AMOR EM CAMPO
4 Capítulo 3: De joelhos
Notas iniciais

O sino acima da porta da "Páginas & Prosa" badalou, um som que normalmente indicava o fim de uma hora monótona, mas que naquela tarde trouxe consigo um rastro de agitação que Rafaela odiou registrar. Ela não precisou tirar os olhos do estoque de livros de cálculo que organizava para notar a mudança imediata na atmosfera da loja. O burburinho baixo de páginas sendo folheadas cessou, substituído pelo som de passos firmes e o pigarrear impressionado de duas adolescentes perto do balcão. Quando o aroma amadeirado e marcante atingiu seu espaço, ela finalmente conectou os pontos. Era ele.
O ar da livraria, que antes era seu refúgio contra o tumulto da universidade, tornou-se subitamente pesado, marcado pela presença de alguém que claramente nunca aceitava um não como resposta. Rafaela respirou fundo, sentindo a dor nas costas latejar em sincronia com sua paciência, e forçou o rosto na máscara de "atendente exemplar". Ela sabia que, naquele território, as regras eram outras: ela não podia simplesmente dar uma resposta atravessada e sair andando; ela era paga para ser cordial, e Gabriel Duarte parecia o tipo de jogador que sabia exatamente como explorar uma falta cometida dentro da área.
— Com licença, eu estou procurando um livro. Um bem difícil. Do tipo que só as garotas que andam rápido e odeiam jogadores de futebol conseguem encontrar. — Havia um desafio quase lúdico na voz dele.
Rafaela ergueu os olhos lentamente. Seu semblante não demonstrava surpresa nem nervosismo, apenas um tédio evidente.
— A seção de autoajuda fica nos fundos, senhor. Talvez você encontre algo sobre como superar a necessidade de atenção constante.
Gabriel riu suavemente, um som que pareceu vibrar entre as prateleiras de madeira. Alguns fios de cabelo na nuca de Rafaela se arrepiaram. Por puro ódio, ela garantiu a si mesma. Do outro lado da loja, uma senhora que folheava um livro de receitas arrumou os óculos, observando o capitão dos Falcões como se ele fosse uma obra de arte que fugira do museu.
Gabriel inclinou-se sobre o balcão, ignorando a plateia silenciosa de três clientes que agora fingiam ler enquanto prestavam atenção em cada sílaba.
— "Senhor"? — ele repetiu, saboreando a ironia. — Isso soa quase como um insulto vindo de você. E, para sua informação, eu já superei minha necessidade de atenção. Agora, eu só trabalho com metas específicas.
Ele deslizou um copo térmico de uma cafeteria cara sobre o balcão. O aroma de caramelo e grãos selecionados flutuou entre eles, desafiando o cheiro de papel característico do lugar.
— É pra você. Eu vim me desculpar. De novo. Sei que não posso devolver suas madrugadas perdidas, mas... — Ele baixou a voz, aquele tom que costumava fazer as calouras tremerem na base. — Posso garantir que as próximas sejam bem mais interessantes do que ler sobre células.
Rafaela olhou para o café e depois para ele, a mandíbula travada. Se o "interessantes" dele significava o que ela estava pensando, o ego desse cara precisava de uma equipe de resgate.
— Não aceitamos esse tipo de gorjeta por erros passados, senhor — respondeu ela, a voz baixa o suficiente para não alertar a gerente nos fundos, mas firme o bastante para cortá-lo.
Ela deu as costas a ele, pegando um carrinho com exemplares novos de "Amor, Teoricamente" de Ali Hazelwood. Gabriel, no entanto, não era do tipo que ficava parado esperando o apito final. Ele a seguiu pelo corredor estreito de Romances Contemporâneos, ignorando um cliente que tentava passar com uma pilha de livros e que acabou recuando diante da presença intimidora do atleta.
Quando Rafaela fez uma pausa para repor um livro, ele se aproximou, encurralando-a contra a estante. Foi nesse momento que o contraste a atingiu como um soco. No campus, ela estava sempre em movimento ou concentrada, mas ali, prensada entre o peito de Gabriel e as capas coloridas de livros de amor, ela percebeu o quanto ele era grande.
Gabriel parecia ocupar todo o oxigênio do corredor. Rafaela precisou inclinar a cabeça para trás para sustentar o olhar, sentindo-se pequena sob a sombra dos ombros largos dele, mas recusando-se a recuar um milímetro. A diferença de altura era ridícula; o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele, e a proximidade permitia que ela visse a dilatação das pupilas dele sob a luz fraca da livraria.
— Aceita o café. É um pedido de trégua — ele insistiu.
— Você realmente acha que um café de vinte reais compensa o meu trabalho destruído?
— Eu sei que não paga, Rebeca... — ele fez uma pausa, chegando um pouco mais perto, o suficiente para captar aquele mesmo perfume floral e limpo que o intrigara no corredor.
Rafaela respirou fundo e revirou os olhos de forma teatral, abrindo a boca para soltar o próximo corte e corrigi-lo, mas ele a interrompeu com um sorriso rápido antes que a primeira sílaba saísse:
— Brincadeira, Rafaela. Eu sei o seu nome. Só queria ver quanto tempo você levaria para me corrigir de novo.
— Parabéns, Duarte — ela disse, com a voz decidida. — Agora, se já terminou seu show de reconhecimento, eu tenho uma prateleira inteira para organizar.
Ela passou por ele, o ombro batendo propositalmente em seu peito rígido, e parou a um passo de distância, apenas o suficiente para lançar por cima do ombro para o público curioso:
— E o café? Se alguém quiser, o senhor Duarte está distribuindo brindes no balcão. Eu prefiro minhas madrugadas com as minhas moléculas celulares. Elas são bem mais complexas e muito menos previsíveis que ele.
Gabriel ficou parado no corredor, o sorriso sumindo lentamente enquanto os adolescentes ao lado soltavam risadinhas abafadas. Ele levou dois dedos à testa, em uma saudação silenciosa, sentindo o impacto do ombro dela ainda vibrar em seu peito. A aposta de Diego parecia, naquele momento, o menor dos seus problemas. O verdadeiro prêmio era descobrir como derrubar aquela marra que o fazia se sentir pequeno.
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Gabriel entrou no apartamento, jogando as chaves do carro sobre a mesa de centro. Diego e Daniel já estavam lá, cercados por controles de videogame e latinhas de energético, mas a atenção deles mudou para o capitão assim que ele atravessou a porta.
— E aí, cara? — Diego largou o controle, um sorriso zombeteiro já desenhado no rosto. — Conseguiu deixar a nerdzinha caidinha pelo "Efeito Duarte"? Ou já posso escolher em qual boate vou torrar os mil reais da aposta?
Gabriel afundou no sofá de couro, tentando aparentar a indiferença de sempre, mas o toque do ombro de Rafaela contra seu peito ainda reverberava de um jeito incômodo.
— Digamos que… ela é mais teimosa do que parece — respondeu, enquanto pegava uma das latinhas de energético da mesa e tomava um gole.
— "Teimosa"? — Diego soltou uma gargalhada de deboche. — Traduzindo: ela te deu mais um fora na frente de todo mundo, não foi? Bem que o Daniel disse que você ia quebrar a cara.
Gabriel sentiu um nó de irritação apertar sua garganta. A vaidade arranhada ardia mais do que qualquer pancada em campo.
— Ela só… não demonstrou interesse imediato. Mas já saquei qual é o jogo dela — mentiu, tentando mascarar o golpe que seu orgulho levara. — No fim, vai acabar na minha cama como todas as outras. É só uma questão de tempo e de encontrar o momento certo de agir.
Daniel ajeitou-se no sofá com um ar cético. Ele conhecia Gabriel o suficiente para ver além da pose de capitão invencível e percebeu que o amigo estava tentando convencer a si mesmo, mais do que a eles.
— Não sei não, Biel… — Daniel comentou, a voz calma contrastando com a agitação de Diego. — Essa garota não tem cara de ser "como todas". Ela tem cara de ser o tipo de problema que vai acabar te deixando de joelhos.
Gabriel soltou um riso seco, jogando a cabeça para trás no encosto do sofá, tentando afastar o desconforto que aquela frase causou.
— Até parece que vocês não me conhecem, pô. Não quero saber de romance, ainda mais com aquela nerd esquisita que prefere livros a pessoas. Só estou mantendo o foco na aposta. Mil reais são mil reais.
Diego deu um tapa no ombro de Gabriel, rindo alto.
— Então é bom você começar a estudar Biologia, capitão. Porque, pelo que você contou, o seu charme de camisa 10 está valendo menos que um livro usado na prateleira dela.
Gabriel não respondeu. Enquanto os amigos voltavam a discutir sobre o jogo do próximo sábado, ele fechou os olhos por um segundo e a imagem dela na luz fraca da livraria, sustentando o olhar contra o dele em desafio, voltou com força. "Ela vai acabar na minha cama", ele repetiu para si mesmo, como um mantra para acalmar o próprio ego. Mas, desta vez, a certeza absoluta não veio. No lugar dela, surgiu uma obsessão competitiva e incômoda que ele pretendia enterrar no próximo encontro.
Rafaela era… um enigma que ele não conseguia decifrar. Era a primeira pessoa, desde que pusera os pés em Niterói, que o olhara sem qualquer brilho nos olhos, sem expectativa ou interesse, exibindo apenas um desprezo genuíno que o desequilibrava mais do que qualquer entrada violenta de um zagueiro adversário.
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O sábado chegou com o calor típico de Niterói, aquele mormaço pesado que fazia o asfalto do campus parecer líquido. Gabriel estava no vestiário com os fones no ouvido, mantendo a concentração totalmente blindada para a partida que o aguardava contra os Jaguares.
Em campo, no entanto, ele se transformava. Longe dos jogos de ego dos corredores, Gabriel era uma força da natureza e um pesadelo para os oponentes. Ele jogava como se tivesse um radar particular; seus passes eram milimétricos e seus dribles, certeiros. Ele não jogava para aparecer; jogava para vencer. Era um líder vocal: gritava orientações, corrigia o posicionamento da defesa com autoridade e, quando o volante reserva errou um passe bobo que quase resultou em contra-ataque, Gabriel não o xingou. Ele apenas correu o dobro, recuperou a posse de bola com um carrinho limpo e, ao passar pelo garoto no meio-campo, bateu firme em seu ombro:
— Foca, caralho. A próxima é sua.
Ele era agressivo com os adversários, sim — um marcador implacável que não dava um segundo para o meio-campo rival respirar —, mas jogava limpo, movido pelo respeito visceral que tinha pelo esporte. Quando marcou o gol da vitória aos quarenta minutos do segundo tempo, estufando as redes com um chute de primeira, ele não fez dancinha ensaiada; apenas correu em direção à torcida, cerrou os punhos e apontou para o escudo no peito. Foi imediatamente soterrado pelos companheiros de equipe. Os mesmos caras que conheciam sua fama de marrento fora de campo, mas que morreriam por ele dentro das quatro linhas.
Nas arquibancadas, o grito da torcida da UC era ensurdecedor. Brunna estava lá, radiante na primeira fileira, usando uma camisa do time personalizada em um cropped justo com o número 10 e o nome "Duarte" estampado nas costas. Para todos que olhavam, ela ostentava com orgulho o posto de Primeira-Dama dos Falcões. Assim que o apito final ecoou, ela desceu para a grade, o rosto iluminado pelo triunfo e pela expectativa da promessa de compensação que ele fizera no início da semana.
Gabriel saiu do vestiário de banho tomado, o cabelo úmido e o perfume lutando contra o calor do fim de tarde. A adrenalina ainda corria nas veias, mas seu ego parecia estranhamente dormente. Quando ele cruzou o portão de saída em direção ao estacionamento, Brunna correu em sua direção, os olhos brilhando.
— Você foi incrível, como sempre, gatinho! — ela exclamou, jogando os braços ao redor do pescoço dele.
Ao se afastar de leve, ela esticou a mão, tentando entrelaçar os dedos nos dele, um gesto público e claro de posse diante dos alunos que deixavam o estádio. Gabriel, porém, desviou o movimento com uma agilidade fria e calculada, erguendo o braço para ajustar a alça da bolsa de jogo no ombro. O gesto foi sutil para quem via de longe, mas, para Brunna, a recusa foi nítida.
— Valeu, linda. O time jogou muito — Gabriel respondeu, com o tom de voz casual, ignorando o vinco de frustração que surgiu na testa dela. — A galera vai lá para casa comemorar a vitória. O Diego já foi comprar o gelo. Bora?
Ele sempre fora claro com ela e com qualquer outra. Não havia espaço para ambiguidades na sua agenda. Seus planos eram degraus milimetricamente traçados: formar-se, manter o destaque absoluto na liga universitária, atrair os olheiros certos e assinar com um clube profissional. Brunna parecera aceitar o acordo no início; era sexo de alto nível quando ambos tinham tempo, o bônus do status social no campus e nada mais. Mas o contágio do tempo era traiçoeiro.
— Poxa, Gabe, mas você prometeu na terça que hoje seríamos só nós dois — Brunna fez um beicinho, a voz murchando. — Achei que a gente podia jantar em São Francisco, com calma, e depois…
— Escuta, Brunna — ele a interrompeu, baixando o tom de voz, tornando-o firme e pragmático. — Nós ainda estamos na mesma página, não estamos? Diversão, sem rótulos ou cobranças. Porque, se as coisas estiverem mudando para você, é melhor a gente parar por aqui.
Brunna sentiu uma pontada aguda no peito, um desconforto físico que a fez perder o fôlego por um milésimo de segundo. No começo, ela se aproximara dele, atraída pelo poder que a camisa 10 exercia no ecossistema da universidade, mas a vaidade havia se misturado à expectativa. Ela realmente acreditava que, com paciência, se tornaria a exceção na vida de Gabriel Duarte. Que ele acordaria um dia e perceberia que precisava dela. Mas o teto de vidro daquela relação tinha limites rígidos, e ele fazia questão de lembrá-la disso sempre que ela tentava dar um passo além.
Ela engoliu em seco, forçando um sorriso para manter o que restava do seu orgulho intacto diante dos conhecidos que passavam.
— Claro, Gabe. Sem pressão — ela mentiu, sentindo o gosto amargo da rejeição mascarada de bom senso. — Só achei que seria bom variar. Vamos para seu apartamento, então. Vou com as meninas no carro da Jennifer e encontro vocês lá.
Gabriel assentiu, satisfeito por ter "alinhado as táticas" e restabelecido a ordem sem grandes dramas. Ele girou a chave do sedan na mão e caminhou até o seu carro. No entanto, enquanto manobrava o veículo para fora do campus, enfrentando o trânsito em direção à orla de Icaraí, a imagem que invadiu sua mente não foi a de Brunna torcendo na arquibancada com o seu nome nas costas.
Foi a de uma certa monitora de cabelos presos que, ao contrário de todo aquele estádio, olhava para ele e enxergava apenas um garoto previsível e desprovido de complexidade.
Gabriel apertou o volante com mais força, a mandíbula travada.
Ele soltou uma risada soprada, irritado consigo mesmo, enquanto encarava o semáforo fechar na Avenida Quintino Bocaiúva. Desvencilhar-se de Brunna tinha sido fácil, mecânico. Mas desbancar a marra da nerdzinha de Biologia estava exigindo um esforço que ele não planejava gastar com ela e nem com ninguém.
— É só um joguinho de ego — ele resmungou para o para-brisa, tentando convencer a si mesmo. — E eu nunca perco.
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Para Rafaela, aquele era o melhor dia da semana. Sem expediente na livraria, sem aulas, apenas seu pijama confortável e a bagunça organizada de seus livros e cadernos espalhados pela cama. O som suave de um podcast sobre astrobiologia preenchia o ambiente, criando uma bolha de serenidade longe da agitação do campus e das conversas vazias sobre status.
Era sábado à noite, e ela estava exatamente onde queria estar: em paz, na própria companhia.
O celular vibrou sobre o colchão. Sem pressa, Rafaela desviou os olhos do livro, imaginando ser Letícia avisando que dormiria na casa do namorado mais uma vez. Mas, ao ver o número desconhecido e a primeira frase na tela de bloqueio, ela revirou os olhos.
[Número Desconhecido]:Oi, "Roberta". Está em casa? 🤔
Rafaela franziu as sobrancelhas. Como ele conseguira seu número? E que insistência toda era aquela? A história de querer se desculpar pelo relatório destruído não tinha colado. O grande Gabriel Duarte jamais perderia tempo com ela se não houvesse uma razão oculta e provavelmente mesquinha por trás.
Rafaela:Quem é?
A quilômetros dali, na cobertura em Icaraí, as batidas de funk eram tão fortes que faziam os copos de cristal sobre o balcão da área gourmet vibrarem. O terraço estava lotado. No centro, Diego gritava com os braços para cima sobre uma jogada do campeonato, e Brunna tentava, sem sucesso, chamar sua atenção, oferecendo-lhe um shot de tequila.
Gabriel, porém, estava encostado no parapeito de vidro, de costas para a festa e de frente para a vista iluminada da Baía de Guanabara. Ele ignorou o copo que Brunna estendia e desbloqueou o celular. Ao ler o "Quem é?", bufou de leve, sentindo o ego levar um pequeno golpe.
Gabriel:Tem mais alguém que te chama de Roberta, além de mim? 🙄
Rafaela suspirou ao ver o emoji. Ele realmente se achava o centro do universo.
Rafaela:Como conseguiu meu número?
Gabriel: Tenho minhas fontes, nerdzinha.
Rafaela soltou um suspiro entediado. Ele provavelmente tinha dado uma piscadela para alguma estagiária da secretaria ou intimidado algum colega de turma que não soubera dizer não ao "Capitão".
Rafaela:Você não tem uma festa, um jogo ou qualquer outra futilidade para ocupar seu sábado, em vez de me incomodar?
Gabriel sorriu sozinho, a luz da tela iluminando seu rosto enquanto ele ignorava Diego, que o chamava de longe para uma partida na mesa de totó. Gabriel:Estou livre. E você, já tem planos para a noite?
Ele viu o status de "Digitando..." aparecer e sumir na barra superior. O suspense o deixava mais inquieto do que os minutos que antecediam uma final de campeonato.
Rafaela:Sim. Ignorar você completamente.
Gabriel soltou uma risada curta, o que atraiu alguns olhares curiosos de quem estava por perto na área externa. Ele não se lembrava da última vez que uma conversa por texto o fizera esquecer completamente o mundo ao redor dele. Gabriel:Vamos, Rafaela, não seja assim. Vai mesmo passar a noite sozinha? Que desperdício. 😌
Rafaela sentiu uma pontada de genuína pena da superficialidade dele. Rafaela:Não vejo isso como desperdício. Talvez você devesse experimentar um pouco de solidão. Quem sabe aprende algo.
A mensagem seguinte dele veio carregada daquela arrogância típica, mas que agora soava quase desesperada por atenção.
Gabriel:Você não faz ideia de quantas garotas dariam tudo para estar no seu lugar agora.
Rafaela: Então, por que não vai atrás de uma delas? Parece mais o seu estilo do que ficar aqui me perturbando.
Gabriel: Porque nenhuma delas é você.
Rafaela pousou o celular sobre a coxa, encarando o teto por um instante. "Porque nenhuma delas é você." A frase era um clichê de manual de sedução barato, mas, vindo dele, carregava uma insistência que ela, por algum motivo, não conseguia simplesmente ignorar. No fundo, tinha consciência de que o correto era bloqueá-lo e encerrar o assunto, mas, de alguma maneira, se viu digitando a resposta.
Rafaela:Não estou interessada no seu jogo.
Gabriel:Não é um jogo. É pura atração.
Rafaela soltou um riso seco na penumbra do quarto. Gabriel estava tão preso à sua bolha de aplausos que sequer percebia como se tornava previsível ao tentar reduzir tudo ao desejo físico.
Rafaela:Se fosse mesmo atração, você perceberia que eu não sou como as outras que caem nesse papo. Mas, claro, sua visão é limitada, Duarte. Você só enxerga o que quer conquistar, não o que as pessoas realmente são.
No terraço da cobertura, o sorriso de Gabriel vacilou. "Visão limitada." Ele olhou para trás por cima do ombro, observando o espaço cheio de gente bonita, risadas e música alta. Por um segundo, tudo aquilo pareceu… barulhento demais. Vazio demais.
Ele digitou rápido, a irritação vencendo a pose invencível.
Gabriel:E o que faz de você tão especial, então? Além desse sarcasmo todo?
A resposta demorou alguns minutos. E, quando veio, foi o nocaute da noite.
Rafaela:Talvez o fato de eu não precisar de uma plateia para me sentir válida. Boa noite, Gabriel. Tenta não morder a língua, o veneno pode ser fatal.
Ela desligou a tela, mas levou mais tempo do que gostaria de admitir para soltar o aparelho da mão. A raiva era um sentimento barulhento, e o silêncio de Gabriel era exatamente o que ela queria. Então, por que se sentia tão inquieta?
Gabriel leu a mensagem de Rafaela pela última vez. “O fato de eu não precisar de uma plateia para me sentir válida.”
Ele bloqueou a tela com força e enfiou o celular no bolso da bermuda, como se pudesse enterrar a frase junto com o aparelho. Não precisava daquilo. Não precisava de lições de moral de uma garota que passava o sábado à noite trancada num quarto lendo sobre bactérias.
Ele voltou para perto dos amigos. A música ecoava nas caixas de som, gargalhadas preenchiam o ambiente e copos eram erguidos em brindes repetitivos à sua atuação em campo. A comemoração estava no auge, exatamente como ele sempre gostou. Gabriel estava ali, rodeado de dezenas de pessoas, funcionando como o centro gravitacional da própria festa, mas sua cabeça estava em outro lugar. Ou melhor, em outra pessoa.
Ele girava o copo de cerveja na mão, distraído, observando o reflexo das luzes psicodélicas no líquido, tentando ignorar o fato de que as palavras cortantes de Rafaela ainda ecoavam em seus pensamentos, desafiando a lógica de tudo o que ele construíra como "sucesso".
Foi só quando sentiu um peso familiar em suas pernas que ele foi puxado de volta à realidade. Brunna se aproximou com a confiança de quem conhecia o território e sentou-se em seu colo no sofá da área externa, passando os braços pelo seu pescoço.
— E aí? — ela murmurou perto do ouvido dele, a voz carregada de uma intenção óbvia. — O que você acha da gente subir para a sua suíte e você finalmente me dar aquela compensação que prometeu?
Brunna roçou os lábios no lóbulo da orelha dele. O perfume doce dela — quase enjoativo de tão forte — impregnou o espaço, nublando seus sentidos de um jeito que ele costumava receber bem. Gabriel olhou para ela, buscando ali o conforto da admiração sem questionamentos que Brunna sempre oferecia. Era fácil. Era seguro. Era o oposto exato de tudo o que Rafaela representava. Gabriel deu um sorriso forçado e virou o resto da cerveja em um único gole, sentindo o amargor descer rasgando pela garganta.
— Claro, linda. Promessa é dívida — respondeu ele, a voz saindo mais rouca do que o planejado. Ele se levantou, puxando Brunna pela mão e guiando-a em direção às escadas que levavam ao primeiro piso da cobertura, sob os assobios e piadas de Diego e do resto dos jogadores do time. Ele ia subir. Ela ia ter a "compensação". Mas, enquanto vencia cada degrau da escada de granito, uma parte dele — a parte que ele mais odiava naquele momento — ainda esperava que o celular vibrasse no bolso com apenas mais uma mensagem ácida da garota que não precisava de plateia.
O celular, no entanto, permaneceu em silêncio.
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