ANATOMIA DO CAOS

1 O PESO DA AGULHA


A chuva sintética de Alta Valéria batia contra os painéis de vidro temperado do laboratório em um ritmo mecânico. Lá fora, o distrito da Alta Célula cintilava em cúpulas de luz amarelada, imitando os lampiões a gás do século XIX sobre arranha-céus de aço escovado. Uma arquitetura projetada para a nostalgia; uma estética desenhada para anestesiar.

Elisa ajustou o colar de veludo no pescoço, sentada diante da mesa de jacarandá. O cheiro de álcool isopropílico e óleo de sândalo impregnava o ar.

— Respire fundo, Senhora Castelli — disse Elisa, a voz parecendo um sussurro calibrado de quem tenta transmitir uma segurança que raramente sentia. — A sensação de agulhamento na base do crânio dura apenas quatro segundos.

A mulher de meia-idade, vestida em um corpete de seda bordado com fios de platina, apertou os braços da poltrona de couro. Os olhos dela estavam vermelhos de um choro que durara semanas: o luto pela perda do filho mais novo em um acidente de gravidade zero na periferia industrial.

— Tem certeza de que não vai… restar nada? — a senhora perguntou, a voz trêmula. — Nenhuma lembrança do... do rosto dele?

— Nenhuma dor — corrigiu Elisa, com a precisão de quem já havia respondido aquela pergunta mil vezes. — A memória funcional do garoto permanece. As datas, o nome, os arquivos acadêmicos. O que eu vou remover é o atrito neurológico do trauma. O luto. A partir de amanhã, o nome dele será apenas uma informação neutra no seu registro familiar.

Elisa deslizou o indicador pelo painel tátil do Sintonizador. O metal frio da haste penetrou o ponto de acesso na nuca da mulher. Na tela holográfica suspensa entre elas, as ramificações sinápticas da Senhora Castelli se acenderam em chamas vermelhas e douradas. A dor, quimicamente traduzida em ondas de choque elétrico.

Com dois toques rápidos, Elisa isolou o nódulo do trauma, aplicou o pulso de neutralização e apagou a frequência. O brilho vermelho na tela simplesmente dissipou.

A Senhora Castelli piscou devagar. A ruga em sua testa desfez-se instantaneamente, assim como seus ombros relaxaram. As lágrimas nos olhos ainda estavam ali, mas o peso por trás delas havia sumido. Ela olhou para Elisa com uma expressão tranquila.

— É isso? — perguntou a cliente, a voz suave, sem um traço de tremor.

— Sim, o procedimento foi concluído. A conta foi enviada ao seu conselho familiar. Tenha uma boa noite.

Quando a mulher saiu, os passos ecoando suaves no tapete, Elisa recostou-se na cadeira. Fechou os olhos e massageou as têmporas. O silêncio do laboratório sempre a lembrava do preço daquele trabalho: ela vendia esquecimento a pessoas que preferiam ser vazias a serem humanas.

De repente, a trava magnética da porta dupla de carvalho estalou.

Elisa abriu os olhos, a mão descendo instintivamente para o bisturi elétrico escondido sob a borda da mesa. Ninguém entrava no setor privado sem agendamento. Muito menos às duas da manhã.

A porta pesada abriu-se devagar. A luz fria do corredor projetou uma silhueta alta e ombros largos sobre o piso.

— Disseram-me que a melhor apagadora de memórias da cidade trabalhava até tarde — disse uma voz grave, arrastada com aquela arrogância característica que fazia o estômago de Elisa se contorcer. — Fico feliz em ver que os boatos sobre a sua falta de vida pessoal são verdadeiros, Vance.

Julian Holloway deu um passo para dentro da sala. Ele vestia o casaco de gala da casa imperial, os botões de latão desabotoados no topo, revelando o colarinho solto. O cabelo escuro estava levemente desalinhado pela chuva, e as gotas de água brilhavam sobre os ombros do tecido. Mas o que chamou a atenção de Elisa não foi a presença invariavelmente irritante dele, mas sim, o estado de seus olhos.

As pupilas de Julian estavam dilatadas, oscilando entre o azul natural e o tom violeta escuro que indicava estresse neural crítico. Ele parecia um homem que não dormia há dias. Ou um homem que havia acabado de ver o inferno.

Elisa levantou-se lentamente, mantendo a mesa entre eles.

— Este laboratório é restrito à Alta Célula mediante agendamento, Lorde Holloway — disse ela, a voz fria como lâmina de gelo. — E, até onde eu sei, sua família possui um corpo inteiro de neurologistas particulares. O que está fazendo aqui?

Julian deu mais um passo à frente. O sorriso debochado que ele costumava ostentar nas reuniões do Conselho Governamental estava lá, mas não alcançava seus olhos. Ele parecia tenso, como um predador encurralado.

— Os neurologistas da minha família reportam ao sistema central — disse ele, parando a meio metro da mesa dela. O cheiro de chuva e ozônio impregnava suas roupas, misturado a um traço metálico de queimado. — E o sistema central é a última coisa que eu preciso bisbilhotando a minha cabeça neste momento.

Elisa cruzou os braços, franzindo a sobrancelha.

— Se você veio buscar narcóticos para aliviar o tédio da sua vida aristocrática, errou de endereço.

— Eu não quero narcóticos, Elisa — ele deu um passo final, apoiando as duas mãos sobre a madeira da mesa dela e inclinando-se para a frente. A proximidade fez o ar entre eles mudar. Elisa recusou-se a recuar um milímetro sequer. — Eu preciso que você entre na minha cabeça e descubra o que diabos aconteceu nas últimas setenta e duas horas.

Elisa soltou uma risada curta e sem humor.

— Você perdeu a memória depois de uma noite de libertinagem nos distritos baixos de Alta Valéria? Francamente, Julian, achei que suas desculpas fossem mais criativas.

— Não é uma piada — a voz dele baixou um tom, perdendo o sarcasmo, tornando-se perigosamente crua. — Minha linha do tempo neural está completamente apagada desde a noite de terça-feira e duas horas atrás, ou seja, há três dias. Eu acordo na minha cama com as roupas cobertas de fuligem e o Sintonizador da minha suíte destruído.

Elisa congelou. A rigidez na postura de Julian não era teatro.

— E qual é o problema? Se você teve um surto, o protocolo exige que você passe pela triagem do Imperador—

— Meu pai está morto, Elisa.

O silêncio caiu sobre a sala como uma pedra. Nem mesmo o som da chuva do lado de fora parecia atravessar o choque daquela frase.

Elisa piscou, tentando processar.

— O Imperador... o quê?

— O Palácio Dourado sofreu um colapso no sistema de suporte de vida do pavilhão central há quatro horas. Ele foi encontrado morto na câmara privada. Não havia vestígios de invasão, nem marcas de violência externa. — Julian deu um sorriso amargo, sem um pingo de alegria. — Apenas uma falha de pulso elétrico na mente dele.

A mente de Elisa começou a calcular as engrenagens daquela situação em velocidade vertiginosa. Se o Imperador havia morrido por falha elétrica mental, isso significava que alguém usara um Sintonizador de alta frequência para fritar os circuitos neurológicos do governante. O assassinato perfeito. Impossível de provar por autópsia comum.

E diante dela estava o herdeiro direto do trono. O homem com acesso irrestrito ao palácio, com histórico de desacordo político com o pai, e com três dias inteiros apagados da própria memória.

— Você... — Elisa deu meio passo para trás, a mão tocando novamente o cabo do bisturi sob a mesa. — Você acha que matou o seu pai?

Julian olhou para ela. Pela primeira vez desde que se conheciam — através de anos de debates acadêmicos ferozes, trocas de farpas nos salões de baile e rivalidade política implacável —, Elisa viu uma fresta de vulnerabilidade nos olhos escuros dele. Um vislumbre de puro pavor sob a carcaça de arrogância.

— Eu não sei — ele sussurrou, e a confissão pareceu arrancar-lhe a pele. — Essa é a maldição, Elisa. Eu não sei se fui eu… E se a Guarda Imperial passar o scanner na minha mente antes de amanhã de manhã e encontrar essa lacuna, eles não vão esperar por um julgamento. Eles vão me executar por traição antes do pôr do sol.

Elisa encarou-o. O coração dela martelava no peito, mas sua mente analítica já desenhava os cenários. Ajudar Julian Holloway era um ato de traição punível com a morte. Negar ajuda significava deixá-lo ser executado, ou ver o trono ser assumido pela ala militar radical do conselho.

— Se eu entrar na sua mente — disse Elisa, a voz tremendo imperceptivelmente —, e descobrir que você o matou... eu mesma frito o seu cérebro antes de sair.

Julian sustentou o olhar dela. Aos poucos, aquele sorriso torto e perigoso voltou aos lábios dele, embora os olhos permanecessem frios.

— Eu não esperaria nada menos de você, Dra. Vance. — Ele puxou a cadeira de couro para trás e sentou-se, reclinando a cabeça para o suporte de metal. Ele desabotoou o colarinho da camisa, expondo a pele clara do pescoço e a curva tensa da mandíbula. — Pode começar. Mas seja rápida. A patrulha imperial deve estar na minha porta em menos de duas horas.

Elisa caminhou até o painel de controle, suas mãos voando pelos comandos virtuais. O ar condicionado do laboratório parecia subitamente insuficiente. Ela pegou a haste do Sintonizador, o metal brilhando sob a luz fria.

Ela se aproximou de Julian. Ele não desviou o olhar enquanto ela se inclinava sobre ele. A proximidade era desconfortável; ela podia sentir o calor que emanava do corpo dele e o ritmo acelerado da respiração no peito largo.

— Isso vai doer — avisou ela.

— Eu sei — Julian murmurou, a voz baixa, o olhar preso aos lábios dela antes de subir para os olhos.

Com um movimento firme, Elisa cravou a haste na base do crânio dele.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.