AMOR EM CAMPO

45 Capítulo 44: Verdade


Notas iniciais
Algumas verdades doem quando são escondidas… Mas podem doer ainda mais quando deixam de ser um segredo. 👀💔 Boa leitura, time. ❤️⚽️📖

Rafaela chegou em casa como se carregasse o triplo do próprio peso. A bolsa caiu no chão do quarto e ela desmoronou no travesseiro.

O celular, que ela ainda segurava na mão, vibrou. Chamadas e notificações em sequência. Ignorou tudo, até que a tela acendeu com a prévia no topo:

Biel🐺: Amor, onde você está? Tá tudo bem?

Ela bloqueou a tela.

Amor.

Ele ainda usava essa palavra.

Sentou-se na cama devagar. No espelho de corpo inteiro do guarda-roupas, a imagem a atingiu como um golpe: o cabelo preso com precisão, a maquiagem nos olhos vermelhos, a saia que a irmã a ajudara a escolher horas antes. Cada detalhe tinha sido pensado para ele.

Eu me fantasiei para ser o prêmio dele.

Com movimentos bruscos, desfez o penteado e tirou a roupa da festa. Vestiu o blusão gasto jogado na cadeira, puxando o tecido contra o peito como uma armadura. Tirou a maquiagem sem cuidado, borrando o rímel no processo. A Rafaela que se importava com o que Gabriel pensava morrera no instante em que ouvira a voz de Brunna.

A campainha tocou. Uma, duas, três vezes. Depois vieram as batidas na porta. Fortes. Desesperadas.

Rafaela permaneceu imóvel. Em seguida, caminhou até a entrada. Parou com a mão sobre a maçaneta, sentindo a madeira tremer sob os golpes dele.

— Rafa? — a voz de Gabriel veio abafada. — Rafa, abre. Por favor. Eu sei que você está aí.

Ela respirou fundo e abriu.

Gabriel estava ali. O cabelo bagunçado, o rosto tenso, a respiração curta de quem havia corrido. O alívio em seus olhos durou só o tempo de encarar a garota de olhar frio diante dele.

— Rafaela… — ele deu um passo, incerto. — O que aconteceu? Você sumiu. Eu te liguei…

— Você vai mesmo fingir que não sabe o que aconteceu? — o tom dela era baixo e trêmulo.

Ele engoliu em seco, o pomo de adão se movendo no silêncio do corredor.

— Eu… não tô entendendo, Rafa. Eu fiquei louco te procurando. Achei que tivesse se sentido mal, que alguém tivesse te desrespeitado…

Rafaela deu uma risada irônica.

— Alguém me desrespeitado? — repetiu, saindo da sombra da porta. A luz revelou seu rosto limpo e os olhos tomados por ojeriza. — Que ironia, Gabriel. Logo você, preocupado com o meu respeito.

Ele franziu a testa, a confusão dando lugar ao pânico.

— Do que você está falando? Eu nunca deixaria ninguém…

— Brunna.

O nome fez o ar desaparecer dos pulmões dele.

— O quê? A Brunna? O que tem ela? Ela… te disse alguma coisa? Aquela louca ficou me encarando a noite toda. Eu já te falei que…

— Não me venha com o roteiro de "ex-namorada maluca", Gabriel. — Ela cruzou os braços sobre o peito. — Eu vi quando ela foi atrás de você na cozinha.

Ele desviou o olhar. Por um segundo, uma esperança covarde de que ela estivesse apenas com ciúmes surgiu em seu peito.

— Amor, não foi nada. Ela apareceu do nada, começou a falar besteira. Eu saí assim que pude…

— Para de mentir.

A frase cortou o ar.

— Eu já sei de tudo. Ouvi a conversa de vocês, Gabriel. Cada palavra.

O coração golpeou o peito de Gabriel como o aviso de um naufrágio. Naquele instante, todas as vezes em que pensou em contar passaram por sua cabeça. Cada jantar, cada beijo, cada "eu te amo" agora parecia manchado pela escolha do silêncio.

— Rafa, me escuta…

— Você apostou com o Diego que conseguiria ficar comigo?

Ela já sabia a resposta, mas precisava ouvi-la da boca dele.

Gabriel fechou os olhos por um instante.

— Sim — a palavra saiu sem força. — Eu fiz essa merda, sim, Rafa. Mas eu juro por Deus que me arrependi. Tudo mudou.

— Mudou? — repetiu, como se a palavra fosse uma piada de mau gosto. — O que mudou, Gabriel? O valor da aposta? O prazo para você me levar para a cama?

Ele deu um passo à frente, as mãos estendidas.

— Não! Nada disso! No começo… eu era um idiota, um moleque tentando se provar para os caras. Mas depois te conheci de verdade. E eu me apaixonei por você.

— Mas não parou — Rafaela recuou, fugindo do alcance dele. — Você continuou me olhando nos olhos, me fazendo acreditar que eu era especial… enquanto, no vestiário, era o herói que estava ganhando o jogo.

— Porque eu tive medo de te perder! Eu sabia que, se te contasse, você ia embora.

— Por isso mesmo você deveria ter contado — a voz dela falhou pela primeira vez. — Você teve mil chances de ser homem e me falar a verdade. Mas preferiu me deixar ser o prêmio de uma aposta.

— Eu sei — ele passou a mão pelo rosto, desesperado. — Eu sei que errei.

— Sabe? — Ela o encarou. — Então por que continuou?

Gabriel abriu a boca, mas demorou a encontrar algo que não soasse como desculpa.

— Porque, quando percebi o que estava sentindo, já não sabia como desfazer aquilo. Fui um covarde.

Rafaela riu, amarga, e balançou a cabeça com os olhos marejados.

— Eu te contei que queria te usar. Lembra? Fui honesta com você. Assim que percebi que as coisas estavam mudando, te dei a escolha de continuar ou não. Você teve a mesma escolha, mas preferiu continuar escondendo a verdade.

Gabriel baixou a cabeça.

— Eu sei.

— Você continuou mesmo quando viu que eu estava caindo. Mesmo quando percebeu que eu confiava em você. O que foi? Queria se vingar de mim porque feri seu brio de conquistador barato?

— Claro que não! — A resposta veio sem hesitação. — Nunca quis me vingar de você. Eu só… não sabia como olhar nos olhos da mulher que eu amo e admitir que tudo começou da pior maneira possível.

— E, enquanto você procurava coragem, eu continuava vivendo uma mentira.

Ele não respondeu.

— Você me expôs! — A dor explodiu. — Me fez de idiota! Eu estava lá, me permitindo confiar, enquanto vocês se divertiam às minhas custas.

— Ninguém se divertiu, Rafaela! — A voz dele subiu, mas a fúria era contra si mesmo. Ele passou as mãos violentamente pelos cabelos. — Eu odiava cada comentário, cada risadinha. Odiava saber que aquilo tinha começado por minha causa. Fui um imbecil que teve medo de perder a única coisa boa que já aconteceu na vida dele.

Ela o olhou, com os olhos cheios de lágrimas que ela se recusava em derramar.

— E você perdeu — o sussurro foi quase inaudível. — Você me quebrou, Gabriel. E nem faz ideia do quanto.

Em um último impulso, ele diminuiu a distância. As mãos grandes e trêmulas envolveram o rosto de Rafaela, buscando os olhos dela.

— Rafa, escuta… me bate, grita, quebra alguma coisa. Mas, por favor, não desiste de mim assim. Eu não sei o que fazer.

Parte dela queria fechar os olhos e se perder naquele toque. Acreditar que o calor daquelas mãos ainda era o lugar seguro de antes. Mas o eco das mentiras subiu como veneno.

Rafaela segurou os pulsos dele e afastou as mãos de seu rosto.

— Fica longe de mim, Gabriel.

— Não. Rafa…

— Me esquece. Como se eu fosse apenas uma aposta que você perdeu.

Ela fechou a porta. Devagar. Como quem encerra um capítulo.

Sem gritos. Sem escândalo.

Do outro lado, Gabriel permaneceu encarando a madeira fria. Desceu as escadas em torpor e entrou no carro. Socou o volante três vezes, gritando contra o para-brisa. No mesmo instante sua mente tentou traçar estratégias para reverter o mal que tinha causado. Pensou em flores, em ligar para Letícia, em voltar e esperar na porta dela. Mas sabia que cada ideia parecia uma tática fútil para um jogo perdido. Então apenas ligou o motor e acelerou pelas ruas escuras.

⚽📖⚽

A manhã nasceu cinzenta. Na cozinha do apartamento, Gabriel encarava uma xícara de café frio. Os nós dos dedos avermelhados doíam, mas não se comparavam ao peso que sentia no peito.

Daniel entrou, bocejando, e parou ao ver o amigo.

— Caralho… Tu tá com uma cara péssima. Brigou com a Rafa de novo?

— Ela descobriu tudo sobre a aposta — disse Gabriel seco, sem erguer os olhos da mesa. — O filho da puta do Lucas falou demais.

Daniel parou o movimento de pegar a xícara no meio do caminho, paralisado pela notícia. Porém, antes que ele dissesse algo, Diego apareceu no corredor arrastando o chinelo e coçando os olhos sonolento:

— Ah, mirá vos… Isso explica por que ela me encarou ontem com cara de orto, parecia que eu era o próprio demônio.

Gabriel levantou a cabeça fuzilando o amigo com fúria.

— Isso tudo é culpa sua. Foi você quem propôs aquela merda.

— Pará lá, mano! — o argentino ergueu as mãos recuando um passo, mas sem perder a marra. — Ninguém botou uma arma na sua cabeça, não, Gabriel. Eu dei a ideia idiota, mas quem executou foi você.

Gabriel desviou o olhar, sem ter o que responder. Diego tinha razão.

— Vocês dois foram babacas — Daniel interveio. — Mas você se ferrou, Gabriel, porque se apaixonou de verdade.

Os celulares vibraram ao mesmo tempo. Diego pegou o seu e encarou a tela.

— Biel... acho melhor você olhar isso.

Gabriel pegou o telefone sobre a bancada. Nos grupos da Universidade, Brunna expusera prints de conversas antigas entre Gabriel e os amigos, áudios e a imagem falsa de um comprovante de transferência. A legenda circulava rápido: "O Capitão e a Nerd: até onde o camisa 10 vai para ganhar um jogo?"

— Como ela conseguiu isso, porra? E esse comprovante…

— Mano, já caiu no site de fofocas da UC — Daniel o interrompeu — Estão marcando a Rafaela em tudo.

Gabriel largou o celular sobre o mármore. Se a revelação da aposta na noite anterior a quebrara, aquela exposição pública por causa dele com certeza seria o golpe final.

⚽📖⚽

Rafaela preparava um café. O apartamento estava quieto demais.

Ao olhar a tela do celular, a foto de fundo — os dois sorrindo na rede da casa dos pais dela — era como a prova da farsa que ela vivera. Com alguns toques, substituiu a imagem por uma paisagem qualquer e apagou as fotos da galeria.

Notificações começaram a descer em cascata pelo topo da tela: menções, grupos da faculdade, mensagens de conhecidos. Rafaela nem leu. Ativou o modo "Não Perturbe".

Depois, abriu a conversa de Gabriel. Bloqueou o contato e apagou todo o histórico de mensagens. Excluiu o número da agenda. Apagou os vestígios da superfície, ciente de que não conseguiria fazer o mesmo com o que sentia.

Tomou um gole do café amargo, aceitando o sabor áspero para despertar do pesadelo de ter fracassado como amiga e ter confiado no cara errado.

Em Icaraí, Gabriel já nem sabia mais há quanto tempo encarava o celular. A mensagem que escrevera a pouco ainda estava ali, aguardando ser enviada:

“Eu sei que você provavelmente não quer ouvir nada de mim agora. Mas preciso que saiba que o que senti por você foi real. Cada beijo, cada palavra, cada momento. Eu estraguei tudo quando escolhi esconder a verdade. Só queria uma chance de consertar isso”

Quando ele finalmente apertou enviar, o ícone permaneceu com apenas um risco cinza. Instantes depois, a foto de perfil de Rafaela sumiu, dando lugar a uma silhueta vazia.

— Não… — ele murmurou.

Buscou o nome dela nas redes sociais. Nada. Ela o apagara de tudo.

Gabriel encostou a testa no vidro gelado da janela do seu quarto, encarando a rua.

— Me deixa consertar, Rafa, por favor. Só… me deixa tentar.

Mas o que veio de volta foi apenas o vazio.

Notas finais
Time… Eu acho que depois desse capítulo ficou claro que a aposta foi apenas o começo do problema. A verdadeira destruição veio de tudo que Gabriel escolheu fazer depois que percebeu que estava apaixonado por ela. Ele teve medo de contar. Adiou. Mentiu. E agora a verdade chegou da pior maneira possível: primeiro para Rafaela e, depois, para toda a UC.💔 E tem uma coisa que me dói especialmente nesse capítulo: O que Gabriel passou tanto tempo tentando evitar finalmente aconteceu. Ele perdeu a Rafaela. E agora ela vai precisar descobrir se ainda consegue separar o Gabriel que ama do Gabriel que mentiu para ela. Então me contem, time: vocês estão com raiva do Gabriel? 👀 Conseguiriam perdoar uma mentira dessas se soubessem que o sentimento depois se tornou verdadeiro? Ou, para vocês, existem coisas que o amor não consegue consertar? Até o próximo capítulo. ❤️⚽️📖