APOPTOSE
1 Capítulo único.
Notas iniciais
Então, de todas as cartas lindas que tem no tarot, eu tirei a temperança inversa. Ela significa exagero e desequilíbrio, e eu juro que tentei fazer algo que encaixasse bem esse tema e que não fosse um angst cabuloso, mas acho que acabei saindo um pouco do caminho OIUSAHDOIUHEIUH Mas, é. Eu tentei pouco, mas tentei EKUHDOIUEH E JUROOOO que no próximo delipa eu faço bonito.
APOPTOSE
— Você é louco.
— Sim, eu sou — respondeu ele, soltando a fumaça para cima, — e você me acha enlouquecidamente sexy por causa disso.
E era verdade. Amava quando Joaquim pulava muros altos e pichava prédios novos de bancos ricos, ou quando andava de skate no horário da aula de gramática nas terças-feiras. Nada era mais sexy que o cigarro no canto da boca que compravam juntos, escondidos, com identidades falsas, ou que os hematomas no corpo pálido que apareciam depois de brigas não justificáveis.
Não podia negar que Joaquim sabia exatamente como mexer com sua cabeça, chamando sua atenção da forma mais vergonhosa possível para si.
Joaquim parecia queimar, e era quente feito o inferno.
— Não seja convencido. — pediu, risonho. — Não tem nada de sexy nessa sua mão enfaixada, seu bobo. Precisa tomar mais cuidado.
Viu o namorado fazer uma careta, jogando os cachos castanhos para trás com a mão boa. Se sentia como uma mãe, nervosa, que briga e o filho não escuta. Porque, sim, Joaquim era enlouquecidamente sexy por suas loucuras, há quatro anos, enquanto ainda estavam no ensino médio e não tinham mesmo nada na cabeça. Acontece que, hoje em dia, os cigarros tinham virado um maço por dia, o skate passou para uma moto, e o joelho ralado de repente evoluiu para uma mão quebrada.
— Acho que vou matar aula hoje a tarde — Joaquim contou. Tinham passado quatro dolorosas horas de espera no hospital, estava exausto e não queria mesmo assistir duas horas maciças de aula de cálculo III. Colocou um cigarro na boca, mas não conseguiu acender o isqueiro por falta da mão habilidosa.
— Deixa que eu te ajudo — o outro respondeu, tomando o isqueiro verde da mão direita estabanada. Puxou a tampa e deixou a chama queimar o papel e a nicotina, esperando o tragar do segundo cigarro em menos de vinte minutos.
Chegaram ao destino esperado após alguns minutos caminhando em silêncio, e seguiram para o banco preferido da praça. Sentaram de pernas abertas, um de frente para outro, e sorriram.
— Mata aula comigo — Joaquim pediu, cheio de toques.
— Você tem atestado médico, não eu — ele respondeu, aproveitando do carinho que recebia em seus cabelos. Os dedos cheiravam à Marlboro vermelho e embaraçavam seus fios oleosos. — Você sabe que eu não posso matar mais as aulas de quarta-feira.
— Se você tomar pau por falta, eu atraso um semestre pra formar com você depois — os dois riram juntos, como se realmente fosse apenas uma brincadeira.
E ali, vendo Joaquim e sua mão enfaixada, perguntou a si mesmo quando foi que as coisas saíram dos trilhos daquela forma. Tudo tinha mudado tanto nos últimos anos e, ao mesmo tempo, parecia ser exatamente a mesma coisa. Tinham terminado o ensino médio, entrado para a universidade que queriam nos cursos que mais desejavam, pagando suas contas com o trabalho de meio período que tinham encontrado perto de casa. Se pensasse por esse lado, não teria nada para reclamar nunca. Mesmo. Mas acontece que um namoro não é feito apenas de conquistas, e todos os problemas que viviam passando pareciam não ter fim.
Porque Joaquim sempre estava enrolada com algo. Metido em uma briga, correndo de moto, bebendo todo seu fígado para fora dias de semana.
Era tão incoerente que chegava a ter graça. Joaquim amava os estudos, tinha ótimas notas e seu maior sonho era ser professor de matemática, mesmo sem poder nunca servir de exemplo para ninguém. Joaquim era um ótimo namorado, tinha os melhores beijos e a melhor memória para compromissos, mas vivia forçando ao namorado seu jeito inconsequente. E mesmo sendo um anjo no trabalho, Joaquim não estava brincando totalmente quando disse que atrasaria a faculdade pelo namorado, mesmo sabendo que o curso deles tinham duração diferente.
Joaquim e tudo o que o acompanhava eram desprovidos de equilíbrio.
E sua maturidade não conseguia acompanhar a imprudência.
— Eu posso assinar a chamada para não perder a presença. E aí podemos fazer alguma coisa — ele sugeriu, vendo o sorriso de Joaquim abrir largo, mostrando todos os seus dentes grandes. — Mas nada muito exagerado, okay? Amanhã eu preciso abrir a cafeteria bem cedo.
— E quando é que eu exagero? — perguntou sem vergonha, encarando os olhos escuros do namorado. Este, risonho, soube naquele instante que provavelmente sua quarta-feira seria o inverso de tranquila.
Sentiria falta dos travesseiros enquanto estivesse longe de casa e provavelmente apareceria no trabalho morto de ressaca, mas simplesmente não conseguia dizer não a Joaquim.
O amor matava-o de dentro para fora, mas, às vezes, ele não se importava.
— Você é louco — repetiu.
— Eu sei — respondeu Joaquim, contente como nunca — Você também é.
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