Notas iniciais
Oi, meus amores! ❤️ Passando aqui antes da leitura para saber: como vocês estão sobrevivendo a esses capítulos finais? Porque eu confesso que estou ficando cada vez mais emotiva conforme a gente se aproxima do fim dessa história. Agora vou parar de falar antes que eu entregue alguma coisa. Boa leitura! ❤️

Rafaela arrastou os pés pela calçada como se estivesse escalando o Everest. Sua cabeça latejava em um ritmo hipnótico e a náusea subia em ondas toda vez que ela tentava focar a visão. Ela só precisava de um banho, um café extra-forte e mais meia hora de revisão para o seminário antes de ir para o trabalho.

Só mais um esforço, Rafa.

Quando ela inseriu a chave na fechadura, a porta não ofereceu resistência. Estava aberta. O pânico gelado que a atingiu foi o suficiente para fazê-la despertar do torpor. Ela empurrou a porta devagar, o coração martelando contra as costelas.

O cheiro a atingiu primeiro: arroz fresco, alho e algo que lembrava o perfume amadeirado de Gabriel.

Ela parou no meio da sala, atordoada. O caos de livros e papéis que ela deixara pela manhã fora substituído por uma ordem impecável. A louça acumulada na pia sumira. E, na cozinha, Gabriel mexia calmamente em uma panela, usando um de seus panos de prato pendurado no ombro largo como se fosse o dono do lugar.

— O que você está fazendo aqui? — A voz dela saiu em um sussurro rouco, mas carregado de veneno.

Gabriel se virou devagar. Ele não parecia arrependido; parecia um caçador que acabara de capturar a presa mais teimosa da floresta.

— Oi, chegou. — O tom dele era calmo, contrastando com o caos nos olhos dela. — O almoço está quase pronto. Vai tomar um banho. Você está pálida e tremendo de fome, Rafaela.

— Como você entrou? — Ela deu um passo à frente, a fúria começando a nublar sua fraqueza física. — Eu não te disse onde ficava a chave para você invadir a minha casa e... e fazer faxina! Sai daqui, Gabriel. Agora!

— Eu não vou a lugar nenhum. — Ele largou a colher e caminhou até ela. A presença dele preenchia a sala pequena, tornando o ar escasso e elétrico. — E nem você. Eu liguei para o Sr. Alberto. Você não vai trabalhar hoje. Nem amanhã.

Rafaela sentiu o sangue ferver, uma descarga de adrenalina que mascarou a tontura por um segundo.

— Você fez o quê? — Ela avançou, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo. — Quem você pensa que é? Você não tem o direito de interferir no meu emprego! Você não sabe o quanto eu preciso daquele dinheiro, você não sabe nada da minha vida!

— Eu sei que você está se matando! — Gabriel rugiu de volta, a voz ecoando pelas paredes. — Eu sei que você está pagando as contas sozinha porque é leal demais para admitir que a Letícia te abandonou por um babaca! Eu sei que você prefere desmaiar de fome a aceitar um centavo de ninguém. Mas eu não vou ficar sentado assistindo você se destruir por puro orgulho, Rafaela!

— O meu orgulho é a única coisa que eu tenho! — ela gritou, as lágrimas de frustração e exaustão finalmente transbordando. — Eu não sou um dos seus jogadores, Gabriel! Você não manda em mim! Eu odeio o jeito que você acha que pode resolver tudo batendo no peito! Eu odeio... odeio você!

Ela tentou empurrá-lo, um gesto inútil contra a parede de músculos que era o peito dele. Gabriel não recuou um milímetro. Ele envolveu as mãos dela com as suas, contendo os punhos dela contra o próprio peito dele, forçando-a a parar o ataque e a encará-lo de perto.

— Mente de novo — ele desafiou, a respiração pesada e quente soprando contra o rosto dela. — Diz de novo que me odeia enquanto você treme nos meus braços porque não aguenta mais carregar o mundo sozinha.

— Eu odeio... — ela começou, mas a voz quebrou em um soluço seco.

O olhar de Gabriel desceu para os olhos inundados dela. A raiva entre eles mudou de frequência, tornando-se algo visceral, denso e perigoso.

— Deixa eu cuidar de você, porra — ele sussurrou, a testa encostada na dela em um armistício desesperado. — Só dessa vez. Para de lutar comigo.

Rafaela não respondeu com palavras. Ela soltou os pulsos do aperto dele e, em vez de empurrá-lo, enterrou as mãos nos fios curtos da nuca de Gabriel, puxando-o para baixo com uma urgência que a surpreendeu.

O beijo tinha gosto de desespero, de fome acumulada e de uma rendição que ambos vinham adiando desde que tudo explodiu entre eles. Gabriel a envolveu pela cintura, suspendendo-a como se quisesse fundir as duas almas. Rafaela soltou um gemido baixo contra a boca dele, mas, no segundo seguinte, o som se transformou em um suspiro curto e falho.

A descarga de adrenalina da briga, que a mantinha em pé, evaporou de uma vez. O calor da boca de Gabriel contra a sua começou a parecer distante, como se um oceano estivesse se metendo entre eles. O mundo, que estava em chamas, subitamente ficou frio e escuro.

Gabriel sentiu a mudança instantaneamente. O corpo de Rafaela, que segundos antes estava tenso e entregue ao beijo, ficou subitamente pesado. As mãos dela, que se enroscavam em sua nuca, escorregaram sem vida pelos seus ombros.

— Rafa? — ele murmurou contra os lábios dela, mas não obteve resposta.

Ele se afastou apenas o suficiente para ver o rosto dela. Os olhos de Rafaela estavam revirados, as pálpebras tremendo, e a pele, antes febril, agora estava de um tom de cinza assustador.

— Rafaela! — O grito dele ecoou pelo cômodo.

Ele a pegou no colo antes que os joelhos dela atingissem o chão. O pânico, algo que Gabriel raramente sentia em campo sob a pressão de milhares de pessoas, agora o atingia como um soco no estômago. Ela era leve demais, frágil demais.

— Acorda, amor... por favor, acorda — ele implorou, sentando-se no sofá com ela nos braços, dando batidinhas leves no rosto dela.

Nada. O peito dela subia e descia em uma respiração superficial e rápida. Ele encostou a mão na testa dela e recuou; a febre agora era um incêndio real.

Gabriel não perdeu tempo com o jantar que queimava na cozinha ou com o orgulho ferido dela. Ele a carregou até o carro.

O trajeto até o pronto-socorro foi um borrão de semáforos ignorados e mãos apertando o volante com força suficiente para quebrar o couro. No banco do passageiro, Rafaela pendia a cabeça para o lado, a imagem viva do esgotamento que ela tentara esconder de todos.

Ao chegar na emergência, ele não esperou por uma maca. Entrou carregando-a, a voz ecoando pelo saguão estéril.

— Alguém ajude ela! — ele rugiu, atraindo olhares de enfermeiros e pacientes. — Ela desmaiou. Está queimando de febre.

Enquanto a levavam para dentro em uma maca, Gabriel foi impedido de seguir pela porta automática. Ele ficou parado ali, no meio do corredor, as mãos manchadas pelo suor frio dela, sentindo-se o homem mais impotente do mundo.

⚽⚽⚽

Gabriel estava sentado em uma das cadeiras de plástico da sala de espera do hospital, os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos enterradas nos cabelos.

Ao seu lado, Daniel, Diego e Letícia mantinham um silêncio respeitoso, interrompido apenas pelo som do pé direito dele, que batia em um compasso frenético e nervoso contra o chão. Letícia tinha os olhos vermelhos, pois a culpa por ter deixado a amiga carregar o mundo nas costas finalmente a encontrara.

Quando o médico surgiu na porta automática, Gabriel se levantou em um salto, o corpo reagindo por pura ansiedade e instinto de defesa.

— Parentes de Rafaela de Oliveira Andrade? — o médico perguntou, ajustando os óculos.

— Eu sou o namorado dela — Gabriel deu um passo à frente, a voz soando mais rouca do que o normal. — Como ela está?

— Ela teve um quadro severo de exaustão, agravado por desidratação e uma febre que quase saiu do controle. O corpo dela simplesmente desligou, rapaz. Ela já acordou, o soro e a medicação estão fazendo efeito, mas ela precisa de repouso absoluto nos próximos dias. Entendido?

Gabriel soltou o ar que nem sabia que estava segurando. O alívio foi tão violento que ele precisou de um segundo para as pernas não fraquejarem.

— Entendido, doutor. Eu posso ver ela?

— Apenas um por vez. Ela está na enfermaria, leito 402.

Gabriel empurrou a porta do quarto com uma delicadeza que contrastava com seu tamanho. A enfermaria estava quase vazia e era silenciosa; apenas o bipe rítmico do monitor cardíaco preenchia o espaço.

Rafaela estava deitada, parecendo minúscula entre os lençóis brancos. O acesso do soro em seu braço fino era um lembrete cruel de sua fragilidade. Quando ela ouviu o som da porta, virou o rosto devagar. Os olhos, ainda um pouco nublados pela medicação, encontraram os dele.

— Oi... — ela sussurrou, a voz quase sumindo. — Acho que estraguei o jantar.

Gabriel não riu. Ele caminhou até a beira da cama e se sentou na poltrona ao lado, sem tirar os olhos dela. Ele pegou a mão livre de Rafaela, cobrindo-a inteiramente com a sua, e o calor da pele dela — agora uma temperatura humana, não um incêndio — o fez estremecer.

— Não faz mais isso, Rafaela — ele disse, e a voz dele quebrou.

Rafaela piscou, surpresa. Ela nunca tinha visto o Gabriel assim. O cara que peitava qualquer um no campo estava ali com os ombros caídos e os olhos nitidamente marejados, brilhando sob a luz fluorescente do quarto.

— Gabriel... eu estou bem. Foi só uma tontura...

— Não foi só uma tontura! — ele interrompeu, um traço da antiga intensidade voltando, mas suavizado pelo medo. — Você apagou nos meus braços. Eu... por um segundo, eu achei que você ia me deixar antes mesmo da gente recomeçar de verdade.

Uma lágrima solitária escapou e rolou pelo rosto dele, e Gabriel não fez menção de limpá-la. Ele apenas apertou a mão dela um pouco mais forte.

— Não faça mais isso, por favor — ele repetiu. — O seu orgulho não vale o meu pavor de te perder. Se você precisar que eu pague o aluguel, que eu faça o seu jantar, que eu te carregue no colo por aquele campus inteiro até você se formar... eu vou fazer. E você vai me deixar fazer, porque eu não aguento a ideia de um mundo em que você não esteja para me dar bronca.

Rafaela sentiu o próprio coração acelerar no monitor. A barreira que ela construiu durante meses — feita de desconfiança, medo e autossuficiência — não ruiu; ela simplesmente se dissolveu. Não havia como lutar contra aquele olhar.

— Me desculpa — ela sussurrou, sentindo as próprias lágrimas molharem o travesseiro. — Eu só não queria ser um fardo.

— Você nunca foi um fardo, nerdzinha. Nunca mais diga isso, entendeu? — Ele se inclinou e beijou a testa dela, um toque suave e demorado. — Agora descansa. Eu vou estar aqui quando você acordar. E amanhã, e depois... e na próxima quinta também.

Gabriel entrelaçou os dedos nos dela como se quisesse prendê-la à realidade. No entanto, uma silhueta hesitante apareceu no vidro da porta, interrompendo o casulo que eles haviam criado. Letícia entrou devagar, as mãos apertando as alças da bolsa contra o peito, usando-a como um escudo invisível contra o mundo.

— Oi... — Letícia sussurrou, parando a dois metros da cama, como se tivesse medo de que a fragilidade de Rafaela fosse contagiosa. — Gabe, será que eu posso falar um minutinho com a Rafa?

Gabriel assentiu, o maxilar ainda rígido pela preocupação. Ele depositou outro beijo demorado na testa de Rafaela e saiu, prometendo buscar um suco que não tivesse o indefectível "gosto de hospital".

Assim que a porta se fechou atrás do porte imponente de Gabriel, o silêncio do quarto mudou. Letícia se aproximou e sentou na beira da cama, os olhos marejados de uma culpa que transbordava por todos os poros.

— Você me deu um susto enorme, Rafa.

Rafaela tentou sorrir, mas a pele do rosto parecia esticada demais, o esforço drenando o resto de energia que lhe sobrava.

— Sobrevivi, Lê. Só preciso de descanso por uns dias. O meu corpo só... pediu demissão.

— Rafa, eu me sinto um lixo... — Letícia desviou o olhar para o suporte do soro, as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos cílios. — Eu não queria que nada disso acontecesse, eu juro.

— A culpa não é sua, Lelê. Eu que fui teimosa. Deveria ter anunciado o seu quarto, mas... — A voz de Rafaela falhou, mas ela continuou, firme em sua verdade. — Eu queria que você voltasse. Esse sempre foi o nosso plano, lembra? Mesma faculdade, morar juntas. Garotas na cidade contra o resto do mundo.

Letícia soltou um riso amargo, limpando o rosto com as costas da mão em um gesto nervoso.

— Eu sei. Eu lembro de cada detalhe. Mas... o Guilherme, sabe? Ele às vezes passa do ponto, eu reconheço. Ele é intenso, tem aquele gênio difícil, e a gente briga muito por causa do ciúme dele, e eu também não facilito. Mas ele faz tanto por mim, Rafa... Ele diz que tudo o que faz é por medo de me perder. Ele me ama demais, entende?

Rafaela sentiu um aperto no peito que o monitor cardíaco não seria capaz de registrar. Ela ouvia as palavras, mas enxergava o que estava por trás delas: o roteiro clássico do isolamento disfarçado de adoração.

— Lê, ele te afastou de todo mundo. Olha para você... está sempre pisando em ovos, medindo as palavras. E esses hematomas no seu braço? — Rafaela apontou com o olhar para a marca roxa que o casaco de Letícia não conseguia esconder totalmente.

— Mas ele melhorou muito desde que fomos morar juntos! — Letícia interrompeu, a voz subindo um tom, aguda e desesperada, como se precisasse convencer a si mesma antes de convencer a amiga. — Ele está se esforçando, juro. Ele só precisa de um tempo para se ajustar, para entender que eu não vou a lugar nenhum. Eu não posso largá-lo agora, não quando ele diz que eu sou a única coisa boa na vida dele. Se eu sair, ele desmorona.

Rafaela quis gritar que o "cuidado" do Guilherme era uma jaula de ouro. Mas viu o brilho de negação nos olhos da amiga e soube que, naquele estágio da obsessão, as verdades eram tratadas como ataques.

— Eu só quero que você fique bem — disse Rafaela, por fim, estendendo a mão trêmula para tocar o braço da amiga. — O seu quarto ainda está lá, Letícia. Intocado. A chave ainda está no mesmo esconderijo. Se a "melhora" dele falhar... você sabe onde me encontrar.

Letícia forçou um sorriso que não alcançou os olhos, nos quais o medo ainda montava guarda. Ela deu um beijo rápido no rosto de Rafaela e se levantou em um salto, como se o tempo estivesse se esgotando.

— Dorme um pouco, tá? Eu preciso ir. O Gui já ligou trezentas vezes; ele está me esperando no carro lá embaixo. Ele não gosta que eu demore, diz que hospital tem um ambiente carregado, energia ruim. Ah, ele te desejou melhoras, só não subiu porque realmente não lida bem com esses lugares.

Letícia saiu quase correndo, o som dos seus passos apressados ecoando pelo corredor até sumirem. Rafaela fechou os olhos, e o bip do monitor pareceu mais alto, mais urgente, como um cronômetro marcando o tempo de uma bomba-relógio.

Ela tinha o Gabriel para segurar sua mão e enfrentar seus monstros, mas quem seguraria a de Letícia quando a "melhora" do Guilherme revelasse sua verdadeira face?

A porta rangeu suavemente e Gabriel entrou, equilibrando um copo de suco e uma garrafa de água mineral. Ele parou por um segundo, os olhos percorrendo o quarto.

— Ela já foi? — ele perguntou, a voz baixa, quase um sussurro, notando instantaneamente o vinco de preocupação na testa de Rafaela e o modo como seus dedos pálidos apertavam o lençol hospitalar.

— Acabou de sair. O Guilherme estava esperando no carro. — Rafaela tentou suavizar a voz, mas o tremor residual estava lá, traindo-a. — Disse que não gosta de hospitais. "Ambiente carregado", sabe?

Gabriel soltou um riso seco, sem um pingo de humor. Ele colocou as bebidas na mesinha de cabeceira e se sentou ao lado dela, pegando sua mão com uma firmeza que era puro ancoramento.

— Ambiente carregado... — Gabriel repetiu, as palavras saindo como um rosnado contido entre os dentes. — Foi bom mesmo ele não ter subido. Se eu colocasse os olhos nele hoje, não ia sobrar um dente inteiro naquela cara de otário.

Rafaela olhou para ele, vendo a veia no pescoço de Gabriel saltar.

— A gente não pode obrigá-la a sair. Ela ainda acredita que ele "faz tudo por ela".

Gabriel sentou-se ao lado dela na cama. O pavor que brilhava em seus olhos minutos atrás dera lugar a uma determinação fria.

— Eu sei. Mas ele bem que merecia levar umas porradas para aprender a ser homem. — Ele beijou a ponta do nariz de Rafaela, um gesto que misturava uma doçura rara com uma promessa silenciosa. — Agora, bebe esse suco. Você precisa de glicose para ter forças para brigar comigo amanhã, quando eu te contar que paguei dois meses do seu aluguel.

Rafaela arqueou uma sobrancelha, o espírito da "nerd abusada" despertando por entre a névoa da exaustão.

— Você o quê? — A voz dela tremeu, o choque subindo pela espinha.

— O aluguel deste mês e o do próximo já estão quitados, Rafa. — Ele disse isso com a naturalidade irritante de quem comenta o resultado de um jogo-treino. — Eu aproveitei que o valor da renovação do meu contrato caiu na conta e…

Rafaela tentou se levantar tão rápido que o quarto oscilou. A náusea voltou, mas desta vez era alimentada por puro choque e uma humilhação que queimava mais que a febre.

— Quem te deu esse direito? — ela sibilou, os olhos faiscando.

— Eu me dei esse direito! — Gabriel a empurrou suavemente pelos ombros, a força medida, mas absoluta, obrigando-a a se deitar novamente. — Eu tenho dinheiro sobrando. Qual é o problema de eu facilitar as coisas para você?

— O problema é que eu não sou sua caridade, Gabriel! — ela rebateu, o dedo trêmulo em riste contra o peito dele. — Eu vou te pagar cada centavo. Nem que eu tenha que trabalhar em três livrarias.

— Eu não quero o seu dinheiro, mulher. Eu quero que você tenha tempo para dormir! Eu quero que você consiga estudar sem desmaiar! — ele rebateu, apertando a mão dela, os olhos faiscando.

— Você é um idiota, sabia? — ela sibilou, o rosto a milímetros do dele. — Eu batalhei muito para não ser a "garota bolsista" que precisa de um padrinho. Você acabou de…

Ele não a deixou terminar. Inclinou-se e colou os lábios nos dela. O beijo foi suave, lento, carregado de alívio. Tinha gosto de suco de uva e de uma paz que até pouco tempo parecia proibida para eles.

— Eu senti tanta falta desse seu jeitinho teimoso — ele murmurou contra a boca dela, dando aquele sorriso de lado que sempre desarmava qualquer escudo que ela tentasse erguer. — Agora para de discutir comigo um pouquinho e bebe.

Rafaela deu um gole no suco, sentindo o açúcar dar um sopro de vida ao seu sistema. Ela sabia que deveria protestar, que deveria lutar por sua independência feroz e pelo controle de sua própria vida. Mas, ao olhar para o homem que quase desmoronara de pavor ao vê-la desfalecer, ela apenas fechou os olhos e relaxou contra o travesseiro.

Eles ainda tinham muito o que conversar, mas, por enquanto, a guerra pelo orgulho podia esperar.


Notas finais
Bom... Não sei vocês, mas eu adoraria chegar em casa depois de um dia horrível e encontrar um Gabriel Duarte fazendo faxina, abastecendo minha geladeira, preparando jantar e me obrigando a descansar. A Rafaela passou o capítulo inteiro tentando reclamar, e eu passei o capítulo inteiro pensando: "Mulher, aceita a ajuda e agradece!" 😂 Brincadeiras à parte, esse capítulo mexeu muito comigo. Porque às vezes a gente se identifica demais com a Rafaela, né? Com essa necessidade de dar conta de tudo sozinha, de não pedir ajuda, de não querer ser um peso para ninguém. E talvez o maior ato de coragem nem seja enfrentar o mundo. Talvez seja deixar alguém cuidar da gente quando já não conseguimos mais fazer isso sozinhos. Vejo vocês nos comentários. E aproveitem bastante esses capítulos, porque eu já estou começando a sentir saudade deles. ❤️