AMOR EM CAMPO
43 Capítulo 42: Segredos
Notas iniciais

Os dedos de Rafaela digitavam freneticamente uma mensagem após a outra, mantendo o celular escondido sob a bancada de granito do laboratório de microbiologia.
Rafaela: Lelê, podemos conversar?
Rafaela: Por favor.
Rafaela: Você vem para a faculdade hoje?
Rafaela: Letícia?
A tela continuava muda. Nenhum aviso de leitura, nenhuma indicação de que a amiga sequer vislumbrara as notificações.
Desde que havia chegado ao apartamento no final da tarde anterior e se deparado com o quarto praticamente vazio, uma culpa corrosiva se alojara em sua mente.
Como não percebera antes?
Estivera tão imersa no turbilhão de seus próprios sentimentos por Gabriel que negligenciara a pessoa que sempre esteve ao seu lado?
“Por favor, não me procure por enquanto, preciso de espaço.” As palavras do bilhete lilás continuavam queimando em sua memória. Mas a intuição de Rafaela gritava que respeitar aquele pedido seria um erro fatal.
— Rafaela!
A voz do professor ricocheteou pelas paredes de azulejos brancos. Ela guardou o celular no bolso do jaleco no reflexo, erguendo a cabeça.
— Estamos analisando a lâmina de amostragem agora. Gostaria de compartilhar o que está observando através do microscópio?
Sua mente operou em vácuo por um segundo. Puxou o equipamento para perto, ajustando o foco com a ponta dos dedos trêmulos sob a vista da turma.
— É… tecido epitelial — respondeu, tentando firmeza. — Um epitélio simples, com cadeias de células bem alinhadas e justapostas.
O professor assentiu de forma breve e voltou-se para a bancada oposta. Rafaela soltou o ar preso nos pulmões. Discretamente, retirou o celular do bolso mais uma vez.
Ainda sem resposta. E aquele silêncio preocupava consideravelmente mais do que qualquer conceito técnico sobre estruturas celulares.
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— Ainda não acredito que você meteu aquela história de controle de temperatura das brasas para o pai da Rafa — Diego gargalhou, quase entornando a lata de energético sobre a mesa do pátio da universidade.
Gabriel revirou os olhos, mas não escondeu o sorriso de canto.
— Eu estava tentando sobreviver, porra! O coroa me encarou como se fosse arrancar minhas bolas fora.
— E ele acreditou? — Daniel perguntou.
— Nem um pouco — Gabriel respondeu, rindo fraco. — Mas no fim das contas me deu uma cerveja.
Diego bateu com a mão na mesa.
— Então parabéns, jogador. Você passou de fase.
Gabriel riu junto com os amigos, mas o humor evaporou rápido assim que a lembrança da volta para Niterói voltou à sua mente.
— O foda é que a Rafa tá destruída. A Letícia simplesmente pegou as coisas dela e foi morar com o namorado sem avisar direito.
Ao escutar o nome da estudante de moda, Daniel parou o movimento de levar o copo de água aos lábios. Ele franziu o cenho no mesmo instante, encarando a mesa em um silêncio abrupto. Seus dedos apertaram o copo plástico com uma força desnecessária, deformando o material.
— Aquela história toda com o cara tá muito estranha — Gabriel continuou, sem notar a mudança de postura do zagueiro. — Um controle absurdo, ciúme excessivo... A Rafa tá sentindo que tem algo muito errado acontecendo.
— E se ela tá sentindo, é porque tem — Diego comentou, sério.
Daniel continuou calado. Ele apenas soltou o copo amassado e desviou o olhar para o corredor vazio, a mandíbula tensa escondendo o que quer que estivesse se passando em sua cabeça.
Nesse momento, Rafaela cruzou o portal do pátio. Trazia a mochila pesada em um dos ombros e o rosto tomado por uma palidez preocupante. Gabriel se levantou imediatamente, indo até ela e envolvendo sua cintura em um gesto protetor.
— Oi, meu amor — ele sussurrou perto do ouvido dela.
— Oi, Biel — ela respondeu baixo. Olhou para os meninos na mesa, forçando um aceno curto. — Meninos.
— Fala, Rafa — Diego respondeu.
Rafaela voltou a focar em Gabriel, baixando ainda mais o tom de voz para isolá-los do ambiente:
— Biel, vou sair agora. Vou passar na loja onde a Letícia trabalha antes de ir para a livraria.
— Rafa, agora? — Gabriel franziu o cenho. — Eu tenho aula em dez minutos. Não vou conseguir ir com você e não quero você encarando isso sozinha.
— Preciso ir sozinha — ela segurou a mão dele, os olhos fixos nos dele. — Se você for, ela vai se fechar ainda mais. Eu preciso olhar para ela e entender o que tá acontecendo.
Gabriel segurou o rosto dela com as duas mãos, colando a testa na dela. Ele odiava a ideia de deixá-la ir, mas sabia que não a impediria.
— Toma cuidado, por favor. Qualquer coisa me liga que eu saio da aula no mesmo segundo — ele disse, com os olhos transbordando preocupação. — Eu te amo.
Rafaela sentiu o peito aquecer, o carinho dele funcionando como um pequeno bálsamo em meio ao caos. Ela deu um sorriso, acariciando o pulso dele antes de beijá-lo nos lábios.
— Eu sei. E eu tô começando a entender o tamanho disso — murmurou contra a boca dele. — Eu te ligo assim que sair de lá.
Ela se afastou rápido, apressando os passos em direção à saída da universidade.
Do outro lado do espaço de convivência, encostada em uma mureta perto do café com duas colegas de seu curso, Brunna acompanhava a cena com a atenção. Ela bebericou seu suco sem tirar os olhos de Gabriel, que continuava de pé, observando Rafaela sumir no corredor.
— Impressionante — Brunna comentou, o tom carregado de um sarcasmo sutil.
Uma das garotas ao seu lado olhou na mesma direção.
— É a namorada dele, né? Dizem que o Gabriel tá completamente apaixonado.
Brunna soltou uma risada curta.
— Tem alguma coisa muito errada nessa história.
— Você acha? Ele parece super atencioso.
— Eu conheço o Gabriel — Brunna desviou a atenção para o copo em suas mãos, os lábios se curvando em uma linha fina e calculista. — Ele não muda da noite para o dia por causa de garota nenhuma. Se ele tá encenando esse papel de namorado perfeito... é porque tem um motivo que ninguém descobriu ainda.
As colegas se olharam, sem entender a insinuação, mas Brunna apenas deu mais um gole no suco, guardando para si a certeza venenosa de que aquela história não era tão simples quanto parecia.
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O choque térmico do ar-condicionado atingiu o rosto de Rafaela assim que ela empurrou a porta de vidro da loja de roupas. O tilintar da sineta ecoou pelo ambiente silencioso.
No fundo da loja, uma figura ajeitava cabides em gestos mecânico. Ao ouvir o barulho, a mulher se virou com um sorriso profissional ensaiado que morreu instantaneamente ao reconhecer a visitante.
— Rafa? — A voz de Letícia saiu baixa, sem o tom vibrante de costume.
A camada pesada de maquiagem em seu rosto parecia uma tentativa desesperada de mascarar o cansaço e a palidez.
— Oi, Lê.
Letícia olhou rapidamente para a porta de vidro, um tique nervoso e rápido, antes de checar o relógio no pulso.
— O que você tá fazendo aqui? Eu tô trabalhando.
— Dois minutos, Letícia. Eu só preciso de dois minutos — Rafaela pediu, aproximando-se.
Letícia engoliu em seco e indicou com o queixo o canto mais reservado perto dos provadores. Quando pararam, a proximidade revelou o que a distância disfarçava: os ombros rígidos de Letícia, a respiração curta, a postura defensiva de quem espera ser atingida a qualquer momento.
— Eu encontrei sua mãe quando estava saindo de Saquarema — Rafaela disse sem rodeios. — Ela disse que você cancelou a ida para casa na véspera.
Letícia puxou a manga da blusa para baixo, cobrindo o pulso.
— Tive que trabalhar. A loja não liberou.
— Ela disse que você parecia estranha ao telefone. Como se tivesse algo errado.
— Minha mãe se preocupa demais com tudo, você sabe.
— E ela tá errada? — Rafaela deu um passo à frente, forçando a amiga a olhar para ela. — Eu ouvi como você falava com o Guilherme no apartamento antes de sumir. Você não tava conversando com um namorado. Você tava implorando por uma desculpa que nem sabia por que precisava dar.
Letícia desviou o olhar para os espelhos do provador.
— O Gui só se preocupa comigo. Você ouviu uma conversa solta e tá inventando uma tempestade.
— Ele tá te controlando, Letícia?
— Não! — A resposta veio ensaiada.
— Eu vi o hematoma no seu braço — Rafaela rebateu, o tom caindo para um sussurro desesperado. — Eu sei a diferença entre esbarrar em um móvel e ser segurada com força.
Lágrimas reprimidas brilharam nos olhos de Letícia sob a luz artificial da loja.
— Eu acho que ele foi te prendendo aos poucos, Lê — Rafaela continuou, a voz embargada. — Tão devagar que você nem percebeu quando deixou de conseguir se mexer sozinha.
— Para! — Letícia sibilou entre os dentes. — Eu não pedi sua ajuda. Não pedi para você ser minha salvadora!
— Eu não quero ser sua salvadora, Letícia! Eu quero ser sua amiga. Me diz o que tá acontecendo, por favor.
Letícia balançou a cabeça devagar. O medo acumulado finalmente transbordou em um sussurro trêmulo que fez o sangue de Rafaela congelar:
— Não dá, Rafa. Porque se ele descobrir que eu abri a boca para falar qualquer coisa com você...
A frase morreu ali, mas o pânico na voz de Letícia disse o resto.
— Volta para o apartamento — Rafaela suplicou. — A gente resolve isso juntas. Eu te ajudo.
— Eu já tô sozinha nisso, Rafaela — a exaustão na voz da amiga era absoluta. — É melhor você ir embora. O Gui... ele não gosta de você. Diz que você se mete onde não deve.
— E você concorda com ele?
O silêncio de Letícia foi a pior resposta. Ela deu as costas devagar e voltou a mexer nos cabides de forma desconexa, fingindo uma normalidade que já não existia.
Rafaela caminhou até a porta. Antes de sair, olhou por cima do ombro uma última vez, vendo as costas de Letícia tremerem em um choro silencioso.
— Eu amo você, amiga. Não se esquece disso.
Ao pisar na calçada quente da rua, o celular de Rafaela vibrou no bolso. Era uma nova mensagem de Gabriel:
Tá tudo bem aí, gata? Me avisa assim que sair.
Rafaela encarou a tela. Não respondeu.
A raiva gélida e o desespero por Letícia pesavam em seus ombros. Ela guardou o aparelho no bolso e começou a caminhar sem rumo, sentindo o peito sufocado.
Rafaela sabia que Letícia estava presa a uma relação perigosa, sustentada pelo medo de um homem que dizia querer protegê-la. O que ela não imaginava — e que tornava tudo tragicamente mais doloroso — era que a sua própria história de amor, tão bonita e reluzente aos seus olhos, também fora erguida sobre uma mentira.
E essa mentira só esperava o momento certo para ruir.
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