AMOR EM CAMPO
49 Capítulo 52: Mentira
Notas iniciais

O expediente na livraria estava quase no fim, e o silêncio do lugar era o único remédio para a tempestade que ainda rugia na mente de Rafaela desde a conversa com Letícia.
Ao seu lado, Gabriel se esforçava para ser útil. Ele estava agachado, organizando a seção de biografias na prateleira inferior. Ver o capitão do time de futebol, com seus ombros largos ocupando o corredor estreito, concentrado em alinhar lombadas de livros, era uma imagem que sempre aquecia o coração de Rafaela.
— Acho que este aqui é da prateleira de cima, Gabe — ela disse baixinho, entregando um volume pesado para ele.
Gabriel sorriu e pegou o livro. Antes de guardá-lo, ele segurou a mão de Rafa por um segundo, um carinho mudo que dizia: eu estou aqui.
O momento foi interrompido pelo vibrar insistente do celular de Gabriel sobre o balcão. Ele se levantou, alongando as costas, e checou a notificação. Um sorriso animado surgiu em seu rosto.
— É do Lucas. Aniversário dele no sábado. Cara, as festas do Lucas são lendárias, o ponto alto do semestre. Todo mundo vai estar lá.
Rafaela sentiu um peso no estômago. Festas, barulho, multidões... era tudo o que ela menos queria agora.
— Ah, amor... não sei. — Ela voltou a organizar os livros, tentando esconder o desânimo. — Acho que não estou no clima de festa. Com a Letícia do jeito que está, me sinto mal de sair para comemorar qualquer coisa.
Gabriel deu a volta no balcão e a envolveu pelos ombros, trazendo-a para perto.
— Ei, olha para mim. — Ele esperou que ela erguesse os olhos. — Você não dorme direito faz duas semanas. Você está carregando o mundo nas costas, Rafa. Eu sei que você está triste pela sua amiga, mas ficar trancada no quarto remoendo isso não vai ajudá-la.
— Eu sei, mas...
— Sem "mas". — Ele beijou o topo da cabeça dela. — Vai ser bom para você. Música, nossos amigos, um pouco de ar fora do laboratório e dessa livraria. Eu prometo que, se você quiser ir embora depois de meia hora, a gente vai. Mas me deixa tentar te fazer sorrir um pouco? Por favor?
Rafaela olhou para o rosto dele, para a preocupação genuína daqueles olhos castanhos que ela aprendera a amar. Ela soltou um suspiro longo, sentindo a resistência ceder.
— Tudo bem. Eu vou. Mas você me deve uma massagem nos pés depois.
Gabriel riu, vitorioso, e começou a digitar no celular.
— Fechado! Vou confirmar a nossa presença agora. O Lucas vai pirar quando souber que a "musa da biblioteca" vai dar as caras na festa dele.
Rafaela deu um leve empurrão nele, rindo de verdade pela primeira vez no dia.
📚📚📚
No dia da festa, Rafaela estava parada em frente ao guarda-roupa, encarando as roupas como se elas fossem saltar dali sozinhas e ajudá-la a escolher o que vestir.
Em momentos como aquele, quem sempre resolvia o problema era Letícia.
Era ela quem puxava uma blusa, jogava outra na cama, dizia que aquela calça não combinava com nada e que aquela maquiagem definitivamente não funcionava.
Agora o quarto ao lado estava vazio.
Rafaela evitava olhar para a porta fechada.
E evitava ainda mais pensar no aluguel que agora precisaria pagar sozinha. Mesmo sabendo que aquilo pesaria no orçamento, ela ainda não tinha conseguido anunciar o quarto.
Uma parte teimosa dentro dela insistia em acreditar que, a qualquer momento, Letícia voltaria.
Olhou a hora no celular.
Quarenta minutos.
Gabriel passaria para buscá-la em quarenta minutos e ela ainda estava ali, vestindo um short velho e uma camiseta da UC.
— Ótimo — murmurou para si mesma.
Então acionou o plano B discando o número da irmã.
Micaela atendeu no segundo toque, já em vídeo.
— Oi, Rafa. Fala logo que o Thiago tá quase morrendo para um boss no Elden Ring! — Micaela exclamou, a imagem tremendo enquanto ela virava a câmera para o amigo, que parecia um gigante perto da tela do computador.
Thiago era o tipo de presença tão constante na vida da irmã que Rafaela já nem o considerava mais uma visita; era quase mobília da casa, mas uma mobília que jogava RPG melhor que ninguém.
— Meu Deus, Thiago, você não para de crescer, não? — Rafaela riu, sentindo um alívio momentâneo na tensão.
— Você que é muito baixinha, Rafa. — Ele ajeitou os óculos, os olhos brilhando com o reflexo do jogo.
— Falou o poste.
Micaela puxou o celular de volta, a imagem tremendo um pouco até que ela apoiasse o aparelho em algum lugar. Do outro lado, dava para ouvir a voz de Thiago gritando com alguém no jogo.
— Agora fala logo no que eu posso te ajudar.
Rafaela girou o corpo e apontou a câmera para o caos que era seu guarda-roupa aberto. Roupas pendiam para fora como se estivessem tentando escapar.
— Tenho uma festa para ir hoje com o Gabriel e não faço ideia do que vestir.
Micaela levou a mão à testa de forma dramática, fechando os olhos por um segundo.
— Jesus amado, Rafaela.
Rafaela soltou uma risada nervosa, afastando um monte de moletons para o lado.
— Tá, me mostra aquela blusa ali — Micaela comandou, semicerrando os olhos para a tela. — A verde. Perto daquela jaqueta que você comprou e nunca usou.
Rafaela esticou o braço, lutando com um cabide que insistia em prender na peça vizinha. Ela puxou a blusa e a estendeu sobre a colcha da cama, ajeitando as mangas com as mãos.
— Essa?
Pela tela, Micaela fez uma careta imediata, como se tivesse sentido um cheiro ruim.
— Ok. Essa você pode jogar no lixo porque tem cor de vômito de recém-nascido.
— Micaela! — protestou Rafaela, batendo com a mão no tecido.
— Quer minha ajuda ou não? — A irmã se inclinou tanto para a câmera que só dava para ver os olhos dela. — Você ainda tem aquela saia que te dei de aniversário ano passado?
— Tenho, espera — Rafaela se ajoelhou no chão, começando a vasculhar o fundo do armário. Ela jogou um par de tênis para o lado e afastou uma caixa de sapatos velha, até que seus dedos tocaram o tecido liso da saia preta.
Ela se levantou vitoriosa, balançando a peça diante da lente. Micaela arregalou os olhos.
— Meu Deus, ainda está com a etiqueta, Rafaela!
— Eu não tinha onde usar, Mica! — justificou Rafaela, puxando a etiqueta com os dentes até ela arrebentar.
— Agora tem. Usa essa saia com aquela blusa cinza ali… a do Led Zeppelin.
Rafaela franziu a testa, pegando a camiseta oversized que estava embolada num canto. O algodão era macio e desbotado pelo tempo.
— Essa? Com saia? — Ela posicionou a camiseta na frente do corpo, olhando-se no reflexo da tela.
— Confia na sua irmã — Micaela deu um gole no que parecia ser café, observando com atenção. — Vai logo, se veste.
Alguns minutos depois, o som do zíper da saia subindo com um clack seco anunciou o veredito. Rafaela voltou para a frente da câmera, ajeitando o cós da saia preta de cintura alta que marcava sua silhueta de um jeito que ela não estava acostumada. A fenda lateral deixava um pouco de pele à mostra, de forma sutil. Ela prendeu a barra da camiseta de banda por dentro, deixando o tecido cinza vintage levemente fofinho.
Rafaela caminhou até o espelho de corpo inteiro, girando o corpo para ver o ângulo das sandálias de tiras grossas.
— Viu? Eu sou um gênio — Micaela cantarolou do outro lado, vendo a irmã ajeitar o cabelo num coque baixo, puxando alguns fios para emoldurar o rosto com os dedos trêmulos.
Rafaela tocou o tecido da saia, sentindo o contraste entre o casual da banda de rock e a elegância da peça.
— Tá bom… eu gostei. Ficou... eu. Só que melhor.
— Claro que gostou. Agora passe um rímel e não ouse usar aquele batom cor de boca morta.
Rafaela riu, já pegando o estojo de maquiagem sobre a penteadeira. Quando terminou, ela deu um último passo para trás. A garota no espelho tinha um brilho diferente nos olhos, uma segurança que a maquiagem leve apenas sublinhava.
Lá fora, o som curto de uma buzina cortou o silêncio da rua. O coração de Rafaela deu um salto que quase a fez derrubar a bolsa.
— Ih, o cunhado chegou — Micaela brincou, o tom de voz suavizando. — Você tá linda, Rafa. De verdade.
— Obrigada, Mica. Te amo — Rafaela soprou um beijo para a câmera e desligou.
Ela apagou as luzes, o clique do interruptor parecia ecoar sua ansiedade. Quando abriu o portão de ferro, o metal rangendo levemente, Gabriel estava lá, encostado no carro, os braços cruzados, mas a postura relaxada dele mudou instantaneamente quando a viu.
Os olhos escuros dele desceram devagar, mapeando o caminho das tiras das sandálias, subindo pela curva da fenda na saia, demorando-se na estampa do Led Zeppelin até finalmente ancorarem nos olhos dela. Gabriel soltou o ar, um som pesado de admiração pura.
— Caramba… — ele murmurou, a voz mais rouca que o normal.
Rafaela sentiu o rosto queimar sob o olhar dele. Ela deu um passo à frente, ajustando a alça da bolsa.
— O quê? Ficou ruim?
Gabriel deu um passo na direção dela, abrindo um sorriso lento, daqueles que faziam as pernas dela vacilarem.
— Eu acho que vou precisar brigar com a festa inteira hoje, gata.
— É? E por que exatamente? — ela provocou, embora estivesse adorando a reação.
Ele abriu a porta do passageiro, fazendo um gesto cavalheiresco, mas sem tirar os olhos dela.
— Porque todo mundo vai querer olhar para as pernas da minha namorada, e eu sou um homem muito possessivo com o que é meu.
Rafaela deu uma risada anasalada, inclinando-se para frente até que seus rostos ficassem a milímetros de distância. O hálito dela, com cheiro de menta e uma dose perigosa de malícia, atingiu o rosto dele como um convite.
— Bom, se você for um bom menino e me tirar dessa festa cedo... talvez eu deixe você pôr o seu rosto entre elas mais tarde.
O olhar de Gabriel ganhou um brilho predatório que fez o estômago de Rafaela dar voltas. Antes que ela pudesse recuar, a mão dele disparou, envolvendo a cintura dela e puxando-a com força para frente. O impacto do corpo dela contra o peito rígido dele foi seco, tirando o fôlego de ambos.
Gabriel inclinou o rosto, a boca colada ao ouvido dela, enquanto a outra mão descia com urgência pela lateral da saia, encontrando o volume da bunda sobre o tecido liso. Ele deu um aperto firme, sentindo a maciez da pele dela contra a palma da sua mão quente. Rafaela soltou um arquejo baixo, os dedos se cravando nos ombros dele por puro instinto.
— Você gosta de brincar com o fogo, não gosta, Rafaela? — ele soprou contra o ouvido dela, deixando os lábios roçarem no lóbulo. — Continue me provocando assim e eu te prometo: você não vai conseguir andar direito amanhã.
Ele a soltou devagar, mas, antes que ela pudesse se desvencilhar totalmente para entrar no carro, Gabriel desceu a mão com agilidade e desferiu um tapa estaladono bumbum dela.
O som curto ecoou no silêncio da rua, fazendo Rafaela soltar um "ah!" de surpresa, enquanto um choque elétrico percorria seu corpo. Gabriel não esperou o protesto dela; ele apenas manteve o sorriso ladino.
— Agora entre logo nesse carro antes que eu desista de levar você para o aniversário do Lucas e resolva ser um "menino mau" aqui mesmo, contra esse portão.
Rafaela sorriu, vitoriosa, e deslizou para o banco do passageiro. Ela se sentia mais leve agora. A dor pela ausência da amiga foi esquecida por alguns segundos.
O trajeto até a casa do Lucas foi preenchido por uma playlist que o Gabriel colocou só para agradá-la, mas a música era apenas um ruído de fundo perto da eletricidade que corria entre os dois. Cada vez que ele trocava a marcha, a mão dele roçava "sem querer" na perna dela, e o sorriso não saía do rosto de Rafaela.
Mas, assim que o carro parou na frente da casa de onde vinha o som grave do funk e o brilho das luzes coloridas, a realidade começou a se infiltrar. O cheiro de álcool e o barulho da multidão na calçada trouxeram de volta a lembrança de que aquele era o habitat natural do "Gabriel Atleta", não o dela.
Quando entraram, Gabriel passou o braço protetor pela cintura dela e Lucas logo apareceu para recebê-los, já com um copo na mão.
— Olha quem apareceu! O capitão e sua nerdzinha!
Gabriel o cumprimentou com um típico aperto de mão masculino, enquanto Rafaela o parabenizava.
— Obrigado, obrigado! Olha, o Gabriel já é de casa, mas você pode ficar à vontade também, Rafa. Tem comida na mesa e um bar improvisado ali — Lucas indicou um balcão feito às pressas em um canto da sala.
Brunna e Jennifer estavam por perto, ambas segurando drinks coloridos. O olhar de Brunna travou na fenda da saia de Rafaela, e o comentário para a amiga veio destilado em veneno:
— Olha só... a santinha resolveu mostrar as pernas. Será que o Gabriel prometeu um incentivo se ela usasse uma mini saia?
Jennifer acompanhou o olhar de Brunna, observando Rafaela de cima a baixo com um desdém entediado. Ela deu um gole longo no drink antes de responder:
— Ah, amiga… sinceramente? Eu já estou de saco cheio dessa obsessão. Se o Gabriel se contenta com… isso — fez um gesto vago na direção de Rafaela —, o problema é dele. Você é bonita pra caralho, Brunna. Tem um monte de gato querendo ficar contigo. Vai atrás de quem também te quer.
— Acontece que eu quero o Gabriel! — rebateu Brunna, a voz subindo de tom pela frustração. — Não é justo a Rafaela, aquela rata de biblioteca, chegar do nada e roubar o lugar que sempre foi meu. Isso não faz sentido.
— Bom, eu é que não vou me meter entre ele e a nerdzinha de novo. Já deu o que tinha que dar.
Sem esperar resposta, Jennifer girou nos saltos e seguiu decidida em direção à mesa de sinuca, onde Sabrina e outras meninas riam alto. Brunna ficou para trás, imóvel por um instante, os olhos presos no casal.
Do outro lado da sala, assim que Lucas se afastou, Gabriel voltou a atenção para Rafaela.
— Você tá bem?
— Tô.
A música alta o obrigou a se inclinar, aproximando o rosto do dela.
— Se ficar chato, a gente vai embora.
Rafaela deixou escapar um sorriso pequeno.
— Gabriel…
— O quê?
— Você não precisa fugir de festa por minha causa.
Ele ergueu uma sobrancelha, como se aquilo fosse absurdo.
— Eu não tô fugindo. — A mão dele encontrou a cintura dela, firme, quase distraída. — Só não vejo problema nenhum em trocar isso aqui por você.
O coração de Rafaela vacilou, leve e inesperado. Antes que ela respondesse, Diego surgiu no meio da multidão, desviando de algumas pessoas com dois copos equilibrados nas mãos.
— Aí estão vocês! — Ele entregou um para Gabriel e o outro para Rafaela. — Relaxa, Rafa. Esse aqui é fraco.
Ela aproximou o copo do rosto e franziu o nariz.
— Isso tem gosto de quê?
— Mistério — Diego respondeu, com um sorriso de canto.
Gabriel riu, balançando a cabeça.
— Não escuta ele.
Diego ignorou o amigo, olhando para Rafaela com curiosidade:
— Prova e diz se não tenho razão.
Rafaela deu um golinho e, no segundo seguinte, fez uma careta, sentindo o álcool queimar sua garganta como fogo.
— Puta que pariu! — tossiu, levando a mão à boca. — Isso queima!
— Ops... — Diego pegou o copo da mão dela e cheirou o líquido. — Acho que troquei as ordens.
— É um animal mesmo — Gabriel resmungou, trocando o copo que estava em sua mão pelo dela.
Ainda sentindo o calor subir pelo rosto, Rafaela desviou o olhar pela sala, buscando qualquer distração.
— Aquele ali é o Daniel?
Gabriel acompanhou o olhar dela e soltou um riso.
— É. E, pelo jeito, está tentando convencer alguém de que sabe dançar.
Daniel realmente estava no meio da pista, executando movimentos que lembravam vagamente uma dança, mas que pareciam mais uma luta contra o ritmo da música.
Ela riu, e foi exatamente nesse momento que Gabriel percebeu.
Brunna os observava de longe. O sorriso dela era enviesado, carregado de escárnio, que fez o estômago dele se encolher. Ele estreitou os olhos por um segundo, o instinto de defesa disparando.
Rafaela percebeu a mudança brusca.
— O que foi? — perguntou, tentando seguir o olhar dele.
Gabriel não respondeu de imediato. Ele deslizou a mão das costas dela para a nuca, os dedos se perdendo entre os fios soltos do coque, e a puxou apenas o suficiente para que seus lábios quase roçassem nos dela. A música alta ao redor virou um ruído branco; o foco dele era a urgência que queimava em seu peito ao ver Brunna na espreita.
— Nada. Só lembrando a mim mesmo que sou um cara de muita sorte.
— Sorte? — Rafaela arqueou uma sobrancelha, o sorriso ainda brincando nos lábios após a zoação com o Daniel.
— Muita — ele murmurou, a voz rouca vibrando contra a boca dela. — Porque eu olho para os lados e vejo um bando de gente que não faz ideia da mulher que você é, mas que não consegue parar de encarar.
Ele se inclinou mais, o hálito quente atingindo o rosto dela enquanto seus olhos escuros ganhavam uma intensidade sombria.
— Agora eu entendo por que seu pai ficava me testando o tempo todo — ele confessou, e havia uma nota de vulnerabilidade misturada à possessividade.
Rafaela cruzou os braços, surpresa com a menção súbita ao pai no meio daquela batida de funk.
— E por quê?
Gabriel a puxou com força pela cintura, eliminando qualquer centímetro de ar entre eles, como se quisesse escondê-la do olhar de Brunna dentro do seu próprio abraço.
— Porque quando você encontra algo assim... — ele fez uma pausa, o maxilar travando por um segundo enquanto a mentira sobre a aposta pesava em sua consciência, contrastando com o amor real que sentia agora. — Você não quer só cuidar. Você quer que o mundo inteiro entenda que, para chegarem até você, vão ter que passar por cima de mim primeiro. Você não está sozinha nessa porra, Rafa. Nunca mais.
Ele a beijou com uma urgência que não era apenas desejo; era uma declaração de posse e proteção. Do outro lado da sala, Brunna assistia a tudo, e o sorriso dela vacilou diante da força daquele gesto. Ela esperava ver um gesto encenando, mas o que encontrou foi um homem disposto a lutar.
A música reverberava forte nas paredes da sala, mas, no canto do bar improvisado, o barulho das pedras de gelo batendo no fundo do copo de Lucas era o único ritmo que parecia lhe interessar. Ele observou Brunna por cima da borda do vidro, notando como as pupilas dela estavam dilatadas, fixas no casal do lado oposto da sala.
Lucas se aproximou com um passo instável, soltando uma risada anasalada que cheirava a destilado.
— Se olhar matasse, a Rafaela já tinha caído dura bem ali no meio da minha sala — ele zombou, empurrando um copo cheio na direção dela. — Desencana do cara e bebe comigo, pô! É meu aniversário!
Brunna desviou o olhar por apenas um segundo, o suficiente para lançar um sorriso de canto, carregado de um desdém polido.
— Eu passo, querido. Alguém tem que manter a sobriedade por aqui — ela retrucou, voltando a vigiar Gabriel, que agora sussurrava algo no ouvido de Rafaela. — Eu só acho... inacreditável, sabe? Olha para ele. Aquela ali nem faz o tipo dele.
Lucas soltou uma gargalhada ruidosa e se inclinou para perto de Brunna, baixando o tom de voz para um "segredo" que o álcool não o deixava mais guardar.
— Tipo? O tipo do Gabe é ganhar, Brunna! Ô, vou te contar uma parada, mas fica só entre nós, hein? Ele só está ali porque o Diego duvidou. Apostaram milzinho, acredita? — Lucas serviu-se de mais uma dose, transbordando um pouco no balcão. — Todo mundo achou que ele ia levar um fora histórico da nerd. O Diego até já estava contando com os mil reais no bolso! Mas o capitão... o capitão fez o dever de casa. Ganhou a aposta, ganhou o dinheiro e ainda ganhou a garota de brinde. Olha lá ela, de saia curta e tudo! O investimento valeu a pena.
Brunna sentiu o mundo parar por um segundo, mas não por choque, e sim por uma satisfação sombria que começou a queimar em seu peito. Ela pegou o copo que Lucas havia oferecido minutos atrás e deu um gole, os olhos brilhando com uma nova luz enquanto absorvia o álcool junto a cada palavra desleixada de Lucas.
— Ah, para, Lucas. Ele está com cara de quem está pronto para pedir a garota em casamento amanhã.
— Juro por Deus, Brunna! — Lucas bateu no peito, ofendido pela dúvida. — Estávamos eu, o Diego e o Dan. O Gabe aceitou na hora. Disse que ia fazer ela se apaixonar só para mostrar quem manda. E olha lá... — ele apontou para o casal com o copo cheio, respingando no chão. — O Gabriel é imbatível, gatinha. Ele transformou a "nerd invisível" no assunto da universidade e ainda saiu com o bolso cheio. O cara é um gênio ou não é?
Brunna não respondeu. Ela voltou a olhar para os dois, que agora estavam no centro da pista de dança. Gabriel estava com o rosto enterrado no pescoço de Rafaela, sussurrando algo que a fazia rir. Aquela imagem, que antes a consumia de inveja, agora a fazia querer rir também. Mas por um motivo diferente.
Brunna girou o gelo no copo, ouvindo o estalo seco. Ela não via mais um casal; via um cronômetro. Cada beijo que o Gabriel dava no pescoço da Rafaela agora tinha um valor monetário, e ela mal podia esperar para ver a cara da 'nerd' quando descobrisse que o seu grande amor era, na verdade, um excelente investimento financeiro.
— Um gênio... — Brunna murmurou, um sorriso gélido e vitorioso surgindo em seus lábios. — É, Lucas. O Gabriel realmente se superou dessa vez.
Ela deu um tapinha no rosto de Lucas, que já estava voltando sua atenção para uma garrafa de tequila, e se afastou do bar. Ela não caminhou na direção do casal. Ainda não. Ela parou no canto da sala, observando a entrega de Rafaela nos braços de Gabriel.
A "nerd" estava se sentindo a rainha da noite. Estava bonita, confiante e parecia acreditar que pertencia àquele mundo.
"Aproveita cada segundo, Rafaela", pensou Brunna, sentindo o peso da informação como uma adaga pronta para ser lançada. "Porque a queda de um pedestal de mil reais costuma ser bem dolorosa."
⚽⚽⚽
Gabriel fazia questão de incluir Rafaela em tudo, sempre de um jeito leve, sem forçar nada. E, apesar do gosto duvidoso da música e das piadas aleatórias dos atletas, Rafaela se pegava sorrindo mais do que gostaria de admitir. Já não odiava tanto estar ali. Ainda achava o ambiente caótico, mas… com ele por perto, era diferente.
Depois de fazê-la dançar a terceira música seguida, Rafaela se soltou da mão dele e escapou da pista de dança, ofegante.
— Água… preciso de água — disse, abanando-se com as próprias mãos enquanto caía, quase desabando, em uma cadeira vazia do outro lado do salão. O rosto estava suado, os cabelos um pouco bagunçados, e o coração ainda batia acelerado, não só pela dança.
Gabriel se aproximou, exibindo um sorriso descontraído e um olhar divertido, claramente se divertindo com o contraste dela em meio àquela bagunça.
— Vou buscar uma água gelada para você na cozinha; o bar aqui tá um caos. Não sai daí, tá?
Antes de se afastar, deu um beijo leve nos lábios dela, um gesto natural. Rafaela fechou os olhos por um segundo, aproveitando aquele toque breve que parecia carregar mais ternura do que o ambiente ao redor merecia.
Quando ele se virou, Diego surgiu do nada, já com um taco de sinuca na mão.
— Gabe! Bora para uma partida!
Gabriel fez um gesto com a cabeça, recusando de leve.
— Já volto, tô indo buscar água para Rafaela. Vai jogando com outro aí.
Do outro lado da sala, Brunna viu Gabriel caminhar em direção à cozinha.
Era a hora.
Rafaela o acompanhou com os olhos enquanto ele sumia em direção à cozinha. Sorriu de leve, o peito aquecido. Ele sempre prestava atenção nos detalhes, como se ela fosse o centro do mundo dele, mesmo quando cercado por dezenas de pessoas.
— Olha só quem eu achei escondidinha aqui, tentando recuperar o fôlego!
Rafaela deu um pulinho na cadeira, surpresa, mas sorriu ao ver Sabrina parada à sua frente. Levantou-se para cumprimentá-la com um beijo no rosto, e foi nesse momento que Sabrina deu um passo atrás, varrendo-a de cima a baixo com um olhar analítico.
— Nossa, Rafa... você está lindíssima! — exclamou Sabrina, com as sobrancelhas erguidas em admiração genuína. — E olha essas pernas! Agora está explicado por que o Gabriel ficou completamente louco atrás de você. Se eu tivesse esse corpo, também estaria desfilando por aí.
Rafaela soltou uma risada tímida, sentindo as bochechas esquentarem. — Obrigada, Sá. Eu ainda estou tentando me acostumar com a fenda dessa saia, para ser honesta.
— Pois se acostume rápido, porque você está parando a festa — Sabrina piscou, dando um gole em seu drink colorido. — O Gabriel que se prepare, porque a concorrência hoje está difícil para ele.
Rafaela riu, mas o momento de leveza foi tragado pelo movimento que seus olhos captaram logo atrás de Sabrina. Brunna atravessava a pista de dança como uma predadora em solo conhecido. A forma como ela se esgueirava entre os outros, ajeitando o cabelo e puxando a blusa colada para valorizar o decote, não deixava dúvidas sobre sua intenção.
E então… ela sumiu pela mesma porta que Gabriel havia passado.
Rafaela ainda tentou focar na conversa, mas a inquietação já estava plantada, crescendo como um ruído estático na sua mente. Ela conhecia Brunna o suficiente para saber que aquilo não era coincidência.
— Vamos? — Sabrina perguntou algo, mas Rafaela não havia prestado atenção em uma palavra sequer.
— Perdão, o que você disse?
— Perguntei se está a fim de jogar uma partida de sinuca depois que os meninos desgrudarem da mesa.
— Ah, eu passo. Se eu tentar, sou capaz de acertar a bola em uma das janelas da casa — Rafaela forçou uma risada, mas o sorriso não atingiu seus olhos, que voltavam obsessivamente para a porta da cozinha. — Sabrina, você me dá licença por um minutinho? Preciso ir ao banheiro...
Sabrina assentiu com um sorriso distraído e Rafaela se afastou. Ela não caminhou em direção ao banheiro; seus pés a levaram, quase contra a sua vontade, para o corredor estreito que levava à cozinha, onde as vozes de Gabriel e Brunna começavam a se tornar audíveis acima do som do funk.
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Gabriel abriu a geladeira distraidamente, pegando uma garrafa de água mineral. Estava sorrindo sozinho, lembrando do jeito de Rafaela dançar. Ela não fazia ideia do quanto era bonita daquele jeito, rindo, leve, sem máscaras.
— Awn… que fofo. Está pegando água para sua nova distração?
A voz de Brunna soou atrás dele, carregada de sarcasmo.
Gabriel se virou, surpreso. Ela estava encostada na bancada, braços cruzados, um sorriso torto nos lábios.
— Brunna… — ele suspirou. — O que você quer?
— Calma, não precisa ficar tão na defensiva. Só vim pegar uma bebida. Mas já que você está aqui… — ela deu um passo na direção dele, o olhar felino. — Não dá para negar que a gente ainda tem química, né? Lembra do ano passado, quando ficamos sozinhos na festa do Lucas?
Gabriel fechou a porta da geladeira com um baque seco, o corpo ficando tenso sob a luz branca e fria da cozinha, que contrastava com o colorido da festa lá fora.
— Não tô aqui para isso, Brunna. Sai do meu caminho.
— Não? — ela ergueu uma sobrancelha, dando um passo vagaroso, invadindo o espaço dele até o cheiro do perfume dela se misturar ao ar. — Pensei que você gostasse de joguinhos, Gabriel. Não é por isso que está com a Rafaela? Ou já se esqueceu da aposta?
O mundo pareceu perder o som para Gabriel. A aposta, mencionada ali, naquele tom de deboche, foi como um soco no estômago. Ele estancou, os dedos apertando a garrafa de água mineral com tanta força que o plástico estalou.
— Quem... quem te falou isso? — a voz dele saiu baixa, rouca, carregada de uma defensiva que o entregou por completo.
Brunna soltou uma risadinha vitoriosa, os olhos brilhando ao notar que tinha acertado o alvo. Ela se inclinou, apoiando uma das mãos na bancada, deliciando-se com a queda de Gabriel.
— Sabe como é, né? Você deveria dar alguns conselhos para o seu amigo Lucas. Aquele garoto fica meio boca aberta depois de alguns shots.
Gabriel sentiu o sangue sumir do rosto. O pânico começou a subir pela garganta. Ele tentou formular uma frase, qualquer coisa que pudesse desmentir o que o Lucas, em sua embriaguez idiota, tinha espalhado.
— Você não sabe do que está falando…
— Eu sei exatamente do que estou falando. — Ela abaixou levemente o tom de voz, como quem confidencia um segredo sujo. — O Lucas me contou todos os detalhes… Você e o Diego apostando que você conseguiria levar a nerd para a cama. Tão previsível. Tão Gabriel.
— Isso… já passou e não que seja da sua conta, mas eu gosto dela. De verdade.
— Ah, Gabriel, me poupe — ela o interrompeu, passando a mão pelo peito dele de forma provocativa, sabendo que ele estava paralisado. — Você não gosta de ninguém, só de você mesmo. O que eu acho engraçado é que ela realmente acredita que você se apaixonou. Coitada... A Rafela vai ficar tão desapontada quando descobrir que o príncipe encantado dela só passou a sentir o mesmo depois de receber um pix, não acha?
Brunna soltou uma risada seca, cortante, que ecoou pelas paredes azulejadas da cozinha.
— Ou ela já sabe? A "Rafa" já sabe que ela foi uma aposta? Que você a enganou como me enganou?
— Eu enganei você? — Gabriel soltou uma risada curta e amarga, balançando a cabeça em total descrença. — Eu nunca prometi nada pra você, Brunna. A gente sempre soube o que era. Curtição, nada mais. Eu fui honesto desde o primeiro dia sobre o que eu queria.
— Honesto? — a voz de Brunna agora era carregada de um ressentimento que ela tentava disfarçar com deboche, mas que escapava pelos olhos semicerrados. — Você me manteve por perto, Gabriel. Deixou que todo mundo achasse que éramos o casal da universidade. E eu aceitei, porque achei que, se algum dia você fosse levar alguém a sério, esse alguém… seria eu.
Ela ajeitou o cabelo com um toque de arrogância, mantendo os olhos cravados em Gabriel enquanto destilava seu desprezo.
— Mas aí você me troca por... aquilo? Por uma garota que se esconde atrás de livros, daquelas roupas horrendas e que nem sabe a diferença entre um escanteio e um tiro de meta? — O ódio refletia nos olhos dela, transformando sua beleza em algo amargo. — Se você queria brincar de apostar, Gabriel, que fosse com alguém que pudesse jogar de volta. Alguém que soubesse que sentimentos são descartáveis.
Gabriel travou o maxilar, a paciência no limite. O desprezo dela pela Rafaela era o combustível que faltava para ele cortar os laços de vez, mesmo sabendo que estava pisando em solo perigoso.
— O meu relacionamento com a Rafaela não é uma brincadeira, Brunna. É real. — Ele deu um passo à frente, estreitando a distância. A voz dele baixou tanto que ficou quase inaudível, mas perigosa. — Com você, Brunna, eu não tinha nada a perder, por isso era fácil ser honesto. Mas com a Rafaela... pela primeira vez na vida, eu tive medo de que a verdade me custasse tudo.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Brunna sorriu, percebendo que, embora ele a estivesse rejeitando mais uma vez, ela tinha a faca na mão.
— Que romântico. O Gabriel ficou com medo — ela debochou. — Mas o medo não apaga o fato de que o Diego pagou por cada beijo que você deu nela . E se você acha que o seu "amor real" sobrevive à descoberta de que ela foi comprada... você é mais estúpido do que o Lucas bêbado.
O que nenhum dos dois percebeu foi a sombra que se moveu perto do batente da porta. Rafaela estava lá, com as mãos trêmulas e o coração em pedaços, ouvindo Gabriel confirmar cada palavra venenosa de Brunna.
Ela sentiu os joelhos vacilarem, a mão tateando a parede fria do corredor em busca de um apoio que seu mundo já não tinha.
— Eu fui um prêmio — o sussurro saiu rasgado, amargo. — Eu fui só a porra de uma aposta.
O som de passos se aproximando a fez recuar de imediato, engolindo em seco. O peito apertado, a respiração curta.
Voltou para o salão com o coração batendo descompassado, as mãos frias.
Ela não queria acreditar no que ouvira.
De repente, a casa parecia apertada demais. O ar, rarefeito demais. Era como se algo invisível e pesado estivesse pressionando o peito de Rafaela, impedindo-a de respirar.
Ela se afastou da sala em passos trôpegos, como se estivesse sufocando.
Acabou esbarrando em Diego, que sorria com um copo na mão e o rosto avermelhado pelo álcool.
— E aí, Rafa! Cadê o Gabriel? — A mão de Diego pousou no ombro dela. — Ele se perdeu na geladeira ou o quê?
Ela o encarou, com a voz de Brunna ecoando em sua mente: “Você e o Diego apostando que você conseguiria levar a nerd para a cama…”.
Rafaela olhou para o copo na mão de Diego, o mesmo 'mistério' que ela tinha bebido minutos antes. Tudo era uma piada. Ela se esquivou do toque dele como se a pele de Diego estivesse infectada.
— Não encosta em mim — ela não gritou, mas o veneno na sua voz foi o suficiente para apagar o sorriso bêbado do amigo de Gabriel.
— Rafa? Tá tudo bem?
Ela não respondeu. Simplesmente deu as costas e saiu apressada, empurrando as pessoas. A música alta agora parecia um coro de risadas. Ela precisava sair dali antes que as paredes daquela casa a esmagassem.
Ao cruzar a porta da frente, o vento gelado da noite bateu contra o rosto suado, bagunçando seus cabelos e trazendo consigo o silêncio que ela tanto precisava. Mas nem o ar frio nem o céu estrelado foram suficientes para aplacar a dor que pulsava dentro dela.
Era tudo mentira. Tudo.
Cada palavra, cada gesto, cada olhar.
Todos os sorrisos e promessas, cada toque que parecia sincero… tudo havia sido cuidadosamente calculado. Nada daquilo nascera do acaso ou de um sentimento verdadeiro; tudo era uma tática de jogo cuidadosamente elaborada para garantir que ela caísse, pois ela não era especial. Não passava de um desafio. Um troféu em uma aposta idiota.
Rafaela apoiou as mãos nos joelhos, tentando controlar a náusea que subia pela garganta. Era humilhação. Era raiva. Era o coração despedaçando-se em silêncio.
Ela se odiou por ter baixado a guarda. Por acreditar. Por ter-se permitido sentir.
E, acima de tudo, odiou a si mesma por ainda querer acreditar que, em algum momento, aquilo poderia ter sido real.
Mas como acreditar, depois daquilo?
Ela não pegou um Uber. Não ligou para ninguém. Começou a caminhar, querendo apenas que o asfalto a levasse para longe de qualquer lembrança de Gabriel Duarte.
Gabriel saiu da cozinha com a garrafa na mão, mas o sorriso que antes era natural agora parecia apenas uma sombra do que já fora. A conversa com Brunna ainda latejava em sua mente como um soco mal dado, desses que deixam dor depois de passar.
As palavras dela foram cruéis, sim. Mas não mentirosas.
Ele havia errado. E sabia disso.
Procurou por Rafaela na sala, no canto da pista de dança, entre os corredores. Nada.
— Viu a Rafa? — perguntou a um colega do time, tentando manter a voz neutra.
— Ela passou por aqui há uns minutos, parecia meio apressada. Meio pálida também — respondeu o garoto, dando de ombros e voltando para sua conversa.
O desconforto que Gabriel já sentia virou um alerta estridente dentro dele. Pegou o celular e ligou para ela. Chamada direta para a caixa postal.
Tentou de novo. Nada.
Mandou uma mensagem: “Amor, onde você está? Tá tudo bem?”
Mais uma: “Rafa, por favor, me responde.”
Nenhuma resposta. Nenhuma ligação.
Ele sentiu o estômago se revirar, como se tivesse engolido um prego.
Jogou o celular no bolso, pegou o casaco jogado no encosto de uma cadeira e saiu da festa quase correndo, ignorando os olhares curiosos e as músicas que continuavam tocando como se nada tivesse acontecido.
A noite estava fria, e o vento parecia mais hostil agora.
Ele olhou para os lados, tentando imaginar para onde ela poderia ter ido. Rafaela não costumava simplesmente sumir. A não ser que… alguma coisa tivesse acontecido.
A consciência pesava no peito como uma pedra. Ele queria protegê-la, fazê-la feliz e, ainda assim, deixara que tudo começasse com uma mentira. Uma aposta estúpida. Um erro que ele não teve coragem de consertar antes que fosse tarde demais.
Agora, talvez tivesse sido mesmo.
Gabriel entrou no carro e saiu rápido, vasculhando os arredores com os olhos aflitos.
Rafaela, onde você está?
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