AMOR EM CAMPO
52 Capítulo 54: Quanto Eu Valia?
Notas iniciais

A entrada da UC nunca pareceu tão intimidadora. Para Rafaela, cruzar o portão principal foi como caminhar em direção à forca. Ela tentava manter o queixo erguido e os olhos focados no prédio de Ciências Biológicas, mas era impossível ignorar a mudança no ar.
Onde antes havia o anonimato confortável de uma aluna comum, agora havia um rastro de cabeças se virando. Grupos de estudantes interrompiam conversas assim que ela passava, apenas para retomá-las em sussurros apressados e risadinhas abafadas assim que ela lhes dava as costas.
— Olha lá, é a "nerd" da aposta do Duarte — uma voz feminina murmurou perto do bandejão. — Brunna disse que o valor foi alto…
Quando Rafaeal acordou pela manhã e pegou o celular, viu que a fofoca sobre a aposta já tinha corrido os grupos de WhatsApp da UC mais rápido que qualquer notícia oficial.
Ela apertou a alça da mochila com tanta força que as costuras estalaram. O estômago deu um nó. Ela não era mais a Rafaela, a estudante dedicada; ou a namorada do Gabriel, agora ela era "a nerd da aposta". O rótulo queimava como ferro em brasa. Ela apressou o passo, o rosto ardendo de vergonha, sentindo-se nua sob os olhares de centenas de pessoas que agora conheciam sua intimidade por meio de um filtro de deboche.
Do outro lado, Gabriel sentia o mesmo peso. Ao caminhar em direção ao Bloco de Educação Física, ele notou os olhares dos outros alunos. Não eram olhares de admiração ou cumplicidade masculina. Eram olhares de divertimento malicioso. Alguns batiam palmas irônicas quando ele passava; outros faziam o sinal de "dinheiro" com os dedos.
— E aí, Gabe! Já recebeu o PIX ou o Diego deu calote? — gritou um veterano da Engenharia, rindo com os amigos.
Gabriel estancou, os punhos cerrados ao lado do corpo. O mundo que ele dominava agora parecia uma arena de gladiadores, em que ele era o palhaço. Ele viu Brunna de longe, encostada em uma pilastra, cercada por suas seguidoras. Ela não disse nada. Apenas acenou com um tchauzinho, um sorriso de vitória desenhado nos lábios perfeitamente pintados.
Foi ali, vendo o brilho de crueldade no olhar de Brunna e a humilhação pública da mulher que ele amava, que o desespero de Gabriel atingiu o ápice. Ele não pensou em mais nada. Não pensou em tática, em dignidade ou no que os outros diriam. Ele precisava achar a Rafaela.
⚽⚽⚽
O corredor já fervilhava com o barulho de vozes e o movimento dos alunos, mas, para ele, tudo era um borrão. Precisava vê-la. Precisava dizer tudo o que guardava no peito antes que o silêncio dela se tornasse definitivo.
Seus olhos a encontraram perto do auditório. Rafaela caminhava como se estivesse fugindo de um incêndio. Os ombros estavam rígidos, a alça da mochila escorregava descuidadamente pelo braço e o olhar permanecia fixo no chão, alheio ao mundo. Ela parecia frágil como vidro, e ele, o peso bruto prestes a estilhaçá-la novamente.
— Rafaela! — chamou, a voz rouca cortando o burburinho do corredor.
Ela não parou. Pelo contrário, apressou o passo, tratando a voz dele como um ruído incômodo. Gabriel a alcançou, sentindo o ar denso ao redor deles, carregado com o que já fora dito e o silêncio sufocante do que ainda restava. Notou alguns rostos se virando na direção deles.
— Eu já não te pedi pra ficar longe de mim? — disse ela, sem diminuir o ritmo, a voz firme, mas com uma nota trêmula que ela não conseguia esconder.
Ele buscou fôlego, a garganta seca.
— Pediu. E eu tentei… juro que tentei. Mas não dá. Não consigo fingir que não me importo.
Ela parou abruptamente. O movimento foi tão súbito que Gabriel quase colidiu com ela. Rafaela se virou devagar, como se cada centímetro exigisse um esforço sobre-humano. Quando os olhos dela encontraram os dele, a frieza cortante o atingiu como uma bofetada.
Gabriel olhou ao redor, desconfortável. Alunos desaceleravam o passo, fingindo mexer no celular para ouvir a conversa. Ele queria um lugar calmo, uma sala vazia, qualquer refúgio onde pudesse implorar sem plateia, mas o olhar de Rafaela dizia que ele não teria esse luxo. Seria ali, sob a luz fria do corredor, ou em lugar nenhum.
— Eu não sei o que você quer, Gabriel — disse ela, com uma calma que doía mais do que qualquer grito. — Mas agora não é a hora.
Gabriel sentiu o golpe. A exaustão dela o desmontava.
— Por favor, amor… só me escuta por cinco minutos. É tudo o que eu peço.
Rafaela cruzou os braços com força, um escudo instintivo.
— Amor? — repetiu, soltando uma risada seca. — Agora fiquei curiosa, Gabriel. Se tudo começou como uma aposta, quanto esse amor valia exatamente?
Gabriel sentiu o estômago revirar. Ele percebeu o brilho de curiosidade maliciosa nos olhos de um grupo de calouros por perto.
— Quanto o Diego te pagou por me conquistar? — ela insistiu, a voz subindo de tom, desafiando o constrangimento dele.
Ele engoliu em seco, desviando o olhar para o chão de granito. O nó na garganta apertava.
— Responde, Gabriel. Quanto eu valia?
— Isso não importa mais… — ele sussurrou, sentindo o peso de mil olhos sobre suas costas.
— Importa pra mim! — rebateu ela, encurtando a distância entre eles com uma agressividade que o fez recuar.
Ele fechou os olhos. O corredor parecia ter ficado em silêncio absoluto, todos esperando a queda eminente do capitão dos Falcões.
— Mil reais — admitiu, enfim. A confissão saiu pesada, suja. — O Diego apostou que eu não conseguiria te conquistar. Se eu conseguisse… ele me pagaria mil reais, mas eu nunca aceitei esse dinheiro, Rafa, eu juro por tudo o que é mais sagrado!
Rafaela balançou a cabeça, soltando um suspiro incrédulo que foi ouvido por quem estava a metros dali.
— Mil reais? Nossa… — ela repetiu, a voz subindo um tom, ignorando completamente os espectadores que agora esticavam o pescoço para não perder uma sílaba. — Agora me diz: você ganhou a mais por ter transado comigo ou já estava incluso no pacote? Teve um bônus por eu ser virgem?
O corredor pareceu perder o oxigênio. O rosto de Gabriel, antes ruborizado de vergonha, ficou subitamente pálido. Ouvir a palavra "virgem" saindo da boca dela daquele jeito — como se fosse um item em uma lista de compras, uma mercadoria leiloada no vestiário — destruiu o que restava da sua pose.
Ele lembrou de cada segundo daquela noite. Da delicadeza, da entrega, do modo como ele sentiu que estava cuidando de algo precioso. Ver a Rafaela jogando aquela lembrança na lama, transformando o que ele considerava sagrado em uma transação comercial, era o pior tipo de tortura.
— Não, Rafa, não fala assim... Pelo amor de Deus — ele suplicou, a voz saindo como um sussurro quebrado, os olhos marejados de uma verdade que ela se recusava a ver. — Você sabe que não foi assim. Você estava lá... você sentiu...
— O que eu senti foi uma performance bem ensaiada, Gabriel! — ela o cortou, os olhos faiscando com um ódio que ele nunca imaginou ver nela. — Quanto tempo você treinou aquele olhar de adoração no espelho, hein? Valeu o bônus? Ou você precisou mandar uma foto da mancha de sangue no lençol para provar para o Diego que o serviço foi completo e garantir o pagamento?
Gabriel recuou um passo, as mãos tremendo. Ele queria gritar que nunca deixaria ninguém encostar um dedo naquela memória, que o amigo nem sabia detalhes daquela noite, mas as palavras morriam na sua garganta. Ele não tinha o direito de defender a pureza de algo que ele mesmo tinha colocado em jogo.
— Não foi assim, Rafaela. Era só um jogo idiota entre amigos — ele murmurou, as mãos gesticulando em um pedido de desculpas inútil. — Só ego. Só a porra do meu orgulho.
— Então fui o prêmio de um ego ferido?
— Não! — O desespero finalmente quebrou a voz dele. — Você não foi prêmio de nada. No começo, fui um idiota, sim. Mas depois… tudo mudou. Eu me apaixonei por você, Rafa. De verdade.
Rafaela sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos, mas as conteve.
— Então, se você não tivesse se apaixonado por mim, estaria tudo bem brincar com os sentimentos da nerd idiota? Igual fez com tantas outras?
Gabriel sentiu a vergonha latejar nas têmporas. A plateia agora era um detalhe insignificante diante da devastação no rosto dela.
— Não… — sussurrou. — Eu sempre tive essa fama. O cara que só quer o que é fácil. E, por um tempo, eu aceitei esse papel. Até me orgulhava dele, porque era mais fácil ser o cara que usa do que o cara que é usado.
Ele buscou os olhos dela com uma honestidade crua, ignorando os cochichos que começavam a circular.
— Mas eu sempre fui honesto com as outras. Nunca prometi o que não podia dar. Era uma noite, um momento. Eu deixava isso claro. — Ele hesitou, a voz perdendo a força. — O mundo me vê como o cara que engana todo mundo, Rafa, mas ninguém nota as vezes em que eu fui a peça no jogo de outra pessoa. Eu já estive do outro lado. Eu sei o gosto de ser um objeto no plano de alguém.
Rafaela sentiu o baque, mas não baixou a guarda.
— E, sabendo como é esse gosto, você escolheu fazer o mesmo comigo? Você sabia como dói e, ainda assim, aceitou a aposta do Diego para ver até onde eu ia?
Gabriel fechou os olhos. A hipocrisia era um fardo que ele não conseguia mais carregar.
— Esse foi o meu maior erro. Eu me perdi nessa mentira que criei… e acabei machucando quem eu mais queria proteger. Eu sei que não tenho o direito de pedir nada. Mas se ainda existir um mínimo de você que acredita em mim, só quero uma chance de provar que o que sinto é real. Mesmo que tenha começado do jeito errado.
Rafaela respirou fundo. O corredor parecia pequeno demais para a amargura que transbordava dela.
— Que conveniente, né? Você se apaixona depois de me humilhar. Depois de me fazer virar piada. E espera que eu acredite que agora, de repente, tudo mudou.
— Eu não espero nada. — Ele tentou se aproximar, mas estancou ao ver o corpo dela enrijecer. — Só precisava te dizer que eu sei que destruí tudo entre nós, Rafa. Mas, ainda assim… tudo em mim ainda grita por você.
Ela passou a mão no rosto, tentando apagar o rastro das lembranças. Quando voltou a encará-lo, o olhar era de uma lucidez devastadora.
— Sabe o que é pior nisso tudo, Gabriel? Eu passei as últimas semanas me corroendo de culpa. Me sentindo um lixo por não conseguir salvar a Letícia de um abusador… enquanto eu estava dormindo com um cara que precificou o que eu sentia.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Gabriel sentiu o sangue congelar nas veias. A comparação o despiu de qualquer justificativa.
— Confiei a minha intimidade a um cara que estava contando notas de dinheiro enquanto me beijava. No fim das contas... que diferença real existe entre você e o Guilherme? — Ela deu um passo atrás, o asco brilhando no olhar. — Ele usa o medo. Você usou o amor. Mas, no final, o resultado é o mesmo: a gente sai quebrada.
Rafaela deu as costas e caminhou em direção à luz da saída, deixando-o parado sob os olhares de todo o corredor. Gabriel não tentou impedi-la. O nome de Guilherme ricocheteou nas paredes do corredor e o atingiu com a força de um soco. Ser colocado na mesma prateleira que um homem que ele desprezava, um cara que ele mesmo queria tirar da vida da Letícia, foi o pior castigo que Rafaela poderia ter imposto.
Ele queria poder falar que era diferente, que a amava, que nunca a machucaria fisicamente... mas como? Ele havia manipulado os sentimentos dela por mil reais. A lógica dela era cruel, mas era impecável. Ele era o vilão daquela história.
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Letícia estava sentada em um dos bancos de concreto do jardim central, o sol da manhã batendo sobre o papel do seu caderno. Ela tentava se concentrar nas linhas de um croqui de moda, mas sua mão parecia não obedecer. A mente estava longe.
O barulho de passos apressados e risadinhas interrompeu seu foco. Duas garotas do curso de Marketing passavam por ali, os olhos colados na tela de um celular.
— Cara, disseram que foi épico. Parece que a Rafaela colocou o Gabriel no lugar dele na frente de todo mundo, bem no meio do corredor do Bloco C.
— Mas se essa história de que ele apostou que ficaria com ela for verdade, ela fez foi pouco — a outra rebateu, balançando a cabeça. — Ele acha que tá onde? Num filme dos anos 2000?
Letícia sentiu o sangue gelar. O lápis riscou o papel em um rastro errático, rasurando o esforço de uma hora em um segundo. Uma aposta? O baque do caderno se fechando ecoou o peso que caiu em seu estômago enquanto ela se levantava, o coração batendo contra as costelas. Ela conhecia o Gabriel. Sabia que ele podia ser um idiota arrogante às vezes, mas aquilo... aquilo era um nível de crueldade que não combinava com o olhar que ela via nele toda vez que ele olhava para a Rafa. Letícia sentiu o estômago embrulhar. Se aquilo fosse verdade, a Rafaela não estaria apenas brava; ela estaria destruída.
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O clima no vestiário era sufocante. O som metálico das travas das chuteiras no chão parecia ecoar mais do que o normal. Gabriel estava sentado em seu banco habitual, a cabeça baixa, as mãos entrelaçadas de forma tensa. Ele não era apenas um homem que perdeu a namorada; ele parecia um líder que havia perdido o trono.
Diego e Daniel trocavam olhares preocupados. Eles sabiam que a aposta tinha morrido no momento em que o Gabriel começou a olhar para a Rafaela de um jeito que nunca olhara para ninguém. Mas o estrago já estava feito.
Lucas entrou por último, cumprimentando os amigos de time.
Gabriel levantou o olhar devagar. Não havia a fúria explosiva de antes, apenas uma amargura fria.
— Que merda você tinha na cabeça, Lucas? — A voz de Gabriel saiu baixa, mas carregada de uma estática perigosa.
Lucas estancou entre os armários, a bolsa de treino escorregando pelo ombro.
— Do que você está falando, Gabe?
— Contou para a Brunna sobre a aposta? — Gabriel se levantou em um salto, a altura e a tensão fazendo o espaço parecer pequeno demais. — A universidade inteira tá comentando sobre isso. A Rafaela não quer me ver nem pintado! E tudo porque você não conseguiu segurar a porra da língua na frente da Brunna.
— Pô, Gabe, foi mal… Eu só comentei como você ganhava todas… — Lucas tentou manter a voz firme, mas seus olhos desviaram para os companheiros em busca de um apoio que não veio.
Gabriel deu um passo à frente. Não houve o soco que todos esperavam. Houve apenas um tremor nas mãos que ele tentou esconder fechando os punhos.
— “Foi mal?” Você contou para a Brunna, Lucas. De todas as pessoas no mundo, você entregou isso justo para ela.
— Eu só contei a verdade, Gabriel! — Lucas gritou, a culpa se transformando em defesa. — A mentira foi você quem criou. Você aceitou a aposta!
O barulho de conversas paralelas e o som de zíperes se fechando cessaram abruptamente. Os jogadores trocaram olhares rápidos; alguns pararam com a chuteira na mão, sentindo a temperatura do lugar subir dez graus em segundos.
Gabriel fechou os olhos por um segundo, o rosto contorcido de dor.
— Eu sei que a mentira foi minha. Eu carrego esse peso todo maldito segundo, desde que me apaixonei pela Rafaela. Mas eu achei... — Gabriel abriu os olhos, e eles estavam marcados por uma decepção profunda. — Eu achei que você era meu irmão. Que, se fosse para eu cair, que eu caísse pelas minhas mãos, não porque você achou divertido me expor na frente da mulher que mais quer destruir a Rafa.
— Eu não achei que a Brunna ia fazer isso...
— Você sabia quem ela era. Você sabe o que ela sente por mim e o ódio que ela tem da Rafa — Gabriel balançou a cabeça, recuando. A revolta tinha dado lugar a um vazio absoluto. — Você não contou para ser honesto, Lucas. Você contou para se sentir importante. E agora, por causa do seu ego, ela me odeia. E o pior é que ela tem razão.
Ele pegou a camisa do uniforme de treino que estava jogada no banco, o corpo pesado.
— A mentira é minha, sim. Mas a traição... essa é toda sua.
Antes que Gabriel desse o próximo passo, a porta do escritório se abriu com um estrondo. Moura surgiu, o apito pendurado no pescoço balançando contra o peito largo. O olhar dele varreu o vestiário como um radar.
— Basta! — a voz do treinador ecoou, fazendo um calouro no fundo dar um sobressalto. — Eu não quero saber quem apostou o quê ou quem abriu o bico. Eu quero saber de rendimento. Duarte, se você não consegue segurar a ordem no vestiário e resolver suas merdas sem virar manchete de fofoca, talvez essa braçadeira esteja pesando demais no seu braço. E você, Lucas, se tiver mais interesse na vida alheia do que no treino tático, pode ir fazer companhia para a reserva no próximo jogo.
Gabriel sentiu o rosto queimar, a humilhação agora tinha transbordado da vida pessoal para o gramado. Ele não era mais apenas um namorado terrível, era um capitão com a moral questionada. O treinador apontou para a saída.
— Fora todos! Dez minutos de aquecimento antes que eu decida punir o time inteiro pela falta de foco de vocês dois.
Gabriel saiu batendo a porta metálica, deixando o vestiário imerso em um silêncio espectral.
Ao cruzar a saída, deu de cara com Letícia, que o esperava com o caderno apertado contra o peito e um olhar que misturava pena e desprezo. Gabriel não disse nada. Ele apenas passou por ela com o olhar de quem já tinha aceitado a própria condenação. O silêncio dele foi o golpe final para Letícia, confirmando que cada palavra cruel ouvida no jardim era a mais pura e absoluta verdade.
📚 📚📚
Rafaela estava encolhida no sofá, as pernas abraçadas contra o peito e o queixo apoiado nos joelhos. Seus olhos estavam inchados, a pele ao redor deles avermelhada. Em sua mente, um filme cruel passava em looping: as risadas de Gabriel, os beijos, as conversas sobre o futuro... tudo agora parecia cinzento, maculado por uma nuvem espessa de mentira.
Cada memória feliz dos últimos meses agora vinha acompanhada de um preço. Mil reais. Uma lágrima pesada escorreu por seu rosto, traçando um caminho quente antes de cair no tecido do jeans. Ela estava tão perdida naquele labirinto de lembranças que só notou que não estava mais sozinha quando uma sombra cobriu a luz da janela.
— Rafa... — A voz de Letícia era baixa, quase um sussurro, carregada de uma cautela de quem pisa em vidros quebrados.
Rafaela sobressaltou-se, secando o rosto apressadamente com as costas das mãos e fungando o nariz. Ela tentou armar sua guarda, mas o corpo pesava.
— Lelê... não sabia que você vinha — disse, forçando um sorriso que não chegou nem perto de alcançar seus olhos.
Letícia não retribuiu o sorriso. Ela conhecia a amiga bem demais para cair naquela fachada.
— Rafa, eu vim porque... eu ouvi uns boatos na universidade hoje e…
A frase ficou suspensa no ar. Letícia não terminou, e nem precisava. O silêncio de Rafaela foi a confirmação de que o segredo de Gabriel tinha se tornado o assunto favorito do campus.
— Ah, então foi por isso que você veio? — A voz de Rafaela subiu, afiada como um caco de vidro. — Veio buscar o consolo de saber que o meu namoro também é uma porcaria? Veio nivelar o jogo, Letícia? É isso? Agora somos duas fracassadas?
Letícia sentiu a pontada daquelas palavras. Mas, em vez de revidar, ela largou na mesa de centro a sacola que só agora Rafaela notou que ela carregava. Letícia soltou um suspiro longo, os olhos cheios de uma paciência que só quem ama de verdade consegue ter.
— Não, amiga. Nunca. — Letícia se aproximou devagar. — Eu vim para ver como você está. Vim porque sei que dói e porque eu não vou deixar você passar por isso sozinha.
Rafaela olhou para a amiga, tentando manter a postura rígida, mas a expressão de compaixão pura de Letícia foi o golpe final em sua resistência. O lábio inferior de Rafaela tremeu e, em um segundo, a armadura ruiu.
Ela desabou nos braços da amiga, um soluço alto e dolorido escapando de sua garganta. Letícia a envolveu em um abraço apertado, deixando que Rafaela molhasse seu ombro com as lágrimas que ela vinha segurando desde que deixara Gabriel para trás naquele corredor.
— Dói tanto, Lelê... — Rafaela balbuciou entre os soluços. — Ele colocou um preço em mim. Ele me transformou em um objeto.
— Shhh... eu sei, eu sei — Letícia murmurou, afagando os cabelos da amiga. — Mas ele é quem perdeu, Rafa. Ele perdeu a melhor pessoa que ele já conheceu na vida.
Rafaela soluçava contra o ombro de Letícia, o corpo sacudido pela percepção de que sua história de amor tinha um recibo de mil reais. Letícia não disse nada por um longo tempo, apenas deixou que o choro da amiga lavasse a sala. Quando os soluços finalmente diminuíram para fungadas cansadas, ela se afastou um pouco e buscou a sacola em cima da mesa.
— Eu trouxe chocolate com pedaços de brownie — Letícia anunciou, o estalo da tampa do pote soando como o único barulho normal naquele dia de caos. — E não ouse dizer que está sem fome. Vamos usar a glicose para fabricar o ódio que você vai precisar para amanhã.
Rafaela olhou para o pote, uma pequena e triste risada escapando de seus lábios inchados.
— Você é terrível, Lelê.
— Eu sou uma sobrevivente, Rafa. E agora você também é. Então, pega uma colher. Vamos comer isso até o cérebro congelar, porque é a única parte de você que eu permito que fique gelada hoje. O resto a gente junta os cacos amanhã.
Rafaela pegou a colher, sentindo o gelado doce contrastar com o calor das lágrimas que ainda secavam em seu rosto. Ali, naquele sofá, entre colheradas de chocolate, o mundo lá fora — com suas apostas, vestiários e Gabriéis — parecia um pouco mais distante.
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