AMOR EM CAMPO

54 Capítulo 56: Intervenção


Notas iniciais
Antes de começarem o capítulo, eu queria me desculpar por não ter postado ontem; a autora que vos fala estava xoxa, capenga, manca e anêmica. 🤒 Mas estou de volta e, sim… o Gabriel finalmente vai começar a sentir o peso real das escolhas dele. 👀 E talvez vocês passem um pouquinho de raiva hoje. Ou pena. Ou os dois ao mesmo tempo. Boa leitura!

O campo da Universidade Central sempre foi o lugar de barulho, apitos e adrenalina. Mas, naquela tarde, o silêncio era tão denso que parecia que o gramado estava sob um feitiço de luto.

Gabriel estava no centro do campo, mas era como se não estivesse lá. Ele executava os passes de forma mecânica, os olhos fixos no chão, sem a energia vibrante que costumava contagiar o time. Não havia gritos de incentivo, não havia correções táticas. Era um corpo presente, mas uma alma ausente.

Do banco de reservas, Diego e Daniel observavam a cena com o estômago embrulhado.

— Ele não acertou um cruzamento até agora — sussurrou Daniel, girando uma bola entre as mãos.

Diego suspirou, cruzando os braços. A culpa que ele sentia era um peso constante.

— Você acha que eu deveria tentar falar com a Rafa? Explicar para ela que a ideia da aposta foi minha, que ele realmente gosta dela…

— Você pode tentar — Daniel rebateu, mas sua voz não tinha convicção. — Mas a verdade é que nada do que ninguém disser para ela agora vai adiantar. Ela queria ter ouvido a verdade antes e da boca dele.

Do outro lado do campo, Lucas treinava isolado com os goleiros. Ele e Gabriel não trocavam uma palavra — nem mesmo um olhar — desde o embate no vestiário. A fenda no núcleo do time era visível. Os calouros estavam perdidos, os veteranos estavam tensos. O entrosamento, que era a maior arma da Central, tinha evaporado.

O técnico apitou, encerrando o coletivo mais desastroso da temporada. Gabriel nem sequer esperou o feedback. Pegou a garrafa de água e caminhou em direção à saída, mas Daniel o interceptou.

— Gabe, espera. A gente precisa conversar sobre o jogo de sábado e...

— Não tem o que conversar, Dan — Gabriel o cortou, a voz sem qualquer emoção. — Eu vou fazer o meu trabalho. Só isso.

— O seu trabalho é liderar esse time, cara! — Diego se aproximou, a frustração transbordando. — Você é o capitão. O time está se despedaçando porque você está agindo como um zumbi. A gente sabe que você está sofrendo, mas…

Ele passou direto pelos dois sem esperar que Diego concluísse o pensamento; Diego olhou para o amigo se afastando e depois para Daniel.

— A gente vai levar um sacode no sábado se ele continuar assim.

⚽⚽⚽

A quarta-feira foi regada a doses de uísque barato em um bar longe do campus. Na quinta, o copo de uísque foi substituído por cerveja morna em uma festa de república da qual ele nem lembrava o nome do anfitrião.

Gabriel queria silenciar a voz da Rafaela, que ricocheteava em sua mente como uma sentença a cada vez que ele fechava os olhos. “O que esse amor valia exatamente?” “No fim das contas... que diferença real existe entre você e o Guilherme?” "Um estranho que me deve mil reais de dignidade."

Beber era a única forma de fazer o barulho parar.

Na manhã de sexta-feira, o despertador tocou às seis. Era o último treino tático antes da semifinal. Gabriel esticou o braço, derrubando uma garrafa vazia de água mineral. A cabeça latejava com a força de uma britadeira. O quarto cheirava a álcool e suor. Ele olhou para a chuteira no canto do quarto e, pela primeira vez na vida, sentiu náuseas só de olhar para o couro sintético. Ele desligou o aparelho e voltou a afundar o rosto no travesseiro.

Quando finalmente pisou no campo, horas depois, o treino já estava na metade do caminho. Ele carregava o peso de uma ressaca monumental e a sombra de quem não dormia direito há dias. Diego e Daniel o olharam com uma mistura de pena e medo.

— O velho está possesso, Gabe — sussurrou Daniel, indicando com a cabeça para o vestiário.

Antes que Gabriel pudesse dar qualquer desculpa, a porta de metal do vestiário se abriu com um estrondo. O técnico Moura, um homem que tratava o futebol como religião e o time como sua família, caminhou até o centro do campo. O silêncio que se seguiu foi cortante.

— Fora daqui — disse o Moura, com calma.

Gabriel levantou o olhar, confuso.

— O quê?

— Você me ouviu. Pega as suas coisas e sai. Agora.

— Professor, eu tive um problema pessoal, eu posso explicar...

— Problema pessoal? — Moura deu um passo à frente, o dedo em riste. — Você acha que é o único homem nesta universidade com problemas? O time está dando o sangue, enquanto o capitão deles se afoga em destilado. Você está cheirando a botequim de esquina, Gabriel!

— Eu vou estar pronto para amanhã — Gabriel insistiu, a voz embargada. — Eu nunca falhei em um jogo.

— Você já falhou, rapaz! Você falhou no momento em que deixou o seu ego destruir a moral desse time. Eu não escalo nomes, eu escalo atletas. E o que eu estou vendo na minha frente não é o camisa dez dos Falcões. É um moleque mimado que não aguenta as consequências das próprias escolhas.

Moura apontou para a saída do campo.

— Você está suspenso até segunda ordem. Diego assume a braçadeira. Se pisar no meu campo com esse cheiro de novo, você está fora permanentemente.

Gabriel sentiu o chão sumir. O futebol era a única coisa que ainda lhe dava um senso de valor. Ver o técnico Moreira, o homem que ele via como um mentor, olhá-lo com aquele desprezo foi o golpe final.

Ele pegou sua mochila em silêncio. Não olhou para os amigos. Não olhou para o Lucas, que assistia a tudo com um brilho de satisfação que logo se apagou ao ver o estado deplorável do antigo ídolo.

Gabriel saiu do ginásio sob o sol do meio-dia, sentindo que, pela primeira vez na vida, ele não tinha para onde ir.

⚽⚽⚽

Naquela noite, ele foi para outra festa. Agora, além da voz de Rafaela, precisava apagar o olhar de desprezo do Moura. Mas, acima de tudo, ele bebia para esquecer que, quando o sol nascesse, seus companheiros estariam no gramado lutando pelo campeonato. Enquanto isso, ele estaria assistindo a tudo da arquibancada. O ano inteiro de suor e estratégia jogados fora porque ele resolveu ser um moleque.

Sem o futebol, ele não sabia quem era. O uniforme dos Falcões era sua armadura; sem ele, Gabriel Duarte era apenas um corpo oco, exposto e vulnerável.

A música pulsava, as luzes eram flashes de dor. Ele bebia mecanicamente, sentindo o corpo pesar enquanto a mente tentava flutuar.

A garrafa de vodka já não pesava tanto na mão. Era o corpo dele que pesava. A cabeça rodava. Os olhos mal fixavam alguma coisa por mais de dois segundos.

Brunna estava lá, como sempre. Bonita, solta, sorridente. Mas naquela noite não dançava. Observava. De longe. Atenta. Gabriel, jogado num canto do sofá, era só a sombra do cara confiante que ela conhecera. E, por mais que houvesse algo de lamentável naquela imagem, havia também uma estranha vulnerabilidade que a atraía como um ímã.

Ele não vai lembrar de nada amanhã mesmo, pensou. Talvez ele só precise de alguém hoje… mesmo que não saiba disso.

— Onde você vai? — Jennifer perguntou quando viu a amiga se afastar.

— Vou ali oferecer meu ombro amigo ao Gabriel, coitado. O cara está mal — ela falou enquanto conferia o batom no reflexo do celular.

— Ele tá um lixo. — Jennifer constatou.

Brunna viu Gabriel cambalear ao tentar levantar, largando o copo meio cheio no chão e levando a mão à testa como se quisesse parar o mundo de girar, soube que era sua chance.

— Essa é minha deixa.

Brunna apareceu no seu campo de visão. Exalava um perfume doce que, por um segundo, a neblina do álcool confundiu com o de Rafaela. Ao vê-lo cambalear, ela se aproximou, envolvendo a cintura dele com o braço.

— Ei… — a voz dela era melosa. — Você não devia beber assim, campeão. Vem, eu te ajudo.

Gabriel sorriu, um gesto torto e dolorido ao ouvir o apelido pelo qual Rafaela costumava chamá-lo. Ele se apoiou em Brunna, fechando os olhos. O toque suave no seu rosto fez seu coração dar um solavanco.

— É mesmo você? — murmurou, os olhos vidrados nela. — Você está mesmo aqui…?

— Tô, gatinho — Brunna respondeu, passando o braço dele pelos ombros e ajudando-o a se levantar. Ele se apoiou nela como quem se rende.

Os dedos trêmulos de Gabriel roçaram o rosto dela, e o toque foi tão leve que mal parecia real.

— Rafaela… — sussurrou.

O nome saiu partido. Uma prece. Uma confissão. Um lamento.

A fantasia se desfez ali. E, por um instante, Brunna ficou estática, entre o impulso de se afastar e o desejo de continuar fingindo.

Gabriel aproximou o rosto, devagar, os olhos meio fechados. Os lábios dele estavam a centímetros dos seus. O hálito quente de álcool e de dor. Brunna sorriu vitoriosa, sentindo o próprio coração acelerar, e inclinou-se para beijá-lo. Mas, no milissegundo em que os lábios dela roçariam os dele, o cheiro do perfume dela — baunilha forte, nada parecido com a lavanda suave da Rafaela — atingiu seu olfato como um balde de água gelada.

A lucidez veio em um clarão violento e amargo. Gabriel abriu os olhos e, mesmo com a visão turva, enxergou os traços de Brunna. Ele se afastou bruscamente, quase caindo para trás, empurrando as mãos dela para longe de si.

— Não — ele disse, a voz subindo de tom, rouca de ódio e nojo de si mesmo. — Você não é ela.

— Gabriel, pare com isso, você está mal... — Brunna tentou se aproximar de novo, mas ele levantou a mão, cortando o avanço dela.

— Chega, Brunna! — ele se firmou, as pernas trêmulas, mas o olhar fixo. — Eu já fiz merda o suficiente para uma vida inteira. Eu não vou transformar a minha dor em mais uma das suas diversões. Sai de perto de mim. Vai embora.

Brunna congelou, o rosto corando de humilhação enquanto algumas pessoas ao redor começavam a olhar. Antes que ela dissesse qualquer outra palavra, Gabriel saiu cambaleando em direção à saída.

Ele atravessou a porta da festa, sentindo o ar frio da noite bater no rosto suado. Ele estava suspenso. Estava sozinho. Estava bêbado. Mas ele não tinha deixado que o "moleque mimado" vencesse.

— Estraguei tudo… tudo… — murmurou para as estrelas, enquanto começava a longa caminhada de volta para casa, sentindo que cada passo era um prego no caixão do homem que ele costumava ser.

⚽⚽⚽

Gabriel estava largado na cama, ainda com a roupa da noite anterior, a cabeça latejava e a garganta parecia feita de areia. Luz demais, barulho demais, até o próprio silêncio parecia gritar.

Foi quando a porta se abriu com um estrondo.

— Beleza, acabou a palhaçada. — Daniel entrou primeiro, a cara fechada. Diego veio logo atrás, com o mesmo olhar de poucos amigos, abrindo as cortinas com força.

Gabriel gemeu, cobrindo os olhos com o antebraço. Estava péssimo por dentro e por fora.

— Cês podem não gritar? — murmurou, a voz rouca.

— Não tô gritando ainda. Mas tô prestes. — Daniel cruzou os braços, encarando o amigo como se não o reconhecesse. — O que tá acontecendo com você, cara?

Gabriel desviou o olhar, apertando as têmporas.

— Tô bem. Só bebi demais. Vai passar.

— Não estamos nos referindo somente a ontem, Gabriel. — Diego se aproximou, jogando uma garrafa de água no colo dele. — Você tem faltado às aulas, perdeu entrega de trabalho. Perdeu os treinos. A semifinal é hoje e você não vai estar nem no banco… Tá se sabotando, velho.

Gabriel fechou os olhos com força.

— Isso é a porra de uma intervenção?

— Intervenção. Esculacho, chame como quiser. — Daniel se sentou na ponta da cama, o olhar mais sereno, porém firme. — A gente entende que você tá mal, Gabriel. De verdade. A Rafaela fodeu com a tua cabeça. Mas não é assim que se lida com isso.

— Eu já estraguei tudo. Com a Rafa, com o time — Gabriel falou num tom baixo, amargo. — Nada do que eu faça agora vai mudar isso.

— E vai perder a si mesmo também? Vai perder o semestre, a bolsa, a cabeça? — Diego rebateu, exaltado. — Porra, Gabriel, você tá afundando e puxando tudo junto!

— Somos seus amigos, mas ninguém vai ficar vendo você se autodestruir calado — Daniel disse, mais brando. — A gente tentou te dar espaço. Tentou esperar você voltar. Mas não dá mais.

Gabriel encarou os dois, os olhos vermelhos, e algo dentro dele tremeu. Não era raiva. Era vergonha.

Vergonha de estar naquele ponto. Vergonha de ter decepcionado não só Rafaela, mas também quem ainda acreditava nele.

— Eu… não sei como sair disso — confessou, a voz embargada.

Silêncio por um instante. Então Diego puxou uma cadeira e se sentou à frente dele, mais sério do que nunca.

— Começa levantando dessa cama. Indo para as aulas, para os treinos. A gente te puxa, se for preciso. Mas você tem que querer sair.

Daniel completou:

— E… se você ainda ama a Rafaela, e eu sei que ama, então se levanta por ela. Mas, principalmente, por você.

Gabriel olhou para os dois. E, desta vez, parecia presente.

Ainda quebrado, mas acordando da própria queda.

— Tá — murmurou, enxugando os olhos com as costas da mão. — Tá. Eu vou tentar.

Daniel estendeu a mão. Diego, logo em seguida. Gabriel a pegou, e os dois o puxaram para ficar de pé.

Cambaleante. Mas de pé.

— É isso — disse Diego, dando um tapa no ombro dele. — Agora vai tomar um banho que você tá fedendo a cachaça e a derrota.

Gabriel riu, fraco, mas verdadeiro. Era um começo.

Após Daniel e Diego saírem para se arrumarem para o jogo, o silêncio voltou a dominar o quarto. Gabriel caminhou até o banheiro como um autômato. Enquanto o som do chuveiro ligando ecoava no corredor, ele deixou que o jato gelado atingisse sua nuca com a força de uma punição.

Ele arquejou, as mãos apoiadas contra os azulejos frios, enquanto o contraste da água gelada com a febre da ressaca fazia seus músculos tremerem. O cheiro de álcool e fumaça parecia estar impregnado na sua alma, e ele esfregou a pele até deixá-la avermelhada, como se pudesse arrancar a culpa junto com a sujeira.

Ao sair, ele encarou o espelho embaçado e passou a mão para limpar uma fresta. O homem que olhava de volta tinha olheiras profundas e uma expressão de frustração que ele nunca imaginou ver em si mesmo. Onde estava o cara que achava que o mundo era um jogo fácil? Ele não se reconhecia.

Com a toalha na cintura, ele se sentou na beira da cama e pegou o celular. A tela brilhou, exibindo dezenas de notificações de grupos e chamadas perdidas. Mas uma notificação específica, vinda de um número que ele não esperava, fez seu coração falhar uma batida.

Micaela.

Ele hesitou. A irmã de Rafaela era a última pessoa que ele imaginou que o procuraria depois do escândalo da aposta. O ícone de um áudio de trinta segundos parecia uma granada pronta para explodir em suas mãos. Com os dedos trêmulos, ele apertou o play.

A voz de Micaela surgiu, baixa e carregada de uma decepção que doía mais do que os gritos do técnico Moura.

"Gabriel... a Rafa me contou tudo. Cada detalhe sujo dessa aposta. E eu deveria te odiar, juro que deveria. Mas eu estou aqui olhando para as fotos que tirei de vocês no feriado... e eu me recuso a acreditar que todos aqueles olhares apaixonados que eu capturei com a minha câmera eram mentira. Eu conheço lentes, Gabriel, e lentes não mentem. O que eu vi ali era real, mesmo que você tenha sido idiota o suficiente para colocar um preço nisso. Não deixe essa versão babaca de você vencer o cara que eu vi através da minha objetiva. Se aquilo foi verdade, prove, mas prove para você mesmo antes de tentar provar para ela.”

O silêncio que se seguiu ao término do áudio foi ensurdecedor. Gabriel deixou o celular cair sobre o colchão, cobrindo o rosto com as mãos. As palavras dela — lentes não mentem — ecoavam em sua mente, perfurando a neblina da ressaca.

É claro que foi real. E era aquele homem, o homem das fotos de Micaela, que ele precisava encontrar antes que o resto de sua vida desaparecesse pelo ralo.

Não respondeu. Não havia o que dizer. Ele apenas se levantou e começou a se vestir.

No andar de baixo, o clima era de contagem regressiva. Daniel já estava conferindo a bolsa do jogo quando viu Diego descer as escadas com o agasalho do time e segurando as chaves do carro com firmeza.

Daniel franziu o cenho, parando no meio da sala.

— Onde você vai, Diego? O jogo é daqui a pouco. Não vai me inventar de chegar atrasado e o Moura te suspender também. A gente já está no buraco sem o Gabriel; se você rodar, acabou a semifinal.

Diego parou diante da porta, o rosto rígido, sem o habitual tom de brincadeira.

— Eu vou até a casa da Rafa.

Daniel estacou, os olhos arregalados.

— Agora? Você enlouqueceu? Ela vai fechar a porta na sua cara, ou pior.

— Talvez — Diego deu de ombros, abrindo a porta. — Mas eu sou o culpado dessa merda toda tanto quanto ele. Eu não consigo entrar naquele campo hoje sabendo que o meu melhor amigo está morrendo por dentro e que a garota que ele ama pensa que ele é um lixo por minha causa. Me cobre com o Moura. Eu chego a tempo para o aquecimento.

Vinte minutos depois, Diego estava parado em frente à casa de Rafaela. O motor do carro ainda roncava baixo, mas ele não conseguia tirar as mãos do volante. Seus dedos batucavam nervosamente no couro.

Ele olhou para a fachada simples da casa. Sentia um peso no peito que nunca sentira antes. Diego sempre foi o "engraçado", o cara das festas e das apostas bobas, mas agora o jogo tinha ficado real demais. Ele pensou em como deu a ideia da aposta, nas risadas que deram sobre a "nerd esquisita". Cada lembrança agora parecia uma acusação.

Ele não estava fazendo aquilo pelo Gabriel, ou, pelo menos, não só por ele. Estava fazendo por si mesmo. Precisava saber se ainda existia um pingo de decência nele depois de ter ajudado a estilhaçar a dignidade de alguém que nunca tinha lhe feito nada.

— Vamos lá, Diego. Seja homem uma vez na vida — murmurou para si mesmo.

Ele desligou o motor, respirou fundo e desceu do carro. O som da porta batendo pareceu um trovão no silêncio da rua. Caminhou até o portão, cada passo pesando como se estivesse carregando o time inteiro nas costas. Ele estendeu a mão e, antes que pudesse desistir, tocou a campainha.

⚽⚽⚽

Rafaela estava terminando de se arrumar para o trabalho. Ela havia aceitado um turno extra de dez horas. Queria que seus olhos ardessem de tanto ler etiquetas e organizar prateleiras, qualquer coisa que impedisse sua mente de viajar até um certo estádio hoje.

A campainha tocou; ela esperava que fosse a Letícia com mais sorvete ou talvez alguma entrega por engano, mas, ao abrir a porta, ela estancou, a mão congelada na maçaneta.

Rafaela o mapeou de cima a baixo em um segundo, sentindo uma onda de náusea subir pela garganta. Diego estava parado ali, com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco do time. O cabelo escuro estava perfeitamente cortado, o maxilar era angulado e os olhos escuros, que geralmente brilhavam com alguma piada interna, agora pareciam opacos, fixos nela com uma hesitação que ela nunca vira antes.

Diego parecia visivelmente desconfortável, pigarreando enquanto tentava sustentar o olhar gélido dela.

— Rafa... oi. Posso falar com você? É rápido, eu juro.

Rafaela segurou a maçaneta com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos. O rosto dele, que antes ela via apenas como o do "amigo engraçado do Gabriel", agora era apenas a face da traição.

— Você tem exatamente trinta segundos antes de eu fechar essa porta na sua cara, Diego.

— Eu sei que sou a última pessoa que você quer ver agora. E, sinceramente, você tem todo o direito de estar brava comigo. Mas eu… vim aqui porque precisava pedir desculpas. E também porque… o Gabriel não merece ser pintado como um monstro.

Rafaela arqueou uma sobrancelha, o sarcasmo escorrendo pela voz.

— Ah, não? E como eu deveria pintá-lo? Como um anjinho inocente, com direito a asinhas e tudo?

Diego apertou os lábios, sem conseguir esconder o incômodo. Mas manteve o tom sereno.

— Eu não estou dizendo que ele é inocente. Longe disso. O que ele fez… o que fizemos foi errado. Muito errado. Mas o Gabriel não é um cara cruel, Rafa. Ele só foi… estúpido. E orgulhoso demais para admitir que estava se apaixonando de verdade; quando se deu conta, já era tarde.

Rafaela deu uma risada seca.

— Apaixonado? Então é assim que vocês chamam brincar com os sentimentos de alguém? De usar uma pessoa para provar um ponto idiota entre amigos?

— Eu não vim aqui justificar o que ele fez. Vim porque… — ele disse, dando um passo à frente, mas parando ao ver o recuo dela. — O Gabriel está se destruindo, Rafa. Ele não come, não dorme, está faltando aos treinos... o técnico o suspendeu por tempo indeterminado. Ele está no fundo do poço.

Rafaela deu um passo à frente, cruzando os braços. A "muralha" que ela erguera na faculdade parecia ainda mais alta ali, no seu território.

— E você veio aqui fazer o quê? Pedir para eu jogar uma corda? Ou veio me oferecer um reembolso dos mil reais para eu voltar a sorrir para ele?

Diego murchou.

— Ele nunca aceitou esse dinheiro, Rafa. A aposta morreu assim que a gente percebeu que ele estava afim…

— Escuta bem — ela o interrompeu. — Você diz que ele está no "fundo do poço". Mas sabe onde eu estava enquanto vocês davam risada no vestiário? Eu estava me entregando a um homem que eu achava que me amava. Eu estava confiando a ele partes de mim que eu nunca tinha mostrado a ninguém. O "fundo do poço" do Gabriel é o ego ferido. O meu é a dignidade roubada.

— Rafa, a gente não pensou...

— Exatamente. Vocês não pensaram. Porque, para vocês, eu não era uma pessoa. Eu era a "nerd esquisita" que valia mil reais. — Ela começou a fechar a porta devagar. — Se você quer mesmo ajudar o seu amigo, Diego, para de tentar me convencer de que ele é uma vítima. Ensina ele a ser homem para lidar com as merdas que ele fez. E nunca mais apareça na minha porta.

O baque da porta fechando ecoou. Diego ficou parado ali, sentindo o peso de cada palavra. Ele tinha ido lá para "salvar" o amigo, mas saiu percebendo que ele não era apenas o arquiteto da aposta, mas também da destruição de algo que era importante para alguém.

Por alguns segundos, Rafaela continuou parada ali, com a mão ainda apoiada na maçaneta, como se o corpo não tivesse entendido que a conversa tinha terminado. A respiração vinha curta, irregular, e o silêncio da casa parecia alto demais depois da tensão.

Ela soltou a maçaneta devagar.

Deu dois passos para trás, sem tirar os olhos da porta, como se ainda esperasse ouvir a voz dele do outro lado. Não ouviu nada. Apenas o barulho distante de passos e, depois, silêncio outra vez.

Rafaela levou a mão ao rosto, pressionando os dedos contra a testa.

— Ótimo… — murmurou para si mesma, a voz falhando. — Ótimo, Rafaela. Perfeito.

Virou-se e caminhou até o meio da sala, mas parou antes de chegar ao sofá. O ar parecia pesado demais, árduo de puxar para dentro dos pulmões.

As palavras de Diego voltaram sem pedir licença.

O Gabriel está se destruindo…

Ele não come, não dorme…

Ele está no fundo do poço…

Rafaela fechou os olhos com força.

— Não… — sussurrou, balançando a cabeça. — Isso não é problema meu. Ele escolheu isso… — falou em voz baixa, tentando convencer a si mesma. — Ele escolheu.

O peito apertou de repente, forte, inesperado.

Rafaela levou a mão até o estômago, como se estivesse tentando impedir alguma coisa de subir pela garganta.

Por alguns segundos, ela ficou parada no meio da sala, imóvel, lutando contra a vontade absurda de abrir a porta de novo e chamar Diego de volta.

Não chamou.

Em vez disso, foi até o sofá e se deixou cair ali, sem cuidado, o corpo finalmente cedendo ao cansaço que vinha acumulando desde o dia anterior.

Ela puxou a almofada contra o peito e ficou olhando para o nada.

A muralha ainda estava de pé.

Mas agora havia uma rachadura.


Notas finais
E aí… depois desse capítulo, vocês ainda estão no time “faz ele sofrer mais” ou a autora oficialmente conseguiu despertar pena do Gabriel? 👀 Porque vou confessar uma coisa: até eu fiquei com um tiquinho de dó escrevendo algumas cenas. Mas a Rafaela? Continua certíssima.