AMOR EM CAMPO

29 Capítulo 28: A Pior


Notas iniciais
Oi, time! 🤎 Chegamos a mais um capítulo. Boa leitura!

campus parecia o mesmo de sempre, mas não era.

Rafaela percebeu isso antes mesmo de cruzar o portal do prédio de biológicas. Caminhando ao lado de Letícia, notou quando duas veteranas diminuíram o passo, cochichando atrás da mão antes de soltarem uma risadinha abafada.

— Credo, você virou atração turística por acaso? — Letícia murmurou entre dentes, encarando um grupo no gramado que gesticulava na direção delas.

Rafaela deu de ombros, mas seu estômago deu o primeiro nó do dia.

Nos corredores, a atmosfera sufocante piorou. Fragmentos de conversas flutuavam no ar — "...não acredito que ele assumiu logo ela". No pátio interno, dois estudantes de Educação Física bebericavam energéticos escorados no muro:

— Mano, só pode ser dívida de jogo. Não tem outra explicação.

— Ou castigo — o outro riu. — O Duarte perdeu uma aposta muito braba para ter que aguentar isso.

Letícia girou nos calcanhares, pronta para perder o réu primário de forma violenta, mas Rafaela segurou seu braço com firmeza.

— Deixa para lá. Vamos para a aula.

Na sala, Rafaela performou. Fingiu focar nas lâminas do microscópio, mas sua mente estava presa em um circuito fechado de risadas abafadas. No meio da explicação do professor, o celular vibrou no bolso:

Gabriel: Oi, nerdizinha! Te espero no pátio. 😉

Guardou o material e saiu apressada. Antes de enfrentar a área externa, buscou refúgio no banheiro do bloco de exatas. O local parecia deserto. Entrou na última cabine, pendurou a mochila e trancou a porta, querendo apenas um segundo para respirar.

Foi quando os passos e o som de saltos ecoaram no azulejo.

— Eu ainda não consigo engolir que o Gabriel está mesmo com ela — disse a primeira voz, carregada de desdém. — Ele já ficou com garotas infinitamente mais bonitas.

Rafaela congelou na cabine.

— Ah, eu não acho ela feia — comentou uma segunda voz, incerta. — É bonita de um jeito mais simples.

— "Simples" é eufemismo para "sem graça" — a primeira retrucou impiedosamente, arrancando risos. — Sejamos realistas. Comparada a qualquer menina que o Gabriel já pegou... ela é a pior de todas.

— Vai ver ele cansou das meninas padrão e resolveu fazer caridade com a nerd da Biologia — completou uma terceira.

— Ou só tá brincando. Daqui a duas semanas ele enjoa do brinquedo novo e volta para o circuito de festas.

O clique pesado da porta indicou que o banheiro estava vazio outra vez.

Dentro do cubículo, Rafaela encarou a cerâmica do chão. Quando finalmente saiu, o espelho sobre a pia lhe devolveu uma imagem que pareceu miúda sob a luz fluorescente fria. "A pior." A expressão ganhou eco imediato na sua cabeça. O fato de não gastar horas se produzindo, de preferir suas calças gastas e seus livros, tornara-se, de repente, um defeito público.

Ajeitou a mochila nos ombros e saiu.

Nos jardins centrais, avistou Gabriel cercado pelos companheiros de time. Ele ria fácil, os fios desalinhados pelo vento, ostentando o magnetismo despretensioso que sempre parava o pátio. Quantas daquelas risadas ele já tinha compartilhado com as garotas ditas "perfeitas"?

Gabriel a viu e se despediu do grupo com um toque de mãos. Antes de ele se afastar, um dos veteranos cochichou de canto:

— Achei que a história com a nerd fosse só por causa daquela aposta. Levou a sério mesmo?

A raiva ferveu o sangue do capitão, mas ele ignorou o comentário, engolindo a seco, porque Rafaela já estava se aproximando. Ele abriu os braços para envolvê-la, porém sentiu a postura dela completamente rígida contra o seu peito.

— Oi, nerdzinha — murmurou, no tom suave e baixo que guardava apenas para ela. — Estava com saudade.

— Oi — ela respondeu, a voz perfeitamente ensaiada. — Achei que estivesse em aula.

— Terminou mais cedo. Tá tudo bem?

— Está. Só... muitos relatórios.

Gabriel estreitou os olhos. Sabia que era mentira pela forma quase ansiosa como ela apertava a alça da mochila. Sem forçar o interrogatório no meio da multidão, guiou-a até a árvore nos fundos do bloco de Biologia. Sentou-se, apoiado no tronco largo, e a acomodou entre as próprias pernas, trazendo-a para um contato seguro.

— Finalmente um momento de paz — arriscou uma brincadeira, entrelaçando os dedos nos dela.

— Você não sobreviveria à paz, Gabriel. Você precisa do caos — rebateu ela, se esforçando para resgatar o sarcasmo de sempre, mas a frase soou sem convicção.

Ele a virou de leve pelo quadril para que ficassem de frente.

— Rafa, olha para mim. O que aconteceu? Você mente muito mal quando está chateada.

A pergunta direta fez os olhos dela arderem na hora e a garganta deu um nó apertado.

— Vai me dizer que não percebeu os cochichos nos corredores desde cedo, Gabriel?

Ele emudeceu. Tinha percebido os olhares e indiretas da manhã inteira, mas acreditou que ela simplesmente esmagaria a fofoca com a sagacidade habitual. Percebeu, de imediato, o quão estúpido fora assumir que ela sairia ilesa.

— O que exatamente você ouviu? — O tom dele baixou, assumindo uma nota perigosa.

Rafaela desviou a vista, passando a mão pelos cabelos soltos.

— Nada que valha a pena. O de sempre. Pessoas chocadas porque o grande Gabriel Duarte resolveu aparecer com a garota invisível da Biologia.

— Me diz exatamente o que falaram, Rafa. Eu preciso saber.

Ela mordeu a parte interna do lábio inferior, o peito subindo e descendo no ritmo de uma respiração contida.

— Disseram que, de todas as meninas com quem você já apareceu nesta faculdade... eu sou a pior escolha.

A palavra atingiu Gabriel como uma bolada direto na cara.

— Quem foi a escrota que falou isso? — A voz dele mudou por completo. Cortante e fria.

— Não interessa. É só gente insignificante.

— Interessa para mim — ele avançou até encostar a testa na têmpora dela. — Porque machucaram você. E porque dá para ver nos seus olhos que, por um segundo, você cogitou a possibilidade de elas estarem certas.

Rafaela fechou as pálpebras, lutando contra as lágrimas que ameaçavam cair. Gabriel a trouxe com força para o peito, abraçando-a como se quisesse protegê-la do mundo.

Ele reforçou o aperto, tentando blindá-la de seu próprio passado inconsequente.

— Rafa… — murmurou no topo da cabeça dela. — Ninguém neste mundo vai me convencer de que estar com você é menos do que a melhor coisa que já me aconteceu. Ninguém tem esse poder.

Ela permaneceu recolhida contra ele.

— E se algum infeliz repetir uma imbecilidade dessas — ele roçou o nariz na curva do pescoço dela —, quero que você mande a pessoa tomar bem no olho do rabo dela. Sem classe nenhuma. Como um animal não domesticado faria.

Um riso solto escapou da garganta de Rafaela. O corpo dela finalmente perdeu a tensão defensiva.

— Tô falando sério — ele sorriu aliviado, segurando-a pelo queixo para fazê-la encará-lo. — Você não é "menos". Nunca ceda a isso. Eu não estou com você, apesar de quem você é. Eu estou com você exatamente por causa de quem você é.

Rafaela sustentou o olhar, o peito lentamente aquecido pela segurança dele.

— E as outras garotas?

— Para mim, aquilo era tudo conveniência. Algo rápido — admitiu ele, entregando uma honestidade crua e inédita. — Mas com você... eu não sinto a menor vontade de ir embora depois que o beijo acaba. Quero estar perto de você até quando você me ignora para estudar tabelas de micro-organismos.

— Às vezes acho que você vai acordar um dia e simplesmente enjoar de mim — confessou ela, revelando o centro de todas as suas inseguranças.

— E eu acho que você precisa parar de falar besteira — ele rebateu de imediato. — O real motivo desse falatório invejoso é que ninguém lá dentro entende como um ogro como eu fez a garota mais linda e inteligente do campus se apaixonar.

Rafaela arqueou a sobrancelha, o brilho afiado das respostas prontas retornando aos poucos.

— E quem disse que eu estou apaixonada por você, Duarte?

— Você mesma disse. E nem precisava, eu sei ler linguagem corporal. Você me olha como se quisesse racionalizar a situação... mas a coitada da sua mente já perdeu a disputa para o resto do corpo faz tempo.

Ela umedeceu os lábios, afetada pela proximidade sufocante.

— E o que você vai fazer a respeito, capitão?

— Isso é um desafio, Rafaela?

— Considere um convite formal.

Gabriel enroscou os dedos curtos na nuca dela, eliminando o espaço.

O beijo começou lento e cuidadoso, como se as mãos dele tentassem apagar fisicamente o peso humilhante daquele dia. Rafaela entregou-se ao momento, permitindo que o calor familiar dele ofuscasse o mundo exterior.

Contudo, quando se afastaram, ofegantes, Gabriel encarou o fundo dos olhos castanhos dela. No brilho das pupilas, ele ainda conseguiu enxergar a sombra residual das provocações.

E soube, naquele exato segundo, que um beijo não seria o bastante para apagar o problema que ele mesmo ajudou a criar.

⚽️📖⚽️


O som das travas das chuteiras estalando contra o piso de cimento antecedia o humor sombrio de Gabriel. Ele não cruzou o corredor do Centro de Treinamento caminhando de forma habitual; parecia uma tempestade em vias de desabar, o espelho perfeito das nuvens carregadas que pairavam sobre Niterói.

A imagem de Rafaela encolhida sob a árvore havia passado as horas seguintes assombrando-o. Saber que o próprio passado a expusera àquele nível de maldade transformara o receio em pura agressividade.

— Bora, bora! Linha de quatro defensiva, foca na pressão! — o treinador apitou.

Assim que a bola rolou no tático, a equipe dos Falcões compreendeu que o camisa dez não estava ali para treinar fundamentos. Quando Daniel subiu para cortar um passe aéreo, Gabriel antecipou a queda, tomou o espaço jogando o ombro com força desmedida e arrancou, deixando o zagueiro deitado.

— Caralho, Gabriel! É treino, porra! — Daniel chiou de longe, limpando a grama da boca.

Gabriel nem olhou para trás. Cortou para o meio, quebrou Léo com uma finta curta e soltou uma pancada de pé direito. A bola estufou a rede com tanta violência que o travessão metálico ressoou por todo o CT.

— O que deu nesse moleque hoje? — Vinícius comentou com Diego no meio-campo, observando o capitão recuperar a bola com um soco no couro, com os dentes trincados.

Gabriel descontou cada comentário alheio e cada ponta de sua própria angústia em noventa minutos de corridas exaustivas e finalizações brutais. Precisava esgotar o físico para tentar silenciar a mente.

Quando o apito final determinou o encerramento das atividades, a maioria desabou na grama. Ele, porém, permaneceu de pé. Arrancou o colete esportivo num puxão ríspido, jogou-o no chão e caminhou a passos largos até Diego, que se hidratava nos bancos de reserva.

— Diego. No vestiário. Agora.

No ambiente abafado, cheirando a arnica e suor, Gabriel arremessou a mochila no banco e emparedou o amigo.

— Que merda de fofoca é essa que os caras da Educação Física estavam espalhando ontem? — disparou.

Diego soltou um suspiro pesado, esfregando o rosto com as duas mãos.

— Você sabe como a UC funciona, cara. A "rádio corredor" não perdoa.

— Não quero saber de filosofia campus, cacete! — ele avançou, a postura perigosamente hostil. — Os caras estavam falando da aposta. O Lucas andou abrindo a boca pelos cantos?

— O Lucas não falou nada direto, juro — Diego ergueu as palmas pedindo trégua. — Mas você lembra como aquele desafio foi selado na rodinha do jardim. O boato ganhou pernas sozinho. Tem gente dizendo que você só assumiu o namoro para pagar o blefe de pegar a garota mais difícil da faculdade.

O capitão fechou as pálpebras. Era o pesadelo se materializando.

— Isso tem que acabar. Hoje. — O brilho escuro de fúria nos olhos dele era absoluto. — Podem falar o que quiserem de mim, mas a Rafaela não é peça nesse jogo. Ela ouviu merda ontem, cara. Escutou gente chamando ela de "a pior escolha" que eu já fiz.

A zoação de Diego desapareceu no mesmo instante, substituída por um semblante de compaixão e culpa pela garota.

— Aqui dentro, o comando é meu — Gabriel prosseguiu. — Deixe claro para cada moleque desse time, do titular à base: se eu ouvir mais um sussurro sobre a Rafaela ou sobre a porra dessa aposta... o infeliz mofa na reserva pelo resto do ano. E eu resolvo o resto na porrada, se for preciso. Fui claro?

Diego assentiu, a expressão fechada.

— Entendido. Ninguém mais pia sobre isso aqui. Mas toma cuidado, hermano. A fofoca saiu da nossa bolha. É questão de dias até chegar aos ouvidos dela com todos os detalhes e valores de nota cem. E, se a Rafaela descobrir por terceiros que ela começou como um troféu... ela vaza da sua vida e não olha para trás.

Gabriel absorveu o golpe mudo. Sem argumentar, pegou a toalha e entrou nos chuveiros.

Ao sair do CT pela porta lateral, o céu de Niterói começava a despejar as primeiras gotas de uma chuva fria e insistente.

Ele entrou no sedan, bateu a porta e ligou o motor. No entanto, permaneceu estático por um longo tempo, a testa apoiada contra o aro do volante. A vontade primária era dirigir até o apartamento dela, abraçá-la e fingir que tudo ficaria intacto. Mas a sua própria mente girava de forma barulhenta demais para sustentar o teatro do namorado perfeito.

Então, ele apenas fugiu.

Dirigiu sem destino pelas vias úmidas da cidade.

Quando finalmente parou em casa, o relógio marcava sete e meia da noite. Passou pela porta principal e encontrou Daniel afundado no videogame, enquanto Diego digitava em seu notebook.

— Olha só, o furacão em pessoa chegou — Daniel comentou. — Que bicho te picou no treino de hoje?

Gabriel puxou uma garrafa de água na geladeira e desabou na poltrona.

— A Rafa... — começou, exterminando o clima descontraído da sala. — Ela ouviu uns absurdos hoje de manhã. Que não era bonita o suficiente, que eu "caí de nível". E uns caras vieram me cobrar da aposta. O boato vazou pra valer.

O zagueiro pausou o jogo na hora.

— Tá, mas... você esperava o quê, Biel? Você assinou embaixo daquela brincadeira idiota no início do período.

— Eu sei, caralho — ele massageou a nuca, estressado. — E agora tô pagando com juros por ter sido um completo babaca presunçoso.

— Acha mesmo que ameaçar a galera do time vai apagar a história? — Daniel questionou, com a razão fria. — O risco não é o que os idiotas comentam. É o que ela ainda não sabe sobre nós.

Diego fechou a tela do notebook.

— O Dan tá certo, Gabriel. Conta a verdade para ela de uma vez. Se o que vocês sentem é forte mesmo, vocês vão dar um jeito de resolver. Mas continuar adiando a bomba vai fazer ela estourar na cara da mina. E aí não tem volta.

— Eu não posso contar para ela agora! — retrucou num volume elevado, acuado. — A menina chegou para mim se sentindo um lixo. Se eu despejar a história da grana no colo dela amanhã, ela vai achar que confirmou todas as piadas.

Daniel ficou de pé, notando a paralisia do amigo.

— Faz o que achar melhor, mano. Mas saiba que você está tentando tapar o sol com a peneira para não ter que encarar a merda que fez.

Quando a dupla foi para os quartos, a sala pareceu esmagadora. O barulho dos pneus cortando as poças na avenida e o zumbido mecânico da geladeira preenchiam o vazio.

Caminhou até seu quarto, deitou-se de costas sobre o colchão desarrumado e sacou o celular. A luz do visor marcou seu rosto exausto na penumbra.

Havia duas notificações antigas.

Minha Nerdzinha ❤: Terminei agora de organizar um lote inteiro de “Senhora”, de Machado de Assis. Lembrei de você. Quer passar lá em casa mais tarde?

Minha Nerdzinha ❤: Biel?

A culpa afundou-lhe o peito feito uma âncora. Acionou o teclado e esboçou uma desculpa: "Desculpa por sumir. O treino atrasou e fiquei agarrado aqui." Apagou. Era a covardia em formato de texto.

"A gente precisa conversar sério amanhã." Apagou rápido. Soava como um aviso prévio de um término que ele não queria.

"Estou com saudade." Apagou também. Era a verdade mais pura, mas parecia suja vindo dele naquele momento.

O aparelho vibrou uma última vez em suas mãos:

Minha Nerdzinha ❤:Tudo bem se não deu para vir hoje. Imagino que o treino tenha sido puxado. Espero que esteja bem. Boa noite! ❤️

O minúsculo coração vermelho no fim do balão de fala pareceu queimar sua vista. Seus polegares hesitaram sobre a tela.

Entretanto, a covardia prevaleceu.

Bloqueou o visor, deixou o aparelho tombar sobre o travesseiro e encarou as sombras no teto.

O cara que sempre soube exatamente como ditar o ritmo do jogo, dentro e fora dos gramados, simplesmente não fazia a menor ideia de como continuar a partida.


Notas finais
E chegamos ao fim de mais um capítulo. 🥹🤎 E eu só tenho uma coisa a dizer: GABRIEL, MEU FILHO… CONTA LOGO. Daniel já falou. Diego já falou. O boato já está circulando. A Rafaela já começou a sentir os efeitos. E o bonito ainda está no modo: “vou esperar o momento certo”. 🤡 Amor, o momento certo já passou faz umas boas páginas. 😂 Mas, brincadeiras à parte, esse capítulo foi importante porque a Rafaela começa a encarar uma insegurança que vai muito além da opinião de algumas meninas no banheiro. E Gabriel começa a perceber que não consegue protegê-la para sempre das consequências do próprio passado. Agora quero saber de vocês : 👀 Acham que o Gabriel deve contar sobre a aposta imediatamente ou esperar a Rafaela estar melhor? ⚽ E sejam sinceros: vocês estão começando a ficar com medo do momento em que ela descobrir como tudo começou? Fofoquinha literária oficialmente aberta. 🫶📖🤎