AMALDIÇOADOS!
5 Mistérios e revelações...
Notas iniciais
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Saga não soube se era a noite ou o clima misterioso do Egito, porém ao vislumbrar aquela arquitetura feita de pedra com aspecto pesado e intimidador, cercada por palmeiras e vegetação cerrada, teve um mau pressentimento...
– Onde está meu irmão? – perguntou ele com o cenho franzido para o guia.
– Seu irmão está em uma das tendas armadas além da câmara.
– E o que é isso? – perguntou ele olhando em volta.
– O lar de um nobre egípcio.
– Mas, parece uma tumba.
– E é. Nós a chamamos de Mastaba. Nossa tradição une vida e morte como um todo. Nosso verdadeiro lar é o nosso túmulo. – disse o guia com um tom orgulhoso.
Sem vontade de iniciar uma discussão filosófica, Saga ficou calado e continuou andando. Uma lua cheia avermelhada compunha um cenário inquietante e as sombras pareciam adquirir vida, ali. Um grunhido animalesco fez tanto Saga, quanto o guia estancar.
– O que foi isso? – perguntou o grego.
Um suspiro resignado escapou da boca de Jamil.
– Achei melhor não lhe contar, mas... O seu irmão, ele...
– O que aconteceu com o meu irmão? – Saga quase gritou ao encarar o guia.
– Ele está doente.
– Doente?
– Sim, desde que voltou das tumbas no vale dos Reis, ele está... digamos...diferente.
– Diferente como? Do que o senhor está falando?
– O senhor verá.
Saga entrou na tenda e o cansaço pareceu evanescer sob a luz bruxuleante dos archotes. Ele entreabriu os lábios com surpresa e terror. Kanon estava acamado bem no centro dela. Um turíbulo deixava escapar um incenso em espirais lentas, deixando ambiente quente e pesado.
Fortes correntes prendiam o gêmeo mais novo à cama e ele estava abatido, as olheiras profundas e arroxeadas se sobressaiam no belo rosto.
Kanon parecia dormir, mas assim que Saga se aproximou, ele abriu os olhos.
– Você veio... – disse ele com uma voz enrouquecida e baixa.
– Sim, irmão... Eu estou aqui. O que significa isso? – falou Saga tocando a face pálida.
Kanon sorriu e o coração de Saga apertou dentro do peito. Aquele não parecia o seu irmão cheio de vida, imponente e audaz. A imagem forte de vulnerabilidade o fez sentir um horror intenso.
– Estou... quase morto, mas... não queria... eu não partiria sem...ver você.
– Não diga isso! Eu vim para levá-lo daqui. Por que está acorrentado?
– Você não... entende... Ela... não vai deixar...
– Ela? Ela quem?
As correntes tilintaram e a fumaça do incenso espiralou de forma estranha dentro da tenda. Um vento vindo do nada balançou os objetos, como se um redemoinho iniciasse entre os dois.
– O-O que está acontecendo? – exclamou Saga.
A tenda estremeceu e Kanon se transformou. O rosto crispado como se a pele fosse uma máscara sendo moldada por mãos invisíveis e pronta para uma transformação radical e grotesca. Suas mãos esticaram as correntes e ele gritou:
Eu quero o que é meu! Devolva-me!
A voz era feminina, embora um tanto grave, como se houvesse algo impedindo as cordas vocais de produzir som.
Saga arregalou os olhos. As sombras ora, somente projetadas, agora pareciam adquirir vida, como se a morte decidisse fazer uma algazarra antes de arrastar todo mundo para os subterrâneos lúgubres e inexplicáveis daquele lugar.
– Kanon!
Devolva-me... Eu posso perder tudo, menos o que ele me deu!
– Kanon! Deus, o que significa isso?
Os deuses me concederam esta benção... Eu preciso que me devolvam!
Os cabelos longos de Saga dançaram ao vento sobrenatural e ele sentiu um puxão no braço. Jamil entrara na tenda e agora tentava tirá-lo de perto do irmão.
– Largue-me! – gritou o gêmeo mais velho.
– Tem que sair senhor! –disse o guia.
Saga resistia e quanto mais o fazia, mais Kanon puxava as correntes, os pulsos sangrando com o esforço.
Em um último ato, o guia conseguiu retirar Saga e, assim como começou, a cena macabra terminou. O vento extinguiu-se, os objetos voltaram à inércia... Kanon desmaiou e as tochas que iluminavam a tenda tiveram que ser reacendidas.
– Por tudo o que é mais sagrado, o que está acontecendo aqui? – perguntou Saga levando a mão aos cabelos desalinhados.
– Seu irmão profanou a tumba proibida.
– Que tumba?
– A tumba de Tiy, a esposa de Amenhotep III. Ela foi executada e seu coração foi queimado. Foi negado a ela repousar ao lado do esposo, mas seu filho permitiu que fosse sepultada no Vale dos Reis em um local afastado. Seu túmulo foi considerado amaldiçoado, assim como todo aquele que ousar profaná-lo.
– Kanon estava investigando uma antiga história, ele me enviou uma carta falando sobre uma rainha que tinha sido acusada de bruxaria. Mas... eu nunca pensei... – disse Saga, transtornado.
– Sim, a rainha Tiy foi julgada pela morte do esposo e, mesmo seu filho tendo ascendido ao trono, nada pode ser feito e ela foi decapitada. Dizem que, antes de morrer, ela amaldiçoou todos os que a acusaram injustamente.
– Por que o túmulo dela foi amaldiçoado?
– Porque ao ser condenada a morte, ela teve seu coração arrancado e queimado para que sua alma não pudesse reencontrar seu corpo, nem se lembrar da vida terrena. Sua alma vaga pela eternidade sem descanso e dizem que a única coisa que pode fazê-la lembrar-se de quem era é o seu manto, um presente que recebeu do faraó.
– Manto?
– Sim, ele é uma peça magnífica feita de um tecido composto por fios de ouro e adornos em lápis-lazúli e esmeraldas.
Saga sentiu o sangue gelar. Quando recebera a carta de Kanon, havia uma nota no final da mesma dizendo que ele enviaria um presente, algo que poderia revelar a verdade sobre as suas buscas pela história original de homens e mulheres que adquiriram o status de deuses. Ele deixara Londres, antes da encomenda chegar e agora se perguntava se não era o tal manto.
– Preciso tirar meu irmão daqui.
O guia olhou-o com um misto de piedade e descrença.
– Aquele que é tocado pelos amaldiçoados carrega consigo a marca. Não importa aonde vá.
Irritado, Saga olhou com fúria para Jamil. No mesmo instante, a lua cheia ficou escondida atrás de grossas e negras nuvens. Um uivo cortou a noite e o vento pareceu um lamento. Chacais do deserto. Pensou o guia.
– Não pedi a sua opinião! Agora mande arrumar as coisas do meu irmão. Partiremos ao amanhecer. – cortou Saga.
O guia assentiu com a cabeça e deixou o duque. O vento frio elevou-se nas dunas e Saga olhou ao redor. A tenda onde Kanon se encontrava estava silenciosa, enquanto as outras oscilavam, mas permaneciam firmes. Fechou os olhos e suspirou, lembrando-se das palavras do vidente Milo: “Seu irmão precisa de ajuda. Sugiro que o traga de volta à Londres, imediatamente.”
De imediato o duque rezou. Fazia muito tempo que não lembrava as orações da infância, mas diante daquela cena dantesca, ele buscou na memória e rezou, não por si, mas pelo irmão que amava.
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Camus procurou descansar como prescrevera Shura, um dos poucos amigos que possuía em Londres. O médico receitara um pouco de láudano, mas ele preferira, apenas, deitar um pouco e tentar relaxar. Não gostava de calmantes ou sedativos.
No entanto, passados quarenta minutos, as lembranças retornaram como uma enxurrada, sua mente dando voltas e seu intelecto tentando combater o que permanecera trancafiado em sua memória.
Com um suspiro, deixou o quarto e foi até a sala. Sentou-se no sofá de brocado e levou a mão ao rosto. Não se lembrava de já ter se sentido tão cansado e, ao mesmo tempo, com uma inquietação incessante. Desde que aceitara a proposta do inspetor Dohko e conhecera aquele vidente, sua vida adquirira um tom dissonante. A tão almejada tranquilidade que lutara para conquistar havia sido posta por terra.
Encostou a cabeça no espaldar do sofá e fitou o teto ornamentado. Fechou os olhos e ouviu o barulho dos cascos dos cavalos que conduziam as carruagens na rua. Seus sentidos estavam à flor da pele e as imagens... Ah, as imagens do que havia acontecido entre ele e Milo fluíam em sua mente fazendo-o experimentar um misto de desconforto e reconhecimento.
Aquilo nunca havia acontecido. Nunca!
Sentira a força estranha apoderar-se de si com uma excitação atroz e um poder que só vivenciara na adolescência, quando uma situação limite o havia levado a experimentar a sensação de estar fora de si e o tempo parecer congelar, como tudo a sua volta... Mas nada se comparava ao que acontecera quando encontrara o vidente e após o fatídico encontro!
A imagem de Milo dominava sua mente e seu corpo reagia com ardor...
Os músculos rijos e a pele morena brilhavam à luz do fogo. Eles olharam-se fundo nos olhos e então a voragem erótica os consumiu...
O ambiente se transformou e o tempo congelou. Os corpos se uniram de um jeito sobrenatural...
Mãos e dentes, arranhões e mordidas... Pernas, quadris se chocando, gemidos roucos e abafados...
A memória da penetração profunda, do estremecer do corpo, do ardor das peles e do encontro das línguas...
Não era ele, Camus, quem cobria o corpo do vidente e se arremessava com força, o membro rijo mergulhando fundo e sendo acolhido entre ofegos de dor e intenso prazer. Era outra entidade, uma manifestação abismal de algo que o possuíra e também possuíra Milo.
O orgasmo os atingiu como um raio, uma metáfora transformada em realidade excruciante... Dor e prazer em uma alquimia de vida e morte.
Respirando fundo, Camus preparou-se para adentrar o quarto cujo conteúdo remontava o tempo da infância em que estivera sob a tutela de Cheslav. É preciso conhecer e controlar em si, a natureza do Bem e do Mal. Eis o segredo da integridade da alma. Dizia o homem que o criara como filho. E, naquele momento, tudo o que ele mais precisava era reassumir o controle...
O quarto no sótão estava mobiliado, apenas com o básico. Havia uma poltrona, uma mesa e prateleiras cheias de livros, todos eles de algum mago conhecido. Paracelso, Papus, Nicholas Flamel, John Dee, Cornelius Agrippa, Hew Draper e outros. Alguns eram tratados sobre magia, outros, a biografia de tais mestres. No centro do sótão, o piso de madeira polida exibia a imagem de um pentagrama, símbolo da onipotência mágica, do domínio do espírito sobre os elementos da natureza. Era ali que faria o realinhamento para obter de volta a serenidade.
Colocou-se no centro do pentagrama e despiu a camisa. Uma luz tênue pareceu percorrer as linhas que compunham o desenho de uma estrela com cinco pontas, enquanto o ruivo tocava na marca que possuía em seu peito. Uma marca gravada a ferro e fogo por Cheslav quando ele completara 15 anos.
Camus perdera a mãe na infância e de uma forma trágica e traumática. Sua mãe fora chamada de bruxa e perseguida em uma noite sinistra e permeada pela insanidade coletiva. Somente mais tarde, sob a orientação de Cheslav, ele entendeu o preço que ela pagara por estar em sintonia com as forças ocultas e também, para salvá-lo da horda supersticiosa tomada pelo medo e pela inveja.
Sua mãe se chamava Lorraine e era uma mulher doce e prestativa que havia deixado seu país natal para viver com seu amado russo em Krasnoyarsk, na Sibéria.
Assim que chegou, a embarcação que seu marido usava para pescar sofreu um acidente em alto mar e Anzor desapareceu.
Sozinha e em uma terra estranha, Lorraine descobriu que não era apenas o clima que era gélido. As pessoas a evitavam, os familiares do marido não a aceitavam e ela experimentou toda a sorte de preconceito.
Em uma noite fria, ela chorou e implorou que a morte a levasse de encontro ao seu amado Anzor. Adormecendo em meio às lágrimas, ela sonhou...
Em seu sonho, Anzor voltava para amá-la. Ele estava mais bonito e forte do que nunca e sorria de um jeito que a fez esquecer-se de todos os problemas.
Venha a mim, doce Lorraine... Vou amá-la como a deusa que és... A minha deusa. As palavras de Anzor a deixaram feliz e excitada. Ela se entregou ao marido naquele mundo onírico e por toda a noite sentiu prazer e calor.
Ao amanhecer, ela despertou encontrando a cabana abastecida e uma estranha palavra escrita com fogo na soleira da porta que chamou sua atenção: Lodurr.
Quando criança, sua mãe lhe contara histórias sobre os deuses nórdicos e, também que ela tinha uma irmã por parte de pai chamada Natássia. Desde aquele dia, após aquela informação, ela sonhara em conhecer a irmã que vivia nas terras frias e, quando se tornara adulta e conhecera Anzor, acreditara ser uma boa obra do destino. Talvez encontrasse Natássia e ambas se tornassem grandes amigas!
Lodurr significava fogo e era um dos significados do nome do deus Loki. Diferente de Odin e Thor, Loki era um deus ambíguo, ora aliado, ora inimigo. Trapaceiro, sensual e cruel, divertia-se coma desgraça de homens e deuses. No entanto, quando invocado, sabia agir como protetor e havia muitas lendas onde ele tomava amantes para si, tanto homens, quanto mulheres.
Lembrou-se com um tímido sorriso do dia em que fez um desenho do deus e, mais tarde, quando já estava casada com Anzor, aperfeiçoou o desenho infantil dando as feições do amado ao seu Loki.
Lorraine não queria ter acordado, o sonho fora bom demais e a fizera sentir como se tudo tivesse sido real. Imaginou que Loki havia trazido seu marido em sonho e, quando se descobriu grávida, agradeceu comovida, acreditando que antes de falecer, Anzor lhe deixara um filho. Ela não estaria mais sozinha. Nunca mais.
Em segredo, ela fez oferendas, criou rituais em honra ao seu deus nórdico e sua vida prosperou. Sempre havia alimentos e mesmo que alguns habitantes ainda não gostassem dela, a deixaram viver em paz com seu filho. Até aquele dia. O dia em que a cidade enfrentou a estranha febre que ceifava a vida de velhos e crianças rapidamente.
Todos estavam com medo, menos Lorraine que continuava a visitar os poucos amigos que fizera por sua atitude solidária e amável. Não tardou para que seus inimigos a acusassem de estar saudável e viver com abundância, enquanto todos passavam por dificuldades. Acusaram-na de ter pacto com algum demônio e atrair a desgraça para a cidade.
Com medo pelo seu filho, Lorraine livrou-se de tudo o que justificasse as acusações que recebia. A chamavam de bruxa e a insultavam, porém ela permanecia firme e não reagia. Então, o filho do prefeito pereceu e a cidade enlouqueceu. Como na Idade média, marcharam em direção a sua casa, brandindo forcados e gritando Ved’ma! Ved’ma!(Bruxa! Bruxa!)
Pela primeira vez, ela temeu, não por si, mas pelo filho. Então ela se arrependeu de ter negado suas crenças e chamou pelo seu deus. As palavras em um dialeto antigo surgiram em sua boca como se sempre estivessem estado em sua mente e alma.
O deus veio, quando, no último instante, ela o invocou com as palavras certas e recebeu a morte com um sorriso nos lábios. Camus não a veria implorar, chorar ou temer. Ele guardaria seu sorriso, seu amor e sua proteção...
Loke hör min förfrågan! Spara mitt barn och behandla det som om det vore din egen! (Loki ouça o meu pedido! Salve o meu filho e cuide-o, como se fosse seu!)
Agora, no tempo presente, Camus ainda tinha vívido em sua mente o rosto de sua mãe. O sorriso, o sangue, a benção... Ele fora levado por algo ou alguém para longe dali e seus gritos se perderam no ar gélido, até que ele ficasse sem voz. E, quando tudo parecia escuro e frio, um homem lhe estendeu a mão e o levou para as montanhas.
Cheslav o resgatara e instruíra e, quando aquele estranho poder se manifestara em seu corpo, atraindo o frio intenso e a neve, fora o próprio Cheslav quem selara a manifestação involuntária e o ensinara a manter o poder dentro de si. O homem superior sabe que há mais coisas sob o céu e a terra que apenas a lógica. Porém, devemos ter o cuidado de deixar que cada faceta humana tenha sua expressão e lugar. Há tempo para a magia e há tempo para a ciência. Eu o ensinarei a manifestar cada uma delas em seu devido tempo.
– Frigidus in aeterna me erant, reliquiae. Nunc et semper! (Frio eterno em mim selado, permaneça agora e sempre!)– disse o ruivo, enquanto se colocava de joelhos no centro do pentagrama.
Como uma oração ele repetia as palavras aprendidas e retomava o controle sobre si mesmo. Ao contrário da vontade de Cheslav, ele escolhera não usufruir daquele poder. Queria mantê-lo selado e viver como um homem normal, dedicado aos estudos arqueológicos, aos fenômenos paranormais e à ciência.
O pentagrama reagiu à invocação projetando uma luz azulada e fria, envolvendo-o, gelando o ar ao seu redor e, em seguida, adentrando o símbolo gravado em seu peito.
Aos poucos, a temperatura do quarto voltou ao normal. As emoções serenaram e Camus sentiu retornar a clareza da mente. No entanto, sabia que só resolveria aquela questão depois que reencontrasse Milo e descobrisse o que havia entre eles e quem era a entidade que estava usufruindo dos seus corpos...
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O bispo Tatsumi cruzou os corredores da Abadia sob a luz das velas que já estavam se apagando. Olhou para a escultura de Cristo crucificado no alto e fez o sinal da cruz. Uma sombra atravessou-lhe o caminho e ele, simplesmente ergueu a mão direita sem nenhum temor. Olhos vermelhos cintilaram e a criatura saiu, brevemente das sombras, e se curvou falando com uma voz estrangulada.
– Mestre...
Um sorriso gentil brincou nos lábios do bispo.
– Volte para o esconderijo e aguarde as minhas ordens. Nada de ficar andando por aí.
– Eu... Peço... Desculpas...
– Vá e espere.
– Mestre... Quando eu... Quando nós vamos... agir novamente?
Tatsumi olhou para o homem de porte avantajado e cicatrizes profundas. A pele com tom azeitonado e doentio destacava os olhos vermelhos, mas a expressão era quase infantil. Tocou-lhe a mão como sempre fazia com todos, transmitindo calor e segurança.
– Faça o que eu mandei. Logo me juntarei a você. – disse o bispo.
A criatura tentou sorrir, porém a cicatriz em sua face repuxou e ele baixou a cabeça.
– Vou esperar... – disse ele se escondendo, novamente, nas sombras e desaparecendo, logo a seguir.
O bispo sorriu e, desta vez, sua expressão não era nada gentil. Ele olhou para a abóboda escura e elevou os braços. De olhos fechados ele murmurou:
– Miles sum Domine, deduc me ut faciam Deus voluntatem tuam! (Sou teu guerreiro, Senhor! Guie a minha mão para fazer a vossa vontade)
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Ikki Amamiya já havia visto muitas coisas, mas não estava preparado para a imagem que lhe foi apresentada. A mulher envolta naquele líquido estava morta!
Ele esperou que Hyoga falasse alguma coisa, mas o jovem parecia esperar por algo ou alguém antes de começar. Isaak surgiu trazendo uma bandeja com um bule de prata, um pequeno pote e duas xícaras de fina porcelana. Ele colocou o objeto sobre uma mesa de canto e saiu. Sua expressão era grave, como se estivesse compactuando com um segredo que não estava à vontade para partilhar com outrem.
Mesmo ansioso, o japonês continuou esperando e observando Hyoga retirar algo escuro de dentro do pote, colocar no bule e fechar a tampa. Um aroma delicioso se espalhou pelo ambiente e Ikki não reconheceu o que era, mas sentiu a boca salivar.
– É chocolate. Quer um pouco? – disse Hyoga segurando o bule e girando-o com cuidado antes de servir uma das xícaras com o líquido viscoso e escuro.
Ikki hesitou. Por mais que aquela bebida parecesse interessante, ele não era uma criança que pudesse ser comprada com guloseimas.
– Não vai experimentar? – insistiu Hyoga levando a xícara aos lábios e bebendo um gole do líquido quente com uma expressão de prazer. – É delicioso...
– Não estou aqui para me divertir. O senhor prometeu-me uma explicação e eu desejo tê-la.
Hyoga abriu um meio sorriso.
– Sua natureza guerreira o impede de apreciar o momento? Não tema, uma xícara de chocolate não irá desvirtuá-lo e nem a mim. Por favor, eu insisto. Sente-se e prove.
O japonês piscou surpreso. Aquele homem conseguia penetrar em sua defesa com argumentos bastante lógicos e, aparentemente, inocentes. Aceitou a xícara que lhe era estendida e, exceto pelo leve roçar de seus dedos nos do loiro, nada demais aconteceu. Sentou-se e levou a xícara aos lábios. O que se seguiu ao ato foi o sentimento de um grande prazer.
Hyoga o encarou. Havia se sentado na cadeira, enquanto o japonês bebia o chocolate. Descansou a cabeça sobre a mão para fitá-lo, os cabelos escuros caídos sobre a testa, a posição sempre em prontidão do corpo musculoso... Sentia uma atração por aquele homem e escolhia mentalmente as palavras para mantê-lo ali, junto de si, embora soubesse que seria algo bastante difícil.
Ikki reparou o olhar de seu jovem senhor. Aqueles olhos pareciam conter em si a eternidade e uma maturidade forçada e, por vezes, sombria. Bebeu o último gole e colocou a xícara sobre a bandeja.
– Aceita mais uma xícara? – perguntou Hyoga.
– Não, obrigado. Aceito iniciarmos o assunto que nos trouxe aqui. – respondeu o moreno.
– Direto e cortante como a espada que carrega... Pois bem, farei o mesmo. Esta mulher preservada neste líquido é minha mãe e eu pretendo trazê-la de volta à vida. O que lhe parece isso? – falou Hyoga.
– Que você é louco ou idiota. Não há a menor chance de se ressuscitar quem morreu, a menos que você seja um deus. O que não é o seu caso. Desculpe ofendê-lo, mas é o que eu penso.
Hyoga sorriu daquele jeito gélido.
– Já me chamaram de coisa pior, pode apostar. Mas, vindo de você não me ofende. Tenho uma dívida de gratidão com o senhor e prezo a sua sinceridade. Por isso vou contar-lhe toda a história para que compreenda o meu ponto de vista.
Ikki franziu o cenho e se preparou. Quando Hyoga ia começar a falar, um grito irrompeu o ar.
– Shun? – murmurou Ikki se levantando rapidamente.
Hyoga o acompanhou quando ele deixou a sala a passos largos.
Shun era um menino, mas isso não queria dizer que era indefeso. Ao notar um movimento estranho na mansão, ele desobedeceu a seu irmão que não queria que ele exibisse suas habilidades e foi ao encalço da estranha e gigantesca sombra.
A Kusarigama foi lançada com maestria e a coisa urrara de dor. Aquilo não parecia um homem, mas gritava como um! Pensou Shun se preparando para saltar mais perto e ver o que tinha atingido.
A ponta da foice havia se prendido em sua orelha e a dor o fizera gritar. No entanto, quem estava usando aquela estranha arma era, apenas, um menino. Ele sentiu vontade de matá-lo, mas não podia matar um inocente. Sua mão calejada e forte agarrou o cabo da foice e a lançou longe, talvez assim o garoto desistisse.
Treinado como um samurai, Shun recuperou sua arma usando o corpo em uma virada espetacular. Quando a criatura agarrou o cabo da foice, ele segurou a outra extremidade que se unia à foice por uma longa corrente e virou uma estrela no ar caindo em pé fazendo a foice voltar para a sua mão.
– Shun! – gritou Ikki.
– Ikki! Ikki! Aqui! – respondeu o menino.
O japonês correu na direção da voz, descobrindo que atrás da mansão havia uma pequena capela e era ali que seu irmão estava. Quando chegou bem perto, ouviu o som de vidros quebrando e sua preocupação aumentou. Porém, logo em seguida, viu Shun saindo ileso, seu coração acalmou.
– O que aconteceu? – perguntou o moreno.
– Uma criatura estranha! Eu estava brincando de explorar o lugar e vi uma sombra enorme ali dentro – disse o menino apontando para a capela. – Então eu fui ver o que era e...
Ikki percebeu a arma na mão de seu irmão e soube que ele estava mentindo. Ele não estava explorando e sim treinando. Dissera milhares de vezes para que não o fizesse, mas Shun era, apenas, uma criança cansada do confinamento em um país estranho.
Shun percebeu o olhar de repreensão de Ikki e baixou os olhos, em silêncio.
– Você desobedeceu. – disse o moreno.
– Mas Ikki... tinha alguém ali.
Deixando os dois, Hyoga foi até a capela e constatou que um dos vitrais estava quebrado, como se uma pedra gigante tivesse sido lançada nele. O loiro franziu o cenho e retornou para junto de Ikki e Shun.
– O que você viu Shun? – perguntou Hyoga.
– Estava escuro, mas ele parecia um gigante. Eu lutei com ele, mas ele não parecia humano.
Nesse meio tempo, Victor Frankenstein e Isaak juntaram-se aos três. O médico parecia ansioso, enquanto Isaak se mantinha com a mesma fleuma que o caracterizava.
– O que aconteceu aqui? – perguntou o médico.
– Ainda não sabemos. Mas creio que pode ser algum ladrão tentando roubar a mansão. – disse Hyoga.
– Não era um ladrão! Era outra coisa! – insistiu Shun.
Ikki tocou o ombro do irmão num claro sinal para que ele se calasse. Não conseguira esclarecer a situação com Hyoga, mas uma coisa estava clara. Aquele lugar e aquele homem eram perigosos. A única atitude a tomar era arriscar e deixar a mansão.
– Shun, suba e arrume as suas coisas. Nós vamos embora. – disse o moreno.
– Não! Ikki, por favor... – disse Hyoga.
O japonês olhou bem dentro dos olhos do jovem senhor.
– Há segredos demais por aqui e a presença da loucura impregna o ar. Não vou compactuar com isso e nem expor meu irmão ao perigo.
Hyoga quase implorou, mas ao ver a frieza nos olhos do samurai, resolveu deixar que ele tomasse outro rumo. Ikki tinha razão, havia segredo e loucura cerceando seus atos, mas ele não podia evitar, nem voltar atrás.
– Pois bem, Isaak vai pagá-lo pelos dias trabalhados. – disse o loiro.
Ikki quase voltou atrás ao perceber um lampejo de dor nos olhos de Hyoga. Entretanto, a segurança de Shun vinha em primeiro lugar.
O japonês nem contou o dinheiro entregue em um envelope. Pegou a mão de Shun e deixou a mansão. Por um instante, sentiu uma ponta de arrependimento e agradeceu por Hyoga não ter se despedido dele. Se ele tivesse insistido mais uma vez... Disse a si mesmo, enquanto partia e resistia a vontade de olhar para trás.
Na janela, Hyoga via Ikki e Shun deixando a mansão e seu coração apertava no peito. Não era medo, era outra emoção igualmente poderosa que ele nunca sentira antes. O jovem ficou ali até as suas silhuetas saírem do seu campo de visão e então fechou a cortina e desejou que aquele ato também fechasse o seu coração.
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Milo fitou o diário de sua mãe tocando com carinho a capa aveludada. Aquele diário lhe fora entregue quando adulto, após a dolorosa, mas rica experiência de ser um órfão em uma sociedade que só se preocupava com o prazer.
O que lera naquele diário lhe abrira a mente e o coração. Ele fora adotado. Desde sempre. A descoberta o chocara de início, mas depois se sentiu afortunado. Teve uma infância feliz e próspera. O que poderia desejar mais?
8 de novembro do ano de 1874
Amado diário:
Minha vida tomou um sentido maior. Eu, condessa Ilianna Calixta Stephanopoulos voltei de uma exótica viagem ao Egito com meu filho nos braços, um desejo que fui realizar muito longe, mas que me foi revelado em sonho e todos sabem o quanto eu acredito nas forças além do nosso entendimento. Meu marido disse que era loucura, que não conseguiríamos adotar uma criança em outro país, mas eu apostei em meu sonho e ganhei.
Ao chegar ao Egito, uma mulher com trajes de indigente nos parou e pediu ajuda. Ela estava grávida e disse ter sido abandonada pelo amante estrangeiro que, coincidentemente, era grego. Ao ajudá-la a chegar em sua casa, constatamos que havia algo errado, mas foi tudo muito rápido. O bebê nasceu bem, mas a mulher teve uma forte hemorragia e morreu após balbuciar algo e tocar a cabecinha da criança.
Meu marido e eu tentamos achar alguém responsável, mas ninguém se apresentou e tivemos que lidar com a situação nós mesmos. Providenciamos o sepultamento e nos responsabilizamos pelo bebê. Ou seja, vamos adotar uma criança com sangue grego nascida no Egito. É um menino e é lindo! Resolvemos dar-lhe o nome de Milo. Ele será muito amado e se depender de nós nunca revelaremos a sua origem. Ele é nosso! Somente nosso!
– O que foi Milo? – perguntou Shina ao ir verificar se o vidente já havia dormido.
– Nada, apenas tive vontade de reler o diário de minha mãe.
– Você precisa descansar. Deixe isso e durma um pouco. Não é uma boa hora para ler o diário de sua mãe.
– Não sou feito de açúcar, Shina. – disse Milo num tom ríspido.
– Eu só estou pensando em seu bem-estar. – respondeu a jovem com um tom magoado.
Milo percebeu e tomou a mão dela nas suas.
– É muito bondoso da sua parte tentar me proteger, mas eu estou bem e preciso de algumas respostas.
– Eu sei... Mas estou com medo. – confessou ela.
– Medo? Medo de quê? Amanhã faremos o show como sempre.
– Milo! Como pode ficar assim, tão despreocupado? Tem um assassino à solta, você desmaiou, está com o corpo cheio de marcas o que sugere que...
Corada, Shina interrompeu sua fala ao perceber o olhar intenso de Milo. Sem saber como disfarçar, ela desviou os olhos para a parede.
– Eu sei de tudo isso. Mas, não adianta nada ficar lamentando ou escondido como se eu fosse o criminoso. O mais importante é proteger as crianças e, para isso, eu preciso descobrir mais sobre o que aconteceu. Eu nunca questionei esse espírito que me sussurra coisas e que me trouxe até aqui. Mas, isso vai mudar. – disse Milo se levantando.
– Ei, aonde você vai? – questionou Shina.
– Vou fazer o que já devia ter feito. Eu e um certo ruivo precisamos conversar. – respondeu o grego indo em direção ao armário para pegar uma roupa.
Shina não conseguiu impedi-lo. Atônita, viu-o vestir qualquer roupa e descer as escadas correndo. Mesmo sem a preocupação de estar apresentável, Milo conseguia manter-se belo e sedutor como se já tivesse nascido assim e ela sorriu, mesmo estremecendo por conta do nervosismo.
Quando a carruagem deixou a mansão, ela tratou de fazer, ela mesma, um chá e beber para acalmar-se. Não adiantava enlouquecer, o vidente sempre acabava fazendo o que desejava e isso fora desde que haviam de conhecido e se tornado amigos.
Longe dali, Milo só pensava em encontrar Camus. Os dois haviam tido uma experiência íntima, porém sem a consciência total do ato e precisava saber se ele também lembrava. Com o trotar rápido dos cavalos, o vidente foi tentando relaxar, mas logo uma imagem terrível invadiu sua mente...
Havia uma mulher deitada em uma cama. Ela gemia e o sangue escorria no meio das pernas da infeliz, ensopando os lençóis.
Havia duas pessoas com ela e, mesmo morrendo, ela implorou para os deuses que conhecia. Pediu que o filho vivesse e logo, alguém surgiu e o levou. Grossas lágrimas escorreram pelo rosto da mulher.
“Perdão”, ela murmurou. Então estremeceu e fechou os olhos para sempre.
– Mãe... – sussurrou Milo e uma lágrima solitária molhou seu rosto.
Quando a carruagem parou em frente à casa de Camus, o grego não precisou bater. Assim que levou a mão a aldrava, o ruivo a abriu e a estranha conexão de olhares aconteceu, novamente.
– Eu preciso falar com o senhor. – disse Milo com uma expressão torturada.
– Eu também. – respondeu Camus e seus olhos rubros foram tomados por uma violenta paixão.
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