AMOR EM CAMPO

13 Capítulo 12: No Estilo do Machado


Notas iniciais
Ao benevolente leitor: Convém adverti-lo de que nem sempre os acontecimentos decisivos chegam envoltos em estrépito. Há ocasiões em que o destino prefere insinuar-se discretamente, ocultando-se em palavras aparentemente triviais. Se me permite um conselho, leia este capítulo com menos pressa do que curiosidade.

A manhã de terça-feira na biblioteca da UC estava imersa naquele silêncio, que normalmente acalmava Rafaela. Mas hoje era um problema. O silêncio dava espaço para que sua mente repetisse, em loop, a discussão da noite anterior.

No balcão de atendimento, Rafaela tentava focar em outra coisa enquanto conversava com Neide, a bibliotecária-chefe de óculos na ponta do nariz e coque impecável.

— Os panfletos da FMPC já chegaram, Neide — Rafaela comentou, organizando as folhas, tentando demonstrar um entusiasmo genuíno. — Consegui que o laboratório de química nos liberasse as placas de Petri extras para a demonstração de cadeias de polimerização. Estou muito animada; o Brandão disse que investidores de fora vão vir olhar os projetos na sexta.

— Você merece, Rafa. Ninguém se dedicou mais a essa feira do que você — a bibliotecária sorriu, carimbando uma pilha de devoluções. — Só não vá esquecer de comer com essa correria toda, ouviu?

Foi quando a grande porta de madeira da biblioteca rangeu. Rafaela congelou o movimento das mãos. O cheiro de perfume amadeirado misturado com gel de massagem canforado atingiu seu olfato antes mesmo que ela se virasse.

Era Gabriel.

Ele usava uma camiseta branca simples, jeans, e parecia não ter dormido nada. O brilho arrogante nos olhos da noite anterior fora substituído por uma hesitação que Rafaela nunca vira nele.

Ela fingiu que ele era invisível. Virou-se de costas para a entrada, pegou uma pilha de manuais pesados e deu um sorriso forçado para a bibliotecária.

— Neide, vou aproveitar para devolver esses manuais na seção de Biológicas, tá bem? Licença.

Ela caminhou rápido, embrenhando-se no labirinto de estantes altas de metal, no entanto, o som dos passos pesados de Gabriel atrás dela, denunciava que a fuga seria inútil. Ela parou no corredor de Embriologia e Histologia, fingindo ler a lombada de um livro grosso sobre tecidos celulares.

— Rafaela...

— Veio me oferecer a outra face, Duarte? — ela o cortou, virando-se calmamente, mantendo a voz no limite do audível, mas carregada de gelo.

Duarte. Ele sentiu o impacto do sobrenome saindo da boca dela de um jeito tão frio e impessoal. Tão diferente do tom quase doce que ela usara para chamá-lo de Biel na sexta-feira passada.

Gabriel deu um passo à frente, certificando-se de manter uma distância respeitosa.

— Será que a gente pode conversar? Só um minuto. Sem gritar, eu prometo. — A voz dele ecoou num murmúrio rouco.

— Tenho uma feira científica para organizar. Meu tempo é curto e eu não tenho mais minutos para você.

Gabriel suspirou e tirou um papel amassado do bolso do jeans. Era o roteiro de estudos que ela tinha feito para ele.

— Eu só queria te mostrar que tentei fazer os exercícios sobre o sistema autônomo. Sozinho, ontem de madrugada. — Ele estendeu o papel por cima dos manuais. Estava cheio de rasuras, borrões de caneta e anotações confusas. — Eu errei quase tudo, Rafa.

Rafaela pegou a folha, passando os olhos pelas anotações desencontradas e garranchos desesperados.

— Isso não é mais problema meu. Boa sorte com o Santana, Gabriel.

Ela deu meio passo para o lado, ameaçando contorná-lo e deixá-lo sozinho no corredor. Mas Gabriel a interceptou antes que ela conseguisse passar, impedindo a saída com o próprio corpo.

— Você tinha razão — ele soltou, a voz abafada, mal conseguindo olhá-la nos olhos devido à vergonha. — Sobre a dedicação, o caráter, tudo. Eu agi como um idiota com você porque... porque surtei. Não sabia como lidar com o fato de você conhecer partes de mim que nem os caras que eu chamo de amigos há anos conhecem. Eu quis retomar o controle sendo um babaca.

Rafaela ergueu o queixo, os braços firmemente cruzados.

— Uma análise psicológica muito bonita. Parabéns — desdenhou, o tom cortante ecoando sutilmente entre as estantes. — Pena que não muda o fato de que você me insultou na minha própria casa. E agora vem aqui com uma folha amassada, achando que um "desculpe, eu surtei" conserta o estrago? Não tenho interesse no seu processo de amadurecimento tardio.

— Eu não acho que conserta — ele insistiu, com a voz falhando de leve. — Não vim pedir para você esquecer as merdas que eu falei. Só vim perguntar o que eu preciso fazer para você acreditar que eu realmente quero aprender. Me diz que eu faço. Não só pela bolsa, mas porque eu odeio o cara que eu fui ontem à noite com você.

Rafaela demorou longos e torturantes segundos em silêncio, deixando-o fritar na própria incerteza, enquanto o peito dele subia e descia pesado sob a camiseta branca.

Só então, com uma petulância calma e calculada, ela reduziu o espaço entre eles.

No corredor estreito, cercado de prateleiras, a invasão de espaço foi magnética. O cheiro sutil de lavanda dela atingiu o olfato de Gabriel sem aviso, desencadeando um estalo violento em sua mente. Laçado. A palavra do Daniel voltou a ecoar. De repente, o coração de Gabriel disparou em um galope descompassado e a palma das mãos ficou fria e suada. Ele, que sempre teve tudo sob controle quando o assunto era mulheres, sentia-se completamente acuado pela proximidade física de uma garota que mal batia em seu peito.

Incapaz de desviar o foco, os olhos escuros dele caíram sutilmente, quase hipnotizados, até os lábios dela, que estavam entreabertos. Gabriel pigarreou, a garganta seca, tentando desesperadamente recuperar a postura e se concentrar no que importava.

Rafaela notou a oscilação no olhar dele e um meio sorriso, perigoso e consciente do controle que tinha naquele instante, brincou nos cantos de sua boca. Ela deu mais um passo à frente, os olhos semicerrados em um desafio provocante.

— Você quer mesmo uma chance de se redimir, Duarte? — A pergunta veio macia demais, quase um flerte disfarçado de ameaça. — Ou está só encenando o drama do atleta arrependido porque o Santana vai te reprovar?

— Eu quero. E faço o que você quiser para provar isso. — ele respondeu de imediato, quase como um soldado recebendo ordens no quartel, a voz saindo mais grave do que o normal, os olhos brilhando com um fio de esperança. — Qualquer coisa. Eu juro.

— Tudo bem, mas já vou logo avisando: eu tenho novas condições. E se você bufar ou reclamar uma única vez, a gente encerra para sempre. — O ultimato dela veio carregado de uma autoridade que o fez engolir em seco.

— Pode mandar, nerdzinha. Eu aceito qualquer coisa.

— Ok. Lá vai: esqueça os cafés e as caronas. A partir de hoje, você vai me ensinar a dirigir. — Ela deu um sorriso que não tinha nada de angelical. — Estou cansada de depender de ônibus e, já que o seu carro é tão tecnológico e confortável, você vai me dar aulas no trajeto da livraria para a minha casa.

Gabriel sentiu o coração falhar uma batida. Pensou no pai, nas horas de graxa e suor para comprar aquele carro, e na imagem de Rafaela — que parecia ter a coordenação motora de um esquilo bêbado para qualquer coisa que não fosse um microscópio — pilotando seu bebê.

— Rafa... aquele carro é o meu xodó. Meu pai... — ele começou, mas parou imediatamente ao ver a sobrancelha dela subir. — Tudo bem. Eu ensino. Mas, se você arranhar a lataria, eu juro que tenho um AVC.

— Controle suas emoções, Duarte. Faz parte do aprendizado — ela rebateu, imperturbável. — Segunda condição: você me contou que sua mãe é professora de Literatura, mas, pelo visto, o gene não passou para você. Para compensar a sua falta de foco e o seu desrespeito de ontem, eu quero um pedido de desculpas escrito à mão.

Gabriel deu um sorriso aliviado, esquecendo onde estava.

— Só isso? Escrevo agora mesmo: "Foi mal, Rafa. Assinado, Biel."

— Psiu! — um estudante na mesa ao lado reclamou.

— Não — Rafaela ralhou em um sussurro ríspido, batendo com o dedo indicador no livro de Histologia. — Eu quero cinquenta linhas. Em papel almaço. E no estilo de Machado de Assis. Se eu encontrar uma gíria, um jargão de futebol, um erro de concordância ou um parágrafo que não seja digno de um clássico do século XIX, a aula está cancelada.

O sorriso de Gabriel desapareceu instantaneamente.

— Cinquenta linhas? Escrito à mão? Digno de um clássico? Rafaela, eu nem lembro o que é um adjunto adnominal, quanto mais escrever como um defunto autor!

— Então sugiro que peça ajuda para a sua mãe ou comece a ler Memórias Póstumas agora mesmo. — Ela empurrou o roteiro de estudos amassado de volta contra o peito dele. — Esteja na porta da biblioteca às 21h. Com a carta pronta e a chave do carro na mão. E, Gabriel... se você gritar comigo enquanto eu tento fazer a baliza, eu dobro a meta para cem linhas.

Gabriel olhou para ela, depois para as mãos delicadas que em breve estariam maltratando seu volante. Ele percebeu que o jogo não tinha apenas mudado; Rafaela tinha virado o tabuleiro na cabeça dele.

— 21h — ele murmurou, derrotado, mas intrigado. Antes de sair do corredor, olhou para trás com uma expressão confusa. — Ei... onde fica a seção de clássicos nacionais mesmo?

⚽️📖⚽️


Gabriel estava sentado na cama, os olhos concentrados num ponto da parede, enquanto o caderno repousava em seu colo e dezenas de bolinhas de papel amassadas decoravam o chão do quarto. Uma inquietação incômoda crescia dentro dele. Irritação e curiosidade se misturavam sob sua pele como estática prestes a descarregar. As palavras de Daniel não paravam de rondar sua mente desde a noite passada.

“Você está com um medo filho da puta de admitir que a nerdzinha te laçou.”

— Até parece... eu? Gamado na nerdzinha? — Gabriel bufou uma risada que morreu logo em seguida. — Será?

Então, a lembrança da reação física que teve quando ela o encurralou na seção de biológicas, o atingiu com força. Ele fechou os olhos, revivendo o momento exato em que Rafaela reduziu o espaço entre eles no corredor estreito. O que o perturbava de verdade não era o desafio audacioso das cinquenta linhas, mas a forma como o próprio corpo reagira à proximidade dela: o coração disparado, a garganta seca e os olhos hipnotizados pela boca dela.

Ele balançou a cabeça negativamente, passando as mãos pelo rosto com força, tentando afastar a ideia. Não fazia o menor sentido. Rafaela era o oposto de todas as garotas com quem costumava sair. Ela não usava roupas coladas, maquiagens exageradas, não frequentava as festas do time e, o principal, ela parecia ter uma repulsa genuína pelo "Efeito Duarte".

É o desafio, ele justificou para si mesmo, agarrando-se à primeira desculpa lógica que encontrou. É só porque ela me deu um fora e me deu um tapa. Meu orgulho ficou ferido, só isso. Eu sou o capitão dos Falcões; não estou acostumado a perder.

Mas, lá no fundo, a desculpa parecia rasa. Se fosse apenas orgulho ferido, ele estaria com raiva, planejando uma revanche ou simplesmente ignorando a existência dela. Ele não estaria passando um sufoco para escrever a porra de um pedido de desculpas como se fosse um autor do século XIX.

— Foco, Duarte. Foco — resmungou para as paredes vazias, batendo com a ponta da caneta na folha em branco. — Você precisa passar na prova do Santana, manter a bolsa e salvar o seu couro. O resto é loucura da sua cabeça.

Ele olhou para a pilha de manuais de anatomia e, ao lado, o celular com a página do Google aberta na biografia de Machado de Assis. Ele precisava terminar aquela maldita carta se quisesse ter o direito de entrar no carro com ela às 21h. O tempo estava correndo, e o Bruxo do Cosme Velho não parecia disposto a facilitar a vida de um camisa 10 desesperado.

Pelo canto do olho, Gabriel viu Diego se encostar no batente da porta do seu quarto.

— O Lucas chamou para colar lá na casa dele. O pessoal vai pedir pizza e assistir ao jogo do Niteroiense. Bora analisar a tática dos caras?

Gabriel checou as horas no relógio digital no criado-mudo. 20:15.

— Não vai dar, tenho monitoria com a Rafa daqui a pouco.

Ele se levantou e caminhou até o guarda-roupa, pegando uma camiseta preta.

— Ui, com a ‘Rafa’… então a aposta está no papo mesmo? Já estão até se chamando por apelidinhos?

— Algo assim — Gabriel respondeu, jogando a camiseta por cima da cabeça para evitar o olhar curioso do amigo. — Digamos que é um investimento a longo prazo. Mas primeiro preciso garantir que o semestre não vá para o ralo.

Diego se abaixou e pegou uma das bolinhas de papel perto da porta. Ele franziu o cenho, alisando a folha. Ele esperava encontrar o rascunho de um questionário ou talvez um esquema tático para o próximo jogo, mas o que seus olhos leram foi o puro suco do caos literário.

— Mas que merda é essa? “Uma nerdzinha muito safada e manipuladora tu és, oh, Rafaela!” — Diego leu em voz alta, a voz marcada por um deboche incrédulo. Ele soltou uma gargalhada que ecoou pelo corredor. — Você virou o Shakespeare da Shopee ou está tentando fazer um feitiço para a garota te dar as respostas?

Gabriel sentiu o rosto esquentar, uma reação que ele odiou instantaneamente. Ele correu e arrancou o papel da mão de Diego com uma força que não era necessária.

— É uma estratégia, idiota. — Gabriel amassou o papel novamente. — Ela é exigente. Se eu não entrar no jogo intelectual dela, ela não me dá aulas.

— Estratégia? — Diego entrou no quarto de vez, chutando uma das outras bolinhas de papel. — Biel, você está há duas horas trancado nesse quarto escrevendo cartinha de amor para a nerd. A aposta era para você ganhar dela, não para virar o cachorrinho da garota.

— Não é uma carta de amor, imbecil, é um pedido de desculpas e ninguém virou nada, Diego. — Gabriel jogou o caderno na mochila de qualquer jeito. — Eu estou jogando o jogo dela para ganhar. É assim que funciona. Ela se sente importante, eu ganho o que quero e, no final, eu ainda recebo mil reais por ter que aguentar essa palhaçada.

Diego o observou por alguns segundos. O sorriso sarcástico ainda estava lá, mas havia uma nota de desconfiança.

— No lo sé, hermano. Você está com uma cara de quem está levando o "trabalho de campo" a sério demais. Ojo, cuidado para não se perder na própria jogada. A Isabela, aquela gata da Vet que você estava de olho, vai estar lá no Lucas também. Certeza de que vai dar um bolo nela para virar o poeta da UC, cabrón?

Gabriel olhou para o relógio. 20:35. Ele visualizou a Rafaela esperando na porta da livraria com aquela expressão de "eu sabia que ele ia decepcionar mais uma vez". A ideia de deixá-la esperando e ir ver o jogo com os caras passou pela sua cabeça por um segundo, mas a curiosidade sobre como ela reagiria àquela frase específica da carta foi mais forte.

— Não. Vou lá resolver isso. — Gabriel pegou as chaves do carro. — Vejo você amanhã no treino.

— Boa sorte com a nerd, Dom Casmurro! — Diego gritou enquanto Gabriel saía.

Às 21h em ponto, ele estacionou na porta da "Páginas & Prosa". Gabriel desceu, deu a volta, abriu a porta do carona e estendeu a chave para Rafaela com a expressão de quem estava entregando um rim para doação.

— Aqui. A chave do meu santuário. O seguro está em dia, Rafaela. Tenta não me fazer usar, por favor.

Rafaela pegou a chave, sentindo o peso do metal, e sorriu.

— E a carta?

Gabriel bufou e tirou do bolso uma folha de papel almaço, dobrada com um capricho suspeito.

— Deu quarenta e nove linhas e meia. Eu tive que usar um dicionário de sinônimos e ligar para a minha mãe três vezes.

Rafaela abriu o papel. A caligrafia dele era apressada, mas legível. Ela limpou a garganta e começou a ler a primeira frase em voz alta:

“Uma nerdzinha muito safada e manipuladora tu és, oh, Rafaela! Inebriado por vossa astúcia, vejo-me compelido a redigir estas parcas linhas de contrição...”

Ela parou a leitura, arqueando uma sobrancelha para ele.

— Você me chamou de… safada?

Gabriel deu de ombros, encostando-se na lateral do carro.

— O quê? Você pediu estilo Machado de Assis. Ele adorava uma ironia e umas palavras difíceis. "Safada" é uma licença poética para definir como você me encurralou com essas condições.

— "Inebriado por vossa astúcia"? — Rafaela segurou o riso, guardando a carta na bolsa. — Pedi Machado de Assis e recebi o Chapolin Colorado. Se o resto da carta tiver o mesmo nível de deboche, eu vou exigir um anexo de mais dez linhas sobre ética e moral. Agora, entra. Estou ansiosa pelas minhas aulas de direção.

Gabriel sentou no banco do carona e imediatamente começou a ajustar o cinto, como se estivesse se preparando para um teste de colisão da NASA.

Rafaela ajustou o banco, puxando-o para frente até que seus joelhos quase tocassem o painel. Gabriel bufou ao lado, cruzando os braços com uma rigidez que fazia os músculos do braço marcarem a camiseta preta.

— Você está muito perto do volante. Se o airbag inflar, você já era! — ele disparou, a voz cortante.

— Eu preciso alcançar os pedais, Duarte. Nem todo mundo tem dois metros de perna que nem você — ela retrucou.

— Certo. Pisa no freio, aperta o botão de start... — ele explicava, a voz tensa. — Devagar, Rafa!

— Tá! — Rafaela olhou para ele. — E onde fica o freio?

Gabriel fechou os olhos por três segundos, respirando fundo como se estivesse tentando não ter um aneurisma ali mesmo. O painel digital do sedan brilhava, indicando que o sistema estava pronto, mas Gabriel sentia que ele não estava.

— Onde fica o freio? — ele repetiu, a voz subindo uma oitava. — Rafaela, você entende a mecânica de uma sinapse, mas não sabe que o freio é o pedal maior da esquerda?!

— Eu não estudo engenharia mecânica, Duarte, eu estudo células! — ela rebateu, tateando com o pé embaixo do painel até sentir o metal. — Achei. Relaxa.

— Relaxar? Se você confundir os pedais e a gente entrar dentro da vitrine da livraria, eu vou ter que explicar para meu pai que morri porque uma nerdzinha não sabia a diferença entre aceleração e frenagem!

Rafaela apertou o volante com força.

— Se você continuar gritando, vou ficar nervosa e acabar pisando onde não devo. Então, baixa o tom e me explica como eu saio daqui sem nos matar e nem matar ninguém.

Gabriel afundou no banco de couro, massageando as têmporas. A irritação com Daniel por plantar aquelas merdas sentimentais na sua cabeça e com Diego por zoar da sua cara ainda latejava, mas ver o foco quase desesperado de Rafaela no volante começou a mudar a energia dentro do carro.

— Tá. Desculpa — ele resmungou, embora não parecesse muito arrependido. — Pé no freio. Mantenha pressionado. Agora, puxe essa alavanca para o 'D'. Isso. Agora... solta o freio. Devagar!

O carro começou a deslizar com a suavidade de um navio. Rafaela soltou um risinho de puro nervosismo.

— Ele... ele está andando sozinho!

— É o câmbio automático, gênia. Agora vire o volante. Lentamente! Mais! — Gabriel esticou o braço e, sem pensar, cobriu a mão dela com a dele para forçar a curva. — O raio de giro desse carro é maior do que você imagina.

O contato foi elétrico. A mão dele era grande, quente e áspera; a dela, pequena e gelada de nervosismo. Por um segundo, o ronco baixo do motor era a única coisa que fazia barulho.

Ele pigarreou, retirando a mão como se tivesse se queimado, mas manteve o tom exigente para disfarçar o tremor na própria voz.

— Retrovisor, nerdzinha. O mundo não para só porque você está estudando o asfalto. Olha para o espelho. Você está indo bem — ele sussurrou, a voz subitamente mais baixa, enquanto o carro ganhava a avenida.

Rafaela engoliu em seco, tentando manter o carro centralizado na faixa. Alguns quilômetros depois, ela apontou para o prédio antigo.

— Ali. Chegamos. Vivos.

— É, milagrosamente — Gabriel resmungou, mas havia um alívio verdadeiro em sua voz. — Agora vem a parte que separa os fracos dos fortes: a baliza. E, antes que você pergunte, não, o carro não estaciona sozinho só porque você quer.

Rafaela parou o carro em paralelo ao veículo da frente. Ela olhou para o espaço apertado e depois para o rosto de Gabriel. A iluminação âmbar do painel destacava os traços marcantes do rosto dele.

— Se eu acertar de primeira, você vai ter que me levar um sanduíche de focaccia da padaria Santa Marta amanhã, com bastante queijo. — ela desafiou, com um brilho atrevido nos olhos.

Gabriel deu um sorriso de canto, aquele que ele costumava usar para desarmar adversários, mas que agora parecia apenas um convite.

— Gata, se você acertar de primeira sem ralar a roda, eu escrevo mais cinquenta linhas elogiando a sua "astúcia".

Ela respirou fundo, engatou a ré e sentiu a mão de Gabriel pousar suavemente no encosto do seu banco. O braço dele circulou o espaço logo atrás da cabeça dela enquanto ele se virava para olhar pelo vidro traseiro. O perfume dele agora era o único ar disponível no carro.

— Vai — ele sussurrou perto do ouvido dela. — Devagar. Eu estou com você.

Rafaela tentou ignorar a proximidade daquele corpo, que criava uma espécie de casulo de calor ao redor dela. Ela aliviou a pressão no pedal do freio. O carro começou a recuar. Ela olhava freneticamente para a câmera de ré no painel e para os espelhos, mas a presença de Gabriel ali, tão perto que ela podia sentir a respiração dele em sua têmpora, estava embaralhando toda a sua concentração.

Em um momento de pânico ao ver a calçada se aproximar rápido demais pelo monitor, o pé dela escorregou. Em vez de frear para ajustar o ângulo, ela deu um toque seco no acelerador. O carro deu um pulo para trás, ameaçando subir o meio-fio com tudo.

— O freio, Rafa! O freio! — Gabriel reagiu rápido, esticando o corpo sobre o console central e puxando o volante com uma mão, enquanto a outra, que estava no banco, instintivamente segurou o ombro dela para estabilizá-la.

O carro parou com um tranco violento, a centímetros da guia. O silêncio desabou entre eles, interrompido apenas pelo bipe intermitente do sensor de estacionamento, que parecia ditar o ritmo dos batimentos cardíacos acelerados dos dois.

Rafaela soltou o ar de uma vez, as mãos agarradas ao volante com força. O peito subia e descia em um ritmo frenético. Ela estava apavorada. O choque de quase ter batido o carro dele fez suas pernas tremerem sob o painel. Se Gabriel não tivesse sido mais rápido, ela teria destruído a traseira do sedan.

O rapaz não se afastou de imediato. Ele ainda estava atravessado sobre o espaço dela, o rosto a centímetros do dela, o braço firme em seu ombro, servindo como uma âncora para conter o tremor dela. Ele olhou para a roda pelo retrovisor e depois voltou a focar nela, a irritação de antes completamente dissipada, substituída por uma emoção totalmente diferente.

— Por um milímetro, nerdzinha — ele ofegou, os olhos conectados nos dela, capturando o pânico que ainda brilhava nas pupilas de Rafaela. — Por um milímetro você não me deve uma calota nova e uma carta de cinquenta linhas sobre mecânica de suspensão.

Rafaela piscou, tentando reencontrar a própria voz no meio daquele caos. Mas era impossível. O pavor do quase acidente começou a se misturar, de um jeito perigoso, com a percepção do corpo de Gabriel ali, tão perto. O cheiro da camiseta preta dele, o calor opressor da mão espalmada em seu ombro e a boca dele a uma distância que fazia sua pele aquecer eram as únicas coisas que seu cérebro conseguia processar. O foco e a pose de garota durona que ela tanto pregava tinham acabado de ser completamente destruídos pelo susto... e por ele.

Foi Gabriel quem quebrou o transe primeiro, pigarreando e afastando-se devagar para o seu lado do banco. O peso da ausência dele fez o ar frio do ar-condicionado parecer súbito e incômodo. Sem dizer mais nenhuma palavra, ele desligou o motor. O clique do cinto de segurança sendo destravado por ele pareceu ecoar como um trovão no espaço confinado do carro.Rafaela recolheu suas coisas no automático, os movimentos mecânicos tentando camuflar o caos interno. Eles saíram do veículo, batendo as portas quase em uníssono, ansiosos para escapar da atmosfera sufocante da cabine.

Rafaela ainda sentia as pernas bambearem quando subiu as escadas, mas repetia para si mesma que era única e exclusivamente pelo susto de quase bater o carro.

Gabriel subia os degraus logo atrás, mantendo uma distância curta — o suficiente para que o rastro do perfume dele a alcançasse no corredor estreito do prédio. Ele permanecia em silêncio, o que era quase mais perturbador do que o quase acidente dentro do sedan.

— Você está bem? — ele perguntou quando atingiram o patamar do terceiro andar. O tom não era tenso como o de antes. Parecia... preocupado.

Rafaela parou diante da porta, tateando a bolsa em busca das chaves, enquanto as mãos ignoravam a ordem de ficarem paradas.

— Estou. Mas dirigir é muito mais difícil do que eu imaginava. De qualquer forma, seu carro está intacto, então pode dormir em paz, Duarte.

Gabriel deu um passo à frente, escorando-se na parede enquanto ela finalmente acertava a fechadura.

— Não estou preocupado com o carro, Rafaela. Quer dizer, estou, mas... — Ele hesitou, passando a mão pelo cabelo, um gesto que ela começou a notar que ele repetia sempre que perdia a pose de capitão. — Você mandou bem para uma primeira vez. Sério. Tirando a parte em que quase fomos parar dentro da lixeira.

Rafaela girou a chave, esperando a desordem habitual de Letícia, a música alta, o cheiro de incenso ou o som de algum dorama. No entanto, o apartamento estava mergulhado no escuro.

— A Letícia deve ter saído com o namorado — pronunciou para si mesma, acendendo a luz da sala.

Gabriel entrou, encostando a porta atrás de si, e o ambiente foi preenchido pelo estalo do clique da fechadura.

— Certo. — Ela jogou o molho de chaves na mesa, tentando recuperar a postura de monitora. — Chega de aventuras por hoje. Ainda temos que cobrir a parte de potencial de repouso das membranas.

Gabriel largou a mochila no sofá e se acomodou à mesa de jantar, mas seus olhos não foram direto para os manuais. Ele ficou observando Rafaela guardar a bolsa; as mãos dela guardavam um tremor residual que ela tentava ocultar fechando os dedos em punho.

— Respira, Rafa — ele disse, a voz serena, perdendo o tom de comando que usara no veículo. — Bebe uma água primeiro. Você parece que vai desmaiar.

Rafaela buscou dois copos de água e sentou-se à frente dele, deixando a mesa de fórmica como a única barreira entre os dois.

— Eu não vou desmaiar. Só... não gosto de não ter o controle das coisas — admitiu, bebendo rápido demais.

— Eu percebi. — Gabriel abriu o caderno, mas sua mente continuava presa na imagem dela ao volante. O pânico nos olhos dela e a forma como o próprio corpo reagira no automático, impulsionado por um instinto cego de protegê-la antes mesmo de pensar no carro, ainda reverberavam em seu peito. — Eu também não gosto. Mas, sabe, às vezes perder o controle é a única forma de aprender como as coisas realmente funcionam.

Rafaela soltou um riso anasalado, fixando os olhos nos dele com uma intensidade cortante. O clima na cozinha mudou num estalo.

— É mesmo, Duarte? Porque a última vez que perdi o controle por sua causa, a minha mão terminou estalada na sua cara. E eu garanto que não aprendi nada de bom ali, além do fato de que você consegue extrair o pior de mim.

Gabriel recuou de leve, sentindo o fantasma do impacto arder na bochecha por um segundo. A menção direta ao tapa cortou o ar como uma navalha. Ele engoliu em seco, mas sustentou o olhar firme dela.

— Eu mereci — soltou, olhando bem no fundo dos olhos dela, deixando a defensiva de lado. — Me desculpa, Rafa. De verdade. Eu fui um escroto completo com você ontem. O tapa... bom, doeu no meu orgulho, não vou mentir. Mas a merda que eu falei... eu sei que machucou muito mais. E sinto muito por ter feito você passar por isso na sua própria casa.

Ela esperava que ele fizesse piada, tentasse diminuir a situação ou usasse o ocorrido para se fazer de vítima, mas vê-lo admitindo a própria culpa desmontou Rafaela por um breve segundo.

— Que bom que você sabe — ela falou, desviando a atenção para o livro e pigarreando para espantar o constrangimento. — Agora, vamos focar no transporte ativo. O que acontece quando a célula precisa de energia para mover íons contra o gradiente de concentração?

Gabriel apoiou os cotovelos na mesa, diminuindo a distância entre eles.

— Ela luta contra a corrente, não é? Usa tudo o que tem para manter o equilíbrio, mesmo quando o lado de fora está tentando invadir tudo.

Rafaela elevou os olhos. O olhar de Gabriel era intenso, impregnado de uma duplicidade que não tinha nada a ver com biologia. Ele descrevia a célula, mas parecia falar sobre a forma como ela o tratava: lutando contra a corrente para manter o equilíbrio.

Aquela intensidade silenciosa se estendeu pelas horas seguintes, quebrada apenas pelo som das páginas viradas e pelas explicações detalhadas de Rafaela. O relógio avançava enquanto os dois mergulhavam em esquemas de membranas e gráficos de ATP. Gabriel se esforçava para seguir cada linha de pensamento, mas o cansaço acumulado da noite em claro e a enxurrada de jargões técnicos começaram a pesar.

— Isso aqui é um massacre mental. Como você consegue gostar disso? — ele finalmente desabafou, encostando a testa na mesa com um suspiro derrotado após uma hora ininterrupta de estudos, sentindo os neurônios ferverem.

Rafaela riu baixo, balançando a cabeça diante do drama do capitão.

— Talvez porque eu realmente goste de entender as coisas. Diferente de você, que parece só se interessar por futebol, festas, diversão e sexo.

Gabriel sentiu o golpe. A verdade daquela frase ardeu, embora houvesse camadas dele que o campus — e ela — ainda não faziam ideia de que existiam.

— Ei, não é bem assim. Tenho outras preocupações também. Você só não me conhece o bastante para saber disso — rebateu, tentando parecer ofendido, mas deixando escapar um tom mais honesto do que pretendia.

Rafaela o olhou de soslaio, como se avaliasse o que ele acabara de dizer. Mas, em vez de esticar a provocação, apenas indicou as anotações.

— Tá bom. Volta para o capítulo de metabolismo energético.

Gabriel bufou, mas obedeceu. Talvez o metabolismo estivesse começando a fazer sentido. Ou talvez o que realmente o energizasse fosse o desafio de decifrar o código da garota sentada à sua frente.

A explicação foi cortada pela vibração do celular de Rafaela sobre a mesa. Antes que ele pudesse raciocinar, ela capturou o aparelho. Gabriel não conseguiu ler o nome na tela, mas viu algo muito mais revelador: o sorriso que ela abriu. O semblante de Rafaela, antes uma fortaleza de seriedade, derreteu-se em uma suavidade inédita. Nem de longe ele vira aquela expressão antes.

— Continua lendo. Já volto — ela disse, a voz de repente mais leve.

Ela se levantou e caminhou em direção ao corredor dos quartos. Gabriel ficou imóvel, o marca-texto suspenso sobre o gráfico, enquanto o som da voz dela flutuava de volta para a cozinha. Era um tom carinhoso, doce e íntimo, uma frequência sonora que ela jamais usara com ele — e que ele, de repente, percebeu que mataria para ouvir.

— Oi, amor da minha vida. Como você está?

O ar pareceu sumir dos pulmões de Gabriel. Ele ficou encarando o corredor vazio, sentindo o estômago contrair de um jeito violento. Em sua arrogância, cercado pelas risadas de Lucas e Diego ao selar aquela maldita aposta, a possibilidade de que Rafaela pudesse ter alguém nunca tinha cruzado sua mente. Ele achou que ela era apenas uma nerd arredia. Mas ouvir aquele apelido quebrou qualquer resquício de controle que ele julgava ter.

Não era mais sobre os mil reais. Não era sobre manter a pose de capitão ou provar nada para os caras do time. O ego dele evaporou, substituído por um gosto quente e sufocante que subiu por sua garganta: ciúme. Um ciúme doentio e possessivo de um cara que ele sequer sabia o nome. A ideia de outro homem tocando nela, arrancando aquele sorriso e ouvindo aquela voz suave fez Gabriel apertar o marca-texto com tanta força que o plástico estalou em sua mão.

Rafaela terminou a ligação e retornou; o rastro daquele sorriso ainda iluminava seu rosto quando ocupou a cadeira novamente, alheia à tempestade que tinha deixado para trás.

— E aí, terminou de ler? Ficou com alguma dúvida?

Ela o mirou, a expectativa de uma pergunta complexa sobre o ciclo de Krebs pairando entre os dois. Mas o que saiu da boca de Gabriel veio do fundo do peito, cortante e sem disfarces.

— Ficou — ele fechou o livro de anatomia com um estalo seco, sustentando o olhar dela com uma intensidade quase agressiva. — Você tem namorado, Rafaela?

Rafaela piscou, pega de surpresa pela franqueza do questionamento. Notou a rigidez nos ombros dele, a forma como ele apertava o marcador de páginas. Um brilho de compreensão cruzou seus olhos escuros. Ele está achando que a ligação que acabei de receber foi de um namorado.

Um sorriso lento e enigmático começou a brincar nos lábios dela. Ela não negou nem confirmou. Apenas se recostou na cadeira, observando-o como se ele fosse uma cultura de bactérias particularmente interessante sob o microscópio.

— Engraçado, eu não me recordo de nenhum trecho sobre esse assunto no capítulo — rebateu, a voz calma torturante. — Acho que vou ficar te devendo uma resposta para essa sua “dúvida”.

Gabriel respirou profundamente, sentindo o sangue latejar nas têmporas.

— Eu não gosto de perder tempo em território ocupado, Rafaela. Então, se tiver outro cara na jogada, é só falar — retrucou, tentando recuperar a pose de arrogância, mas falhando miseravelmente diante do olhar divertido dela.

— Por quê? — Ela soltou uma risadinha baixa, voltando a abrir o livro e folheando as páginas com uma indiferença deliberada. — Até onde eu sei, a nossa relação é exclusivamente aluno e monitora...

— Só estou curioso. Nunca vi você com ninguém. E… bom, só queria saber se alguém já teve a capacidade de tentar conquistar esse seu coração de pedra — respondeu, tentando camuflar a amargura.

— Acho que você deveria se preocupar mais com a sua prova, que é depois de amanhã, e menos com a minha vida amorosa.

Ele queria exigir o nome do sujeito, saber há quanto tempo estavam juntos, se ele também estudava na UC, mas o orgulho o travou. Ele apenas puxou o manual de volta, embora as palavras no papel tivessem se tornado um borrão completo. A ideia de que outro homem ocupava o lugar que ele nem sabia que queria... aquilo doía mais do que qualquer derrota em campo.

Quarenta minutos depois, Gabriel recolheu seus pertences em um silêncio tenso, cada movimento de fechar o zíper da mochila soando como um estrondo na cozinha pequena. Rafaela o acompanhou até a saída, mantendo a distância prudente de um metro que estabelecera como zona de segurança.

Quando ele parou no batente, o ar abafado do corredor invadiu o ambiente, mas não foi o suficiente para dissipar o clima pesado. Gabriel girou sobre os calcanhares, a mochila pendurada em um ombro só, e a encarou.

— Até amanhã, Rafaela — ele disse, a voz baixa, enquanto os dedos apertavam a alça de lona com força desnecessária, descontando ali a vontade de exigir uma explicação clara.

— Na verdade, amanhã não vai dar — informou, com uma neutralidade que o irritou imensamente. — Tenho um compromisso logo depois de sair da livraria.

— Mas amanhã é quarta, a prova é na quinta — ele rebateu, a voz subindo um tom na tentativa falha de esconder a urgência. — E ainda estou cheio de dúvidas sobre esse ciclo de Krebs dos infernos. Você não pode simplesmente me deixar na mão agora.

Rafaela deu um meio sorriso e encostou-se no portal com os braços cruzados.

— Você não pareceu muito preocupado com os prazos ontem à noite, Duarte — ela pontuou, a voz precisa como uma lâmina. — Estude o capítulo sete e me envie as dúvidas por mensagem. Eu te respondo quando tiver um tempo livre.

Ela começou a empurrar a porta, deixando apenas uma fresta antes do encaixe final.

— Boa noite, Gabriel.

Ele começou a descer os degraus de concreto. Rafaela esperou até ouvir o estalo do portão de ferro lá embaixo antes de fechar a fechadura por completo e soltar o ar. Ela acabara de dar mais um passo no plano de desmonte do capitão. Afinal, para derrubar um gigante, era preciso primeiro tirar o chão sob seus pés.