AMOR EM CAMPO

12 Capítulo 11: Xeque-Mate


Notas iniciais
Nem toda derrota acontece diante de uma torcida. Algumas começam em silêncio... quando o orgulho faz um movimento errado. O capítulo de hoje ficou bem longo, então eu só quero pedir uma coisa... não tenham pressa nem para ler e nem para julgar ninguém. Boa leitura. 🤍♟️

O gramado da universidade parecia queimar sob as travas das chuteiras, mas, para Gabriel, o sábado correu como uma linha reta de foco total. Os Falcões não apenas venceram; eles esmagaram a UniSão-Silvestre em um placar humilhante de 4x0. O meio-campo, comandado pelo camisa 10, operou com uma precisão que deixou o técnico Moura rouco de tanto comemorar na lateral. Cada passe de transição que Gabriel executou cruzou o campo exatamente como os esquemas mentais que ele havia desenhado antes de dormir. O cérebro dele estava limpo, atento, rodando na voltagem certa.

Duas horas depois, a calçada da Cantareira era um mar turbulento de camisas alvinegras. O pós-jogo transbordava a energia típica de uma vitória histórica: caixas de som automotivas tocando funk no último volume, copos cheios de cerveja barata passando de mão em mão e uma multidão de estudantes disputando cada centímetro do asfalto.

Gabriel estava sentado na cadeira de plástico de um dos bares mais cheios, cercado por calouros e veteranos que o parabenizavam aos gritos. Ele sorriu e agradeceu os fortes tapinhas nas costas, mas o gesto era uma demonstração de carisma ensaiado. A mente dele simplesmente recusava-se a estar ali.

Aproveitando o segundo em que o grupo se dispersou para buscar mais uma rodada de chope, ele enfiou a mão no bolso da bermuda e puxou o celular. Ignorando as dezenas de notificações, ele abriu o chat privado dela. Seus dedos digitaram rápido, sem espaço para a razão:

Ganhamos. Os passes de transição funcionaram.

Ele bloqueou a tela antes que pudesse parecer ansioso demais e guardou o aparelho, tentando se concentrar no copo gelado na sua mão. Entretanto, o respiro durou pouco. No segundo seguinte, um braço pesado e tatuado envolveu seu pescoço, arrastando-o para o canto menos movimentado do bar.

Era Diego, com as pupilas dilatadas pelo álcool e um sorriso malicioso cravado no rosto, acompanhado por Lucas, que ostentava uma expressão de deboche idêntica.

— E aí, Capitão? — Diego disparou alto, batendo seu copo contra o de Gabriel, fazendo a espuma transbordar pelos nós dos dedos. — Seu tempo está acabando, hein? Os mil reais já estão quase na minha conta, Biel. A garota ainda te ignora na faculdade e você passa três noites por semana trancado no apartamento dela só cozinhando? O "Efeito Duarte" falhou miseravelmente, irmão.

O peito de Gabriel apertou. A zombaria de Diego fez o sangue subir quente e pulsante pela sua nuca. A vontade que ele sentiu — uma força quase física, visceral e incontrolável — era de socar o balcão, mandar Diego calar a boca e enfiar aqueles malditos mil reais na goela.

Mas os olhos de Lucas estavam gravados nele, farejando qualquer rastro de fraqueza. O orgulho, aquela necessidade de manter a pose diante do time, falou mais alto. Admitir que tinha tido uma conexão verdadeira com a nerdzinha faria dele o maior zé-mané da UC.

Gabriel engoliu o resto do chope de uma vez só, sentindo o líquido gélido descer pela garganta. Ele forçou aquela risada fria, que usava desde o primeiro ano ali para desfazer qualquer ameaça à sua reputação.

— Vocês são muito ansiosos, puta que pariu — Gabriel escureceu os olhos, a voz saindo perfeitamente cínica. — Você e o Dan tinham razão, Dieguinho. A Rafaela não cai com o mesmo papinho furado que as marias-chuteiras que a gente pega depois dos jogos? Então eu mudei de tática. Já entrei no apartamento dela, já fiz ela me chamar pelo meu apelido. Ela está achando que eu sou o cara mais sensível do mundo. Só estou esperando o momento certo para dar o xeque-mate e embolsar o meu dinheiro. Se acalmem.

Lucas soltou uma gargalhada alta, batendo a mão no balcão de madeira, impressionado.

— Caralho, você é doentio, Duarte! — O rapaz balançou a cabeça, dando um aperto forte no ombro de Gabriel. — O cara usa até o lado sentimental. Justo, jogo é jogo. Paguem o homem!

Os dois se afastaram, mergulhando de volta no meio da massa, gritando para o resto do time que o capitão ainda era o dono da porra toda.

No mesmo instante, o celular vibrou dentro do bolso dele, um pulso duplo e insistente contra a sua coxa.

Gabriel pescou o aparelho com os dedos que, de repente, estavam trêmulos. A tela acendeu na escuridão do canto do bar, mostrando a notificação do chat dela.

Rafaela:Parabéns, Biel. Eu sabia que o seu córtex motor ia dar conta do recado. Vejo você na segunda.

Gabriel engoliu em seco, o ar travando nos pulmões enquanto olhava para a palavra "Biel" brilhando no visor de vidro. Caralho, eu acabei de mentir para os meus amigos sobre ela para manter minha pose? Eu estou virando um palhaço na mão dela. O pensamento atravessou Gabriel como uma flecha.

O riso dos Falcões continuava alto ao seu redor, a música continuava tocando, e o jogo dele continuava de pé para o campus. Mas, olhando para aquela tela, Gabriel soube, com uma clareza apavorante, que ele estava perdendo o controle de tudo. E isso o deixava aterrorizado.

⚽️📖⚽️

O domingo começou tarde e com a pior ressaca possível: aquela que não é causada pelo excesso de álcool, mas sim pelo peso esmagador da culpa. O sol forte do meio-dia cortava as frestas da cortina blecaute, desenhando linhas de luz no teto do quarto de Gabriel.

Ele estava deitado de costas, com o braço jogado sobre os olhos, mas a mente rodava em uma velocidade insuportável. Ao lado do travesseiro, a tela do celular acendia a cada poucos minutos com notificações dos grupos, mensagens de garotas querendo vê-lo e marcações do jogo do dia anterior. Gabriel ignorou todas. A única coisa que ele manteve aberta pelas últimas quatro horas foi a mensagem de Rafaela.

“Parabéns, Biel. Eu sabia que o seu córtex motor ia dar conta do recado. Vejo você na segunda.”

Aquilo o estava enlouquecendo. Ele era o cara que sempre usara as pessoas no campus como peças descartáveis em um tabuleiro de conveniências, agora se pegava relendo dezoito palavras de uma monitora como se fossem o título mais valioso da sua carreira.

Foi quando o interruptor de emergência do seu ego ligou.

Gabriel sentou-se na cama de uma vez, os pés tocando no piso frio de madeira enquanto o suor da insegurança escorria por sua espinha. Ele olhou para o próprio reflexo no espelho do guarda-roupa embutido e sentiu uma raiva súbita de si mesmo.

“Que porra eu estou fazendo?”, ele pensou, o maxilar travando com força. “Eu não fico caidinho por garota nenhuma, muito menos por uma que eu tenho que provar para os meus amigos que consigo comer. Eu estou deixando ela entrar na minha cabeça. Estou virando a porra de um projeto de caridade.”

Ele passou o resto do domingo se forçando a passar por uma lavagem cerebral deliberada. Caminhou pela cobertura, tomou um banho demorado, trocou mensagens com algumas mulheres aleatórias e tentou se convencer de que as noites no apartamento de Rafaela tinham sido apenas um delírio coletivo. Um momento de fragilidade causado pelo cansaço dos treinos, pressão pelo jogo e pelo desespero de ser reprovado pelo Santana. Só isso.

Ele não era o "Biel" que levava café, dava caronas, fazia jantares e se importava com a mecânica da patela de ninguém. Ele era o dono do jogo.

Na segunda-feira de manhã, ele cruzaria o portão da UC, fingiria que a Rafaela não o afetava, manteria a distância calculada e, assim que a prova passasse, terminaria o serviço com ela, pegaria o dinheiro da aposta com o Diego e devolveria sua vida ao equilíbrio perfeito e superficial de antes.

Pelo menos, era isso o que repetia para si mesmo enquanto se vestia na manhã de segunda, tentando ignorar o fato de que suas mãos estavam absurdamente frias e seu coração, acelerado.

A farsa, no entanto, exigia público. Naquela manhã, o ar da universidade parecia espesso. Gabriel caminhava com os ombros tensos, ladeado por Diego, Daniel, Lucas e Vinícius, que combinavam os últimos detalhes para o aniversário do camisa 4, marcado para mais tarde na boate Mito. Gabriel mantinha o queixo elevado e o sorriso ensaiado. A fachada estava intacta.

— Olha lá, Gabe, seu fã-clube das nutres já está apostado no corredor — Lucas debochou, indicando com a cabeça o grupo da Nutrição perto dos bebedouros.

No centro delas estava Brunna. No segundo em que seus olhos cruzaram com os de Gabriel, a postura da garota mudou. Havia uma hesitação nítida nela, um medo sutil de levar outro corte público idêntico ao da semana passada. Ela se separou das amigas devagar e caminhou na direção deles.

Por dentro, Gabriel queria mandar Brunna sumir dali antes que o nome de Rafaela saísse de novo da boca dela. Mas, pressionado pelos olhares atentos dos amigos, ele assumiu o comando. Precisava provar que Brunna — e qualquer outra garota — era irrelevante. Que ele mandava no jogo.

— Duarte... — Brunna começou, a voz em um tom mais baixo que o normal, parando a um passo dele. — A gente pode conversar? Sem surto hoje?

Gabriel parou, enterrando as mãos nos bolsos da calça, adotando aquela postura condescendente de quem faz um favor apenas por existir.

— Depende do que você tem para falar, Brunna — respondeu, a voz perfeitamente modulada no tom de cafajeste que o vestiário idolatrava. Lucas soltou um risinho abafado atrás dele, e Gabriel sentiu seu ego ser alimentado pela aprovação imediata do grupo. Era o combustível que precisava para ir até o fim.

Brunna, percebendo que o clima não era de hostilidade, avançou. O perfume doce dela invadiu o espaço, e seus dedos tocaram de leve o braço de Gabriel.

— Eu só acho que a gente passou do ponto na semana passada. Você sabe como eu sou... só fico de cabeça quente porque me importo com você. Com a gente — ela proferiu, os olhos buscando os dele, implorando pela validação pública que ele havia tirado dela. — Aquela fofoca de corredor... é tudo palhaçada do povo, eu não acreditei em nenhuma palavra. Você sabe disso, né?

Gabriel fitou a mão dela em seu braço. A lógica de Rafaela sobre como as engrenagens da faculdade funcionavam ecoou na sua mente: “Se o capitão vai a público defender a monitora, vira a confirmação de que tem algo rolando.”

Para enterrar os boatos e provar que continuava no comando, ele tomou a decisão mais estúpida da sua vida. Em vez de se afastar, deu um passo à frente.

— Eu sei disso — disse, a voz alta o suficiente para quem estivesse no corredor ouvir. Ele forçou um sorriso de canto e ergueu a mão esquerda, usando os dedos para puxá-la pela cintura, colando o corpo dela ao seu em um gesto de posse puramente performático. — Você fala demais, esse é o seu problema. Mas sabe que eu não consigo ficar bravo com você por muito tempo.

Brunna soltou um suspiro audível de surpresa, os olhos brilhando ao receber exatamente o que queria. Ela imediatamente passou os braços pelo pescoço dele, jogando a cabeça para trás e rindo de alguma bobagem que Lucas gritou. Gabriel manteve a encenação, espalmando a mão no quadril dela, sustentando a postura de quem tinha o domínio absoluto de tudo ali.

Ele estava prestes a soltar mais uma piada para os amigos quando o ar congelou nos seus pulmões.

A três metros de distância, parada perto da porta do laboratório, estava Rafaela.

Ela segurava uma pasta de plástico azul contra o peito. O cabelo castanho estava preso no habitual rabo de cavalo, e seus olhos... estavam presos nele.

Não havia fúria no olhar dela, nem o fogo ou a cumplicidade da noite em que jantaram juntos. Havia apenas uma constatação fria e certeira, como se ela estivesse analisando uma cultura de bactérias mortas sob a lâmina do microscópio. Ela olhou para a mão de Gabriel no quadril de Brunna, depois para o rosto dele, registrando a farsa por inteiro.

Rafaela deu um passo calmo para o lado, desviando do grupo como se desviasse de uma poça de água suja, e empurrou a porta do bloco, sumindo de vista.

O mundo ao redor de Gabriel desabou em um silêncio ensurdecedor. O sorriso cafajeste morreu na sua boca, deixando um gosto acre de arrependimento.

— Cacete, mano, tu viu quem estava assistindo ao show? — Diego riu, apontando para a porta. — A sua nerdzinha. Acho que você estragou o clima de romance.

Gabriel não respondeu. Ele afastou Brunna com uma rispidez que assustou a garota, seus dedos fechando-se em punhos tão apertados que as unhas cravaram na palma da mão.

— E daí, Diego? Nunca prometi exclusividade para ninguém — declarou, a voz saindo oca, antes de sair pisando duro em direção à atlética.

Aquela imagem do olhar de Rafaela, porém, recusou-se a abandoná-lo.

Rafaela passou a tarde com o estômago igualmente revirado, sentindo uma raiva cortante de si mesma. O sorriso cínico de Gabriel, a posse com que segurou a cintura de Brunna e o desdém escancarado dos amigos dele não saíam da sua cabeça.

Ela se sentia uma completa idiota por ter baixado a guarda, por ter acreditado, mesmo que por um segundo, no vislumbre de vulnerabilidade que ele vinha encenando na sua cozinha.

No fim do expediente, a ansiedade que a dominava não era de expectativa, mas de puro confronto. Ela havia preparado um roteiro de estudos sobre o Sistema Nervoso Autônomo com uma frieza calculada. Se o Capitão achava que usaria sua ficante, ou seja lá o que ela fosse, para humilhá-la e depois manteria a pose de aluno esforçado no apartamento dela, estava terrivelmente enganado. Não haveria espaço para o "Biel", que se importava com joelho machucado e fazia macarrão, porque aquele cara simplesmente nunca existiu.

Gabriel chegou dez minutos atrasado; ele desceu do carro falando alto ao telefone, a voz reverberando pela rua silenciosa.

— ...eu já disse, Diego! — Ele soltou uma piscadela para a vitrine da livraria ao ver Rafaela saindo pela porta. — Em duas horas eu colo aí. Relaxa, confirma o camarote, que o pai vai chegar pesado hoje.

Rafaela sentiu o asco subir pela garganta no mesmo instante. O contraste era violento. Onde estava o homem que parecia se importar com o mundo real há menos de setenta e duas horas? Sumira sob a casca da aprovação dos amigos.

— Vamos logo, Duarte — ela disse assim que ele desligou, a voz seca e cortante como vidro. — Não tenho a noite toda para perder com o seu cronograma de balada.

Já dentro do apartamento, Gabriel abriu o caderno, mas seu pensamento parecia estar a quilômetros dali. Ele batia o pé no chão ritmadamente, exalando uma pressa irritante.

— Você entendeu o que eu acabei de te explicar sobre os receptores adrenérgicos? — Rafaela perguntou, cruzando os braços.

— Sim — ele disse, de pronto, exibindo aquele sorriso ensaiado e simétrico que ela tanto odiava.

— Consegue me explicar com as suas palavras?

Gabriel paralisou. Os olhos escuros piscaram. Ele não havia prestado atenção em uma única palavra; sua mente estava na contagem regressiva para a comemoração na Mito.

— Escuta, Rafa — ele se inclinou para frente, a cadeira de vime rangendo sob o seu peso. — Eu treinei seis horas hoje sob um sol de trinta e cinco graus. Meu corpo dói, minha cabeça está no aniversário do Vini, e eu ainda tenho que ler trinta páginas de Fisiologia? Facilitar a minha vida com as respostas que o Santana vai pedir na prova não é trapacear, é otimizar o tempo. Você se livra de mim mais cedo e pode ir comer o seu miojo e dormir seu soninho de princesa, e eu consigo chegar a tempo de curtir minha festa. Ou…

Gabriel esticou a mão direita, permitindo que a ponta dos dedos roçasse o braço de Rafaela, o sorriso predador tomando suas feições.

— Sabe, eu senti que rolou um clima entre a gente na semana passada. Por que você não vem comigo? Vai ser divertido e, quem sabe, no final da noite a gente não pega um motelzinho…

O som estalado e seco da palma da mão de Rafaela, acertando em cheio o rosto presunçoso de Gabriel, cortou o ar, ecoando com violência pela quietude do apartamento.

O impacto jogou a cabeça do capitão para o lado e por um minuto, o ar da cozinha pareceu sumir.

— Eu quero que você saia — ela disse, apontando o indicador em direção à porta da sala. — Agora. Pega esse seu sorriso de quem se acha o dono do mundo e some daqui. Não tem monitoria, não tem bolsa e não tem porra de prova nenhuma que me faça aguentar você por mais um minuto.

Gabriel levantou-se abruptamente. A mão que segundos atrás a tocava subiu direto para o rosto, os dedos espalmados contra a pele que ardia e avermelhava onde Rafaela o havia acertado.

— Você é muito mais orgulhosa do que inteligente, Rafaela — ele cuspiu, os dentes cravados no lábio inferior, tentando desesperadamente manter a postura de quem ainda saía por cima.

— E você é muito mais pobre de espírito do que eu imaginava, Gabriel — ela rebateu na mesma moeda, sustentando o olhar, embora os olhos estivessem marejados de raiva. — Porque tudo o que você tem é feito de aparências. A beleza, o glamour do futebol, o carro caro que o seu pai comprou.

— Não mete o meu pai nisso — ele rosnou, a voz subindo de tom. — Eu estou tentando simplificar a sua vida, porra! Você estuda até cair, trabalha em pé o dia todo e sei que detesta passar tempo comigo. Por que não me dá logo as respostas? Pode se livrar de mim de uma vez!

— Então era esse o seu jogo? Ganhar a minha simpatia para eu te dar as respostas? — Rafaela soltou uma risada amarga, o nojo transbordando em suas feições. — Pois eu espero que você se ferre bonito na prova do Santana, porque isso aqui… — ela bateu com a palma em cima dos livros grossos. — Você nunca vai ter, porque exige dedicação. E caráter. Sai da minha casa!

Gabriel desferiu um puxão brusco na alça da mochila, jogando-a sobre o ombro, e cruzou a porta da sala sem olhar para trás.

Enquanto descia as escadas do prédio, o som da porta batendo com força atrás de si ainda ecoava em seus ouvidos como um tiro de revólver. Ele parou no segundo lance de degraus, onde a lâmpada queimada o deixava imerso na escuridão do corredor mal iluminado.

A adrenalina da briga ainda fervia nas suas veias, mas, conforme o silêncio do patamar se instalava, um frio súbito e violento atingiu o fundo do seu ser.

A boate, o camarote, tudo parecia ter perdido o sentido agora. Sem as aulas de Rafaela, ele perderia a única coisa que realmente era sua: o futebol.

Porém, conforme a respiração dele ia voltando ao normal no escuro, o pânico profissional deu lugar a um peso muito mais sombrio e sufocante.

Gabriel levou os dedos de volta à bochecha esquerda. A pele ainda latejava, mas a imagem de Rafaela com os olhos marejados atrás daquela mesa doeu duas vezes mais. Ele tinha quebrado a confiança dela no momento exato em que ela começava a baixar a guarda.

O celular no bolso da calça vibrou. Mais uma mensagem do Diego: “Onde tu tá, porra? Os combos já chegaram. O camarote está lotado de mina gostosa, só falta o capitão.”

Gabriel puxou o aparelho, olhou para o visor.

— Quer saber onde eu estou, Diego? — sussurrou para o nada, a voz sufocante pelo arrependimento real que subia por sua garganta. — Eu tô completamente na merda.

⚽️📖⚽️

O som grave do subwoofer da boate fazia o peito de Gabriel vibrar sob a camisa polo. Ele permanecia imóvel no centro do camarote, sustentando um copo de vodca na mão e o braço apoiado com desleixo no ombro de uma garota cujo nome já havia esquecido.

— E aí, garanhão! — Lucas surgiu entre a fumaça de gelo seco, rindo com aquela autoconfiança que, de repente, irritou Gabriel. — Conseguiu fazer a "estudiosa" te dar uma aula extra de anatomia prática ou não?

Os atletas ao redor soltaram gargalhadas altas, aguardando a bravata habitual. Gabriel forçou um sorriso de canto, mas as palavras de Rafaela — pobre de espírito, sem caráter, sem dedicação — pareciam escritas em neon nas paredes escuras da Mito.

— A aula foi... produtiva.

Principalmente na parte em que ela enfiou a mão na minha cara, pensou Gabriel, passando a língua pela parte interna da bochecha.

— Produtiva quanto? — Diego se inclinou em sua direção, baixando o tom de voz para blindar a conversa do resto do grupo. — Já conseguiu o que a gente combinou? O tempo está correndo, Biel.

Gabriel fitou o líquido transparente no fundo do copo. Teve a tentação de chutar o balde ali mesmo. Poderia confessar que havia sido expulso a tapas do apartamento dela, admitir que ela o leu como se fosse um livro aberto e o achou um merda medíocre. Mas o orgulho, aquele mesmo que o fizera agir feito um animal na cozinha dela, travou sua garganta.

— Tá no papo, Diego. Ela é difícil, mas ninguém resiste por muito tempo — mentiu, virando o resto da bebida de uma vez só, sentindo a queimação descer rasgando. — Vou pegar outra dose.

Procurando uma rota de fuga daquela cobrança, ele avistou Daniel do outro lado do camarote, conversando com uma garota loira do curso de Design. Ela tentava ficar com ele desde o início do período, mas o zagueiro, ao contrário do resto do time, não curtia casinhos de uma noite; era do tipo que namorava sério, com direito a DR e toda aquela carga sentimental da qual os outros rapazes fugiam. Gabriel caminhou na direção deles, interceptando o olhar de socorro que o amigo disparou.

— Licença, minha linda. Mas preciso roubar o zagueirão aqui por um segundo. Assunto de vida ou morte, sabe como é, né? — Gabriel interrompeu, usando aquele tom que não dava margem para discussão.

A garota bufou de leve, mas forçou um sorriso e se afastou em direção à pista. Daniel soltou um suspiro longo, relaxando os ombros, e bateu seu copo contra o de Gabriel. Eles não se falavam direito desde o embate tenso que tiveram na cozinha da cobertura, logo após a primeira aula de Gabriel com Rafaela.

— Valeu, cara. Na moral, eu já não aguentava mais ela me explicando a psicologia por trás das novas cores da logo da faculdade — Daniel riu, mas o sorriso sumiu no segundo em que ele olhou mais de perto para Gabriel. Sob a luz azul do camarote, a expressão do camisa 10 estava bizarra. — E você? Que cara é essa? Aniversário do Vini, o Moura nos liberou do treino de amanhã cedo. O camarote está lotado de mulher bonita, mas você parece que está num velório.

Gabriel não respondeu de imediato. Ele se escorou no guarda-corpo de vidro do camarote, olhando o mar de cabeças pulando na pista lá embaixo.

— O que você faria se tivesse feito uma cagada muito grande, Daniel? — Gabriel perguntou, a voz saindo baixa, quase engolida pelo remix do DJ.

Daniel franziu o cenho, surpreso com o tom confessional. Ao contrário de Diego e Lucas, que viam a faculdade como um playground sem leis, Daniel era o ponto de equilíbrio do time. Tinha a cabeça no lugar, jogava limpo e não passava pano para as idiotices dos amigos.

— Depende da merda, Biel. Se for em campo, a gente conversa com o Moura, se mata no treino da semana. Se for fora... bem... — Daniel arregalou os olhos, estudando a expressão evidente no rosto de Gabriel e prevendo o pior. — Meu Deus, você não se meteu em confusão com a reitoria por causa do trote ou vandalismo no campus, né? O reitor está só esperando um deslize para tirar sua bolsa de vez.

Gabriel soltou um riso amargo, passando os dedos de leve pelo maxilar esquerdo.

— Não, porra. É... é a Rafaela. Acho que estraguei tudo com ela.

— Não. Nem vem — Daniel endireitou o corpo na hora, a fisionomia ficando rígida. — Nem começa. Eu te avisei que não era para vir me pedir conselho quando a água batesse na sua bunda, não avisei? Você não é o fodão da UC? O cara que tem o controle de tudo? Se vira.

— Pô, Dan, foi mal! Você estava certo, tá bom? Eu vacilei feio — Gabriel pediu, segurando o braço do amigo antes que ele desse as costas. — Me ajuda, porra! Além do mais, você me deve uma por eu ter te livrado da loira com hiperfoco em cores.

O zagueiro soltou o ar pelo nariz, balançando a cabeça diante do argumento chulo, mas inegavelmente eficiente. Ele olhou de relance para a pista, onde a estudante de Design já puxava outra pessoa para dançar, e voltou a encarar o capitão. A irritação que guardava desde o racha na cobertura vacilou por um segundo quando percebeu o desespero genuíno nos olhos escuros de Gabriel.

— Tá — cedeu, a voz firme, erguendo um único dedo. — Desembucha qual foi a burrada que você fez antes que eu decida te largar sozinho com o seu ego.

Gabriel engoliu em seco, passando a mão pelo cabelo de forma nervosa. Mentir para o Diego, minutos atrás, tinha sido fácil — o amigo podia conhecê-lo desde a infância, mas preferia rir e ser conivente com o lado "cafajeste" de Gabriel a encarar os fatos. Mas abrir o jogo com Daniel, o único cara que sempre se recusou a aplaudir suas idiotices, era como tirar a armadura sob um sol de trinta e cinco graus.

— Fui um completo babaca com ela hoje. Tudo porque passei o final de semana surtando. Percebi que ando pensando demais nela, tá ligado? Relendo mensagens, me abrindo sobre parada de família, preocupado se ela comeu, se descansou... Sinto que estou perdendo as rédeas, que estou ficando mole. Eu quis provar para mim mesmo que ainda mandava no jogo e chutei o tabuleiro — admitir aquilo fez sua voz descer para um sussurro ríspido, sufocado pelo estalo dos alto-falantes.

Daniel continuou de braços cruzados, a postura impenetrável.

— Ah, então foi por isso aquela cena toda com a Brunna hoje mais cedo. Entendi. E, além daquilo, o que mais o grande Gabriel Duarte fez para retomar o controle? — perguntou, a voz tomada de um sarcasmo pesado.

— Eu cheguei no apê dela pisando duro. Fui arrogante, pedi que ela me desse as respostas da prova do Santana para eu poder vir para cá mais cedo e, para piorar... propus que ela viesse comigo e depois… — Gabriel soltou o ar de uma vez. — Sugeri que a gente fosse para um motel. E ela me deu um tapa na cara.

Daniel processou a informação por dois segundos inteiros e então soltou uma risada longa, sem um pingo de compaixão.

— Pois eu acho que ela fez foi pouco, meu querido. Eu teria te dado logo dois para ver se seu cérebro pega no tranco.

— Porra, cara, estou falando sério! — Gabriel resmungou, sentindo a bochecha esquerda arder novamente só com a lembrança.

— Eu também estou falando sério! Você queria o quê? — Daniel se inclinou para frente, a postura imponente bloqueando qualquer tentativa do amigo de se fazer de vítima. — Aquela menina é uma batalhadora, cara. Aceitou te dar aulas depois do expediente dela, mesmo sabendo o otário que você é, e você vai lá e faz uma proposta dessas? Isso é coisa de juvenil, Duarte. Você foi um tremendo de um moleque.

As palavras de Daniel entraram rasgando, sem anestesia, exatamente como a consciência de Gabriel vinha fazendo desde que ele havia descido aquelas escadas no escuro.

— Eu sei! — ele desabafou, a frustração transbordando. — Ela me botou para fora. Cancelou a monitoria, Dan. Sem a ajuda dela, eu rodo. Minha vida vai pro ralo.

O zagueiro observou o peito de Gabriel subir e descer pesado sob a roupa. O ponto de equilíbrio dos Falcões suspirou, deixando os braços caírem ao lado do corpo, a rigidez sumindo para dar lugar à seriedade de um irmão mais velho.

— Sabe qual é o seu verdadeiro problema, Gabriel? Não é o Santana, não é o Moura e muito menos os mil reais daquela aposta estúpida. É que você está com um medo filho da puta de admitir que a nerdzinha te laçou. Você está apavorado porque, pela primeira vez na porra da sua vida, encontrou alguém com a opinião com a qual você se importa pra valer. Alguém que te enxerga de verdade e não dá a mínima para a sua pose de capitão.

O som da boate pareceu emudecer por um milésimo de segundo, engolido pelo zumbido tenso que subiu por seus ouvidos.

Laçado. A palavra ecoou, pesada, quase violenta.

Não era possível. Daniel estava exagerando. Gabriel tentou, em um reflexo desesperado de autodefesa, reduzir o que sentia.

— Não exagera. Não fui laçado por ninguém, Daniel — Gabriel negou. — Acho… que é só uma atração das grandes, entende?

Ele pensou na fachada de inteligência inatingível de Rafaela, no jeito como ela fingia não ligar para aparências, no fato inegável de que ela era linda de um jeito que o perturbava, e na sua recém-descoberta e ridícula predileção por mulheres que o tratavam feito um completo idiota. Mas ser enlaçado? Aquilo era inacreditável, inconcebível... inadmissível.

— E eu acho que você está tentando driblar um fato que já cruzou a linha do gol, meu amigo — Daniel disse, balançando a cabeça. — Se fosse só atração, você já teria partido para outra no segundo em que pisou nessa boate. Olha em volta. O camarote está cheio de "atração". Mas você está aqui no canto, com a cara amarrada, se remoendo por causa de uma única garota. Continua contando essa mentira para si mesmo; quem sabe o seu cérebro não acredite até o fim da festa?

Gabriel encarou o amigo por longos segundos. Ele quis rebater. Procurou na mente uma daquelas respostas prontas e afiadas, mas a verdade cruel jogada por Daniel tinha estourado seus bloqueios.

Ele olhou de relance pelo camarote. Duas garotas do curso de estética sorriram na direção dele, sugerindo com os olhos um convite que, em qualquer outro dia da sua vida, ele aceitaria sem piscar. Mas olhar para elas agora causava a mesma apatia de assistir a um VT de um jogo antigo. Não dava emoção. Não tinha o cheiro de lavanda suave, nem gosto intenso do café, o som do rabo de cavalo balançando quando ela virava a cabeça com pressa, ou o impacto daquela inteligência que o reduzia a quase nada.

Vendo que o silêncio estava entregando o jogo, Gabriel soltou um riso forçado, enquanto apoiava os dois braços no guarda-corpo de vidro.

— Você é um tremendo de um desgraçado, sabia? — Gabriel murmurou, a voz saindo áspera, despida de qualquer marra. — Não tem linha de gol nenhuma, Daniel. O jogo foi cancelado. Ela me botou para fora, caralho. Mandou eu enfiar a monitoria e a porra do motel no rabo.

Ele virou o rosto para encarar o zagueiro de frente, os olhos escuros brilhando com uma frustração que ele não conseguia mais maquiar.

— Eu não estou aqui no canto contando mentira para o meu cérebro. Estou tentando entender como eu conserto a merda que eu fiz. Porque, se ela não olhar mais na minha cara amanhã... eu estou fodido. Em todos os sentidos possíveis. Como eu peço desculpas para uma garota que me lê como se eu fosse uma lâmina de microscópio, Dan? O que eu digo para ela?

Daniel colocou a mão no ombro de Gabriel, apertando com força.

— Você tem duas escolhas agora, Gabriel. Ou você continua agindo feito um babaca para agradar a plateia e manter essa pose de dono do mundo, enquanto o seu futuro vai para o lixo... Ou você engole esse seu orgulho de merda, descobre um jeito de pedir desculpas de verdade e mostra para a Rafaela que, no fundo, bem lá no fundo mesmo, quase chegando na camada de pré-sal, você tem caráter.

— Porra, cara, valeu pelo apoio — Gabriel resmungou, virando o rosto.

Ele olhou para trás. Viu Diego se pegando intensamente com duas garotas no sofá do camarote, enquanto Lucas virava mais uma dose de tequila pura, gritando e gesticulando com o resto do time. Três semanas atrás, aquela futilidade barulhenta era tudo o que Gabriel queria. Agora, tudo parecia um gigantesco e absoluto vazio. Ele ajustou a jaqueta e girou nos calcanhares, avançando com firmeza em direção à saída do camarote, deixando as palavras do amigo suspensas no ar.

Daniel, pego de surpresa pelo movimento abrupto, deu dois passos rápidos e o bloqueou antes que ele passasse pela cortina preta, arqueando a sobrancelha.

— Onde você vai? A noite mal começou.

Gabriel deu um riso curto, mas não havia deboche nele. Era pura resignação.

— Já deu para mim, Dan. Vou para casa. Tenho a porra de uns exercícios sobre Sistema Nervoso Autônomo para fazer e um plano muito complexo para elaborar.

Daniel franziu o cenho, surpreso.

— Plano para quê?

— Para descobrir como reconquistar a confiança de uma certa nerdzinha — Gabriel respondeu, o tom de voz caindo para algo sério, quase determinado. — E, se o seu palpite estiver certo, tentar achar aquele tal caráter que você disse que eu tenho escondido no pré-sal.

Daniel fitou o amigo por alguns segundos, percebendo a transformação repentina, até que um sorriso sutil, mas respeitoso, apareceu em seu rosto. Ele bateu levemente no ombro de Gabriel duas vezes.

— Boa sorte, Duarte. Você vai precisar.

Enquanto a música bombava na boate, o silêncio no apartamento de Rafaela parecia pesar toneladas. Quando Letícia entrou na sala, encontrou a amiga sentada direto no chão, com as costas apoiadas no sofá e os olhos fixos na mesa vazia da cozinha. Letícia tirou os sapatos, jogando-os ao lado da porta, e caminhou até ela.

— Pela sua cara, a aula de hoje não terminou em massagem, muito menos em jantarzinho.

Rafaela bufou, enterrando o rosto nas mãos.

— Aquele cara deve ser bipolar ou algo do tipo, porque só isso explica o que aconteceu aqui hoje, Lelê. Ele tentou me subornar com sexo pelas respostas da prova do Santana, agiu como se eu fosse um obstáculo entre ele e uma noitada com os amigos e... eu perdi a linha. Dei um tapa na cara dele.

Letícia não pareceu chocada. Pelo contrário, um sorriso lento e astuto começou a brotar em seus lábios enquanto ela se acomodava no chão, ao lado da amiga.

— Rafa, isso é melhor do que você imagina — disse, o tom de voz ganhando uma confiança vibrante.

— Como assim? — Rafaela levantou a cabeça, franzindo a testa. — Eu literalmente bati no cara, Letícia. Falhei no plano.

— Você não falhou, você deu o xeque-mate — corrigiu a amiga, gesticulando. — O Gabriel é um babaca, sim, mas se tem algo que ele preza mais que o próprio ego, é o futebol. Hoje já é segunda-feira à noite. A prova é na quinta; os Falcões jogam no sábado, o que significa que ele terá treinos em tempo integral e pouquíssimo tempo para estudar sozinho. Sem você, ele está morto.

Rafaela piscou, começando a processar a engrenagem lógica da amiga.

— Ele vai vir atrás de você implorando, Rafaela. Escreve o que eu estou dizendo — continuou Letícia, os olhos brilhando. — Ele vai perceber que não tem para onde correr. E agora é a sua vez de usar todo o seu charme... e, por charme, eu quero dizer essa sua frieza intelectual que deixa ele maluco.

— Eu não tenho charme, Letícia. Eu tenho é uma vontade enorme de bater nele de novo.

— Exato! — Letícia riu, dando um tapinha no ombro dela. — Esse é o seu charme. Deixa ele rastejar um pouco. Quando ele voltar — e ele vai voltar —, não virá como o Capitão. Virá como um náufrago, e é aí que a gente termina de desmontar o que sobrou daquela marra.

Rafaela olhou para a porta de entrada, a imagem de Gabriel saindo com os ombros tensos e o rosto marcado voltando à sua mente. Agora, o nó no seu estômago não era de culpa ou arrependimento, mas de pura antecipação. O tabuleiro tinha mudado. O jogo estava de volta nas mãos dela.



Notas finais
Será que o DJ da Mito tocou aquela do Henrique & Juliano? "A briga foi feia, teve tapa na cara..." Aliás, Henrique & Juliano, se vocês estiverem lendo isso... acho que vocês precisam atualizar o refrão: 🎶 "A briga foi feia, teve tapa na cara... teve monitoria cancelada, um certo camisa 10 completamente desnorteado e um Daniel distribuindo terapia gratuita na boate." 🤭 Agora eu quero saber: 🤍 Vocês acham que o Gabriel já perdeu essa partida? 🤍 A Rafa pegou pesado com o tapa? Ou, como o Daniel disse... deveria ter dado dois? 👀 🤍 O que doeu mais: a mão da Rafaela... ou as verdades do Daniel? Leio vocês nos comentários. ♟️❤️