AMOR EM CAMPO
57 Capítulo 59: Admirador
Notas iniciais

A casa dos atletas, que antes transbordava o caos de festas e música alta, agora abrigava um silêncio desconfortável. Gabriel estava na cozinha, preparando o café da manhã de terça, quando Diego e Daniel desceram. O clima de sábado ainda pairava sobre eles como uma névoa, mas a aparição de Gabriel no CT no dia anterior tinha mudado a frequência do ar.
— Diego, Dan, a gente pode falar? — Gabriel perguntou, sem rodeios.
Daniel parou, as chaves da moto na mão, enquanto Diego observava o amigo, com a postura defensiva.
— Sobre o quê, Duarte? — Diego perguntou, a voz seca. — Se for para pedir para a gente tentar limpar a sua barra com o Moura...
— Eu soube que você foi à casa da Rafa — Gabriel começou, e Diego tensionou os ombros, pronto para uma briga. — Ouvi vocês conversando no corredor ontem à noite.
Eu queria agradecer. De verdade. Sei que tentou me salvar de mim mesmo.
Diego relaxou o corpo, pego totalmente de surpresa pela falta de arrogância. Ele olhou para Daniel, que também parecia surpreso, antes de voltar a encarar Gabriel.
— Eu não fui lá só por você, Gabriel — Diego admitiu, a voz caindo um tom. — Fui porque me senti um lixo por ter feito parte daquela aposta idiota. Queria me desculpar. Mas ela me deu um chute na bunda de proporções bíblicas. Com toda a razão.
— Eu sei. Ela é firme — um meio sorriso triste surgiu nos lábios de Gabriel, mas logo sumiu. — E é por isso que eu preciso te pedir: não vai mais lá. Não por você, mas por mim. Meus erros com ela, eu mesmo conserto. Sem intermediários, sem ninguém limpando minha sujeira. E sobre o time... a braçadeira está com o cara certo hoje. Eu vou conquistar o meu espaço de volta lá do campo três. Do zero.
Gabriel estendeu a mão. Não era o toque de "parça" com o punho, era um aperto de mão firme, de homem para homem.
Diego olhou para a mão estendida, depois para o rosto do amigo. Ele viu o Gabriel de dezessete anos ali, o garoto focado de antes da fama do campus o corromper. Diego aceitou o aperto. A parceria estava de volta, mas a hierarquia de ego tinha morrido ali.
Daniel, que assistia a tudo encostado no balcão, soltou o ar que parecia prender e guardou as chaves da moto no bolso. Um meio sorriso surgiu no canto de seus lábios.
— Bom, já o meu perdão vai depender exclusivamente do que tem naquela frigideira. Se eu encontrar pão amanhecido e café requentado, a gente vai ter um problema sério de convivência.
Gabriel soltou um riso curto, o primeiro em muito tempo que não soava amargo.
— Tem ovos, bacon e o café acabou de passar. Acho que sua dignidade está segura por hoje.
— Menos mal — Daniel resmungou, passando por ele e dando um tapinha firme no ombro de Gabriel ao caminhar para a mesa. — Porque aguentar o Diego ditando tática em jejum é o limite da minha paciência.
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Com o Lucas, a conversa aconteceu na saída do refeitório. O garoto tentou desviar o caminho assim que avistou o ex-capitão, mas Gabriel acelerou o passo, parando a dois metros de distância, o suficiente para ser notado, mas longe o bastante para não parecer uma intimidação.
— Lucas. A gente pode conversar? — A voz de Gabriel não tinha o tom de comando de sempre. Estava rouca, cansada do treino do dia anterior.
Lucas parou, cruzando os braços e sustentando o olhar defensivo de quem já esperava o pior.
— Veio me culpar por ter perdido a vaga de titular também, Duarte? Ou vai dizer que a culpa pela derrota de sábado foi minha?
Gabriel sentiu a ferroada no peito. Doeu, mas ele aceitou o golpe. Ele merecia.
— Não. Vim falar sobre o que eu fiz antes de sábado. Eu tentei te culpar por um erro que foi apenas meu desde o começo. Fui um covarde jogando a frustração por ter perdido a Rafa nas suas costas.
Lucas franziu o cenho, o deboche morrendo no rosto. Ele estava preparado para rebater uma desculpa esfarrapada ou uma ameaça, não para receber uma confissão de fraqueza tão crua.
— Eu não espero que a gente volte a ser parceiro de balada — continuou Gabriel, com uma honestidade cortante. — E nem espero que você confie em mim hoje. Confiança se constrói com tempo, e eu sei que o meu cronômetro está zerado. Só queria que você soubesse que eu respeito o seu jogo. Você merece estar naquele campo.
Lucas ficou em silêncio por um longo tempo, processando o peso daquelas palavras. Ele viu o intocável Gabriel Duarte admitindo, sem rodeios, que era o único culpado.
— O campo três é um lixo, Gabe — Lucas disse finalmente, a voz um pouco menos tensa, descruzando os braços. — Vê se sobrevive ao Moura e ao Cauã lá, para a gente ter nossa liderança de volta na próxima temporada. O time sem você é uma barata tonta.
Gabriel assentiu, grato, deixando Lucas seguir seu caminho. Aos poucos, ele sentia que o ar da universidade estava ficando menos denso. Gabriel não tinha recuperado a confiança da pessoa que mais importava no mundo, mas tinha recuperado a verdade. E, para o homem que ele estava tentando se tornar, aquilo era o suficiente por ora.
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O sol das duas da tarde daquela terça-feira não dava trégua no campo três. A poeira subia a cada passada, grudando no suor e transformando o uniforme de treino de Gabriel em uma armadura de terra. Sem a irrigação perfeita do campo principal, correr ali parecia um exercício de sobrevivência.
— Bora, Duarte! Tá achando que isso aqui é o comercial da Nike? Corre, porra! — Cauã gritou da lateral, batendo as palmas das mãos com força.
Cauã era um lateral que tinha o peito cheio de ressentimento por ter passado as últimas temporadas na sombra do time principal. Ver o grande Gabriel Duarte ali, vestindo o colete vermelho dos reservas, era o ápice do seu ano letivo.
Gabriel não respondeu. Ele engoliu o xingamento a seco, deu meia-volta e disparou na corrida de recuperação, os pulmões queimando com o ar seco. O ego antigo teria mandado o Cauã calar a boca e olhar o próprio histórico de banco, mas as palavras de Cláudio ecoavam na sua mente a cada impacto da chuteira no chão: engula cada vaia, cada silêncio.
O treino tático dos reservas era truncado. Em uma disputa de bola na intermediária, Cauã entrou forte demais, o ombro atingindo o peito de Gabriel com uma força desnecessária que o jogou direto no chão batido.
O apito do auxiliar técnico não passou de um sopro preguiçoso. Não havia falta no campo três.
— Levanta, capitão — desdenhou Cauã, passando por ele e cuspindo no chão perto do braço de Gabriel. — Aqui o jogo é para homem, não para modelo de Instagram.
Gabriel apoiou as palmas das mãos na terra, sentindo a ardência de um arranhão no antebraço. Ele fechou os olhos por três segundos, controlando os punhos que queriam se fechar. Quando se levantou, limpou o calção e apenas voltou para a sua posição. O silêncio dele estava deixando Cauã frustrado; o veterano queria a briga, queria o espetáculo, mas Gabriel só entregava trabalho.
Ao final do treino, o restante do grupo se dispersou rapidamente, correndo para o chuveiro antes que a água quente do Bloco de Esportes acabasse. Gabriel ficou para trás, cumprindo a promessa. Ele começou a catar os cones laranjas espalhados pela linha de fundo.
— É… quer ajuda com isso? — uma voz fina e tímida cortou o silêncio do campo.
Gabriel se virou e encontrou Cadu. O calouro era um zagueiro magrelo, de pernas longas e cabelos bagunçados, que tinha entrado na universidade por uma bolsa de cota social e mal conseguia preencher o uniforme oficial. Ele segurava a rede do gol, parecendo incerto se deveria estar ali.
— Se você não se importar de carregar peso… — Gabriel deu um meio sorriso, a voz rouca, estendendo a alça do saco de bolas para o garoto.
Cadu pegou o saco, jogando-o nas costas com um pouco de dificuldade, e começou a caminhar ao lado de Gabriel enquanto recolhiam os últimos cones.
— O Cauã é um idiota — Cadu soltou, baixo, olhando para os lados como se temesse uma emboscada. — Ele tá pegando no seu pé porque sabe que, mesmo sujo de barro e no campo três, você ainda joga o triplo dele.
Gabriel parou por um segundo, olhando para o calouro. Ele viu o brilho de admiração nos olhos do menino, o mesmo brilho que ele costumava ignorar quando estava no topo. Desta vez, aquilo não alimentou seu ego; trouxe uma responsabilidade pesada.
— Não liga para o Cauã, Cadu — disse Gabriel, voltando a caminhar. — Ele tem os motivos dele para estar bravo. Eu dei os motivos para todo mundo aqui estar bravo.
— Eu assisti a todos os seus jogos no ano passado, Gabe — o garoto continuou, o tom subindo de empolgação. — Eu entrei na Central por causa daquela sua jogada ensaiada contra a Federal. Eu queria aprender a fechar a zaga daquele jeito. Quando… quando tudo aconteceu na semana passada, eu achei que você ia meter o pé da faculdade.
Gabriel jogou o último cone dentro do saco de náilon. Ele encarou o calouro magrelo, o garoto que tinha sonhos reais ali dentro, intocados pela futilidade das apostas de vestiário.
— Seria o caminho mais fácil — confessou Gabriel, com uma honestidade que nunca usaria antes. — Mas fugir só ia provar que eu sou o covarde que as pessoas acham que eu sou. Eu errei feio com o time e com uma pessoa incrível. Estar aqui, catando esses cones e aguentando o Cauã, é o mínimo que eu posso fazer para tentar consertar as coisas.
Cadu assentiu devagar, processando as palavras do cara que ele tinha como herói.
— Você vai voltar para o campo principal, não vai? — perguntou o calouro, enquanto caminhavam em direção ao depósito de materiais.
Gabriel olhou para o campo um, do outro lado da cerca de arame farpado, onde os titulares faziam o resfriamento muscular. A distância parecia de quilômetros.
— Eu não sei, Cadu — Gabriel respondeu, amarrando a boca do saco de bolas. — Mas, se eu voltar, vai ser levando você comigo. Trata de comer mais e ganhar massa nessa musculação. A gente vai precisar de uma zaga de verdade se quiser ganhar alguma coisa no ano que vem.
Um sorriso enorme se abriu no rosto do calouro. Gabriel deu um tapa leve nas costas do menino ao entrarem no depósito. Pela primeira vez em dias, o peso nos ombros de Gabriel não parecia apenas feito de culpa; parecia o início de um alicerce. Ele não percebeu, mas, a poucos metros dali, atrás do tronco grosso de uma das mangueiras que cercavam o campo três, um par de olhos castanhos acompanhava cada um de seus movimentos.
Rafaela soltou o ar que nem percebera que prendia, os dedos ainda apertando a alça da mochila com força. Ela viu tudo, desde o impacto brutal do Cauã até o gesto genuíno com o calouro. E, enquanto dava meia-volta para caminhar em direção ao ponto de ônibus, o silêncio do campus pareceu rir do seu maior segredo: sua muralha agora não passava de uma cerquinha de arame farpado — exatamente como aquela que separava o campo três do campo principal. E ela se odiou por isso.
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As semanas seguintes foram uma lição de invisibilidade. No campus, Gabriel era uma sombra. A Rafaela o viu pela primeira vez numa quarta-feira, perto do jardim central. Ela apertou os livros contra o peito, preparando-se mentalmente para mais um pedido de desculpas dramático, uma súplica ou um bloqueio de caminho.
Mas Gabriel fez algo que a desarmou completamente: ele não parou.
Ele a viu, sim. Os olhos dele encontraram os dela por um microssegundo, mas não houve o brilho arrogante de antes. Ele apenas inclinou a cabeça, um cumprimento silencioso e respeitoso, e continuou caminhando em direção ao bloco de educação física. Rafaela ficou estática. Ele parecia menor, mas mais sólido. O sol do campo três tinha queimado seu pescoço, e a mochila pesada de livros indicava que ele não estava apenas "passando o tempo" nas aulas.
— Ele não veio falar com você? — Letícia perguntou, aparecendo ao lado dela, confusa.
— Não — sussurrou Rafaela, sentindo um vazio estranho onde deveria estar a irritação. — Ele só... passou.
A estratégia de Gabriel era o "jogo longo". Ele sabia que Rafaela estava fazendo turnos extras na livraria para cobrir os gastos com o aluguel. Naquela noite, uma entrega de café chegou para ela. Era o blend de avelã que ela amava, com um muffin de mirtilo. Nele havia apenas um post-it amarelo com uma caligrafia que ela reconheceria em qualquer lugar: "Para ajudar no turno da noite. Sei que você está cansada.” Rafaela olhou para a porta da livraria, esperando vê-lo espiando pela vitrine. Mas, depois que o entregador saiu, a rua ficou deserta. Gabriel não queria os louros do gesto; ele queria apenas que ela estivesse bem.
Ela tomou um gole do café, sentindo o calor descer pela garganta, e percebeu que o silêncio de Gabriel era muito mais ensurdecedor do que qualquer uma de suas promessas vazias. Ele estava mudando a geometria do relacionamento deles, um passo silencioso de cada vez.
Na sexta-feira, a biblioteca estava mergulhada naquele silêncio que Rafaela tanto amava. Ela estava escondida entre as estantes de Fisiologia Vegetal, buscando referências para um seminário sobre fotossíntese em plantas xerófitas, quando sentiu uma presença no corredor ao lado.
Por um momento, ela pensou em ignorar, mas o perfume era inconfundível. Não era o cheiro de suor do treino, nem o aroma forte das festas; era o cheiro limpo de sabonete e algo que lembrava madeira recém-cortada.
Gabriel estava lá, parado diante da estante de Cinesiologia e Biomecânica. Ele não a viu de imediato. Estava concentrado, passando o dedo pelas lombadas dos livros até puxar um volume grosso de capa dura. Ele não parecia o atleta popular tentando "pagar de intelectual" para impressionar alguém. Ele parecia exausto, com os ombros ligeiramente caídos e uma caneta presa atrás da orelha.
Ao se virar para ir em direção às mesas de estudo, seus olhos encontraram os dela.
Rafaela enrijeceu. Ela esperava que ele abrisse aquele sorriso de lado, que soltasse um "Oi, nerdzinha" ou que tentasse, pela milésima vez, justificar o injustificável. Ela já tinha as garras prontas.
Mas Gabriel apenas estancou. A surpresa nos olhos dele foi rapidamente substituída por uma melancolia profunda. Ele não sorriu. Ele apenas acenou levemente com a cabeça, um gesto de puro respeito.
— Oi, Rafaela — ele disse, num tom tão baixo que mal perturbou o silêncio do ambiente.
— Gabriel — ela respondeu, curta, mantendo o livro que segurava contra o peito como um escudo.
Houve um silêncio denso entre eles. Gabriel olhou para o livro nas mãos dela e depois para o chão. Ele parecia estar pesando cada palavra, como se falasse sobre uma mina terrestre.
— Eu... — ele começou, hesitando. — Eu achei um marcador de página de couro dentro do meu caderno esses dias. Tem as suas iniciais gravadas. Acho que você esqueceu na minha casa.
Ele puxou o pequeno objeto do bolso e estendeu a mão. Manteve a distância de um braço, esperando que ela fizesse o movimento.
Rafaela pegou o marcador, seus dedos roçando os dele por um milésimo de segundo. Ela sentiu o choque térmico, a mão dele estava fria.
— Obrigada — ela murmurou, guardando o objeto.
Gabriel pigarreou, preparando-se para sair. Ele deu um passo para trás, mas parou.
— Eu vou te deixar em paz. — Ele a olhou nos olhos, e a honestidade ali era quase dolorosa de encarar. — Sei que você gosta de vir aqui para fugir de gente como eu. Prometo que não vou mais atrapalhar sua leitura.
Ele não esperou uma resposta. Não deu brecha para um "está tudo bem", porque sabia que não estava. Gabriel apenas deu as costas e caminhou para uma mesa no fundo da biblioteca, a mais isolada de todas, e abriu seus livros.
Rafaela ficou parada no corredor, segurando o marcador de página contra o coração. Ela estava preparada para lutar contra o Gabriel arrogante, contra o Gabriel galanteador, contra o Gabriel persistente. Mas ela não sabia como lutar contra aquele Gabriel silencioso, que parecia ter finalmente entendido o tamanho do vazio que deixou.
Ela sentiu algo estranho. Não era perdão. Ainda estava longe disso. Era apenas o reconhecimento de que o estranho que lhe devia mil reais de dignidade estava começando a pagar a dívida da única forma que ela aceitaria: com silêncio e respeito.
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