APOCALIPSE
4 Casamento
Os dias foram passando lentamente. Apesar da derrota de Don contra Kann, ele não foi perturbado pelos moradores locais. Ele havia lutado bem afinal das contas e com todas aquelas festividades, eles tinham muito mais o que fazer do que se preocupar com ele. Agustina era muito bem recebida em todos os lugares. Ela esbanjava simpatia, e mesmo sendo uma forasteira era querida por onde passava. Fazia questão de todos os dias lembrá-lo sobre viajar para além do vale, pra procurar o pai e levar a espada Apocalypse com ele. Sinceramente, Don já pensava nessa possibilidade. O que o vale tinha pra oferecer pra ele? Morava em um lugar onde não era querido por ninguém, mesmo tendo apenas a família Andalusian como apoio, eles não eram a família dele. Logo Afonso se casaria e herdaria as responsabilidades do pai, ficando tão sem tempo quanto o próprio, Catelyn se casaria com Kann do leste e partiria com eles para a própria vila deles, e Gereth logo se casaria também, só Deus sabe qual seria seu destino. Algo em seu interior o chamava para viajar. Conhecer mundos desconhecidos, isso o encantava.
Já tinha algum tempo que Agustina tinha entrado numa barraca para comprar roupas, Don a esperava do lado de fora perdido em suas próprias reflexões, não percebeu quando a rua começou a entrar em alvoroço, pessoas corriam de um lado pro outro exaltadas. Quando deu por si lorde Jio estava na frente dele, com o sol fazendo seu cabelo loiro parecer prateado. Os olhos cor de esmeraldas esbanjavam generosidade e doçura. O homem esguio usava roupas azuis elegantes, amarrado com tiras douradas. Do lado dele estava seu zaraki de maior confiança, mestre Zero.
— O que está fazendo aqui, Don? — Perguntou Jio.
— Jio, Zero! Estou esperando pela Agustina. Ela está comprando...
— Fico muito grato pelo que fez, Don.
— Grato? — Don não entendeu. — Pelo que?
— Pelo que fez por Catelyn. Desafiar o noivo dela. Catelyn está se casando por motivos políticos, Don e isso não me agrada. Isso foi decidido entre os conselheiros que se sentam a mesa comigo. Nem eu, um lorde, tenho o poder sobre tudo.
Don torceu a boca.
— Eu entendo. Mesmo assim, mesmo sendo por esses motivos... Eu quis fazer algo.
— Eu nem pensaria em lhe entregar a mão de Catelyn duas vezes. Você é um bom garoto e tudo que eu quero é que minha filha seja feliz. — Nesse momento Jio lhe lançou um olhar enigmático, que Don não conseguiu decifrar o que era no momento. — Tenho que ir, as pessoas estão ficando inquietas.
Jio continuou sua caminhada pela rua, Zero passou por Don com um sorriso, bateu em seu ombro e seguiu seu lorde. Agustina saiu da barraca com muitas caixas de roupas na mão.
— Foi uma ótima compra. — Sorriu ela.
— Agustina.
— Sim?
— Amanhã vamos embora do vale.
Agustina sorriu confiante.
— Certo.
Era finalmente o último dia do festival de verão. Catelyn foi acordada cedo pelas empregadas. Elas lhe deram banho com fragrâncias perfumadas. Comeu rapidamente um pão, um copo de leite gelado e alguns morangos, antes que tivesse terminado tudo, as mulheres lhe puxaram para que pudessem limpar suas unhas, vários vestidos brancos foram dispostos na frente dela, juntamente com várias joias e flores de cabelo. Mesmo sendo um casamento arranjado Catelyn escolheu o vestido que mais lhe agradou. Um longo vestido rodado de tule com mangas de renda, fechado com botões por toda sua costa. Na hora de escolher os enfeites para cabelo se lembrou de uma vez, quando era criança. Brincava de pique esconde com Don. Os dois estavam escondidos de Gereth no jardim e havia uma íris no esconderijo deles. Don a arrancou e prendeu nos cabelos de Catelyn.
— Seu cabelo é quase da cor dessa flor. — Sorriu. — As duas devem ser irmãs.
— Não quero joias. — Disse Catelyn. As aias deram um pulo.
— Mas, senhora... Olha quantas joias lindas... Tem que ficar bonita para seu casamento.
— Não quero. Quero flores pra enfeitar meus cabelos. Flores brancas.
— Senhora... — Disse a aia mais velha. — Seu vestido é branco, sua pele é branca, seu cabelo é quase branco.
Catelyn a fuzilou com os olhos.
— Flores.
As aias saíram correndo às pressas. Seu pedido seria atendido com certeza. Sentou na cama quando ficou sozinha. Apesar de todos os acontecimentos, Catelyn não se sentia triste. Com a tentativa desesperada de Don de anular seu noivado, se sentia feliz. Agora a notícia do seu casamento apenas a deixava em um estado de torpor. Não teria o futuro que sonhara, mas se sentia realizada. Alguém bateu na porta.
— Entre.
A porta rangeu atrás de si.
— Com licença. — Catelyn tremeu ao ouvir a voz do indivíduo que entrava. Se virou rapidamente para Kann. — São muitos vestidos.
— Não traz sorte ver o vestido antes do casamento. — Catelyn abaixou a cabeça sem animação.
— O que você usa certamente é o mais bonito.
— O que quer aqui?
Kann remexeu alguns vestidos os observando atentamente. Se virou para ela. Os olhos dourados tão penetrantes quanto de um grande felino.
— Eu quero pedir desculpas. Eu não quero ser motivo de sua infelicidade. ― O rapaz poderia ser gentil. Catelyn se sentiu culpada por tê-lo tratado como motivo de toda a sua infelicidade por todo esse tempo.
— Você... Não é o motivo. E não estou mais... Infeliz.
— Sobre Don.
Ela ergueu uma sobrancelha pra ele.
— Você o ama?
Catelyn estremeceu. Havia motivos para esconder aquilo?
— Sim, mas não é recíproco.
Dessa vez foi a vez de Kann franzir as sobrancelhas.
— Não é? Ele chegou a me desafiar para ter sua mão.
— O que Don sente por mim não é esse tipo de amor. É algo mais parecido do que um irmão sente por uma irmã.
Kann riu.
— Seus irmãos não me desafiaram.
— Não seria estranho meus irmãos desafiarem meu noivo? — Riu ela. — E meus irmãos sentem em suas costas os seus deveres políticos, assim como nós dois estamos fazendo agora. Ao contrário nada impede Don.
Kann concordou com a cabeça.
— Você tinha alguém antes? Antes de se tornar meu noivo?
— Não. — Ele riu. Se sentou na cama ao lado dela. — No meu caso, soa meio ridículo, mas... Eu não queria ter nascido como um lorde.
— Por que não?
— Meu pai é um homem cruel. Ele vê as pessoas de forma diferente. Como se fossem diferentes, inferiores. Isso me irrita. Ele não é melhor que ninguém. Eu não sou diferente de ninguém.
― Meu pai o conheceu antes de te aceitar como o meu noivo?
― Sim.
Catelyn sorriu gentilmente.
― Então você deve ser uma pessoa boa.
Kann foi pego de surpresa e sentiu seu rosto corando. Ela tinha um sorriso muito gentil.
― É... mas o que eu realmente queria... era viver uma vida comum. Sem ter que olhar pra trás, sem nenhuma responsabilidade.
Catelyn riu.
— Entendo. Don é assim também. Está sempre olhando para o nada, pensativo. Como se esse não fosse o lar dele, e ele está apenas esperando suas penas crescerem para voar daqui. Isso não vai demorar. A bruxa partirá em breve, ela mesma disse. E quando o fizer Don a seguirá.
— Por que acha isso?
— Porque tudo que Don precisa pra ir embora é uma oportunidade. A bruxa é a oportunidade que ele estava esperando.
As aias voltaram para mostrar as flores que haviam encontrado para Catelyn. Todas soltaram um grito quando viram Kann sentado ao lado de Catelyn na cama. O expulsaram do quarto quase aos sopapos. Catelyn gostou dele. Os dois poderiam ser amigos.
O dia correu de forma cansativa. Não houve nenhum momento que desse tempo de Catelyn dar uma escapada e poder respirar. Também não era mais necessário. Já estava na hora. O templo da cidade estava lotado de pessoas do lado de fora e do lado de dentro. Kann estava lá no fundo, a beira do altar com o sacerdote a sua espera. Jio lhe estendeu o braço. Catelyn se forçou a sorrir. Abraçou o braço do pai e os dois seguiram até o altar. Jio entregou a mão de sua filha a Kann, que a recebeu com um sorriso gentil. Ele tinha um olhar forte e que transbordava gentileza. Catelyn sorriu ao perceber que ele lembrava seu próprio pai nesse aspecto. O sacerdote Henry começou com a formalidade e a oração. As pernas de Catelyn começavam a doer de ficar em pé. Olhando rápido pela multidão não conseguiu encontrar Don.
— Kann Gaimon, é de sua vontade aceitar Catelyn como sua esposa? — Perguntou o sacerdote.
— Sim.
— Catelyn Andalusian, é de sua vontade aceitar Kann como seu marido?
Don não apareceu. Mesmo sentindo que havia se preparado para isso seus olhos arderam no esforço de segurar as lágrimas.
— Sim. — Seu coração doeu.
— Os declaro casados. Pode beijar a noiva.
Kann se preparou, Catelyn apenas fechou os olhos. Então muito barulho começou do lado de fora. Gritos, passos de cavalo. Alguém gritou bem alto "Don!". Essa única palavra vez o coração de Catelyn disparar. Olhou para a porta, no mesmo instante um cavalo entrou cavalgando pela porta. Montado nele estava Don, com a espada negra embainhada em sua cintura. Atrás dele vinham vários guardas. O pai de Kann se levantou furioso. Don correu até o altar, parou do lado de Catelyn e lhe estendeu a mão. Sem pensar duas vezes Catelyn a segurou com toda a força que tinha, sentiu seus pés deixarem o chão e já estava na garupa do cavalo que voltou a correr pelo mesmo lado que tinha entrado. Algumas pessoas tentaram pará-los, mas o cavalo não se conteve e empurrou todos que se puseram no caminho. Ao sair do templo a multidão começou a se fechar ao redor deles, o cavalo ficou temeroso, então Don colocou dois dedos na boca e soprou um grande assovio. Genin saltou no meio das pessoas mostrando seus grandes dentes. As pessoas recuaram assustadas e Don saiu em disparada. O vestido embolou nas pernas de Catelyn, ela não conseguia se sentar bem no cavalo, então abraçou a cintura de Don com todas as forças que tinha para não cair.
Dentro do templo lorde Cristiano espumava pela boca de tanta fúria. Jio parecia tão calmo quanto no começo do dia.
— Que ofensa! — Gritava. — Peguem aquele bastardo!
Guardas pegavam seus cavalos para dar início a perseguição. Kann se aproximou de um.
— Me dê seu cavalo.
— Sim senhor. — O guarda se afastou.
Kann montou e saiu em disparada.
Don agora atravessava a cidade e já tinha tomado uma certa distância do templo. Alguns cavaleiros vinham atrás, um tanto longe. A surpresa lhe dera um pouco de vantagem. Ele assoviou mais uma vez, dando a ordem a Genin para que ele o seguisse. Finalmente alcançaram o limite da cidade e começaram a correr em campo aberto. No campo Agustina os esperava montada em um cavalo, e junto dela tinha outro cavalo com várias sacolas amarradas em seu dorso. Ela sorria triunfante. Não foi surpresa para Catelyn. É claro que a bruxa estaria ali.
— Você é bem chamativo! — Disse ela.
— Desculpe.
Agustina se virou para trás e estendeu a mão para o chão a frente dos cavaleiros que estavam em sua perseguição.
— Eu humildemente lhe peço, grande tigre Kurihara. Ruja!
O local que ela mirava explodiu, jogando vários pedaços de terra por todos os lados. Os cavalos se assustaram, alguns empinaram derrubando os homens que os montavam. Outros caíram no buraco que foi aberto no chão.
— Você realmente tem poderes. — Disse Catelyn encantada.
Agustina sorriu pra ela.
Genin os alcançou rapidamente, era de se esperar, já que era mais rápido do que qualquer cavalo. Finalmente chegaram na fronteira do vale. Marcando os limites do vale Mallakai havia oito estátuas de animais com trinta metros de altura. Um lobo, um dragão, um cavalo, um veado, um gato, um grifo, um coelho e um urso. A que eles alcançaram foi o lobo. Diminuíram a velocidade dos cavalos.
— Acho que agora vai ficar tudo bem. — Disse Don. Escutaram passos de cavalos ao longe e se viraram.
— Uma pessoa só. — Disse Agustina.
— É Kann. — Disse Don.
— Kann? Ele veio me buscar? — O coração de Catelyn se apertou. — Eu não achei que ele viria por mim.
Não demorou muito para que Kann os alcance. Ele pareceu feliz ao ver que eles esperavam.
— Vocês vão partir... — Disse ele.
— Sim.
— Por favor, me deixe ir com vocês.
Don e Agustina o encarou por um segundo, então os dois começaram a rir. Kann ergueu a sobrancelha sem entender e Catelyn apenas ficou de boca aberta.
— Catelyn mesmo disse... Que Don só precisava de uma oportunidade para partir. Eu também me sinto da mesma forma. Vejo em vocês a minha oportunidade. — Ele olhou para Catelyn com seriedade.
Don o encarou com mais seriedade agora.
— Faça como quiser, mas não pegamos provisões para você.
— Eu me viro. Eu aconselho a continuarmos correndo. Meu pai não vai sossegar em nos perseguir. Afinal, dois lordes fugindo. Ele está anunciando a todos que Catelyn foi sequestrada, pois não aceita assumir que teve o filho rejeitado. E a distância entre mim e os perseguidores não é grande.
— Muito bem. Vamos. — Retomaram a corrida entrando no vasto campo verde a frente.
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