AMOR EM CAMPO

40 Capítulo 43: Quartas de Final


Notas iniciais
Oi 🤍 Como vocês estão? Como foi o carnaval de vocês? Espero que tenham aproveitado bastante e descansado também! No capítulo de hoje tem treino, tem cuidado… e tem uma pergunta que começa a ganhar forma. Leiam com calma, tá? Esse é daqueles capítulos que parecem tranquilos… mas mudam muita coisa. 👀✨ Boa leitura 💙

No final da aula, Rafaela decidiu aparecer para assistir ao treino de futebol.

Procurou um lugar na arquibancada onde o sol não batia direto e se sentou ali, as pernas cruzadas, a mochila apoiada ao lado.

No campo, os meninos faziam aquecimento: corrida leve em volta do gramado, alongamentos coordenados, passes curtos em duplas. O som da bola sendo dominada, chutada, interceptada, misturava-se aos gritos do técnico pedindo mais foco, mais rapidez.

Enquanto observava, Rafaela deixou os pensamentos voltarem aos últimos dias.

Os dias seguintes à briga não foram barulhentos.

Foram silenciosos demais.

Ela percebeu isso logo no segundo dia, quando se deu conta de que não havia mais atritos, mas também não havia excessos. Gabriel continuava ali. Presente. Atento. Só que diferente.

Ele não forçava assunto.

Não fazia piadas para quebrar o clima.

Não tocava nela sem ter certeza de que o gesto seria bem-vindo.

E isso, de alguma forma, mexia mais com ela do que qualquer insistência.

Rafaela sentia falta dele nos detalhes: no jeito como aparecia do nada para buscá-la, nas piadas ditas no ouvido, no toque casual na cintura ao atravessarem a rua. Sentia falta e, ao mesmo tempo, entendia o cuidado.

No campo, o treino avançava. Agora eles faziam um exercício de posse de bola: um círculo fechado, passes rápidos, dois jogadores no meio tentando roubar. Gabriel se destacava ali, atento, preciso, sem firulas. Concentrado demais para alguém que costumava brincar até em treino.

Ela viu quando Diego cutucou o amigo e apontou discretamente na direção da arquibancada.

Gabriel olhou.

Rafaela acenou, breve.

Ele respondeu com um leve movimento de cabeça.

Nada mais.

Ele realmente não esperava encontrá-la ali naquele dia. Não era como se estivessem se evitando. Mas era como se ambos estivessem andando devagar, testando um novo limite, reaprendendo o espaço entre eles.

Gabriel sempre fora do tipo que resolvia as coisas no impulso: treino, festas, decisões rápidas. Mas com Rafaela nada parecia caber nesse ritmo.

Depois da briga, passou a pensar mais do que falar.

Observava mais. Media palavras. Revia atitudes.

Percebeu o quanto estava acostumado a ser desejado sem precisar se explicar, e o quanto aquilo mudava quando alguém deixava de ser só mais uma possibilidade e passava a ser importante.

Não era sobre abrir mão de quem ele era.

Era sobre aprender onde terminava a liberdade e começava o cuidado.

Quando o técnico finalmente os liberou, Gabriel fez um gesto pedindo para ela esperar e seguiu para o vestiário. Tomou um banho rápido, trocou de roupa, se despediu dos amigos e, foi até a arquibancada.

Subiu os degraus devagar e se sentou ao lado dela.

— Oi — disse, antes de encostar um beijo leve na bochecha dela.

— Oi! — Rafaela apontou para uma garrafa com líquido azul. — Trouxe para você.

Gabriel pegou o isotônico e abriu a tampa.

— Obrigado. — Tomou um gole. — Não sabia que você vinha assistir ao treino.

— A aula terminou mais cedo hoje. Resolvi vir. — Ela encarou o campo agora quase vazio. — O treinador parece estar pegando pesado.

— É. O próximo jogo é importante. Se a gente for mal, estamos fora do campeonato.

— Vocês vão se sair bem. Tenho certeza.

— Assim espero.

Ambos desviaram o olhar para o campo, para a grama marcada pelas chuteiras, para o sol que já dava sinais de que logo se esconderia.

— Um dia você me ensina? — Rafaela quebrou o silêncio.

Gabriel girou a garrafa entre os dedos.

— O quê?

— Futebol.

Ele riu.

Não aquele riso contido dos últimos dias.

Um riso de verdade.

— O que foi? Acha que eu não levo jeito? — provocou. — Mandei bem no videogame. Ou vai confessar que naquele dia vocês me deixaram ganhar?

Gabriel ergueu uma sobrancelha.

— Já falei que isso você nunca vai saber.

Levantou, guardou a garrafa na mochila e estendeu a mão para ela.

— Vem. Vou te ensinar.

— Agora? — Rafaela o encarou, surpresa.

— Agora.

Ela aceitou a mão dele.

Desceram juntos da arquibancada e entraram no campo. Gabriel pegou uma bola no depósito onde o auxiliar guardava o material do treino.

Levou-a até o meio do gramado.

— Primeira regra — disse, jogando a bola levemente para cima e dominando com o pé. — Não é força. É jeito.

Ela arqueou uma sobrancelha, desconfiada.

— Já começou me subestimando?

Ele sorriu de canto.

— Jamais. Só tô te poupando de passar vergonha logo de cara.

Rafaela riu, sentindo os ombros relaxarem. Gabriel se posicionou atrás dela, perto o suficiente para que ela sentisse o calor dele, mas sem a tocar.

— Olha — explicou, apontando para a bola. — Apoia o pé do lado. O outro vem por trás, acompanha o movimento. E… — hesitou um segundo — … relaxa.

Ela respirou fundo. O campo vazio amplificava tudo: o vento nas árvores, o som distante da rua, a respiração dos dois.

— Assim? — perguntou, ajeitando o pé.

— Quase. O pé de apoio fica aqui. — Tocou de leve o tornozelo dela. — E o outro… segue.

Gabriel chutou a bola com suavidade, fazendo-a rolar alguns metros.

— Direção primeiro.

Rafaela tentou imitar. O chute saiu torto; a bola desviou para a lateral.

— Ai — reclamou, rindo. — Que droga!

— Calma — ele riu também. — Foi melhor do que você imagina.

Buscou a bola e voltou a se posicionar atrás dela. Dessa vez, não evitou o contato. As mãos vieram firmes, ajustando a posição do quadril, guiando o movimento.

— Respira — murmurou, perto demais do ouvido dela. — Confia.

Rafaela sentiu o corpo dele às costas, o ritmo da respiração se alinhando ao dela. Por um instante, esqueceu a bola. O treino. A briga.

Tentou de novo.

O chute saiu limpo. A bola correu reta, ganhou velocidade e entrou no gol vazio, batendo na rede com um som seco.

— Eu consegui! — ela exclamou, surpresa consigo mesma erguendo os braços.

Rindo, girou para comemorar e o impulso veio antes do pensamento.

Se jogou nos braços dele.

Gabriel a segurou no mesmo instante, como se já estivesse pronto para isso. O riso dela morreu quando os rostos ficaram próximos demais para ignorar.

Havia dias de silêncio ali.

Saudade.

Vontade.

Os lábios se encontraram com a força de quem passou tempo demais se contendo. Gabriel a puxou para mais perto, a mão firme na cintura. Rafaela se apoiou nele, os dedos agarrando sua nuca. O beijo tinha gosto de isotônico e coisas finalmente ditas sem palavras.

Quando se afastaram, Rafaela fechou os olhos por um instante e o abraçou.

Ficaram assim no meio do campo vazio por um tempo.

— Acho que você leva jeito — ele murmurou.

Rafaela riu baixo, a testa encostada no peito dele.

— Você que é um ótimo professor.

Eles ainda ficaram um tempo ali, brincando e se reconectando, até o sol finalmente se pôr.

Rafaela já estava ofegante, a camiseta grudando levemente nas costas, o cabelo preso de qualquer jeito denunciando o esforço.

Gabriel observou por um instante antes de pegar a bola de volta e decretar, com um meio sorriso:

— Anda, vamos embora. Você já treinou mais do que eu hoje.

— Mas já? — Rafaela respondeu, seguindo-o até o depósito. — Agora que eu tava pegando o jeito?

Gabriel riu baixo enquanto guardava a bola e fechava a portinha de metal. Quando se virou, ela estava perto demais.

— Depois eu te ensino mais. — disse ele, cruzando os braços. — Prometo.

O sorriso dela veio fácil.

Eles caminharam até o carro em silêncio, os passos sincronizados sem perceber. O céu já estava escuro, as primeiras estrelas começavam a surgir como se o dia também estivesse aprendendo a desacelerar.

Gabriel abriu a porta para ela. Rafaela entrou, ainda sentindo o corpo quente do treino, o coração estranhamente calmo.

O carro seguiu sem música.

— Você tá bem? — ele perguntou após alguns minutos.

— Tô. — Ela pensou antes de completar. — Cansada… mas bem.

Gabriel assentiu, como se entendesse exatamente o que ela não disse.

— E você? — ela perguntou.

Ele demorou um pouco mais para responder.

— Melhor. — disse por fim. — Mais leve.

O semáforo fechou, tingindo o interior do carro de vermelho. Gabriel apoiou o cotovelo na porta, passando a mão pelo rosto.

— Aqueles dias… — começou, sem olhar para ela. — Fiquei com receio de estragar tudo tentando consertar rápido demais.

Rafaela o observou em silêncio. Não havia defesa na postura dele. Só honestidade.

— Eu sei. — admitiu. — Eu também. Mas tá tudo bem agora, Gabriel. A gente não precisa ficar cheio de dedos um com o outro.

O sinal abriu. O carro voltou a andar.

Gabriel virou a rua que ela conhecia bem demais.

A rua dela.

Ele desligou o carro e ficou alguns segundos em silêncio, as mãos ainda no volante. A rua estava calma demais comparada com a agitação que ele sentia por dentro.

— Quer entrar? — Rafaela perguntou, girando o corpo na direção dele. — Se quiser ir descansar, tudo bem também.

Ele sorriu de canto, daquele jeito que só aparecia quando estava sendo sincero.

— Quero.

A casa era pequena, mas tinha vida. Gabriel percebeu isso assim que entrou. Não era bagunçada, só… habitada. Havia uma manta jogada no braço do sofá, uma xícara esquecida na mesa de centro, alguns porta-retratos espalhados pela sala, ela e Letícia em momentos diferentes, risadas congeladas no tempo.

Em outra foto, ela estava entre os pais. A mãe, com os cabelos cacheados caindo emoldurando o rosto, e um sorriso confiante. Tinha um ar acolhedor até na fotografia, daqueles que parecem abraçar só de olhar. A pele quente, os olhos atentos e inteligentes, dava para entender de onde vinha a delicadeza firme de Rafaela.

Ao lado dela, o pai. Mais alto, ombros largos, os cabelos grisalhos penteados de forma simples, barba bem cuidada que deixava o rosto ainda mais expressivo. Usava óculos, mas havia algo no olhar, uma mistura de orgulho e proteção silenciosa, que deixava claro o papel que ocupava ali. O tipo de homem que observa primeiro, fala depois.

Rafaela estava no meio dos dois, mais nova, rindo de alguma coisa fora da câmera. Micaela aparecia na frente, fazendo careta, parecendo incapaz de ficar séria para uma foto.

Gabriel ficou alguns segundos encarando aquela imagem.

— Quer alguma coisa… água, café? — Rafaela perguntou, largando a chaves.

— Não. Tô de boa.

— Tá. Fica à vontade. Vou tomar um banho rapidinho

— Tranquilo.

Sozinho, Gabriel se sentou no sofá e respirou fundo. Já tinha estado ali antes, mas nunca com calma suficiente para reparar. Aquela casa dizia muito sobre ela. Sobre raízes. Sobre afeto.

Quando Rafaela voltou, ele levantou o olhar quase por instinto.

Ela usava um short jeans e uma camiseta clara, simples, que caía solta no corpo ainda quente do banho. O cabelo preso num rabo de cavalo alto deixava o rosto livre, mais leve.

— Voltei. — ela avisou, com um sorriso pequeno, contornando o sofá até sentar ao lado dele.

— Aqui é… a sua cara. — ele comentou, sincero.

Rafaela riu baixo.

— Desorganizada e meio caótica?

— Aconchegante. — corrigiu. — Dá vontade de ficar.

Ela sentiu o comentário pousar no peito de um jeito diferente.

— Tá com fome? — perguntou, mudando o foco. — Posso fazer o jantar. Não cozinho tão bem quanto você, mas sei me virar.

— Morrendo. — ele respondeu, rindo. — Aceito qualquer coisa.

Na cozinha, dividiram o espaço com naturalidade. Rafaela sentiu o calor do fogão subir pelo rosto, misturando-se ao vapor que escapava da panela e deixava o ar da cozinha cheirando a alho e tempero fresco. Gabriel estava logo ali, a centímetros de distância, mexendo o molho com uma calma que contrastava com o ritmo acelerado do coração dela.

O espaço era pequeno demais para duas pessoas que tentavam manter uma distância “segura”. Toda vez que ele se inclinava para provar o sal ou buscar um talher, o braço dele roçava no dela, uma eletricidade rápida que fazia os pelos da nuca de Rafaela se arrepiarem.

— Está quase pronto — ela murmurou, mais para quebrar o silêncio do que por necessidade.

Ela se virou para pegar os pratos, mas Gabriel não se afastou. Ele continuou apoiado no balcão, observando o borbulhar do molho, enquanto a luz amarelada da cozinha delineava o perfil sério de seu rosto. Gabriel pousou a colher. Ele não olhou para a comida. Olhou para ela.

— Rafa… — O tom da voz dele mudou, perdendo a descontração de minutos atrás. Ele limpou as mãos no pano de prato, um gesto lento que parecia carregar o peso do que viria a seguir. — A gente tá entrando na fase mais decisiva do campeonato agora.

Rafaela parou com os pratos na mão.

— Até aqui, tudo é meio preparação…

Ele continuou, aproximando-se um pouco mais.

— Mas nas quartas de final não tem margem. Errou, acabou. — Ele deu de ombros, como se tentasse minimizar o peso da frase. — O próximo jogo vai ser fora da cidade.

Rafaela assentiu, absorvendo tudo. Enquanto ele falava, ela não pensava apenas no jogo. Pensava em Gabriel naquele ambiente que não conhecia tão bem; líder, observado, pressionado. Pensava no quanto aquele mundo exigia dele um tipo de força que não aparecia fora do campo.

Ele voltou a mexer o molho, devagar.

— Termina tarde, o corpo fica moído… então o time dorme lá e volta só no dia seguinte.

Fez uma pausa curta antes de continuar:

— O hotel é simples. Às vezes dividimos quarto, às vezes não… depende do que o clube consegue na viagem.

Gabriel levantou os olhos para ela.

— Tô te contando porque… bom, agora você faz parte disso também.

Ele sustentou o olhar dela com uma intensidade que a fazia esquecer o resto da cozinha

— Esse jogo é importante para mim. Para o time.

Rafaela ouviu sem interromper.

— Você parece preocupado? É o peso da braçadeira? — Rafaela perguntou, aproximando-se.

Ele deu um meio sorriso cansado.

— Às vezes ela parece feita de chumbo. Todo mundo espera que eu esteja sempre seguro, sempre pronto. Tem dias que eu só queria errar sem plateia.

Aquilo tocou Rafaela. Foram poucas às vezes que ela o viu falar assim, sem armadura. E sentiu, quase fisicamente, a confiança que ele estava depositando nela ao mostrar esse lado.

— Dá para ver como eles te admiram — disse, sincera. — No treino… todo mundo te acompanha com o olhar. Confia em você.

Gabriel abaixou os olhos por um instante, visivelmente afetado.

— Tomara que eu esteja à altura.

— Você tá — ela respondeu sem hesitar. — E vocês vão ganhar. Vou estar torcendo. Sempre.

Houve um silêncio curto. Gabriel respirou fundo, como quem finalmente chega ao ponto que vinha esperando.

— Rafa… — disse, apoiando as mãos na bancada, de frente pra ela. — Eu já queria te perguntar isso há um tempo. Só que… aconteceu tanta coisa, eu acabei adiando.

Ela sentiu o estômago apertar de leve.

— Perguntar o quê?

Ele sustentou o olhar dela, aberto, sem jogo.

— Você toparia ir comigo? — falou, de uma vez. — Acompanhar a viagem.

O coração de Rafaela acelerou.

— Posso tentar conseguir um quarto só para nós. Mas só se você se sentir confortável. Não tem nenhuma obrigação nisso. — acrescentou, rápido, como se precisasse deixar claro.

Rafaela pensou por um segundo antes de responder.

— Quando vai ser?

— Daqui a duas semanas.

Ela mordeu o lábio, já fazendo contas mentais.

— Preciso ver se consigo alguém para me cobrir no trabalho… não sei se vai dar.

— Eu sei — ele disse imediatamente. — Sem pressão. Eu só… precisava perguntar.

Ela estendeu a mão e tocou o rosto dele.

— Vou tentar — disse, com um sorriso pequeno, mas verdadeiro. — Prometo.

O alívio no rosto de Gabriel foi imediato. Ele se aproximou e a beijou, um beijo tranquilo, demorado Quando se afastaram, ainda sorrindo, ele voltou ao fogão.


⚽⚽⚽

Na semana que antecedeu a partida, Gabriel entrou num modo que Rafaela ainda não conhecia tão de perto.

Mais tenso. Mais concentrado.

Evitar festas não foi um sacrifício, foi uma escolha natural. As noites terminavam cedo, quase sempre com ele olhando o relógio antes mesmo de ela comentar o horário. Bebida, nem pensar. Quando estavam juntos, havia carinho, conversa, risos… mas também havia um limite invisível, como se ele estivesse sempre preservando energia para algo maior.

Assistia a vídeos antigos do adversário com atenção quase obsessiva. Pausava, voltava, analisava jogadas, comentava sozinho. Às vezes falava em voz alta, explicando para ela como se estivesse dando aula; a linha de defesa, o padrão de ataque, o erro que não podia se repetir. Rafaela escutava mesmo sem entender tudo. Gostava de vê-lo assim: sério e dedicado naquilo que fazia.

Ela, por sua vez, encontrou o próprio jeito de estar presente.

Passou a aparecer com mais frequência nos treinos, sentava na arquibancada com uma sacola térmica ao lado com frutas, barrinhas, sanduíches naturais. Mandava mensagens antes dos treinos: confia, vai dar certo, tô orgulhosa de você. Nunca pressão. Só presença.

O orgulho que Rafaela sentia vinha acompanhado de um frio constante no estômago. Havia noites em que, deitada na própria cama, ela pensava no quarto de hotel que ainda nem existia. Pensava no silêncio depois do jogo. No cansaço. Na proximidade inevitável.

Às vezes, enquanto o observava no treino — sério, focado, o corpo respondendo ao esforço —, Rafaela se perguntava se ele fazia ideia do quanto ele a afetava. Do quanto a fazia querer ir além, justamente porque ele nunca exigia, nunca pressionava.

Na véspera da viagem, quando ela finalmente confirmou que conseguiria a folga no trabalho, Gabriel não comemorou com euforia. Apenas sorriu, os olhos brilhando mais do que o resto do rosto.

— Fico feliz que vai estar lá comigo. — disse, simples.

Mas o jeito como a puxou para um abraço demorado disse tudo o que ele não verbalizou.

Mais tarde naquele dia, Rafaela estava sentada na cama, observando Letícia espalhar roupas por cima do edredom como se estivesse montando um editorial de moda.

— Você sabe que não vou usar nem metade disso, né? — Rafaela comentou, rindo nervosa. — Volto amanhã depois do café.

— Eu sei — Letícia respondeu. — Mas vai que, né?

Rafaela respirou fundo, girando a alça de uma camiseta entre os dedos. O tom leve da conversa não escondia o que estava se formando no peito.

— Lê… posso te perguntar uma coisa

A amiga ergueu o olhar na hora.

— Ih. Lá vem.

Rafaela mordeu o lábio, escolhendo as palavras.

— Como você sabia… — vacilou — … que era a hora certa?

Letícia piscou algumas vezes, surpresa de verdade. Não pela pergunta em si, mas por quem estava perguntando.

— A hora certa de quê?

Rafaela levantou o olhar.

— De ir além.

Aquela resposta foi o suficiente para Letícia largar a blusa que estava dobrando.

— Rafaela… — disse devagar. — Você tá falando de sexo?

Rafaela concordou, o rosto já quente.

— Não é que eu esteja decidida — se apressou em explicar. — Eu só… fico pensando. Às vezes demais. E eu não sei se isso é ansiedade, curiosidade ou só… vontade mesmo.

Letícia a encarou por alguns segundos, avaliando. Então sorriu, mas não daquele jeito debochado de sempre. Era um sorriso cuidadoso.

— Rafa… a hora certa é quando você confia em quem tá com você. É quando você sente que pode parar, falar, rir, ficar nervosa… e ainda assim ser cuidada.

Rafaela puxou uma das pernas para perto do corpo, abraçando o joelho. Olhou para as próprias mãos por alguns segundos antes de falar:

— Tenho medo de estar apressando as coisas. De estragar algo que tá indo tão bem. Medo de ele esperar alguma coisa que eu não consiga dar.

Letícia a encarou com atenção.

— E você acha que o Gabriel é esse tipo de cara? Que força a barra?

Rafaela balançou a cabeça, negativa.

— Não. — respondeu sem hesitar. — Ele deixou isso bem claro quando me convidou. Disse que eu não precisava ir por nada além do jogo. Que ele queria minha companhia, não me pressionar. Mesmo assim, eu tô ansiosa.

— Claro que tá. — Letícia se levantou. — E sabe o que a gente faz com ansiedade?

— O quê?

— A gente se prepara. — piscou.

Ela foi até a mesa de cabeceira , abriu a gaveta e puxou uma caixa de preservativos.

— Toma, leva.

Rafaela sentiu o peso da caixinha na palma da mão. O plástico frio contrastava com o calor que subia por seu rosto.

— Eu só não quero que seja só mais uma vez para ele. Quero que signifique algo.

Letícia sorriu, dessa vez doce.

— E vai. Não porque é a primeira vez. Mas, porque é com alguém que te vê. Te faz se sentir especial.

Rafaela concordou, sentindo o coração bater mais forte.

Talvez aquela viagem fosse mais do que apenas acompanhar o time e estar ao lado de Gabriel. Talvez fosse um passo silencioso em direção a algo maior. Um atravessar de fronteira invisível que, até pouco tempo atrás, ela fazia questão de manter bem definida.

Mas com ele… a linha estava ficando cada vez mais tênue.

Notas finais
Ufa… chegamos ao final de mais um capítulo 🤍E eu preciso confessar: escrever essa fase deles tem mexido muito comigo. Se esse capítulo também mexeu com você, nem que seja um pouquinho, favorite, salve e recomende a história 💙 Isso me ajuda demais e me mostra que vocês estão aqui comigo nessa jornada. Agora me contem: 👉 Vocês acham que essa viagem vai aproximá-los ainda mais… ou pode trazer novos conflitos? E uma perguntinha importante 👀 Vocês preferem que eu atualize os capítulos no horário antigo (13h), no horário atual (entre 20h e 22h) ou, para vocês, o importante é só postar mesmo? 😂 Enfim… sexta a gente descobre o que as quartas de final realmente vão trazer. ✨