesmo muito mal encarados.

Dipsy sentou em um sofá em frente a nós e acendeu um cigarro.

— Ei, cara, dá de ir fumar em outro lugar? – perguntou um homem musculoso se levantando e indo para perto do Teletubbie.

— E você vai me obrigar? – Dipsy rebateu.

— Quem é que chamou vocês pra festa? – perguntou uma garota sentada ali perto.

— Sua mãe, gatinha. – Dipsy piscou pra ela.

— Ta na hora de você ir. – disse o cara musculoso segurando o Teletubbie pela gola da fantasia e tentando arrastar-lo pra fora.

Mas Dipsy se debatia e fazia o trabalho do cara musculoso mais difícil.

— Frank! – gritou Dipsy. – Frank me ajuda aqui!

Nessa hora Lala entrou na sala e viu o amigo sendo arrastado pra fora. Ele correu até ali e deu um soco nas costas do cara musculoso.

Dipsy se livrou e começou a atacar também. Os dois fantasiados davam chutes e socos no cara que já estava no chão.

Se eu não estivesse tão tenso aquela cena seria hilária.

E então, um grupo de caras normais entraram na sala. Eles pareciam ser de boa e já estavam na festa, eu lembrei de ter visto eles ali. O grupo avançou sobre os Teletubbies e quando ganhou a luta, levaram eles pra fora.

Um pouco depois os outros dois fantasiados entraram na sala e saíram pela porta quase correndo.

— Bem, isso é uma coisa que eu vou querer falar pros meus netos. – comentou Sarah.

Concordei rindo um pouquinho.

De repente senti a sala meio fria demais. Eu ainda estava de cueca então decidi ir atrás de Julio, que estava com as minhas roupas na mochila.

— Ei, você se importa de a gente ir atrás do meu amigo? Eles tá com as minhas roupas...

— De boa, vamos lá. – Sarah concordou.

Saímos da sala e rondamos a casa inteira.

— Vai ver ele tá lá fora. – Sugeri.

Perto da piscina, vi Julio sentado em uma daquelas cadeiras de pegar sol ao lado de uma garota e Ryan deitado no chão, que ainda parecia inconsciente.

— Esse cara ainda tá dormindo? – indaguei rindo quando cheguei perto.

— O mano tá acabado. – Julio respondeu dando outro gole na long neck.

— Ei, me dá minhas roupas ai. – pedi.

Enquanto Julio abria sua mochila apresentei Sarah.

— Essa aqui é a Sarah. Sarah, esse é meu brother Julio.

Eles se cumprimentaram sorrindo.

— Erick, essa aqui é a Lisa. – Julio me apresentou uma garota sentada ao lado dele. – Lisa, Erick.

— Oi. – sorri e dei um pequeno aceno com a mão. Ela sorriu de volta.

— Gente. – disse Ryan finalmente acordando.

— Olha só. Bom dia, bela adormecida. – zuei a cara dele.

— Bela adormecida é a mãe. – ele respondeu rindo.

— Ih, acordou de mau humor, foi? – comentou Julio. – Já tá de ressaca é?

— Não, cara. Eu ainda tô meio bêbado. – ele coçou a cabeça. – Mas sabe do que eu tava a fim? Aquela torrada do café da manhã do McDonalds.

— E eu tava a fim de um McColosso. – comentou Sarah ao meu lado sorrindo.

— Ah, a gente pode dá um jeito nisso. Que horas são, Julio? – indaguei.

— São cinco e meia. – ele disse dando uma espiada no relógio.

— O Mc já deve tá servindo café. Bora lá. – chamei.

— Vamos achar o Leon antes, dai a gente vai. – disse Julio.

— Eu vou atrás dele. – Ryan falou um pouco enrolado. Ele estava deitado de costas, então quando foi tentar levantar pareceu aquelas tartarugas que simplesmente não conseguem se virar.

— Você fica aí, chapa. Eu vou atrás dele. – observei Julio levantar e entrar na casa.

— É melhor a gente procurar por aqui fora, porque se ele estiver aqui vai ser mais rápido. – eu disse à Sarah.

— Eu fico aqui olhando o Ryan. – pronunciou Lisa.

— Valeu. — agradeci.

Eu e Sarah demos a volta na piscina e observamos alguns adormecidos flutuar em cima de umas boias em formato de rosquinha.

— Esses caras festejaram até demais. – comentou Sarah.

— O pessoal daqui bota pra ferrar.

Nesse momento, a metade das pessoas já havia ido embora, ou estava dormindo e o resto estava ou conversando com uns drinques na mão ou se preparando pra sair.

— Seu idiota! – uma garota ali perto exclamou e jogou seu drinque no cara com quem ela conversava.

Eu olhei mais de perto e vi que o cara era Leon. Ele parecia rir da situação enquanto usava um guardanapo pra secar seus ombros e cabelo.

— Vei, o que cê falou pra ela? – cheguei perto dele.

— Nada, eu só perguntei se estaria tudo bem pra ela me apresentar à irmã dela.

— Como assim, cara?

— Essa mina é irmã da Charlotte. Cê sabe, a garota com quem eu sempre quis falar, mas nunca encontrei uma maneira de chegar nela.

— Vós sois um otário. – eu comentei rindo usando uma frase conhecida de um rpg medieval.

— Tanto faz, cara. – ele riu e jogou o guardanapo no chão.

— Ei! Pega isso ai! – Sarah disse.

— Que isso, pra quê, velho? – Leon entrou na defensiva.

— Você acha legal sujar o ambiente assim? Qual é a tua? Isso não foi legal, cara.

— Tá, foi mal. – ele disse baixinho juntando o papel.

— Tu tá ai, cara! – exclamou Julio chegando perto. – Bora lá no Mc. Ryan tá a fim de torradas.

— Tá, bora. – Leon disse baixo, ainda parecendo afetado pelo o que a Sarah disse.

Eu não soube o que achar daquilo. Tá, jogar lixo no chão é desrespeito, mas eai, cara? O que tem de mais?

Nós seis saímos da festa e caminhamos pela calçada escura. Ainda tão tinha nenhum sinal do sol nascer. Sarah pareceu andar mais perto de mim e Lisa mais perto de Julio. Talvez elas estivessem com medo. Nenhuma iluminação pública se fazia presente.

Eu não estava tão bêbado, só estava o bastante pra ficar alegre. Acho que o mais bêbado do grupo era Ryan, que andava com a ajuda de Leon.

Nós estávamos a meio caminho quando Ryan de repente pareceu mais verde que o normal.

— Vei. – ele disse e deu um soluço, depois cuspiu no chão. – Eu vou vomitar.

O resto do grupo se afastou um pouco.

— Ai, que nojo! – disse Lisa. – Vai naquele mato ali.

À nossa esquerda havia uma espécie de parque com a mata mais ou menos densa. Se ele se embrenhasse ali ninguém conseguiria vê-lo.

Ryan entrou ali e o resto de nós decidiu ir ao lado pavimentado da praça onde tinha profundas pistas de skate.

Eu sentei na borda de uma e Sarah sentou ao meu lado.

— Seus amigos são uma piada. – ela comentou ajeitando o cabelo.

Leon e Julio estavam no fundo da pista brincando de lutinha. Lisa sentava ao lado de Sarah e ria sem parar.

— Vai encarar, é? Vai me encarar? – indagava Leon girando os punhos em posição.

— Ah, mas eu vou sim. – Julio respondeu enquanto circulava o amigo. – Vou meter a bolacha nessa tua cara. – ameaçou, mas um segundo depois não resistiu e começou a rir.

Eu levantei meus olhos ao horizonte e vi, cruzando a rua do outro lado do parque, um grande prédio com colunas gregas ornamentadas.

— Aquela ali não é a biblioteca estadual?

— Meu deus... – Lisa e Sarah exclamaram surpresas.

O prédio estava todo pichado. Os artistas deviam estar com muita raiva, os desenhos eram horrorosos.

— Ei, por que o Ryan tá demorando tanto? – perguntou Leon.

— Ele deve ter caído no sono, aquele bunda mole. – disse Julio.

Antes que pudéssemos fazer qualquer coisa, o som de uma viatura policial invadiu as ruas.

— Devem estar atrás dos pichadores. – eu disse enquanto observava Leon e Ryan escalarem a parede da pista de skate.

De repente, luzes foram apontadas na nossa direção e eu me virei para ver um par de faróis de carro vir em nossa direção.

— Fiquem parados! – disse uma voz no megafone. – Não resistam e entreguem todo o material colorante.

— Eles devem achar que somos os pichadores! – anunciou Sarah.

Eu olhei para os meus amigos buscando saber o que fazer. Eles olhavam pra mim da mesma forma.

Eu sabia que era estupidez, mas meu instinto de morrer ou matar entrou em ação.

— Corre! – gritei.

Sem perder nem um segundo todos nós entramos direto dentro da mata. As grandes árvores e arbustos nos encobriram imediatamente. O som do policial gritando no megafone ficou cada vez mais distante até desaparecer.

No escuro, Sarah encontrou minha mão e corremos juntos, sem ariscar nos perder um do outro. Lisa agarrara a mão do Julio e do Leon. Se algum de nós se perdesse ali seria horas até encontrar a pessoa.

— Para onde nós vamos?! – Lisa gritou.

— McDonalds! – foi tudo no que meu cérebro conseguiu pensar.

Continuamos a correr até sair daquele mato, e então voltamos a andar até chegar à lanchonete.

— Nossa, que viagem foi essa?

— Obviamente aqueles policiais estavam atrás de qualquer um que pudessem culpar e depois ir comer umas rosquinhas. – Sarah comentou amargamente.

— É, bem, já despistamos eles, então a gente não pode logo pegar a droga da torrada pro Ryan e ir sentar porque toda essa correria me fez querer vomitar também. – Julio resmungou.

Assim que ele disse aquilo, todos nós seguramos o fôlego. Ryan!

— Ai meu deus. A gente esqueceu a droga do moleque. – exclamou Leon.

Alguns adolescentes sentados ali perto faziam um cara feia achando estranho todo o nosso drama.

— Tá bom, Sarah e Lisa, vocês fiquem aqui enquanto eu, Julio e Leon voltamos lá e buscamos o Ryan. – eu disse tomando a posição de líder.

— O que!? Nem pensar! – berrou Sarah.

— Tá bom, Leon fica aqui com vocês, eu e Julio vamos lá.

Os dois gesticulavam em positivo, aceitando minha ordens, mas as garotas pareciam ainda insatisfeitas.

— Nós vamos também! Todo mundo vai! – disse Lisa.

— Mas vocês podem se machucar com toda essa correria, ou até ser presas se formos pegos.

— Ah, para com isso! Não é como se fôssemos pobrezinhas. Dá um tempo. Se você é o Ezio Auditore, eu sou a Lara Croft! – Sarah disse forte.

Eu entendi o que ela quis dizer. Eu só queria que ela ficasse bem, mas se ela queria participar da ação, tudo bem pra mim.

— Tá certo, então vamos todo mundo. – assim que eu disse, nós saímos do Mc e fomos em direção ao parque.

— Velho, se o cara foi preso a gente tá muito ferrado. – comentou Julio chutando uma pedrinha no caminho.

— Não, vai dar tudo certo. Provavelmente ele deve ter dormido, com você disse. – tentei acalmar o pessoal.

Nessa hora, um celular começou a tocar uma música das Spicy Girls. Leon tirou o aparelho do bolso.

— Esse é seu toque de chamada? – Lisa segurava o riso enquanto Sarah ria abertamente.

— É uma piada, valeu? – ele tentou se explicar e colocou o celular no ouvido. – Ryan! – ele exclamou. Todos nós paramos ao ouvir o nome. – Onde você tá! Não me diz que tá na cadeia.

Leon segurou o celular na altura da cintura e apertou o botão de viva-voz.

— O que? Que cadeia, velho? Eu tô aqui nessa porra de mato. Onde vocês tão, eu não consigo achar o caminho de volta.

— Ryan, fica ai que a gente tá indo te buscar. – eu disse.

— Ah, oi Erick. Eu tô no viva-voz, é? Seus safados, e se eu tivesse ligado pra falar da minha brotoeja? Vocês todos iriam querer ouvir sobre isso?

— Ew. – Lisa manifestou.

— Ah, mas é claro, as meninas tão aí, né?

— Velho, é cinco da manhã, por que diabos você ia querer falar da sua brotoeja? – Leon questionou. – Aliás, o que o médico falou? Por que minha vó me passou uma receita-

— Gente! – eu chamei a atenção. – Não é hora pra isso. Ryan, fica aí que a gente tá indo. – avisei e apertei o botão de desligar a chamada. – Se a gente não se apressar talvez a polícia ache ele. Bora logo!

Nós voltamos a correr até chegar ao parque.

— Ah, não!

Agora havia duas viaturas policiais paradas ali. De longe eu pude ver dois policiais andando com lanternas. Talvez eles ainda procurassem por nós.

— Tá, é o seguinte. Sarah e Lisa ficam aqui. Eu, Leon e Julio vamos na mata atrás do Ryan. Meninas, se vocês virem alguma coisa, nos ligue. Vocês têm o nosso número?

— Eu tenho seu. – Sarah diz.

— Ok. Vamos lá.

Sarah e Lisa se acomodaram atrás de uma mureta que tinha ali e nós três nos esgueiramos pela beirada do bosque até achar uma trilha que adentrava ali. Seguimos a trilha até eu comecei a ouvir um ruído.

— Vocês tão ouvindo isso?

— Isso o que?

— Parece... Um gemido. – eu olho a cara de Leon e Julio no escuro, tentando saber, pela cara dos dois, o que fazer com aquela informação.

— É, eu tô ouvindo. Mas não sei se é de homem ou mulher. – disse Julio.

— Bora ver o que é. Pode ser o Ryan agonizando de dor. – articulou Leon.

Começamos a ir em direção ao gemido.

— Ou pode ser alguém se dando bem. – Julio riu baixinho.

Quando o barulho pareceu bem próximo, andamos com cuidado até chegar atrás de uma grande pedra.

A essa hora já era certeza que o gemido era feminino, e eu meio que tive que lutar para manter o jhonny completamente relaxado, mas meu desespero de achar o soldado Ryan era muito maior que o medo de interromper uma transa.

Eu apoiei minhas mãos na pedra e dei uma espiadela para ver o que estava proporcionando todo aquele gemido.

Eu vi que era realmente um casal transando. Eu me virei para Leon e Julio e gesticulei com a mão para saírem dali depressa.

— Vão, vão, vão! – sussurrei desesperado.

Antes que eu pudesse ir, a garota me viu e soltou um grito praticamente supersônico. O cara jogou a garota para o lado e se levantou. Inconscientemente eu tive que olhar a sua bimba e assim que eu o fiz me arrependi amargamente. Ainda estava em pé e tudo.

— O que vocês tão fazendo aqui, seus filhos da puta! — o cara gritou raivoso. – Eu vou matar vocês!

Eu quase levantei poeira de tão rápido que comecei a correr. Julio e Leon já estavam bem a frente de mim, eu quase não conseguia vê-los.

Eu ouvi o cara correr atrás de mim. Eu dei uma olhadela para trás e vi um grande taco de baseball na sua mão. Talvez ele tivesse trazido aquilo pra bater em algum mendigo que espiasse ele e a namorada. Minha testa começava a suar frio. Droga, eu não era um mendigo!

O álcool no meu sangue não me deixava correr a toda velocidade, porque meus reflexos ainda estavam lentos, então eu estava receoso de meter a testa em uma árvore ou galho.

Toda a gritaria deveria ter atraído os policiais, porque luzes balançavam a noroeste da minha posição. Eu tive que praticamente me jogar sobre um tronco de árvore caído para ir à direção oposta aos policias.

No meu bolso meu celular começara a vibrar. Enquanto eu corria dei um jeito de tirar o aparelho do bolso sem ele escapar da minha mão. Apertei em várias partes diferentes da tela antes de conseguir apertar o botão verde.

— Oi. – tentei soar o mais calmo possível caso fosse meus pais. Não consegui olhar direito para ver quem ligava.

— Erick! – exclamou Sarah do outro lado da linha. – Os policias entraram no bosque!

— É, eu meio que já sei disso. – eu consegui dizer entre fortes respiradas. – Por acaso Leon ou Julio saíram do mato? – eu havia perdido os dois de vista.

— Ai meu deus, você perdeu eles? Tá sozinho?!

Pensei no cara pelado e largado correndo atrás de mim.

— Não exatamente. Talvez. – respondi.

— Mas o que isso quer dizer?!

Eu estava desacelerando, porque meu coração parecia que ia explodir, e então ouvi o cara do taco de baseball se aproximar, o que me fez guardar o celular de volta no bolso e acelerar o passo.

“Que psicopata, porque ele não volta pra namorada e me deixa em paz?” clamei a todos os deuses.

Quando eu achava que não conseguiria correr mais, um vulto surgiu bem na minha frente e eu senti meu corpo esbarrando com tudo em alguém.

— Meu deus, cara! Mas o que é isso? Que porra! – exclamei.

Na minha frente Leon estava no chão junto a mim gemendo alto de dor.

— Bora, a gente não tem tempo pra isso! – Julio chegou desacelerando a velocidade.

— Gente, perai, eu acho que vou vomitar de novo. – Ryan chegou atrás, com o passo torto. A cabeça dele não parava quieta, essa floresta deveria estar toda girando pra ele.

Atrás de mim, ouvi o homem pelado chegar mais perto e atrás de Ryan vi as lanternas dos policiais.

Colocando nossa cabeça no lugar, nós quatro saímos em disparada, quase nem enxergando o que havia a nossa frente.

Depois do que parecia ser um bom tempo, saímos da mata e cruzando a rua, entramos à direita em uma esquina.

Paramos de correr, mas continuamos em um trote leve. O céu estava azul claro agora, o sol prestes a nascer.

Viramos várias esquinas em ordem de despistar dos três que nos perseguiam. Apesar de que eu acho que o peladão já havia voltado pra terminar o serviço.

— Gente, é sério agora, eu preciso parar. – Ryan anunciou.

— É, eu também tô bem ferrado. – disse Julio.

À nossa direita água refletia o céu. Estávamos na baía. Vários barcos e iates descansavam junto a calçada.

— Bora sentar ali. – sugeri.

Meu celular voltou a vibrar e eu o agarrei, visualizando a mensagem de Sarah.

“Onde vcs tão??”

“Na baía, próximo ao deque dos barcos.”

“Tamo indo.”

Sorri e devolvi o celular ao bolso. Retirei o sapato e sentei na borda da calçada, deixando a água envolver meus pés que latejavam de tanto correr. Meus amigos fizeram o mesmo.

— Cara, que noite. – comentou Julio.

— Eu provavelmente não vou lembrar quase nada amanhã, mas de vocês eu nunca vou esquecer. – disse Ryan.

— Aaaaah. – eu, Leon e Julio exclamamos.

— Dá pra parar com essa melação de cueca?

— Agora sou eu que vou vomitar cara.

— É sério gente. – disse Ryan rindo junto a nós. Vocês são os melhores.

— Tá, valeu cara, mas dá pra parar de falar, porque teu bafo tá uma desgraça. – Leon empurrou Ryan e ele quase caiu na água.

— Que violência. – ele reclamou.

Nessa hora o sol começou a nascer. Os tons de laranja queimavam o céu no horizonte e o azul cobria todo o resto. Algumas nuvens passageiras tinham o tom escuro de azul e complementavam a paisagem.

Um som de câmera me fez olhar para trás e vi Sarah logo atrás de nós, tirando uma foto da gente.

— Desculpa, mas vocês estão tão fofos assim juntinhos. – ela sorriu e nossa, como seu sorriso era bonito. Fazia meu peito arder em chamas.

Ela virou para a câmera frontal e jogou o celular para o lado, de modo que ela e Lisa aparecessem e nós quatro ficássemos atrás, olhando por sobre os ombros.

Em um minuto ela encaminhou a foto para mim e eu a observava no celular.

— A gente tem que repetir a dose um dia desses. – disse Leon.

— Você quer quase ser preso, ser perseguido por um cara pelado com um taco de baseball e perder o Ryan de novo?! – exclamei.

— Sim. – ele disse pensando. – Não! Quer dizer... Esses anos na faculdade vão ser únicos. Nada depois disso vai ser remotamente igual. A gente tem que aproveitar isso. De verdade.

Todos nós concordamos com a cabeça em silêncio.

Colocando tudo em perspectiva, a noite havia sido incrível até de mais.

Eu não deveria ter subestimado aquela festa de calouros.

Notas finais
Millis, espero que tenha gostado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!