AMALDIÇOADOS!

10 Em algum lugar do tempo...


Notas iniciais
**♥** Olá, galera amada do bem!!! Mais um final de semana e mais um capítulo. Espero que se divirtam! Obrigada aos leitores que comentam, mesmo que seja em um único capítulo! É muito bom ter o retorno de quem lê e gosta. Nos sentimos valorizadas e acarinhadas! ♥ Bjs e que a semana que termina seja muito abençoada para todos!! XD

Shina estava preocupada quando penetrou nos aposentos de Milo sem fazer barulho e se aproximou da cama ampla. Fazia muito tempo que ele se encontrava ali e o “repouso” não era usual na vida do vidente, sempre muito ativo e buscando coisas para fazer. Encontrou-o dormindo de lado, voltado para a lareira. O brilho dourado das labaredas iluminava seu belo rosto. Havia olheiras leves sob os olhos e a barba por fazer sombreava-lhe as faces.

Ela ficou ali parada por um tempo, sem saber se o acordava ou não. Então, devagarinho, se aproximou e tocou-lhe a testa, levando um susto.

– Deus, Milo! V-Você está ardendo em febre!

O grego abriu os olhos.

– Não é nada... Não precisa fazer essa cara.

– Vou chamar o médico.

– Não precisa.

– Não vou discutir com você. E prepare-se que eu vou mandar preparar a banheira com água fria. Temos que baixar esta febre e já!

– Shina, não se preocupe, vai passar.

– Milo... Por favor, me diga o que está acontecendo.

O vidente a encarou.

– Tudo isso faz parte... Eu preciso compreender.

– Compreender o quê?

– Deixe-me descansar, Shina. Vá ver se está tudo bem com as crianças.

A jovem olhou para o rosto de Milo e a forma como ele a encarou lhe deu arrepios na espinha. Os olhos azuis estavam aquosos pela febre, mas havia um fulgor e uma força neles que a fez recuar.

– Está bem, eu vou. Mas daqui a meia hora eu volto. Se ainda estiver com febre, mandarei chamar o doutor Shura.

– Certo. Agora vá.

Assim que Shina fechou a porta, Milo levantou da cama e encarou as chamas da lareira. Seu corpo ardia no mesmo compasso daquele fogo e seus olhos estavam presos ao crepitar selvagem. Era o chamado dele, então era preciso ir ao seu encontro, mesmo que ainda não se sentisse com toda a vitalidade de seu corpo.

Aos poucos, tudo ao redor foi evanescendo...

O ar rescendia a poeira, papiros e múmias envoltas em linho à espera do retorno da alma. As paredes de pedra tão lisas, quando o metal polido, pareciam frias e nelas, inscrições seculares contavam histórias, registros de momentos que se perdiam no tempo, mas que ali conservavam o frescor como se tivessem sido vividas naquele exato instante.

As esculturas de faraós e deuses o olhavam como se o acusassem de violar aquele espaço sagrado e ali, em meio a tudo, um sarcófago em madeira e ouro reluzia imponente.

A imagem de um homem alto se sobressaiu em meio ao cenário surreal que bailava em espirais transparentes... A pele era sedosa e bronzeada, os olhos contornados pelo kajal negro, eram tão profundos e magnéticos que não pareciam humanos. A boca carnuda se abria em um meio sorriso, fitando-o como se o conhecesse há muito tempo. Ele materializou-se junto ao sarcófago e o tocava com extremo cuidado e reverência.

– Seja bem-vindo, grego! Tua resiliência e força são impressionantes. Creio ter acertado em minha escolha secular.

A voz era agradável, profunda e um tanto grave, destoando da aparência andrógina e quase feminina.

– Vejo as inúmeras dúvidas em seus belos olhos...

– Quem é você, realmente?

– Quem eu sou? Sou Imnotep, Primeiro na linhagem do Rei do Alto Egito, Administrador do Grande Palácio, Nobre hereditário, Sumo Sacerdote de Heliópolis e, principalmente, amante de Akhenaton, faraó e deus amado.

– Amante do faraó?

Imnotep sorriu com um misto de malícia e amargura. De todos os títulos, ser amante do faraó-deus tinha sido o melhor e o pior de tudo em sua vida. O grego enfatizara aquilo que, realmente, tivera mais valor e dor...

– Sim, amante. De todas as honras, essa foi a que mais apreciei e aquela que me levou à senda das maldições.

– Qual a nossa ligação? Por que me escolheu?O que você quer, afinal?

– Tantas indagações em tão pouco tempo. Deixarei um enigma para ti e para teu oposto. Se conseguirem resolvê-lo, as respostas serão reveladas.

Milo fitou-o com o cenho franzido.

– Não tenho tempo para enigmas! Por que não diz logo a razão de tudo isso? Qual a sua relação com Loki?

– As areias se juntam à neve... Fogo e gelo, unidos na espiral do tempo. A força dos opostos precisa de um vínculo, algo único e indissolúvel. Só assim, o demônio será aprisionado, novamente, e a vingança será completada!

– O quê?Que vingança é essa?

Imnotep estalou os dedos e uma cortina de fogo os envolveu. Milo sentiu o corpo arder e fundir-se ao fogo. A dor tornou-se intensa, quase insuportável.

– Vida ou morte, grego. Fogo e gelo.

– Milo! – o grito de Shina ecoou pelo quarto quando ela viu o grego caído no chão, próximo da lareira, convulsionando de forma assustadora.

Reprimindo a própria histeria que teimava tomar conta de si, ela chamou um dos criados para ajudá-la a colocar Milo na cama e instruiu outro para que chamasse o médico. Assim que o grego pode ser acomodado na cama, mandou trazer toalhas e água fria para baixar a temperatura do corpo dele.

No morgue, Shura conversava com Camus sobre as marcas nos corpos assassinados, quando o criado chegou solicitando a sua presença. Os dois analisavam um dos corpos que permanecera à espera do sepultamento. Após muitas discussões, começaram a traçar um mapa daquelas mortes e organizar as pistas deixadas, propositalmente, pelo assassino. O cheiro característico do formol dominava o ar cuja luminosidade fraca ajudava a criar um clima ainda mais mórbido.

– Doutor, o senhor Milo! A senhorita Shina mandou chamá-lo, novamente, porque ele está mal. – disse o criado com uma expressão assustada.

Ao ouvir aquilo, Camus franziu o cenho visivelmente preocupado.

– O que aconteceu? – perguntou o ruivo lembrando dos momentos que tivera com Milo.

– Não sabemos, ele está tendo convulsões.

Camus olhou para Shura que já estava pegando sua maleta e vestindo o casaco.

– Eu vou com você. – disse ele.

Mesmo estranhando a atitude do amigo, Shura nada perguntou e assentiu com a cabeça. Saíram rapidamente e pegaram uma carruagem.

Ao retornar àquela mansão, Camus sentiu-se estremecer, mas nada em sua fisionomia o traía. Entretanto, ao entrar no quarto de Milo e vê-lo naquele estado, algo dentro de si pareceu quebrar-se. Tinha responsabilidade no que se descortinava frente aos seus olhos?

– Doutor Shura! Ele está com uma febre altíssima! Eu nunca vi isso... parece que o corpo dele está literalmente pegando fogo! Antes de o senhor chegar as roupas e os lençóis ficaram molhados de suor e tiveram que ser trocados duas vezes! – falou Shina com desespero evidente na voz.

Shura se aproximou e franziu o cenho ao constatar a veracidade daquelas palavras. O corpo do grego parecia uma brasa ardente feita de carne e osso. Era quase insuportável ficar ao lado dele.

– Tragam mais água fria e mais toalhas. – ordenou o médico.

Milo delirava, murmurando palavras incompreensíveis e que pareciam em outro idioma. Camus se aproximou dele, reconhecendo o idioma antigo.

Parece copta... Milo está falando trechos de um poema copta! Disse o ruivo a si mesmo, enquanto se aproximava da cama.

– Camus, é melhor permanecer afastado, nós não sabemos o que está ocasionando esta febre. Pode ser uma doença desconhecida e...

– Deixem-me às sós com ele. – disse o ruivo interrompendo o médico.

– Como? – questionou Shura.

– Deixem-me às sós com ele. – repetiu Camus. – Por favor, Shura, preciso que confie em mim. – completou.

Shura conhecia Camus há algum tempo. Eram amigos e o médico admirava as habilidades investigativas, o raciocínio privilegiado e a capacidade de resolver enigmas que Camus sempre demonstrara. No entanto, quanto àquela situação, não sabia o que o ruivo podia fazer e a dúvida o fez sentir-se desconfortável.

– O que pretende fazer? – perguntou, por fim.

– Confie em mim. Saia e feche a porta. Só volte quando eu os chamar.

Shina mordeu o lábio inferior e olhou confusa para Shura que, por sua vez, tinha de tomar uma decisão rápida: confiar ou não confiar?

– Está bem. – disse o médico se erguendo do lado de Milo e indo até a porta.

Sem saber o que fazer e sem entender a atitude do médico, Shina permaneceu no quarto até que os olhos rubro-acastanhados de Camus a fitaram com um brilho intenso e agudo.

– E-Eu... bem, se precisarem de mim, estarei lá fora. – disse ela com visível constrangimento.

Assim que os dois saíram, Camus despiu suas roupas e também as de Milo. Não podia negar o que sua intuição o instigava a fazer, nem mesmo as estranhas habilidades que herdara. Podia ouvir as palavras daquele que o criara: Mais cedo ou mais tarde, a vida o levará a tomar decisões sem hesitar. Faça o que deve fazer!

Quando ambos estavam nus, o ruivo deitou-se ao lado de Milo tomando-o nos braços. Fechou os olhos e esvaziou a mente... O grego se debateu, até o momento em que ambas as peles se tocaram, o peito nu de Camus de encontro ao seu peito, também nu e coberto de gotículas de suor...

O calor era insuportável, porém o ruivo manteve os corpos unidos e os dentes cerrados... Sua pele doía e queimava, mas em nenhum momento Camus desfez aquele contato. Levou uma das mãos até a nuca do grego, enquanto a outra os manteve unidos àquele abraço íntimo. Então, ele fechou os olhos e, do centro de seu peito alvo, uma espiral azulada escapou e começou a girar no sentido anti-horário, num ritmo lento e aliciante que envolveu ambos os corpos com finos tentáculos de luz.

Cool sé agus ar fuaraigh. (Acalme-se e esfrie) – repetiu Camus três vezes.

A luz azulada esfriou o corpo de Milo e também o ambiente do quarto. Camus manteve os olhos fixos no grego até senti-lo serenar a respiração e os tremores do corpo febril. Então, selou novamente a energia fria dentro de si

Milo permanecia com os olhos fechados, o rosto pálido e abatido contra os lençóis brancos. Os dedos longos e frios do ruivo afastaram os fios de cabelo que haviam grudado na testa suada do grego e seus olhos perscrutaram a face adormecida com uma ternura que não lhe era comum. Aquele sentimento poderia enfraquecê-lo e se tornar perigoso para ele e para Milo, pois cada vez que se deixava levar pela paixão, cedia passagem a Loki e ainda não compreendia como isso era possível. No entanto, não conseguia evitar sentir aquela conexão profunda, um mistério que teria de solucionar para que pudesse voltar a ser, simplesmente, Camus.

– Durma... – sussurrou ele rente aos lábios ressecados de Milo, controlando-se para não beijá-lo como desejava sempre que estavam juntos.

Com cuidado, tornou a vestir Milo e também a si próprio. Em seguida, abriu a porta e Shina quase caiu dentro do quarto, pois estava encostada à porta, tentando escutar algo.

– Puxa! Que frio está aqui! – disse a jovem levando as mãos aos braços e os esfregando.

– Ele precisa descansar e beber bastante líquido. – disse Camus.

Shura se aproximou de Milo tocando-o na testa e verificando sua respiração.

– Ele está sem febre. – falou o médico olhando para o ruivo. – O que você fez?

Shina também se aproximou da cama vendo o rosto sereno de Milo que já começava a adquirir uma aparência normal.

– É verdade! Ele... Ele nem parece o mesmo de minutos atrás! – disse ela com um tom de alívio.

Camus não tinha como contar a verdade, então formulou uma explicação pseudocientífica com uma veemência que não esperava deixar brechas para contestação.

– Não foi nada demais. Eu aprendi algumas técnicas na Rússia de estímulo a certas áreas do cérebro com pressão de pontos na cabeça que podem reestabelecer a temperatura normal do corpo.

– Se era só isso, porque tivemos de sair? – questionou Shina.

– Porque eu preciso de silêncio absoluto para me concentrar. – respondeu o ruivo sem hesitar.

– Gostaria de trocar essas informações com você. – disse Shura.

– Para mim pareceu mais um exorcismo. – falou Shina.

Shura e Camus a olharam sem nada dizer. O ruivo não estendeu o assunto e deixou claro que tinha pressa em se retirar.

– Bem, eu preciso ir. – disse ele.

– Camus fez recomendações acertadas para o senhor Milo, senhorita. Mantenha-o em repouso e dê-lhe bastante líquido. Amanhã eu retornarei para ver como ele está. – completou o médico.

– Obrigada! Aos dois! – respondeu ela.

Assim que ambos deixaram a mansão, Shina sentou-se pesadamente na poltrona ao lado da cama, tomando a mão de Milo entre as suas.

– Pensei que... que nós íamos perder você, seu ingrato! Quando vai parar de dar trabalho? – disse ela com lágrimas de alívio nos olhos.

– O que está fazendo aqui de novo...? – perguntou Milo abrindo os olhos, lentamente.

– Milo! – gritou Shina com um sorriso.

Ele a olhou com os olhos ainda semicerrados, depois os esfregou e então a fitou com um suspiro.

– Você teve uma febre muito estranha e intensa. Achei que ia morrer! Se não fosse aquele homem...

– Que homem?

– O senhor Camus.

– Camus? Camus esteve aqui, novamente?

– Sim! Nós não sabemos o que ele fez, mas deu certo. A febre enfim cedeu. Ele explicou, mas não entendi nada, então direi que foi um milagre.

Instintivamente, Milo levou a mão ao peito e imagens de Camus nu abraçado a si se revelaram em sua mente. Apesar da intimidade, não havia nada comprometedor, apenas um contato que retirou o fogo de dentro de si. Fogo e gelo! Camus é o meu oposto! As palavras de Imnotep ressurgiram com força em sua mente.

– Milo! – gritou Shina ao ver que ele se levantava da cama.

– Preciso de um banho... – falou Milo afastando as cobertas de cima de si.

– Espere aí! Você estava mal agora a pouco, então vá com calma...

– O tempo é curto, Shina. Não posso me dar ao luxo de ficar inerte. Assim que eu terminar meu banho, vamos nos aprontar para a apresentação da noite.

– Mas, Milo? Você acha apropriado fazer isso? O médico e o senhor Camus disseram que você devia descansar e beber bastante líquido.

– Faça o que eu disse, sim?

A expressão de Milo era forte, em nada lembrando a fragilidade de horas atrás. Shina estava confusa, atônita pela profusão de acontecimentos, todos no mesmo dia.

– Qualquer dia que vai ficar doente sou eu! – disse ela por fim.

O vidente esboçou um meio sorriso, pois sabia como sua amiga se sentia. Ele mesmo se via dividido ao meio em duas personalidades cuja paixão era o único elo em comum e cuja fatalidade parecia fazer parte do seu destino. Precisava agir e ajudar a acabar com tudo aquele mistério. Não seria, apenas um cordeiro para o sacrifício.

0000****0000****0000

Saori respirou aliviada ao colocar os pés, novamente, no chão do convento. Olhou para os lados e só ouviu o silêncio. Fez o sinal da cruz e tomou a direção do refeitório e quando se preparava para entrar, trombou com Laureen, uma freira baixa e carrancuda que buscava se tornar o braço direito da abadessa Hilda.

Recuperando-se do susto, cumprimentou a irmã com um sorriso. Porém, recebeu de volta uma falsa amabilidade mesclada com uma indagação.

– A abadessa perguntou por você. Onde esteve?

– Fui cuidar dos assuntos da Ordem.

– Você? Que eu saiba a abadessa não a nomeou procuradora e, se fosse verdade o que está dizendo, porque ela não sabia do seu paradeiro?

– Irmã Laureen, eu sei que, de nós todas, você é a mais útil e prestativa. Por isso mesmo, a abadessa a ocupa com assuntos mais importantes. Eu só fui verificar algumas questões sobre o orfanato. – mentiu Saori já pedindo perdão, mentalmente, a Deus por isso.

A freira franziu o cenho, mas não conteve um sorrisinho.

– Ainda bem que você notou. – disse ela. – Agora vá, a abadessa pediu que eu a chamasse e você sabe que ela detesta esperar.

– Obrigada, irmã Laureen! Não sei o que seria de nós sem a sua competência. – falou Saori se despedindo e, mais uma vez, pedindo perdão por mentir.

Quando Saori adentrou o quarto, Hilda franziu a testa e a olhou de cima a baixo.

– Onde esteve? – questionou ela.

– Eu?

– Não se faça de boba, Saori. Fale logo.

– B-Bem... eu... eu fui atrás de alguns filantropos que a madre Calvera havia indicado.

Os olhos frios de Hilda a perscrutaram de forma incisiva.

– Espero que tenha tido sucesso. Hoje esteve aqui a diretora do orfanato dizendo que esperam as doações para o inverno. Eu quero ir até lá.

– Eu trago boas notícias, reverenda madre. Um dos filantropos disse que fará uma generosa doação. Poderemos continuar ajudando o orfanato. – falou a noviça com entusiasmo.

– E quem é este filantropo?

– Hã... é um negociante que agora não me lembro o nome. Perdão, Senhor, por mais esta mentira.

– Pois bem, você irá me acompanhar ao orfanato.

– Eu? Mas e a irmã Laureen?

– Laureen é um pouco mais esperta que uma galinha. Ela me irrita com seus cacarejos e adulações. Não gosto de você, mas pelo menos é inteligente e capaz de manter uma conversa civilizada. Vamos.

Saori arregalou os imensos olhos violáceos com a sinceridade de Hilda. Não gosto de você, mas pelo menos é inteligente e capaz de manter uma conversa civilizada.

– Sim, senhora. – disse a noviça tendo de se apressar para acompanhar os passos elegantes e rápidos da abadessa.

O orfanato de St. Bridget era uma construção imensa, uma mansão vitoriana cuja imponência era diminuída pela má conservação da pintura de suas paredes escuras. No entanto, quando os portões de ferro eram abertos, a vivacidade das crianças era capaz de distrair o visitante de sua aparência. Ali viviam mais de cinquenta crianças com idade variando entre zero e doze anos. Grande parte delas havia sido deixada na Roda dos expostos, um mecanismo composto por cilindros giratórios com uma grande cavidade lateral que se colocavam junto às portarias dos conventos. Dali, as crianças rejeitadas eram encaminhadas para o orfanato e ali ficavam até a vida adulta.

Hilda entrou naquele lugar com um estranho aperto no peito. As crianças a olhavam com curiosidade e... amor. Quanto tempo não via um olhar, sinceramente afetuoso sobre si? E por que, mesmo agindo com rispidez e frieza, ainda assim aqueles pequenos seres se aproximavam tentando tocá-la?

Seja bem-vinda à nossa casa, reverenda madre! – disse a menina loira cujos olhos azuis e sobrancelhas cheias de falhas chamaram a atenção da abadessa de forma inquietante.

– Obrigada. – respondeu ela sentindo aumentar aquela ansiedade que quase a sufocara ao entrar no orfanato.

– Está se sentindo bem, reverenda madre? – perguntou Saori vendo que Hilda estava com a testa coberta de pequenas gotas de suor.

– Preciso de um copo de água. – respondeu ela.

– Venha comigo e se sente aqui. – falou a menina segurando a mão de Hilda e puxando-a para um banco em meio a um pequeno jardim de rosas e bétulas.

Avessa aos contatos físicos, Hilda se percebeu quase amolecendo ao sentir a mão pequena e delicada na sua, assim como o sorriso afetuoso que a menina lhe deu.

– Espere aqui! Vou lhe trazer água fresca. – disse ela e saiu.

Saori não entendia o que estava se passando com a abadessa, sempre tão fria e antipática. Observara o pequeno e quase imperceptível estremecimento dos lábios dela e também do olhar demorado sobre a menina que a recepcionara. Lívia tinha apenas dez anos, mas agia como uma adulta, sempre solícita e responsável. Quando crescesse, havia de se tornar uma excelente administradora.

– Essa menina, como se chama? – indagou Hilda.

– O nome dela é Lívia. – respondeu Saori.

O que está acontecendo comigo? Hilda se perguntava e não achava as respostas para tais sensações. Algo naquela menina penetrava na muralha emocional que erguera para si. Sentia nela uma alegria e vivacidade que tivera um dia e isso lhe era muito doloroso.

Lívia voltou com um copo em uma bandeja. Sorrindo, estendeu-o à abadessa.

– Tome, vai se sentir melhor. – disse a menina.

Hilda tentou sorrir e controlar o tremor na mão quando a estendeu para segurar o copo. Respirou fundo tentando resgatar seu centramento. Sorveu um gole de água e, sem querer, se viu sorrindo para a menina.

– Então... Lívia. Você me parece uma jovem muito inteligente e prestativa. – disse ela.

– Obrigada, reverenda madre. A abadessa Calvera me ensinou tudo o que sei. Soube o que aconteceu a ela e vou exigir justiça! – falou a menina com uma postura ereta e o nariz empinado.

A atitude da menina fez com que Hilda se visse ainda mais nela. A entonação de voz, a forma educada, porém forte com que agia. Lívia a lembrava de si mesma e também de como seria se o seu bebê tivesse sobrevivido...

– Eu lhe asseguro que vamos exigir todas as providências sobre este caso. – disse Hilda surpreendendo-se consigo por, realmente, desejar fazê-lo.

– Espero que sim! Já se sente melhor? Vou levá-la para conhecer as dependências do orfanato. – falou Lívia e Hilda se viu sendo levada pela mão pela menina, enquanto Saori suspirava um tanto aliviada.

0000****0000****0000

Kanon olhou, sem enxergar, para a bandeja com comida que lhe fora trazida no quarto. Uma refeição leve, constituída de duas fatias de pão, recém-feito, ovos, uma maçã cortada ao meio e uma xícara de café.

Ele mordiscou uma fatia de pão, comeu metade da maçã e bebeu o café. Não tinha fome, embora a febre já o tivesse deixado.

– Pode levar o resto, Julian. – disse ele ao mordomo.

– Tem certeza que não deseja comer mais um pouco, Sua Graça?

– Sim. Onde está meu irmão?

– O senhor Saga foi até a casa do tal vidente chamado Milo.

Com um suspiro, Kanon recostou-se na poltrona. Ainda estava cego e todas as noites tinha pesadelos. Precisava acabar com aquilo, mas sem o manto da rainha, nada poderia fazer. A maldição continuaria até matá-lo.

– Julian, ajude-me a vestir as roupas. Vou sair.

– Como? Sua Graça está convalescendo e...

– Estou cego. Eu sei! Desejo, apenas que me ponha em uma carruagem. Quero conhecer este vidente.

– Senhor, perdoe-me a intromissão, mas... não acho apropriado que revele a sua condição em público. Farão perguntas e o senhor ficará exposto aos mexericos.

– Não me importa. Estou cansado de ficar aqui, enquanto Saga tem de agir por mim!

– Se me permite, hoje chegou esta correspondência. – disse Julian colocando um envelope nas mãos de Kanon.

– O que é isso?

– Um convite com um selo secreto.

– Um selo secreto?

– Sim, não há nada que identifique a procedência. Se o senhor abri-lo, eu posso verificar do que se trata.

Kanon obedeceu, devolvendo o envelope para Julian. O mordomo retirou o convite e o leu:

Suas Graças, Saga e Kanon. Creio termos interesses em comum, particularmente no que se refere a relíquias de lugares distantes e exóticos. Este convite lhes dá acesso a um leilão particular, tendo a mim como leiloeiro. O primeiro artefato da noite será um belo manto egípcio cujo lance inicial será de três mil libras. Caso tenham interesse, estejam neste lugar, pontualmente à meia-noite do dia 22 deste mês. Atenciosamente, o Capitão.

– O-O manto! Esse homem roubou o manto que enviei do Egito para cá! – gritou Kanon.

– Então, acho melhor se preparar, Sua Graça.

Atônito, Kanon se levantou da poltrona, quase tropeçando nos próprios pés. Sentiu-se tonto e fraco.

– Me ajude, Julian... – disse ele.

O mordomo o amparou, levando-o de volta para a cama.

– Ainda não está, totalmente, restabelecido, senhor. Deite-se um pouco. – aconselhou Julian.

Kanon ouviu a voz do criado como um eco. Seus olhos ficaram pesados e ele os fechou, dormindo em seguida. O mordomo o cobriu com o lençol e deixou o quarto, tomando o cuidado de levar a xícara cujo café havia recebido uma pequena colher de láudano.

Bons sonhos, Sua Graça... Quanto mais frágil ficar, mais seu irmão estará disponível para elevar os lances do leilão. Pensou Julian, enquanto fechava a porta do quarto com um discreto sorriso nos lábios.

0000****0000****0000

Os imensos olhos verdes estavam brilhantes de expectativa, enquanto explorava a imensidão da Abadia. Shun aproveitava que Ikki estava fora a serviço do bispo Tatsumi e se imaginava um guerreiro desbravador. Em cada sombra projetada, ele realizava posturas de ataque como se elas fossem seus adversários. Resoluto, andou por entre os túmulos de reis até chegar a uma escada que levava ainda mais para baixo, precisamente ao sótão.

Sorriu travesso ao imaginar-se enfrentando o perigo e não hesitou em descer. A escada de madeira rangeu, então ele lembrou-se das lições sobre o andar silencioso do guerreiro. Seus passos se tornaram mais cautelosos e ele tocou na arma que carregava presa às costas como se esperasse encontrar o inimigo a qualquer momento.

Decepcionou-se ao verificar que o fim da escada dava para uma porta alta e comum de madeira simples. Deve ser um simples porão! Pensou o menino. Abriu-a sem dificuldade e a escuridão pareceu saltar de dentro como se fosse uma entidade viva. Sem se abalar, ele pegou a caixinha de fósforos que trouxera. Pegou um fósforo e riscou na parede, acendendo-o. Nas laterais das paredes havia tochas apagadas, prontas para serem acesas e ele o fez.

As tochas iluminaram um corredor amplo, cujas paredes eram de pedra e havia um forte cheiro de umidade. No entanto, quanto mais se aprofundava naquele lugar, mais estreito ficava o corredor até chegar à outra porta mais encorpada. Porta esta que exibia entalhes muito bem feitos de um homem pregado em uma cruz. Shun passou os dedos naquela imagem achando-a muito interessante e, enquanto fazia isso, alguém abriu a porta antes dele.

– Você?! – disse o menino ao ver a criatura gigantesca surgir que havia atacado na mansão de Hyoga.

A criatura mostrou-se mais assustada que Shun. Os olhos pequenos e avermelhados se arregalaram, enquanto ele dava um passo para trás.

– V-Você veio m-me machucar! – vociferou a criatura.

Ao contrário do esperado, mesmo estando consciente da arma as suas costas, Shun não se assustou com aquele homem grotesco que se encolhia como uma menina. Ele parecia muito assustado!

– Quem é você? – perguntou Shun.

– E-Eu? V-Você não vai m-me machucar?

– Se você não tentar fazer o mesmo comigo... não!

A criatura encarou Shun com estranheza, mas já não sentia tanto medo. Inesperadamente, os olhos dele não eram agressivos ou assustados como os da maioria que encontrara em sua vida. Ele mesmo já tinha machucado algumas pessoas depois que seu criador o abandonara, então sabia ler a agressividade inerente ao ser humano. Depois que o mestre o encontrara, dando-lhe abrigo e comida, ele reencontrara a sua natureza gentil. Em troca ele só tinha de vigiar pessoas más e manter-se incógnito.

– Você me machucou aquele dia... – reclamou ele.

– Desculpe, mas é que eu... bem, eu não estou acostumado com pessoas do seu tamanho escondidas na casa dos outros.

– É... eu sou feio mesmo. – falou a criatura rindo, como se aquilo fosse uma qualidade.

– Feio...? – falou Shun movendo a cabeça para olhar bem a criatura. – Eu diria... ameaçador, ao invés de feio.

– Ameaçador?

– É. Você parece com um kami.

– K-ka-mi?

– Sim, um deus da minha terra. Um kami pode ter várias formas, inclusive ser um gigante como você!

A criatura sorriu e Shun também. A estranha cena parecia surreal, porém ambos descobriram que tinham muito em comum. Tanto o menino, quanto a criatura, passavam muito tempo tendo que lidar com a solidão, o que oportunizou confidencias entre os dois que acabou por alertar o menino.

– Eu gosto de kami. Meu mestre ainda não me batizou, então eu posso escolher esse nome.

– Quem é o seu mestre?

– O bispo Tatsumi!

– E o que ele manda você fazer?

– Eu vigio pessoas más.

– Pessoas más? Como assim? Você estava vigiando a casa do senhor Hyoga e ele não é mau.

– O mestre disse que ele é. Disse que ele quer bancar o Deus e só existe um Deus. Disse que temos de impedir que ele continue com essa...essa blas-fê-mia.

Shun franziu o cenho e olhou em volta. Era um quarto que parecia pequeno visto as dimensões do corpo da criatura. Entretanto, tinha espaço para uma cama com criado mudo, uma mesa com uma cadeira e um baú.

– O seu mestre está errado! O senhor Hyoga só quer trazer a mãe dele de volta.

– O mestre disse que isso é pecado e que esse homem deve ser detido e punido.

– Vou contar tudo ao meu irmão quando ele voltar.

– N-Não! Por favor... não conte! Não quero que o mestre fique brabo comigo

O menino mordeu o lábio e então fitou a criatura.

– Está bem, eu mesmo aviso o senhor Hyoga. Seu mestre não vai saber.

O terror brilhou nos olhos pequenos da criatura.

– O mestre sempre sabe de tudo. É melhor você ir embora!

– Você está com medo?

– Vá embora. Se o mestre ordenar que eu o machuque, eu não poderei recusar. Por favor, eu não quero fazer isso.

– Está bem, eu vou.

Porém, quando Shun se preparou para deixar o quarto, sons de passos anunciaram que havia alguém no corredor.

– O mestre! – falou a criatura.

O menino olhou para cima encontrando um sistema de grossas vigas de madeira. Pegou a kusarigama e a lançou em uma das vigas. Em seguida, impulsionou o corpo com agilidade e graça, apoiando os pés na parede e caindo de pé sobre a viga central. Escondeu-se ali, aproveitando a fraca iluminação das velas e esperou.

Tatsumi entrou trazendo uma bandeja com comida e água. Ele parecia cansado, observou Shun do seu esconderijo. A criatura agradeceu, mas foi solicitado a rezar e fazer algo que o menino não entendia o que era, mas parecia ser bem doloroso. O bispo ordenara que ele colocasse um estranho anel, grande o suficiente para circundar a coxa musculosa.

– Ofereça seu sacrifício a Deus até, finalmente, tornar-se seu soldado! – falou Tatsumi.

A criatura obedeceu com uma expressão de dor. O sacrifício durara quase uma hora e Shun pensou que nem mesmo os treinamentos rigorosos de um samurai causavam tanta dor inútil. Sentiu pena da criatura, mas não podia se revelar. Aguentou firme até que, por fim, Tatsumi deixou o quarto. Então, desceu de onde estava e foi até a criatura que o olhou com uma expressão resignada.

– Por que ele faz isso com você? O que significa esse anel?

– O mestre chama de cilício e diz que é uma das chaves para se chegar ao paraíso.

Shun recolheu sua kusarigama com o cenho franzido. Tudo aquilo era muito estranho e sem sentido, para ele. No entanto, pensaria melhor sobre o assunto mais tarde. Sua prioridade, agora, era avisar o senhor Hyoga que ele corria perigo.

0000****0000****0000

Era uma noite de lua cheia e havia um clima festivo no ar. Haveria passeios no Kensington Garden onde os amantes aproveitariam para encaminhar jogos de sedução, mas também, o anúncio do famoso show de vidência havia atraído um público considerável no teatro perto dali.

Defteros andou pelo parque iluminados por lampiões dispostos, estrategicamente, criando um efeito romântico. Havia uma orquestra tocando e o som da música juntava-se aos risos e murmúrios dos casais que ali estavam. Suas narinas inflaram ao sentir o cheiro da pulsação do sangue, porém, o aroma específico ainda não se manifestara. A vítima para completar o círculo devia ser especial, uma inocência corrompida, mas ainda assim, uma mulher especial. A sede estava se tornando insuportável, porém ela só seria, plenamente saciada, se encontrasse a vítima certa, aquela cujo papel no círculo das mortes seria o de uma rainha...

– Humm... um cavalheiro como você andando sozinho. – disse uma voz feminina que fez Defteros voltar-se e ver uma jovem mascarada que lhe sorria sedutoramente.

Respirando profundamente, antes de responder, Defteros observou-a intensamente.

– Creio ser menos impertinente que uma dama desacompanhada.

A mulher riu suavemente.

– É divertido e... oportunizou que eu o conhecesse. – respondeu ela tocando-o no braço.

O padre recuou. Divertido não seria a palavra adequada quando ele se alimentasse dela. Pensou ele.

– Eu sou padre.

– E eu estou precisando confessar-me... – disse ela levando a mão para tocar os contornos fortes do rosto de Defteros com as pontas dos dedos.

Ele sorriu com ferocidade, o desejo de matar pulsando dentro de si. Ela não era a vítima que completaria o círculo, mas a sede... a sede estava obscurecendo sua missão. Matar era tão bom!

A jovem sorriu, também, sem desconfiar que a sua vida estava por um fio...

Enquanto isso, no London Palladium a lotação estava esgotada e Milo estava ainda mais belo e sensual como o famoso oráculo que Londres aprendera a idolatrar.

Quando as cortinas de veludo vermelho se afastaram, mais uma vez, revelando duas grandes tochas sendo acesas com um estrondo teatral, o público explodiu em aplausos ensurdecedores. Logo em seguida, Milo surgiu elevando os braços em uma saudação, o rosto ainda mais belo e sensual cujos olhos estavam destacados com o kajal à moda egípcia.

O magnetismo na forma de ele se mover e olhar ia prendendo a atração do público como se os hipnotizasse. O saiote especial plissado com cinto largo e dourado, deixando à mostra seu tórax nu e suas coxas torneadas excitava homens e mulheres arrecadando gritinhos histéricos e murmúrios. As sandálias douradas e os cabelos longos e loiros o faziam parecer um deus e quando ele sorriu, um certo ruivo na plateia sentiu o sangue ferver...

Camus estava furioso, mas somente os seus olhos expressavam o fulgor do descontentamento junto de um nervo pulsando no maxilar rígido. O que aquele louco estava fazendo? Depois de tudo o que passara, como podia estar ali fazendo aquele espetáculo?

O vidente olhou-o e Camus percebeu que era mesmo Milo no controle. A constatação o desconcertou, porém quando os seus olhos encontraram os do grego, uma imagem o fez sentir um arrepio na base da nuca.

Ele não sabia como, mas estava tendo uma visão e também sabia que ela estava sendo partilhada pelo vidente. A imagem de um homem vestindo um hábito negro em meio às árvores não lhe pareceu incomum até ver as presas crescendo e o sujeito bem próximo junto do pescoço alvo de uma jovem mulher.

A cena horrenda fez com que estancasse a respiração e, em seguida, deixasse o teatro para tentar salvar uma vida...

Notas finais
**♥**Um agradecimento carinhoso para todos que leem, comentam, favoritam, recomendam, silenciam. ***♥ ♥Bjs e até a próxima!!