AMOR, QUEIJO & RANCOR

1 O DIA EM QUE O QUEIJO DESANDOU


"Toda cidade tem seus pecados. Santa Assunta preferiu cobri-los com queijo derretido e molho de tomate."


O sol de final de tarde dourava os telhados como queijo gratinado em forno de lenha.

A pequena cidade de Santa Assunta respirava aquele ritmo mole de terça-feira, quando a semana ainda está se iniciando, mesmo sem querer: passo lento, cumprimentos de janela, criança correndo atrás do cachorro e cachorro correndo atrás da criança, a velha vizinha varrendo a calçada como quem tenta espantar as dores da alma.

Na pracinha central, perto da velha igreja, de bancos descascados e senhoras que benzem tudo que se move esperando pela sua missa como única forma de divertimento além das fofocas escondidas, uma figura dançava como se as pernas tivessem vida própria.

Era Tiaguinho, o doidinho da cidade, qual nem sempre fora assim, filho único de um professor de física e uma bibliotecária. Considerado um garoto prodígio: com 9 anos já desmontava rádios, com 13 consertava impressoras, e aos 16 ingressou num curso técnico de robótica.

Ele foi aceito em uma universidade na capital para cursar engenharia elétrica — e tudo indicava que se tornaria um grande inventor, até voltar para Santa Assunta em silêncio, recusando tratamento psiquiátrico e abandonando os estudos.

Passou a andar pela cidade com roupas rasgadas, juntando qualquer tipo de objeto como latas, fios e pedras, e frases sem sentido, rindo sozinho, desenhando símbolos nos muros.

Naquele dia, algo mudou, com uma pizza de papelão amassada na cabeça como se fosse coroa de rei, Tiaguinho gritava para as árvores:


— A massa se parte, o molho escorre! O queijo chora e o forno julga! — E fazia uma reverência para o coreto, como quem recebe a bênção do papa.

Algumas crianças riram, as beatas evitavam o olhar. Mas Tiaguinho era da cidade — mais sabido que o padre, mais temido que massa queimada.


X


Os Caruso, vieram de longe, daquelas bandas da Sícilia onde até o vento reza em italiano antigo. Desceram para o sul de nosso país com fé no peito, farinha na sacola e uma imagem da Virgem presa no cinto.

Dona Madalena Caruso, matriarca dura como pedra de forno, dizia que a massa da família era sagrada, fermentada por anjos e benzida por padre exorcista.

A pizzaria deles parecia uma capela misturada com aqueles míticos restaurantes de família: imagens de santas, mesa de madeira, toalha clássicas verdes com vermelho.

Cada pizza servida era um sacramento — e cada cliente, um fiel a ser convertido. Mas os tempos mudaram, e o filho dela, Leonardo Caruso, tentava segurar a tradição como quem segura fumaça entre os dedos, viúvo, ainda tentava doutrinar a caçula do clã, Beatriz, que rezava menos que batia porta, e sonhava mais com Nova Iorque do que com as colinas do Vêneto.


Os Mancini, agora, eram outro papo...

Ninguém sabe de onde vieram, mas todos sabiam que sangue quente e língua solta nunca era item fora do cardápio. O patriarca, Waldemar Manicini, ex-lutador de vale tudo, agora era mestre pizzaiolo de avental transparente holográfico, tatuagem suspeitas e mal feitas no braço.

A pizzaria deles parecia uma grande boate: neons nas paredes, luminárias, música alta, garçons com piercing. A pizza vinha com figo, gorgonzola, geleia de pimenta, glitter, peixes — e quem reclamava, comia a tradicional na concorrência.

A esposa, Laurita Mancini, fazia vídeos quase psicodélicos das pizzas com o celular em uma mão e cortava massa com a outra. Já o filho, Alex, cuidava dos números, dos contratos, contabilidade e das ideias malucas de franquear tudo até pro Japão.

Santa Assunta vivia dividida: ou se comia com fé ou com fogo. Cada morador tinha seu lado, como torcida de futebol.

E entre um grão de orégano e outro, todos sabiam: a paz entre os Caruso e os Mancini era igual a forno desligado — só durava enquanto não tinha pizza pra assar.

X


Nessa mesma noite, uma entrega saiu da Pizzaria Caruso com destino nobre: a casa de Perilo, o tipo de homem que anda sempre de camisa social aberta no peito, corrente de ouro que brilha mais do que sol de meio-dia, e um palito de dente no canto da boca como quem mastiga segredo. Agiota respeitado — ou temido, que no caso dá no mesmo — ele conhece cada CPF de Santa Assunta como quem conhece os filhos: sabe quem deve, quanto deve e há quanto tempo está prometendo pagar "só mais no fim do mês".

Uma pizza quatro queijos, com azeitonas abençoadas e a massa que descansou mais de 12 horas sob o olhar da santa padroeira.

A pizza chegou quente, perfumada... e com um bilhete.

Escrito com molho de tomate, trêmulo de emoção:


"Para lembrar que alguns sabores nunca se esquecem."


Seu Perilo empalideceu na primeira mordida.


Engasgou com a memória, não com a massa.


O gosto era inconfundível: a receita antiga. Aquela que ele jurava que ninguém mais sabia.


Dona Madalena acendeu três velas de uma vez.


Leonardo trancou a pizzaria com um cadeado que nem o diabo abriria.


E o silêncio desceu como fumaça de forno.


Do outro lado da cidade, Tiaguinho mordia uma pizza imaginária, sentado na calçada, sorrindo como quem já sabia.

— A primeira fatia foi servida — murmurou. — E a guerra... voltou pro prato.

No campo minado das lembranças, cada receita carrega uma história.

E quando o passado volta ao forno... alguém sempre se queima.



X



Com pouco mais de 30 mil almas, Santa Assunta é daquelas cidades onde o tempo caminha em marcha lenta, como senhora de salto grosso atravessando a faixa de pedestres. Fica num vale onde a neblina gosta de brincar de esconde-esconde com os telhados e onde todos sabem quem você beijou no São João de 2003 — mesmo que você tenha esquecido.

As ruas são de paralelepípedos que rangem segredos antigos, as casas têm quintal com cadeira de fio e vizinha que sabe da sua vida antes de você.

Quarta, a pequena cidade, acordou com cheiro de fermento no ar — e não era só o da padaria da Dona Emília, que há vinte anos exagerava no sal e nos boatos. Era outro cheiro, mais denso, mais antigo. Um cheiro que lembrava forno de lenha, massa descansada, e desgraça requentada no fogo da vingança.

Às seis e meia da manhã, a praça central qual era uma mistura de jardim público, confessionário ao ar livre e camarote da vida alheia já estava estranhamente cheia.

A fofoca tinha acordado antes do galo.

— Tu viu o que aconteceu com o Perilo?

— Diz que engasgou com uma azeitona e quase foi dessa pra melhor — respondeu um outro senhor, que escutava melhor pelo lado esquerdo e entendia tudo errado.

— Que azeitona, homem! Engasgou foi com o passado!

E isso era a mais pura verdade, Perilo, não dormia mais, passava horas olhando para o forno da sua cozinha como se fosse um altar pagão.

No auge de seus 68 anos, nada havia lhe despertado tanto rancor, medo e raiva.

No banco ao lado, duas senhoras tricotavam em ritmo acelerado, como se os pontos pudessem segurar as novidades que borbulhavam na cidade.

— Foi bilhete escrito com molho, acredita? Eu nunca confiei neles.

— Comida pode ser um perigo. Ainda mais vinda dos Caruso.

E como num passe de mágica — ou praga de nona —, o nome Caruso voltou a ser pronunciado com cuidado e temor.


X

No interior da Pizzaria Caruso, o ar era pesado como forno fechado.

Dona Madalena, estava sentada à cabeceira da longa mesa de madeira escura, onde costumava abençoar as massas com sinal da cruz e sal grosso.

Envelhecida senhora que parecia ter saído de uma pintura antiga esquecida numa capela italiana, daquelas que resistem ao tempo só de teimosia, baixa mas de presença monumental, usava sempre vestidos escuros com estampas florais discretas, os cabelos, presos num coque tão firme quanto seus valores, eram brancos como farinha de trigo — e viviam cobertos por um lenço bordado à mão, herança de mãe.

Nessa manhã, segurava nas mãos o avental branco que usava na preparação de pizzas.


— Eu avisei que o passado fermenta se não for mexido — murmurou ela, encarando o filho sob sobrancelhas fartas igualmente brancas e eternamente franzidas, como se ele fosse o tomate estragado da caixa.

Leonardo, com os olhos fundos de quem dormiu menos que pizza fria, tentava manter a compostura.

— Mamma, ninguém além de nós sabia daquela receita. Como isso foi acontecer?

— Foi o forno que abriu, filho. E quem abriu o forno... sabe o que estava dentro.

Beatriz, sentada mais distante, girava a colher de pau entre os dedos como se fosse uma varinha mágica prestes a explodir.

— Ou alguém aqui resolveu brincar de traidor — disse ela, encarando o pai com uma sobrancelha arqueada.

— Por favor, Bea, menos novela — rebateu Leonardo, puxando uma caixa com documentos. — A receita estava trancada. O bilhete foi entregue com nossa pizza. A única explicação é: alguém do nosso lado ajudou.


Em silêncio, Dona Madalena se levantou, ajeitou o vestido, caminhou até o altar improvisado ao lado do forno a lenha, acendeu uma vela de sete dias e sussurrou algo em italiano antigo que nem o Google Translate teria coragem de decifrar.



Do outro lado da rua, a Pizzaria Mancini já tinha virado estúdio de gravação.

— Bom dia, meus fogareiros de plantão! Hoje vamos falar sobre o novo sabor que vai abalar as estruturas dessa cidadezinha!

Laurita Mancini, loira de 1.75, com sonhos frustrados de ter sido uma grande modelo de cidade grande, hoje se escondia atrás de um visual comicamente extravagante, de batom roxo contrastando com a pele alva e unhas com glitter dourado, fazia mais barulho que o próprio liquidificador da casa.

Alex, com seu tablet na mão e olheiras do tamanho de uma borda vulcânica, tentava manter a produção em pé.

— Mãe, foco. O Perilo teve um piripaque por causa de uma pizza Caruso. Isso é sério.

— E qual parte tu acha que eu tô ignorando, meu querido? Isso é arte dramática! A guerra voltou!

Waldemar, encostado na bancada com os braços cruzados, mastigava um pedaço de pizza de brie com goiabada como quem mastiga ressentimento.

— Eles mexeram primeiro. Aquela receita era sagrada. Se estão trazendo isso de volta, é porque querem nos provocar.


Alex suspirou, passando as mãos no cabelo cheios de gel e ajustando o óculos de armação vermelha.


— E se tiver sido outra pessoa? Alguém querendo causar confusão?


— Confusão em Santa Assunta? — Laurita gargalhou. — Isso aqui vive de confusão. A única coisa que falta agora é o Tiaguinho fazer live no coreto.


Falando em Tiaguinho...


Ele estava sentado no banco da praça, com uma caixa de papelão no colo e um sorrisinho no rosto.

Na caixa, havia um relógio desmontado, um pedaço de cortina, um bilhete de ônibus rasgado e... uma chave antiga.

Ele girou a chave no ar, como quem gira o destino de uma cidade inteira.

A observando com curiosidade, quase hipnotizado.


X


As luzes da praça piscaram três vezes — como se piscassem para o além.

O coreto parecia mais iluminado. As pizzarias abriram ao mesmo tempo.

E as primeiras entregas começaram a sair.

Na Pizzaria Caruso, a caixa levava o símbolo da cruz com manjericão.

Na Pizzaria Mancini, a caixa brilhava em neon fosforescente.

A cidade respirava expectativa. Como fermento prestes a explodir.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.