AMOR EM CAMPO

60 Capítulo 62: Cafeína


Notas iniciais
Tem horas em que o amor não precisa de grandes declarações. Ele aparece nos detalhes. Na preocupação. Na insistência. Naquela pessoa que enxerga o que ninguém mais está vendo. Mas, às vezes, para aceitar ajuda, é preciso estar disposto a admitir que não consegue carregar tudo sozinho. Boa leitura, meus amores. 🤍

A segunda-feira na faculdade tinha o peso de uma tonelada. Para Rafaela, os sons do campus pareciam abafados, como se ela estivesse usando protetores auriculares invisíveis. Ela caminhou até a biblioteca, sentindo os músculos das pernas protestarem, uma queimação surda que ela ignorou com a maestria de quem já se acostumou a sentir dor.

Só mais esta semana. O seminário, o inventário da livraria, o turno dobrado... Depois eu descanso.

Ela entrou na sala de estudos e abriu o notebook. O brilho da tela feriu seus olhos, provocando uma pontada aguda na têmpora. Ela buscou a garrafa de água na mochila, mas encontrou apenas o fundo seco.

— Você está horrível, Rafa — a voz de Letícia surgiu ao seu lado, sem filtros.

Rafaela nem se deu ao trabalho de se irritar.

— Bom dia para você também, Lê.

— Estou falando sério. Você está da cor desse papel de rascunho. Você continua virando noites à base de café puro?

— Entre as aulas e os turnos extras na livraria, o único tempo vago que eu tenho para terminar essa droga de seminário é de madrugada — Rafaela respondeu, sem desviar os olhos da tela que parecia flutuar à sua frente.

— Você vai acabar no hospital, Rafa. Ninguém aguenta esse ritmo por tanto tempo. Por que esses turnos extras agora?

Rafaela finalmente virou o rosto, e o movimento fez o estômago dela revirar. Ela encarou a amiga, a pessoa que conhecia todos os seus segredos, mas que agora parecia uma estranha habitando uma vida que não era dela.

— Eu não precisaria de metade desses turnos se você voltasse para casa para me ajudar com o aluguel, Letícia — a frase saiu fria, cortante, carregada de uma verdade que ambas tentavam evitar. — Mas como eu me recuso a colocar outra pessoa no seu quarto, sou eu que pago o preço da sua espera.

O silêncio que se seguiu foi denso. Letícia desviou o olhar, a culpa empalidecendo seu rosto tanto quanto a estafa empalidecia o de Rafaela.

Rafaela tentou se levantar para buscar água, mas o mundo deu um solavanco violento para a esquerda. A gravidade pareceu puxar seu ombro com força excessiva. Ela precisou segurar na borda da mesa, as unhas cravando na madeira clara até os dedos doerem.

— Rafa? — Letícia deu um passo à frente, a preocupação sufocando o constrangimento.

— Eu estou bem. Só levantei rápido demais — mentiu Rafaela, sentindo um suor frio brotar instantaneamente na linha do cabelo. — Preciso ir para o trabalho.

Ela não esperou uma resposta. Pegou a mochila e saiu, sentindo o peso daquela conversa ser ainda mais esmagador do que o cansaço físico. Ela estava mantendo uma porta aberta para Letícia, mas estava trancando a própria saúde do lado de fora.

Enquanto atravessava o pátio em direção à parada de ônibus, ela viu, de longe, o vulto de Gabriel no campo. Ele estava treinando faltas, a silhueta imponente contra o verde do gramado. Por um segundo, ela quis caminhar até lá. Quis que ele a abraçasse e dissesse que ela podia parar de correr por um minuto.

Mas o orgulho, aquele velho companheiro, falou mais alto. Ela apertou a alça da mochila e seguiu em frente, ignorando a pontada no peito e a visão que começava a embaçar nas bordas.

O ônibus chegou, soltando uma lufada de ar quente e fumaça. Ela subiu, sentindo o metal do corrimão gelado e hostil contra sua pele febril. Encontrou um lugar vazio nos fundos, longe do barulho do motor, e desabou no banco, encostando a têmpora latejante contra o vidro vibrante da janela.

Vou descansar os olhos só um pouquinho, pensou, a consciência se esvaindo antes mesmo de completar o raciocínio.

O mundo retornou em um impacto violento. O ônibus passou por um buraco fundo, e o impacto fez a cabeça de Rafaela chicotear contra o vidro. Ela despertou num susto, o coração disparado como se tivesse caído de um despenhadeiro. Olhou pela janela, desorientada, e o pânico gelado a atingiu: ela havia passado três pontos do seu destino.

— Merda... — sussurrou, a voz saindo como um rascunho.

Pediu licença à pessoa ao lado com um gesto vago, puxando a sinaleira com uma urgência trêmula. Ao descer, o asfalto oscilou sob seus pés como se estivesse em um convés de navio. O sol daquela tarde parecia cruel demais, brilhante demais, e o som das buzinas cortava sua cabeça como lâminas de barbear. Cada passo em direção à livraria exigia uma negociação exaustiva entre seus neurônios e seus músculos esgotados.

Um passo de cada vez, Rafa. Respira. Café. Você só precisa de uma dose cavalar de cafeína.

Ela entrou na livraria com o suor escorrendo pela têmpora e a respiração curta. O cheiro de papel e mofo, que costumava ser seu santuário, hoje parecia denso, roubando o pouco oxigênio que restava entre as prateleiras. O Sr. Alberto, o dono, estava imerso em um catálogo de raridades, apenas acenou com a cabeça. Ela não reclamou; naquele estado, ser invisível era sua única estratégia de defesa.

Rafaela se arrastou direto para a copa. Serviu-se de uma caneca grande de café; estava frio, amargo e com gosto de fim de turno, mas serviu. Bebeu metade em um gole só, sentindo o líquido descer queimando no estômago vazio.

Em seguida, jogou água fria no rosto, tentando expulsar a névoa que insistia em baixar sobre seus olhos. Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo alto, esticando os fios com força para ver se a dor no couro cabeludo a mantinha desperta. Por fim, encarou o próprio reflexo no espelhinho manchado acima da pia.

Ela parecia uma estranha. A pele estava acinzentada, as olheiras eram manchas roxas profundas e os lábios estavam secos. Ela era a imagem viva da estafa, uma armadura de mulher de ferro que estava começando a rachar de cima a baixo.

— Só mais uns dias, Rafaela — ela disse para o reflexo, a voz firme apenas por teimosia. — Só precisa aguentar até a apresentação.

Dentro da livraria, às seis e meia da tarde, o mundo de Rafaela começou a se desintegrar.

Ela subiu na escada de madeira para organizar a seção de História. Seus dedos roçaram a lombada de um volume pesado de enciclopédia. Foi quando o zumbido nos ouvidos, que antes era apenas um incômodo, tornou-se um rugido de motor a jato.

A visão dela escureceu nas bordas, fechando-se como uma lente de câmera antiga perdendo o foco. Ela sentiu o suor frio brotar instantaneamente na linha do cabelo e escorrer por entre as omoplatas. O peso do livro em sua mão parecia ter quadruplicado.

Só mais esse…

A escada pareceu escorregar para o lado. O chão da livraria subiu para encontrá-la e, por um segundo terrível, Rafaela sentiu o corpo pender para trás, o vácuo da queda a chamando.

Seu coração disparou em um sobressalto de pânico puro. Ela cravou as unhas na madeira da estante e fechou os olhos com força, encostando a testa fria na lombada de couro de um livro qualquer.

— Rafaela? Tudo bem aí? — o Sr. Alberto perguntou lá debaixo, a voz soando distante.

Ela respirou fundo, forçando o ar a entrar em seus pulmões bloqueados. Abriu os olhos devagar, esperando o mundo parar de girar. Levou dez segundos para a náusea recuar o suficiente para ela conseguir falar.

— Tudo bem, Sr. Alberto — ela mentiu, a voz saindo rouca e estranha. — Só... um pouco de poeira. Já estou descendo.

Ela desceu os degraus com a lentidão de uma idosa, as pernas tremendo visivelmente. Quando seus pés tocaram o chão firme, ela precisou de mais um minuto apoiada no balcão para não desabar.

⚽️⚽️⚽️

Na terça-feira, o treino dos Falcões rendeu mais do que o esperado. Gabriel estava em um estado de graça atlética; seus passes eram milimétricos e a confiança parecia ter transbordado do campo para sua vida pessoal. No vestiário, enquanto a água quente batia em seus ombros cansados, ele só conseguia pensar em uma coisa: no celular.

Ele saiu do banho e foi direto para o armário. Nenhuma mensagem. O meme de "boa noite" de quinta-feira ainda era a última interação oficial entre eles.

— Manda a porra da mensagem para ela, cara — Diego brincou, passando a toalha no cabelo.

— Não sei do que você está falando — Gabriel murmurou, embora seus olhos estivessem cravados na tela escura.

— Desde quinta passada, você tem encarado esse celular como se ela fosse se materializar através dele. Relaxa, irmão. Ela te desbloqueou, não foi? O jogo está ganho.

— Não é um jogo, Diego. — Gabriel fechou o armário com um estrondo metálico que fez o amigo silenciar. — É que... deixa para lá. Vou nessa.

Ele jogou a mochila no ombro. O plano era ir para o bandejão, mas seus pés tomaram o caminho do bloco de Biologia.

Ele a viu de longe. Rafaela estava sentada em um banco de cimento, com um livro aberto no colo, mas seus olhos estavam fixos em um ponto vazio no horizonte. Gabriel se aproximou devagar. De perto, o estrago era visível. A luz do sol, em vez de realçar o tom rico da pele dela, parecia evidenciar a palidez doentia.

— Rafa? — ele chamou, a voz suave, mas carregada de uma preocupação que ele não conseguia mais esconder.

Ela deu um pulo, o livro escorregando de seus joelhos. O susto foi desproporcional, o tipo de reação de quem está com os nervos em carne viva.

— Gabriel? O que... hoje não é quinta — ela disse, a voz saindo fraca, as mãos buscando o livro no chão com uma coordenação motora visivelmente lenta.

— Eu sei. Mas eu estava por perto e... — Ele se inclinou para pegar o livro para ela e, quando seus dedos roçaram os dela, ele travou. A pele dela não estava apenas quente; estava em brasa. — Você está queimando de febre, Rafaela.

— É o sol. Está quente hoje — ela mentiu, levantando-se com uma pressa que fez o mundo ao seu redor girar.

Gabriel deu um passo à frente, as mãos prontas para segurá-la pelos ombros, mas ela recuou, cambaleando levemente.

— Você não está bem. Olha para você, mal consegue ficar em pé. — O tom de Gabriel mudou; a doçura da noite de cinema foi substituída pela autoridade ríspida de quem não aceita desculpas esfarrapadas. — Me deixa te levar ao hospital. Agora. Esquece essa aula.

— Eu não posso, Gabriel! — a voz dela subiu um tom, beirando o desespero. — Eu tenho o seminário, eu tenho que trabalhar, o aluguel vence no final do mês... Não tenho tempo para ficar doente.

— O seu corpo não liga para o seu cronograma, Rafaela! — ele rebateu, a frustração transbordando. — Há quanto tempo você está assim?

— Até onde eu sei, não sou mais sua namorada para te dever satisfações. Então, relaxa, eu dou conta — ela disse, apertando a alça da mochila com força. — Eu sempre dou conta. Até quinta, Duarte.

Ela saiu praticamente fugindo, deixando Gabriel parado no meio do pátio, com o cheiro do sabonete dele ainda pairando no ar. Ele viu as costas de Rafaela sumirem por entre as portas de vidro do bloco de Biologia. O jeito que ela cambaleou no último degrau fez seu estômago dar um nó que nenhum drible de adversário jamais causara.

Ele sabia. Sabia que ela estava se matando pelo aluguel, pelo quarto vago da Letícia, por uma lealdade que estava drenando sua vida. E sabia que, se esperasse até quinta-feira para intervir, encontraria apenas os destroços do que restava dela.

— “Até quinta”, o cacete! — ele rosnou para o vazio.

Gabriel caminhou em direção ao carro, mas não ligou o motor imediatamente. Ele pegou o celular e buscou na internet o telefone da livraria; o número saltou na tela logo no primeiro resultado, como uma permissão para o que ele estava prestes a fazer.

— Oi, eu gostaria de falar com o Sr. Alberto? — A voz dele saiu profunda, vibrando com aquela autoridade natural de quem comanda um time de onze homens sob pressão. — Oi, Sr. Alberto, aqui é o Gabriel, namorado da Rafaela. Tudo certo? Escuta, a Rafa não vai conseguir ir trabalhar por uns dias. É, ela não está se sentindo nada bem e precisa de repouso absoluto por ordens... Ok, agradeço a compreensão. Passo aí amanhã para conversarmos melhor.

Ele desligou o aparelho e o arremessou no banco do passageiro com uma satisfação sombria. Ligou o carro e arrancou, mas o destino não era a casa que dividia com os amigos. Ele passou primeiro no mercado, enchendo o carrinho com tudo o que sabia que ela gostava, e seguiu direto para o endereço de Rafaela.

Ele estacionou e foi direto para o esconderijo óbvio da chave reserva, o lugar onde Letícia sempre a deixava por puro esquecimento, e que Rafaela mantinha por pura precaução. Ao girar a chave, o som metálico da tranca cedendo pareceu o início de uma declaração de guerra.

Gabriel entrou na casa de Rafaela, e o cheiro dela — uma mistura de lavanda, café e papel antigo — o atingiu como uma bofetada sensorial, desarmando-o por um segundo antes de reforçar sua determinação.

Ele ia arrumar aquela bagunça. Ia encher a geladeira vazia. E, quando ela chegasse da faculdade, ele estaria lá para garantir que a única coisa que ela faria nas próximas doze horas seria dormir, nem que ele tivesse que prendê-la na cama com o próprio peso.

Rafaela ia odiar. Ele conseguia prever cada palavra: ela ia gritar que ele não tinha o direito de interferir em sua vida, que seu emprego era sagrado e que ela não era problema dele. Gabriel deu um meio sorriso sombrio enquanto organizava as sacolas de mercado sobre o balcão da cozinha.

— Pode gritar o quanto quiser, nerdzinha — ele murmurou para as paredes vazias, guardando as frutas frescas com uma possessividade silenciosa. — Mas você vai gritar descansada e alimentada.

Gabriel sentiu o celular vibrar no bolso da calça. Ele puxou o aparelho e encarou o visor, lembrando-se imediatamente do compromisso que assumira no corredor do vestiário. Olhou para o relógio: o treino da tarde começaria em trinta minutos. Ele prometera ao Cadu que estaria lá, mas, olhando para aquela cozinha vazia e lembrando do estado febril de Rafaela, sua prioridade não se moveu um milímetro.

Ele abriu a conversa com o calouro e digitou rápido:

Gabriel:Mano, deu ruim aqui. Não vou conseguir colar no Campo Três hoje à tarde. A Rafa está muito mal de saúde e vou ter que dar um suporte para ela aqui. Amanhã cedo a gente compensa esse treino dobrado, beleza? Fica esperto com o Cauã.

Ele jogou o celular sobre o balcão e voltou a tirar as compras da sacola. Não se passaram dois minutos e o aparelho apitou com a resposta do garoto:

Cadu: Cês voltaram? Porra, que maneiro! De boa, cara, cuida da tua mina aí! E relaxa sobre o Campo Três. O Cauã hoje nem chegou perto de mim, Gabe. Você tinha que ver a cara de cu dele no almoço kkkkk Acho que ele está sentindo a tua falta (ou o medo de levar uma porrada). Vai lá.

Gabriel soltou o ar pelo nariz, um meio sorriso rápido cruzando seu rosto. Pelo menos na UC a zaga estava bem postada.

Agora, o problema real era a dona da casa.

Ele guardou a última caixa de leite na geladeira quase vazia e se encostou no balcão, cruzando os braços. O silêncio era interrompido apenas pelo tique-taque de um relógio de plástico na parede e pelo barulho distante do trânsito. O "Capitão" estava de volta ao jogo e, desta vez, ele não aceitaria um "não" como resposta. O plano de sobrevivência solitário de Rafaela acabara de encontrar um obstáculo intransponível chamado Gabriel Duarte.


Notas finais
Me contem uma coisa... Vocês também estão sentindo esse aperto no coração ou sou só eu? Porque toda vez que sento para escrever esses capítulos finais, fico com aquela sensação estranha de que estamos nos aproximando do fim de uma jornada que acompanhamos por tanto tempo. E eu não sei vocês, mas estou vendo meus pombinhos caminharem de volta um para o outro e já bate uma saudade antecipada. 🥹 Quero saber sinceramente: o que vocês estão achando dessa reta final? Como estão se sentindo acompanhando a reconstrução do Gabriel e da Rafaela? E, principalmente... vocês também estão sofrendo comigo vendo a Rafa se destruir aos poucos enquanto insiste que está tudo bem? Nos vemos no próximo capítulo. ⚽📖🤍