AMOR EM CAMPO
7 Capítulo 6: Porta-retratos
Notas iniciais
O relógio no pulso de Rafaela marcava 21h15. Ela odiava atrasos tanto quanto odiava equívocos em artigos científicos, e Gabriel Duarte estava, oficialmente, quinze minutos fora do cronograma estabelecido.
— Se ele não chegar em três minutos, eu vou embora e ele que se entenda com o potencial de repouso da membrana sozinho — resmungou para si mesma, apertando a alça da mochila com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram pálidos sob a luz fraca do poste.
Foi então que o som de um motor potente, porém extremamente suave, anunciou a chegada. O carro prata deslizou pela rua estreita, parando de forma quase arrogante bem em frente à fachada, ignorando a placa de "proibido estacionar" alguns metros à frente. Rafaela ajustou a mochila e caminhou com passos firmes, a carranca perfeitamente esculpida no rosto. Gabriel desceu do carro, mas não teve tempo nem de abrir o sorriso ensaiado que costumava usar no campus.
— Você está atrasado — ela disparou, parando a dois passos dele. — Quinze minutos, Gabriel. Em quinze minutos, uma célula nervosa poderia ter disparado milhares de vezes, e eu poderia estar no meu ônibus, na metade do caminho para casa.
Gabriel parou com a mão ainda apoiada na maçaneta. Ele usava um moletom cinza largo do time, que o deixava com um aspecto menos ameaçador, mas a postura ainda era a de quem sentia que era dono da rua.
— O Moura me segurou no final da tarde — a voz dele saiu um pouco mais rouca, desprovida daquela ironia ácida da faculdade. — O trânsito estava um inferno completo. E eu ainda tive que cruzar a Roberto Silveira para buscar a droga do seu blend de avelã.
— A minha hora de monitoria começa a contar a partir do horário combinado, não da sua incompetência em organizar a sua própria agenda — ela retrucou, contornando a frente do carro para entrar no lado do passageiro. — Vamos logo. Eu não tenho a noite toda.
Gabriel soltou um suspiro longo, entrou no banco do motorista e girou a chave. O ar-condicionado deu um sopro gelado e imediato no rosto de Rafaela — exatamente na temperatura que ela havia exigido —, mas não foi o suficiente para desarmar o cenho franzido da estudante.
— Você não facilita em nada, não é? — ele perguntou, saindo suavemente com o carro. — Eu devo ser o único cara que você conhece que leva esporro por dar uma carona.
— Você não está me dando uma carona, Duarte. Você está pagando um valor simbólico para não ser reprovado pelo Santana — ela corrigiu, olhando fixamente para o painel digital. — Agora dirija. A primeira lição de hoje é sobre hierarquia: na UC, você pode até ser o capitão do time, mas, no meu apartamento, você é só um aluno em recuperação.
Gabriel deu um sorriso de canto, um brilho autêntico de desafio reacendendo em seus olhos escuros. Ele sentia uma satisfação estranha, quase desconfortável, com a forma implacável como ela demarcava o território; era como se, finalmente, alguém o estivesse forçando a jogar de verdade fora de casa, sem torcida a favor.
— Então vamos ver se eu sobrevivo na sua área, professora — ele disse, pegando o copo de café no console central e estendendo para ela, sentindo o calor do papelão entre os dedos.
O carro seguiu pelas ruas internas do bairro, deixando para trás o fluxo mais pesado, enquanto o silêncio no interior do veículo ficava carregado com a promessa de que aquela noite seria longa e as táticas de Gabriel não valeriam absolutamente nada assim que eles cruzassem o portão do prédio.
Alguns minutos depois, Gabriel estacionou em frente a um edifício antigo, de fachada visivelmente gasta pelo tempo, onde o portão de ferro rangeu alto ao ser empurrado.
— É aqui — Rafaela informou, abrindo a porta para descer. Gabriel desligou o motor e ficou parado por um breve instante, observando a arquitetura simples do lugar.
— O que foi, Duarte? Esperava um condomínio de luxo com segurança armada e manobrista na recepção? — Rafaela subiu o primeiro degrau da escada. — Se quiser a aula, é aqui em cima. Se o seu ego inflado não couber nos degraus, sinta-se livre para ir embora.
Gabriel não respondeu à provocação. Ele apenas pegou sua mochila no banco de trás e a seguiu em silêncio. O lance de três andares de escadas estreitas de alvenaria foi feito sem palavras, quebrado apenas pelo eco dos passos firmes dele e pelo som abafado de uma televisão ligada em algum apartamento vizinho.
Quando Rafaela abriu a porta da frente, o cheiro suave de lavanda os recebeu. O apartamento era pequeno, mas transbordava vida e personalidade por todos os cantos. Gabriel percebeu esse detalhe acolhedor assim que cruzou o batente. Não era um ambiente bagunçado; era apenas habitado de verdade. Havia uma manta de tricô azul-claro jogada de qualquer jeito no braço do sofá antigo, uma xícara de cerâmica esquecida sobre a mesa de centro de madeira e alguns porta-retratos com molduras simples espalhados pela estante da sala, mostrando ela e Letícia em diferentes fases, com risadas sinceras congeladas no tempo.
Na cozinha, havia uma mesa de fórmica com apenas duas cadeiras desparelhadas, onde Letícia costumava deixar suas revistas de moda, agora devidamente afastadas para dar lugar aos pesados livros de fisiologia.
— Senta — ordenou Rafaela, apontando para a cadeira de vime que rangeu sob o peso dele. — E não repara na bagunça. Ou repare, tanto faz.
Gabriel acomodou-se, sentindo-se estranhamente grande e deslocado para a escala daquele ambiente. Ele olhou ao redor, os olhos mapeando o espaço enquanto abria o notebook na mesa.
— Você mora com a Letícia, certo? — perguntou, tentando quebrar o gelo inicial.
— Sim. E ela foi passar a noite na casa do namorado, então você pode se concentrar exclusivamente no que realmente importa: o seu cérebro tentando atravessar a membrana plasmática. — Rafaela colocou uma caneca de cerâmica ligeiramente lascada com café puro e fumegante na frente dele. — Bebe. Você parece que vai desmaiar se eu começar a falar de gradiente eletroquímico agora.
Gabriel tomou um gole longo. O café era forte, amargo e infinitamente superior ao da cafeteria da UC. Ele encarou Rafaela, que já estava com uma caneta preta em punho, pronta para iniciar o conteúdo.
— Por que exigir que as aulas fossem aqui, Rafaela? — ele perguntou, a voz baixando um tom, perdendo a pressa. — Na faculdade seria logisticamente mais fácil para você.
Rafaela estacou com a ponta da caneta a milímetros do bloco de papel. Ela o encarou com aquela frieza analítica que ele estava começando a achar fascinante.
— Porque, na faculdade, ser vista com você me custaria a minha paz e o meu sossego. Aqui, longe dos holofotes do campus, você é só um aluno com sérias dificuldades de aprendizado. E eu deixei bem claro, Gabriel: eu não tenho interesse no seu upgrade social. Eu quero que você passe nessa prova para eu nunca mais ter que ver a sua cara no meu tempo livre.
— Você trata todo mundo com essa doçura ou eu sou um caso especial? — Gabriel indagou, mas não havia ofensa real em seu tom de voz. Era pura curiosidade.
— Na verdade, eu gerencio minha paciência de forma muito restrita com atletas marrentos. Página cento e doze, Duarte. Agora.
Gabriel assentiu, decidindo não revidar com o habitual sarcasmo. Ele abriu a apostila exatamente no ponto indicado.
— Tudo bem. Vamos às sinapses.
A aula estendeu-se por duas horas consecutivas. Rafaela foi absolutamente implacável. Ela não se limitava a explicar a matéria; ela realizava sabatinas rigorosas. Cada vez que ele hesitava ou gaguejava diante de um conceito, ela o obrigava a repetir o processo biológico do início, até que os termos "despolarização" e "repolarização" saíssem da boca do jogador de forma fluida. No entanto, na metade da explicação sobre a fenda sináptica e os neurotransmissores, Gabriel abandonou por completo a tentativa de ser charmoso. Ele estava realmente prestando atenção. O cenho franzido, os olhos focados nos esquemas desenhados à mão, a caneta anotando observações nas margens da folha... Por alguns instantes, a persona do "pavão exibido" evaporou por completo, restando apenas um jovem que sabia exatamente o tamanho do prejuízo acadêmico e pessoal que enfrentaria se falhasse.
— Entendeu agora por que o íon de cálcio é o gatilho essencial para a liberação das vesículas? — Rafaela perguntou, a voz saindo um pouco menos ríspida do que no início da noite.
Gabriel analisou o gráfico que ela havia esquematizado com precisão no papel.
— Entendi. Sem a entrada de cálcio, as vesículas não se fundem. O sinal químico simplesmente não passa e a mensagem morre na praia.
Ele ergueu os olhos para ela. O brilho irônico de sempre havia sido substituído por uma espécie de respeito relutante e focado.
— Você é uma professora terrivelmente cruel, sabia? — ele deu um sorriso de lado, mas, desta vez, não era um movimento calculado para a plateia do campus. Era um gesto limpo, direcionado apenas a ela. — Mas é a melhor explicação que eu já tive nessa matéria.
Rafaela desviou o olhar rapidamente para as páginas do livro, sentindo uma onda súbita de calor que não tinha qualquer relação com o abafamento da cozinha.
— Menos conversa, Duarte. Vamos avançar para o sistema nervoso central. A gente ainda precisa cobrir a fisiologia da medula antes de encerrar.
Meia hora depois, Rafaela soltou um bocejo, sentindo o cansaço do dia de estudos e trabalho começar a cobrar o preço nos olhos pesados. Gabriel fechou o notebook com um suspiro longo, que parecia acumular o esgotamento físico do treino pesado da tarde.
— Acho que, por hoje, nós esgotamos a capacidade de retenção — anunciou Rafaela, levantando-se para recolher as canecas vazias. — Meu cérebro não processa mais nenhum milivolt.
Gabriel não contestou. Ele se levantou também, esticando os ombros largos com uma naturalidade física que pareceu preencher quase todo o espaço da pequena cozinha. Enquanto Rafaela levava a louça até a pia, ele caminhou lentamente até a sala de estar, parando diante da prateleira de madeira onde os porta-retratos simples descansavam.
— Sua família? — ele perguntou, apontando para uma fotografia colorida que mostrava um casal sorridente e duas garotas em frente a uma casa simples, cercada por um jardim de ixoras.
Rafaela parou com o pano de prato na mão, sua postura defensiva sendo reativada por puro reflexo.
— Sim. Eles moram em Saquarema.
Gabriel pegou a moldura leve com cuidado, observando os rostos fixados no papel fotográfico. A mãe de Rafaela, uma mulher negra de traços marcantes, exibia cachos volumosos que emolduravam perfeitamente um rosto de sorriso aberto e profundamente acolhedor; havia uma dignidade calorosa que parecia transbordar do registro. Ao lado dela, o pai: um homem branco visivelmente alto, de ombros largos e postura firme, com cabelos grisalhos penteados de forma simples e uma barba bem cuidada. Ele usava óculos de grau, e seu olhar carregava uma mistura muito nítida de orgulho protetor e serenidade silenciosa. Rafaela aparecia bem no centro dos dois, mais nova, rindo espontaneamente de algo fora de foco, enquanto sua irmã caçula aparecia um pouco mais à frente, fazendo uma careta engraçada para a lente.
Gabriel permaneceu alguns segundos estático, encarando aquela estrutura familiar com uma intensidade pensativa e silenciosa.
— Você se parece muito com ele, sabia? Com seu pai — comentou com a voz sensivelmente mais baixa. — Eles devem ter um orgulho imenso de você. Entrar para o curso de Biologia na UC com bolsa integral não é para qualquer um.
— Eles têm orgulho. Mas o custo para me manter aqui em Niterói é alto para eles. É exatamente por isso que eu não posso me dar ao luxo de perder tempo ou foco com... bom, com distrações fúteis pelo campus. E você? A foto oficial dos Duartes deve ser o quê? Você e sua família em um iate na Região dos Lagos, segurando algum troféu de ouro?
Gabriel deu um sorriso curto, quase melancólico, enquanto recolocava o objeto na prateleira com uma delicadeza que contrastava com o tamanho de suas mãos.
— Na verdade, as fotos lá em casa são bem parecidas com as suas, Rafaela. Só que o meu pai geralmente está com os dedos sujos de graxa de motor e a minha mãe segurando algum livro de Machado de Assis ou Clarice Lispector.
Rafaela piscou, genuinamente surpresa. A acidez sumiu da sua postura.
— Sua mãe é professora?
— De literatura do ensino fundamental — ele confirmou, virando-se para ela e enfiando as mãos nos bolsos do moletom. — Acho que ela ia gostar de você e do seu estoque de livros. Ela me obrigava a ler os clássicos inteiros antes de me deixar pisar em um campo de futebol quando eu era garoto.
Rafaela o encarava, assimilando aquela revelação. Sempre achou que Gabriel fosse um playboy mimado da zona sul que cresceu cercado de regalias, mas descobrir que ele cresceu cercado de peças de carros e livros foi, no mínimo, inesperado.
Gabriel arqueou uma sobrancelha diante do olhar chocado de Rafaela.
— O que foi? Você parece surpresa. Achou que eu tinha nascido em berço de ouro?
— Eu... — Rafaela hesitou, buscando as palavras. — Você anda pelos blocos da universidade como se fosse o dono de metade do estado, Duarte. É o que todo mundo assume sobre você.
— O Daniel e o Diego são os herdeiros da história, Rafaela. Eu sou só o filho de um mecânico de Itaboraí que acabou ganhando uma bolsa integral de estudos na faculdade porque sabe correr e chutar uma bola mais rápido do que a média. E, antes disso, só estudei em colégio de elite em Niterói porque minha mãe era professora de literatura lá e conseguiu uma bolsa de funcionária para mim. Foi lá que conheci o Dan e o Diego.
Rafaela piscou, absorvendo a informação enquanto o quebra-cabeça se montava.
— Aquele carro lá fora, que você fez questão de bater a porta com toda a força do seu corpo no outro dia... Meu pai passou três anos trabalhando em turnos dobrados na oficina, consertando motor de caminhão de madrugada, para conseguir dar a entrada nele. Ele queria ter certeza de que o filho dele ia rodar por aí e estudar com os caras ricos, sem abaixar a cabeça para ninguém. Queria que eu “andasse como os doutores”.
No olhar de Gabriel, Rafaela enxergou um sentimento que ela mesma conhecia perfeitamente bem: o medo profundo e silencioso de decepcionar as pessoas que sacrificaram a própria vida por eles. Saber que o carro não era um brinquedo de luxo sustentado por cartões de crédito ilimitados, mas o resultado do suor e da graxa do pai dele, mudou instantaneamente o peso de cada piada e deboche que ela havia guardado na mente.
— Um mecânico e uma professora... — Rafaela murmurou, a voz perdendo a última camada de blindagem. — Isso explica por que você é tão articulado para criar seus roteiros dramáticos na faculdade, Duarte.
Gabriel sorriu de lado. Um sorriso real, que fez pequenas linhas se desenharem ao redor de seus olhos.
— Aprendi a reconhecer uma narrativa forte quando encontro uma. E a sua... — ele a encarou por um breve instante, com uma intensidade que a fez prender a respiração — ...é consideravelmente melhor do que as histórias vazias que eu costumo encontrar por aí.
— Não tem história nenhuma aqui, Gabriel. Só uma universitária tentando sobreviver à rotina sem ser atropelada pelas contas — ela retrucou, embora o tom de voz fosse incrivelmente suave.
— E o Daniel e o Diego? Eles são os vilões elitistas do grupo ou são só más influências constantes?
Gabriel soltou um riso baixo, caminhando em direção à porta de saída.
— O Dan é o cara que pagava o meu lanche na escola quando as coisas apertavam de verdade lá em casa, e o Diego, o que ameaçava quem tentava me rebaixar. Eles têm dinheiro de sobra, sim, mas foram os únicos naquele colégio de riquinhos que nunca me olharam de cima para baixo ou me fizeram sentir como se eu não pertencesse àquele lugar. Acho que eles iriam morrer de rir se me vissem aqui hoje, levando bronca de uma garota que cita o tratado de Fisiologia do Guyton como se fosse um mandamento bíblico.
Rafaela abriu a porta e o acompanhou até o pequeno hall de entrada. O corredor do prédio antigo estava silencioso, iluminado apenas pela claridade amarelada que escapava da sua sala.
— Se eles ousarem rir, diga a eles que a "garota do Guyton" é a única barreira entre o capitão dos Falcões e uma reprovação humilhante no diário oficial do Santana.
Gabriel parou exatamente no batente da porta. Ele olhou para o lance de escadas escuras e, em seguida, voltou os olhos para Rafaela.
— Sexta, no mesmo horário? — ele perguntou.
— Se você não atrasar quinze minutos, sim.
— Vou tentar desafiar as leis do trânsito e o cronograma do Moura para chegar na hora — ele prometeu, iniciando a descida dos degraus.
Rafaela fechou a porta devagar, girando a chave na fechadura, e encostou as costas na madeira fria. Ela tinha uma missão clara, arquitetada com Letícia: desmontar a pose inabalável dele. O problema era que, ao descobrir a graxa sob as unhas do pai dele e os livros de literatura da mãe, ela não tinha apenas desmontado a pose do capitão. Ela tinha começado a enxergar, vagamente, o homem por trás do uniforme.
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O silêncio do condomínio de luxo em Icaraí, onde Daniel morava, era um contraste berrante, quase agressivo, com o eco das escadas estreitas e o som das televisões vizinhas em Santa Rosa. Gabriel estacionou na vaga demarcada, logo ao lado da moto esportiva de Daniel, mas não desceu do veículo imediatamente. Ele ficou ali parado por longos minutos, com as duas mãos apoiadas no topo do volante, sentindo o cheiro residual de lavanda e o aroma do café forte que pareciam ter impregnado sutilmente nas mangas do seu moletom cinza.
Quando finalmente subiu pelo elevador privativo e digitou a senha da porta da cobertura, o som de uma trilha sonora tensa de suspense preenchia a imensa sala de estar. Daniel estava jogado de qualquer jeito no sofá de couro legítimo, cercado por baldes de pipoca e algumas latinhas de refrigerante vazias, com os olhos fixos na tela de setenta polegadas presa à parede de porcelanato.
— Demorou, Biel. Pensei seriamente que a garota tivesse te mantido em cárcere privado no laboratório para te fazer decorar o ciclo de Krebs inteiro antes de te libertar — Daniel comentou em tom de piada, sem desviar os olhos do filme por um segundo.
Gabriel jogou a mochila pesada em cima de um puff de suede e caminhou direto em direção à cozinha, buscando uma garrafa de água gelada no refrigerador de duas portas.
— Foram duas horas e meia de pura tortura e fisiologia humana, Dan. Meus neurônios estão fritando de verdade.
Daniel pausou o filme imediatamente e girou o corpo no sofá, apoiando os braços no encosto de couro. Ele observou o amigo de infância por alguns segundos com atenção, notando a forma como Gabriel evitava o contato visual direto, o jeito travado com que ele bebia o líquido e como parecia estar tentando engolir um pensamento profundamente incômodo.
— E aí? Como foi o primeiro round? — Daniel perguntou, o tom descontraído abandonando a conversa de forma gradual. — A nerdzinha é tão terrível quanto os boatos dizem, ou você já conseguiu o que queria na primeira abordagem e a gente já pode encerrar essa palhaçada de aposta de uma vez por todas?
Gabriel travou o movimento com a garrafa de água na metade do caminho.
— Ela é muito pior do que os boatos. Ela não se limita a explicar a matéria, Dan... ela faz uma sabatina, parece um interrogatório policial. Se você hesita por um segundo no potencial de ação, ela te olha com uma cara que faz você se sentir burro falante do Shrek.
Daniel deu uma risada breve, achando graça da descrição, mas o seu olhar permanecia clínico e extremamente observador sobre as reações do capitão.
— Mas, falando sério, Gabriel... Você vai mesmo levar essa história de aposta idiota até o fim?
— É só uma brincadeira, cara — Gabriel tentou manter a voz em uma linha neutra, abrindo a porta do eletrodoméstico novamente por puro reflexo, sem motivo nenhum, apenas para não encarar o amigo.
— Não é brincadeira quando mexe de forma direta com a dignidade de alguém que não fez nada para você, Gabriel. — Daniel se levantou do sofá e caminhou lentamente até o balcão da ilha da cozinha, cruzando os braços. — Para com essa porra enquanto ainda dá tempo de sair sem machucar ninguém.
Gabriel soltou um suspiro pesado, fechando a frente de inox com um baque abafado e finalmente encarando o amigo de frente. Ele sabia perfeitamente bem que Daniel, conhecendo-o desde a época em que a mãe dava aulas para eles no colégio de elite, estava farejando algo completamente diferente e confuso no ar.
— Relaxa, Dan. Eu sei exatamente o que estou fazendo — Gabriel disse, mas a própria voz soou sem aquela firmeza inabalável de sempre. — A garota é... intensa. Ela tem uma história de vida foda; os pais dela batalharam uma vida inteira na simplicidade para ela estar estudando ali na UC. Eu respeito isso, sério mesmo.
— Respeita? — Daniel arqueou uma das sobrancelhas, a expressão ficando ainda mais séria. — Respeita tanto que vai continuar fingindo e enganando a garota pelas costas por causa de uma quantia de dinheiro que você, na real, nem precisa tanto assim?
Gabriel sentiu uma pontada nítida e desconfortável de culpa atingir o peito, mas o orgulho falou mais alto na hora. Ele simplesmente não podia admitir, nem para si mesmo e muito menos para o Daniel, que uma aula de duas horas em uma mesa de fórmica tinha abalado suas convicções e suas defesas.
— Exatamente por isso, cara! — Gabriel gesticulou com as mãos, tentando convencer a si mesmo enquanto falava. — A garota é uma pilha de nervos ambulante, vive exclusivamente em função de livro, trabalho e biologia. Ela precisa viver um pouco a vida real, sair dessa bolha de estudante sofredora e se divertir. Eu estou fazendo quase um favor a ela, se você parar para analisar, no fim das contas. Eu ganho a aposta, não levo uma reprovação do Santana, que arruinaria minha bolsa, e ela ganha... sei lá, um pouco de diversão e uma história para contar.
Daniel soltou uma risada desacreditada, balançando a cabeça negativamente.
— Só é divertido de verdade quando as duas partes conhecem as regras do jogo, Biel. O que você está fazendo não é tirar ninguém da bolha; é usar o esforço da garota. Isso é jogo sujo. E você sabe disso.
— Porra, que saco, Daniel! — Gabriel passou a mão pelo rosto com força, demonstrando uma frustração crescente.
A atmosfera de honestidade e o cheiro de lavanda daquele apartamento simples em Santa Rosa agora pareciam um peso real e invisível sobre os seus ombros.
— Você é certinho demais, credo. Sabe o que eu acho? Que, depois que eu vencer essa aposta e provar meu ponto, você é quem deveria tentar chegar junto dela. Vocês se parecem muito, dois chatos sistemáticos que amam seguir uma regra à risca.
— Vai se foder, Gabriel — Daniel soltou com a voz gélida, virando as costas e retornando em direção ao sofá. — E nem adianta vir me pedir ajuda quando você finalmente se der conta da merda colossal que está fazendo.
Gabriel não respondeu. Ele pegou suas coisas e subiu em silêncio para o quarto. No entanto, antes de fechar os olhos para deitar, a primeira coisa que fez foi conferir o despertador do celular, programando o alerta para as 21h00 da sexta-feira. Ele estaria lá na porta da livraria pontualmente.
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