AMOR EM CAMPO
48 Capítulo 51: Inveja

Os dedos de Rafaela digitavam freneticamente uma mensagem após a outra, o celular escondido sob a mesa do laboratório.
Rafaela: Letícia, podemos conversar?
Por favor.
Você vem para a aula hoje?
Letícia?
A tela continuava muda. Nenhum “digitando”, nenhum aviso de leitura.
Desde que chegara em casa no dia anterior e encontrara o quarto vazio, uma culpa incômoda não saía de sua cabeça. Como não tinha percebido antes? Como não enxergara que Letícia estava presa em um relacionamento conturbado com Guilherme? Quando foi que as coisas chegaram a esse ponto? Será que ela estava tão perdida em Gabriel que se esqueceu da amiga?
“Por favor, não me procure por enquanto, preciso de espaço.” As palavras do bilhete voltaram à sua mente, como se ainda estivessem sobre a cama vazia. Havia algo nas entrelinhas daquele afastamento que a deixava inquieta, uma intuição ruim que a impedia de respeitar o pedido da amiga.
O medo crescia devagar.
Mas a torrente de pensamentos foi interrompida de forma brusca.
— Rafaela!
A voz do professor ecoou pelo laboratório.
Ela ergueu a cabeça rapidamente, escondendo o celular no bolso do jaleco quase por reflexo.
— Estamos analisando a lâmina agora. Quer compartilhar com a turma o que está observando no microscópio?
Por um segundo, a mente dela ficou em branco.
Rafaela puxou o microscópio para perto, ajustando o foco com pressa enquanto sentia alguns olhares da sala pousarem sobre ela. A imagem da lâmina apareceu borrada primeiro, depois lentamente ganhou forma.
Células. Tecidos. Estruturas que, em outro dia, ela descreveria de olhos fechados. Mas, naquele momento, a ciência parecia um dialeto estrangeiro.
Ela engoliu em seco.
— É… tecido epitelial — respondeu, tentando manter a voz firme. — Parece um epitélio simples… com células bem alinhadas.
O professor assentiu, comprando a resposta automática, e voltou a atenção para o restante da turma. Rafaela soltou o ar que nem percebera que segurava.
Sem que ninguém percebesse, ela puxou o celular outra vez para perto e olhou para a tela.
Nenhuma resposta.
E aquele silêncio das mensagens não lidas gritava mais alto do que qualquer explicação técnica sobre tecidos e células.
⚽⚽⚽
Sentado no espaço de convivência da universidade, Gabriel aguardava a aula de Cinesiologia, cercado pelos amigos e com uma lata de energético nas mãos. O cansaço da viagem e da noite mal dormida — depois de convencer Rafaela a voltar para casa com ele e passarem horas conversando sobre o que fariam em relação a Letícia — começava a cobrar seu preço.
— Caralho, Gabriel, não acredito que tu deu esse mole! — Diego disse, quase engasgando de tanto rir.
Gabriel soltou uma risada antes de dar mais um gole no energético.
— O cara já estava longe, eu jurava que ele não iria ouvir! Mano, eu confesso que vi minha vida passando diante dos meus olhos quando ele virou com aquela cara de quem ia arrancar minhas bolas e perguntou: “Como é que é?” Falei a primeira merda que me passou pela cabeça.
Daniel se inclinou para frente, curioso.
— Tá, mas o que exatamente você falou?
Gabriel arqueou uma sobrancelha.
— Que estava explicando para ela… sobre controle de temperatura do fogo.
Por um segundo, houve silêncio.
Depois, os dois começaram a rir alto demais para um espaço que já estava cheio de alunos.
— Controle de temperatura? — Diego repetiu, limpando uma lágrima do canto do olho. — Tu virou mestre churrasqueiro agora?
— Eu estava desesperado! — Gabriel se defendeu, levantando as mãos.
Daniel balançou a cabeça, ainda rindo.
— Não acredito que você mandou essa para o seu sogro.
— E o pior — Gabriel continuou — é que ele não caiu na história.
— Claro que não caiu! — Diego respondeu. — O velho é esperto.
— Muito — Gabriel concordou. — Mas foi tranquilo no final.
Ele deu mais um gole no energético antes de continuar:
— No fim, ele me deu uma cerveja.
Daniel abriu um sorriso.
— Então, pronto. Passou de fase. O chefão final foi derrotado.
Gabriel riu, mas o peso da lembrança ainda o fazia balançar a cabeça.
— Ainda assim, nunca suei tanto fora de campo.
— E a Rafa? — Daniel perguntou.
O sorriso de Gabriel diminuiu um pouco.
— Tá bem, mas está preocupada com a Letícia.
Ao ouvir o nome dela, Daniel, que até então estava relaxado, travou o movimento de levar o copo à boca. Ele franziu a testa, os olhos fixos em um ponto qualquer da mesa.
— O que tem ela? — Diego perguntou, alheio à mudança de clima.
Gabriel assentiu.
— Aquela história com o namorado dela está estranha.
Daniel se remexeu no sofá, o couro do estofado rangendo sob a súbita inquietude do seu corpo. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos, as mãos entrelaçadas com força.
— Estranha como? — A voz dele saiu mais baixa, desprovida de qualquer traço de brincadeira. Havia uma urgência contida ali, uma tensão que fez Diego lançar um olhar curioso para ele, mas o camisa 3 estava focado demais no que Gabriel diria a seguir.
— Controle demais. Ciúme absurdo. Aquela vibe de um cara que acredita que controla a vida da mulher.
Diego fez uma careta.
— Já vi esse filme.
— Pois é — Gabriel respondeu.
Ele ficou alguns segundos em silêncio, olhando para o movimento dos alunos passando pelo corredor.
— A Rafa está com aquela sensação de que tem alguma coisa errada.
Daniel soltou um suspiro, o humor da mesa dissipando-se como fumaça.
— E quando elas têm essas sensações…
— Geralmente estão certas — Gabriel completou, o olhar perdendo o brilho de diversão de segundos atrás.
Gabriel sentiu o ar mudar atrás de si. Virou o rosto a tempo de ver Rafaela entrando; ela parecia miúda sob o peso da mochila e da expressão sombria. Os olhos dela varriam o local com uma urgência que não combinava com o sorriso que ele abriu ao se levantar e erguer o braço. Ela foi ao seu encontro, mas o passo não tinha a leveza da noite anterior.
— Oi, amor — disse Gabriel assim que ela parou ao seu lado, passando o braço pela cintura dela em um gesto carinhoso. — Senta aqui com a gente. Eu estava contando para os caras como sobrevivi ao interrogatório do seu pai e àquela minha piada genial sobre o fogo.
Diego e Daniel riram, mas Rafaela forçou um sorriso que morreu antes de alcançar os olhos.
— Oi, meninos.
— Oi, Rafa. A gente estava falando justamente do perigo que ele passou na mão do seu pai. — Diego brincou, mas parou ao notar a rigidez nos ombros de Rafaela.
Ela olhou para Gabriel, ignorando a brincadeira. O foco dela era um só.
— Gabe, eu vou sair agora. — Ela baixou a voz, criando uma bolha de seriedade que excluiu os meninos da conversa. — Vou passar na loja onde a Letícia trabalha.
O sorriso de Gabriel sumiu instantaneamente. Ele largou a lata de energético sobre a mesa.
— Rafa, agora? — Ele travou, a frustração clara no rosto. — Eu tenho aula em dez minutos, porra. Não vou conseguir ir com você e não quero que você encare essa situação sozinha.
— Eu preciso ir sozinha. — Ela segurou a mão dele. — Se você aparecer lá com esse seu jeito... ela vai se fechar ainda mais. — Ela sustentou o olhar dele, a determinação começando a substituir a angústia. — O silêncio dela está me matando, e eu não vou conseguir sentar numa cadeira e fingir que estou ouvindo um professor enquanto minha melhor amiga pode estar em perigo.
Gabriel acabou concordando, embora a contragosto. Ele a puxou para perto, ignorando completamente quem estivesse olhando, e colou a testa na dela.
— Toma cuidado, por favor. Qualquer coisa me liga que eu saio da aula na hora — ele sussurrou, a voz carregada de uma proteção que beirava a possessividade. — Eu te amo!
Pela primeira vez naquele dia, o gelo no olhar de Rafaela derreteu. Um sorriso genuíno, ainda que breve, iluminou o rosto dela.
— Vou me cuidar, prometo. E eutambém te amo.
Eles se beijaram brevemente, um selinho demorado que selava a promessa de se falarem logo. Assim que Rafaela se afastou e começou a caminhar em direção à saída, Diego virou-se para Daniel com uma expressão de choque exagerado, como se tivesse acabado de ver um unicórnio rosa atravessando o pátio da universidade.
— Caralho, me diz que você também ouviu isso e eu não tô alucinando, Dani? — Ele juntou as mãos perto do peito e afinou a voz. — Hm... eu te amo! — Diego disse, piscando os cílios freneticamente para o amigo.
Daniel não perdeu tempo.
— Não, não, Dieguinho, eu também ouvi, mas foi mais tipo… — Ele assumiu uma pose dramática, encarando Diego com uma cara de "apaixonado" digna de novela mexicana, segurando o rosto do outro com as pontas dos dedos. — "Oh, minha vida, eu te amo!" — Daniel respondeu com um suspiro teatral.
Diego explodiu em uma gargalhada alta, batendo na mesa.
— Eu te amo, cara! Eu te amo, porra! — Diego repetiu, imitando o tom rouco que o Gabriel costuma usar.
Gabriel revirou os olhos, sentindo as bochechas queimarem de leve, e voltou a se sentar enquanto empurrava o ombro de Diego.
— Vão para o inferno, vocês dois — ele resmungou, mas não conseguiu esconder o canto do lábio que subia em um sorriso involuntário. — Não se pode nem ter um momento de privacidade nessa porra de universidade.
— Privacidade, meu ovo. — Diego debochou. — Mano, o Cupido te acertou com um tiro de bazuca, não foi nem de flecha.
Gabriel negou com a cabeça, tentando retomar a pose, mas o olhar dele voltou a escapar para o corredor onde Rafaela tinha sumido. Por um breve segundo, o sorriso dele vacilou e a lata de energético pareceu pesar o dobro. Ele sabia que cada "eu te amo" que trocavam tornava a verdade que ele escondia mais letal.
Do outro lado do espaço de convivência, observando a cena com atenção quase obsessiva, estavam Brunna e Jennifer. Sabrina, diferente das amigas, era a única que realmente estudava.
As três ocupavam uma mesa perto da janela, com cadernos abertos e copos de café que já tinham esfriado há algum tempo.
Brunna apoiou o queixo na mão, as unhas bem feitas batucando no tampo da mesa em um ritmo irritante. Seus olhos, estreitados e frios, não saíam de Gabriel.
— Impressionante — sibilou Brunna, com o tom carregado de um desprezo que ela não fazia questão de esconder.
Sabrina arqueou uma sobrancelha, sem tirar os olhos do livro.
— O quê?
— A performance do Gabriel — respondeu Brunna, apontando discretamente com a cabeça. — Ele está se esforçando tanto para parecer o namorado do ano que chega a ser patético.
Sabrina finalmente olhou e soltou um riso curto.
— Nossa, é verdade. Ele mudou mesmo. Olhe para ele, todo feliz.
— Ele não mudou, Sabrina. Ele está sendo domesticado — Brunna corrigiu, cruzando os braços com força, a postura rígida. — Antes ele era… — ela procurou a palavra enquanto via Gabriel gesticular animadamente — livre. Desapegado.
— "Galinha" é o termo técnico que você está procurando — Sabrina completou, ácida.
— Que seja — Brunna bufou, sentindo uma queimação familiar no estômago. — O que eu não engulo é essa encenação. Eu fiquei com ele meses. Eu conheço o jogo dele, conheço o que ele gosta. E aí, do nada, essa garota sem sal aparece e ele vira um príncipe encantado de filme da Disney? Me poupe.
— A Rafaela fez milagre, aceite — disse Sabrina, dando de ombros.
— Milagre não existe, existe estratégia — Brunna rebateu, a voz baixando para um tom perigoso. — É ridículo que alguém como ela tenha conseguido sequer um "oi" do Gabriel. Enquanto eu recebi um término seco por mensagem, ela ganha declaração de amor no pátio? Tem alguma coisa errada nessa história. Não é natural.
Jennifer, que até então estava em silêncio, voltou a observar o grupo.
— E você tem que ver como ele fala dela, Brunna. Como se tivesse ganhado na loteria.
— Pois para mim parece que ele está tentando convencer a si mesmo — Brunna retrucou, os olhos brilhando com uma malícia sombria. — Ninguém vira santo da noite para o dia. O Gabriel tem segredos, Jennifer. Todo mundo tem. E eu vou adorar estar por perto quando a máscara dessa "santinha" cair ou quando ele cansar de brincar de casinha.
Sabrina abriu um sorriso malicioso, fechando o caderno.
— Vocês estão é com uma inveja corrosiva porque, sem nem ao menos tentar, a Rafa conseguiu o que vocês não conseguiram em anos de esforço.
Brunna soltou uma risada ríspida, sem um pingo de humor.
— Inveja daquela sonsa? Faz-me rir. Na verdade, eu sinto pena dela. Ela acha que domou o Gabriel, mas homens como ele não são domados, eles só dão um tempo antes de voltarem para o que realmente conhecem.
Jennifer apoiou o cotovelo na mesa, desconfortável com a intensidade da amiga.
— Escuta, Sabrina, por que você não passa a andar com ela a partir de agora, já que virou a advogada oficial?
Sabrina se levantou, ajeitando a mochila.
— Talvez eu faça isso mesmo. Perto da Rafaela, o ar é bem mais limpo do que nessa mesa. — Ela se inclinou, encarando Brunna nos olhos. — Mas antes, só um aviso: quem tenta mexer com ela... acaba descobrindo que o Gabriel vira um bicho para proteger o que é dele. Nossa amiga aqui — apoiou uma das mãos no ombro de Jennifer — pode te confirmar isso.
Sabrina se afastou rindo, deixando o silêncio pesado para trás. Brunna não respondeu. Ela apenas voltou a olhar para Gabriel, o olhar fixo na nuca dele como se pudesse perfurar a pele.
Do outro lado, Gabriel sentiu um arrepio incômodo subir pela espinha. Ele parou de rir da piada de Diego e, quase por instinto, virou o rosto para trás, seus olhos escuros colidiram com os de Brunna.
Ao ver que foi notada, ela não desviou. Pelo contrário. Brunna inclinou levemente a cabeça e sustentou o contato, os lábios se curvando em um sorrisinho cínico, antes de erguer o copo de café em um brinde silencioso e carregado de ironia.
Gabriel travou o maxilar. Ele não retribuiu o sorriso e nem acenou de volta. Ele a encarou por dois segundos — tempo suficiente para deixar claro que ela não o intimidava — e então virou as costas de novo, cortando o contato visual de forma brusca.
— Que foi, cara? — Daniel perguntou, percebendo a mudança na postura do amigo.
Gabriel deu um gole no energético, sentindo o gosto da bebida subitamente amargo.
— Nada. Só um urubu ali na janela — resmungou, voltando a focar na conversa, mas a leveza de antes tinha evaporado.
Brunna não era do tipo que aceitava derrota. Sabrina até podia ter certeza da mudança de Gabriel, mas, em sua mente, uma certeza gritava: se a relação era perfeita demais, era porque o tombo seria ainda maior.
📚📚📚
O choque térmico do ar-condicionado atingiu o rosto de Rafaela assim que ela empurrou a porta de vidro, um contraste gelado e quase violento com o mormaço da rua. A sineta acima da porta anunciou sua entrada com um tilintar metálico que pareceu ecoar tempo demais pelo ambiente de tons pastéis e luzes focadas. Antes, aquele cheiro de perfume doce e tecidos novos trazia um conforto familiar; agora, parecia o aroma de algo que estava sendo sufocado.
No fundo da loja, uma figura de costas ajeitava cabides com uma precisão robótica. Ao ouvir o barulho, a mulher se virou mecanicamente, os lábios se esticando em um sorriso profissional que morria antes de atingir as têmporas.
— Seja bem-vinda! Posso ajudar em alg…
As palavras de Letícia murcharam no ar. O sorriso tremeu, desmoronando para dar lugar a uma palidez que a camada pesada de base — visivelmente mais densa do que o habitual — não conseguia camuflar.
— Rafa? — A voz dela saiu fosca, sem a vibração metálica de sempre.
Rafaela estancou a poucos metros, os olhos em modo de varredura, buscando a amiga que conhecia por trás daquela máscara de vendedora perfeita.
— Oi, Lê.
O silêncio que se instalou não era o de duas amigas que se entendiam pelo olhar; era um muro de vidro, fino o suficiente para se ver através dele, mas sólido demais para atravessar. Os olhos de Letícia dispararam para a porta de vidro com um tique nervoso, como se esperasse que uma sombra surgisse no asfalto a qualquer segundo.
— O que você está fazendo aqui? — sussurrou, a voz falhando enquanto checava o relógio no pulso, calculando o tempo de uma forma que Rafaela nunca a vira fazer antes.
— Será que a gente pode conversar? — Rafaela deu dois passos, sentindo o coração martelar contra o peito, um som surdo que parecia preencher a loja vazia.
— Rafa… eu tô trabalhando — Letícia recuou um milímetro, a mão subindo instintivamente para o braço oposto, puxando a manga da blusa para baixo em um gesto defensivo que fez o estômago de Rafaela dar um solavanco.
— Dois minutos, Letícia. Eu não vou embora sem esses dois minutos.
Com um suspiro trêmulo, Letícia cedeu, apontando com o queixo para o canto dos provadores, um nicho cercado por espelhos altos que pareciam vigiá-las de todos os ângulos. Assim que pararam, Rafaela sentiu o peso da proximidade. De perto, a ruína era mais evidente. Havia uma tensão nos ombros de Letícia, como se ela esperasse um golpe físico a qualquer momento.
— Eu encontrei sua mãe quando estava saindo da cidade — Rafaela disparou, decidindo que a sutileza não as salvaria agora.
— Minha mãe?
— Ela disse que você tinha combinado de ir para casa no feriado… mas desistiu de última hora.
Silêncio.
Letícia passou a mão pelo cabelo, visivelmente desconfortável.
— É… eu tive que trabalhar.
— Ela disse que você parecia estranha.
Letícia piscou, a defensiva subindo como uma blindagem.
— Minha mãe sempre acha que tem algo errado, você sabe.
— E ela está errada, Lê? — O olhar de Rafaela era uma âncora, forçando a amiga a ficar ali. — Eu ouvi aquela sua ligação. Você não estava conversando com um namorado; você estava apresentando uma defesa. Estava implorando por uma absolvição que você nem sabe por que precisa.
— Ele só quer ter certeza de que eu estou bem — Letícia soltou um riso seco, sem vida. — Você ouviu metade de uma frase e montou um roteiro de cinema.
— Letícia, ele está te controlando? — A pergunta não foi um sussurro; foi um impacto.
— Não. — A resposta veio no reflexo, rápida e ensaiada.
— Eu vi o hematoma. Eu sei a diferença entre bater em um armário e ser segurada com força.
O som do ar-condicionado pareceu aumentar de volume, um zumbido ensurdecedor entre as duas. Letícia desviou o olhar para os próprios sapatos, os dedos torturando a barra da blusa.
— Você acha que eu sou burra? — ela devolveu, e desta vez havia lágrimas represadas que faziam seus olhos brilharem sob a luz artificial. — Acha que eu ficaria com alguém que me machuca?
— Eu acho que você está presa em uma teia que ele teceu tão devagar que você nem percebeu quando parou de se mexer.
— Para! — Letícia sibilou, a voz cortante. — Eu não pedi sua ajuda. Eu não pedi para você ser minha salvadora.
O golpe foi direto, mas Rafaela não recuou. Ela respirou o ar gelado da loja, sentindo os pulmões queimarem.
— Eu não estou tentando ser sua salvadora. Estou tentando ser sua amiga. Me explica, por favor.
Letícia balançou a cabeça, e o medo que ela vinha tentando esconder finalmente transbordou em um sussurro que fez o sangue de Rafaela esfriar:
— Não dá. Porque se ele descobrir que eu falei alguma coisa…
A frase inacabada foi mais aterrorizante do que qualquer grito. O pânico de Letícia era tangível, uma presença física no provador.
— Volta para casa, por favor — Rafaela suplicou, a voz suavizando. — Eu prometo que a gente resolve isso juntas.
— Eu já estou sozinha nisso, Rafaela. — A exaustão na voz da amiga era absoluta. Era o som de alguém que já havia desistido de lutar. — Você deveria ir. Ele não gosta de você. Ele diz que você se mete onde não é chamada.
— E você concorda com ele?
O silêncio que se seguiu foi a resposta mais dolorosa. Letícia não disse "não". Ela apenas desviou o corpo, as mãos trêmulas voltando a mexer nos cabides de forma desconexa, fingindo uma normalidade que já não existia.
Rafaela caminhou até a porta, mas o som da sineta ao sair pareceu o gongo final de uma derrota. Ela olhou por cima do ombro uma última vez, vendo as costas de Letícia e os ombros que subiam e desciam em um choro mudo.
— Eu te amo, amiga. Não se esqueça disso.
Quando pisou na calçada, o calor a atingiu como uma bofetada. O brilho da tela do celular mostrava uma mensagem de Gabriel, transbordando um amor e uma leveza que, naquele momento, pareciam agressivos. Ela não respondeu. A euforia da noite anterior tinha sido substituída por uma raiva gélida e uma solidão que nem Gabriel conseguia preencher.
Ela começou a caminhar, sentindo-se esmagada pelo asfalto, consciente de que o "felizes para sempre" dela estava sendo construído sobre o silêncio apodrecido da sua melhor amiga.
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