AMALDIÇOADOS!
12 Rastros do passado...
Notas iniciais

– Você fez o quê?!
A voz transtornada de Aspros reverberava no subterrâneo da Abadia.
– Eu cedi ao chamado do sangue...
– Eu disse para ter cuidado! – disse Aspros elevando ainda mais a voz.
– Eu usei o portal.
– Isso só piora as coisas! Você sabe muito bem o que acontece cada vez que invocamos a escuridão!
– Eu tenho sede, Aspros! Eu não sou como você.
– E você acha que eu não tenho? Acha que é fácil? A diferença entre você e eu é que eu não perdi a fé.
– Fé? Fé?! — o som da gargalhada do gêmeo mais novo ecoou nas pedras frias e úmidas. Defteros abriu os braços, enquanto encarava o irmão com os olhos vermelhos e brilhantes.
– Nós estamos condenados, Aspros! Só você que não vê! Você se recusa a aceitar a realidade!
– E você vai por tudo a perder se continuar escravo dos seus desejos!
– Não fui eu quem ultrapassou os limites. Você desafiou o demônio e ambos pagamos o preço!
O peso da verdade dita fez Aspros abrigar-se em um silêncio cheio de culpa. Sim, fora ele quem tinha dado o passo em falso e os condenado àquela vida de horrores. Defteros avançava em direção à perdição e era culpa sua... Precisavam realizar o ritual na data certa e sob os augúrios favoráveis para, ao menos, libertar-se do jugo do demônio.
Uma batida à porta quebrou o silêncio de ambos.
– Sim? – falou Aspros.
– Sou eu, meu senhor. – respondeu Tatsumi.
O gêmeo mais velho suspirou e abriu a porta. O bispo entrou sem enxergar a verdadeira face dos dois padres. Para ele, os dois mantinham sua aparência humana e possuíam intenções nobres.
– Trouxe comida. E gostaria de saber se estão bem acomodados, aqui.
– Está tudo certo. – respondeu Aspros. – Alguma novidade?
– Londres está em polvorosa. Falam sobre uma criatura que apareceu ontem à noite no Kensington Garden.
– Criatura?
– Sim, primeiro um homem estranho que a polícia acredita ser o assassino serial que tem provocado todas essas mortes e depois uma espécie de lobo.
Aspros franziu o cenho, experimentando um leve tremor. Em seguida, olhou para o irmão que permanecia calado.
– Eles foram pegos? – perguntou ele, ainda fitando o irmão.
– Não. Mas, se os senhores me derem permissão, eu gostaria de procurá-los esta noite. – respondeu Tatsumi.
– Faça isso. – disse Aspros e o bispo sorriu, agradecido.
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Após deixar Aspros e Defteros, Tatsumi fez o sinal da cruz e continuou o seu caminho pelos subterrâneos da abadia. Ele desceu os degraus que o levavam a uma câmara secreta. Ali ele realizava o ritual de transformação para tornar-se um instrumento de Deus.
Um feixe de luz iluminou o vasto espaço margeado por sombras acinzentadas. Duas colunas salomônicas erguiam-se até o teto e, no centro entre as duas, jazia a Chave de Salomão. Seus olhos se ajustaram à semiescuridão e logo ele podia acender as velas dispostas que revelavam o símbolo de sua luta contra o mal.
Pacientemente, ele retirou suas vestes sacerdotais e colocou-se no centro da Chave pronunciando a invocação. A cada palavra, Tatsumi experimentava os estágios da transformação: primeiro a excitação, segundo a dor e terceiro, o poder.
Sua pele se tornou grossa e acinzentada e seu corpo adquiriu uma força extraordinária. Mas, a transformação completa só aconteceria quando ele deixasse a abadia e se deixasse abraçar pela escuridão da noite. Só então ele estaria apto a caçar, tornando-se um vingador a serviço de um bem maior.
As velas oscilaram quando o ar deslocado pelo corpo monstruoso se fez presente. Já não era o bispo quem estava ali e sim uma gárgula cujo instinto visava destruir todo aquele que não se curvava ao poder divino...
Enquanto isso, próximo do alojamento onde Ikki e Shun ficavam, Hyoga esperava a presença do bispo. Shun permanecia ao seu lado e se mostrava calmo e resignado.
– Não está cansado? – perguntou Hyoga.
– Um pouco. – respondeu o menino.
– Você parece tão tranquilo. Você e seu irmão são muito diferentes.
– Ikki tem muitas responsabilidades como irmão mais velho. Quando tivemos de deixar o Japão ele...
– Senhor Hyoga?
A pergunta feita pela voz grave do samurai mais velho chamou a atenção dos dois, interrompendo as revelações que Shun começava a fazer.
– Ikki! – disse o menino com entusiasmo.
Hyoga sentiu-se estremecer por dentro, mas não demonstrou. Exibiu seu sorriso frio e polido, enfrentando os olhos profundos e inquisidores do samurai que mexia consigo.
– Creio que não precisamos manter essa formalidade entre nós, não é mesmo? — falou o jovem.
Ikki franziu o cenho.
– O que o traz aqui?
– Vim ver o bispo, mas ele saiu e não voltou até agora. Ainda bem que encontrei o Shun e ele me fez companhia.
– Onde você foi Ikki? – perguntou Shun.
– Fui buscar vinho para o Bispo.
Foi a vez de Hyoga elevar uma sobrancelha.
– Sei que não aprova o meu projeto, mas... eu teria aproveitado seus talentos de outras formas. Jamais o rebaixaria a esse tipo de atividade.
– Eu ajudo no que for necessário. Todo o trabalho é digno. — respondeu Ikki tentando parecer indiferente.
– Bem, pelo visto minha conversa com o bispo terá de ser em outra hora. Se você permitir, eu gostaria de levar o Shun para um passeio na cidade. O dia se foi e a noite está agradável. Haverá um teatro de marionetes, pelo que eu soube e creio que este jovenzinho precisa de um pouco de diversão, após passar o dia trancado neste lugar.
– Ikki, por favor, deixe! – falou Shun.
– Eu não acho...
– Venha também. Vocês dois precisam conhecer a diversão em Londres. É para o seu próprio bem.
Os imensos olhos verdes do menino se fixaram nos olhos inquisidores do irmão com uma súplica muda. Por favor! Por favor!
– Está bem, mas preciso trocar de roupa. – disse o samurai e foi recompensado com um sorriso largo do irmão menor.
Hyoga também sorriu, não achava que seria tão fácil convencer o samurai. Incomodava-o não ter conseguido confrontar Tatsumi, mas, ao mesmo tempo, sentia-se alegre por estar com Ikki e Shun, novamente. O bispo podia esperar...
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Hilda não imaginara que aquela descoberta faria uma revolução tão devastadora dentro de si. Tinha uma filha! Uma menina linda e inteligente que acreditava ser órfã e jazia naquele orfanato desde os primeiros dias de sua vida.
Ali, na pequena capela construída em estilo romano, com pilares fortes e assentos de pedra, ela olhava para o santuário acesso com uma postura muito diferente do que tivera, até então.
Havia momentos em que sorria sozinha ao lembrar-se do rosto infantil e das mãozinhas tocando-a quando havia experimentado uma vertigem. Porém, em momentos como agora experimentava uma dor e uma raiva muito grandes. Como reverter algo daquele porte? Os votos que fizera, mesmo sem ter nenhuma vocação, o toque dos sinos das catedrais, a rotina rígida... Todo aquele conjunto infernal a protegera do mundo sombrio que se tornara a sua existência, mas a que preço?
– Com licença... – disse Saori ao entrar na pequena capela.
Um suspiro profundo foi a resposta e a noviça se aproximou, sentando no banco ao lado de sua superiora.
– Eu não sei o que aconteceu com a senhora, mas gostaria que soubesse que estou do seu lado.
Hilda permaneceu imóvel. Queria dizer algo, mas não conseguia. Nem mesmo o seu sarcasmo parecia estar a sua disposição. Entretanto, quando Saori tocou a sua mão, seus olhos se encheram de lágrimas.
A noviça percebeu a tensão no corpo de Hilda e, pela primeira vez, percebeu que a razão de tanta frieza e amargura residia em uma dor profunda jamais confessada. Quando a conhecera, seu medo foi que ela pusesse a perder tudo o que fora construído pela abadessa Calvera, pois sentia que Hilda não possuía compaixão e nem mesmo vocação para ser uma religiosa. Agora ela desejava saber mais e compreender o motivo que levara assumir uma vida que não era para ser a sua.
– Sei que não gosta de mim, como já disse várias vezes. Mas, somos mulheres e eu sinto que precisa de alguém para compartilhar a sua dor. Permita-me ajudá-la.
Com os olhos marejados, Hilda colocou a mão sobre a de Saori e falou:
– Você não pode me ajudar. Ninguém pode. Então, faça-me um favor, já que é tão prestativa. Deixe-me sozinha.
Com a mente fervilhando, Saori não se deixou convencer e foi unindo os fatos, as atitudes e a semelhança! Lívia e Hilda tinham uma semelhança impressionante, não só fisicamente, como nas maneiras.
– Lívia é sua filha... – deixou escapar a noviça como se tivesse experimentado uma visão mística.
– O que disse?
– A menina... ela bem poderia ser sua filha. Vocês duas se parecem e a senhora passou mal quando...
– Saia!
– Perdão, mas...
– Saia!
A noviça obedeceu sem dizer mais nenhuma palavra. Antes de deixar a capela, olhou para a imagem no vitral que exibia a imagem de São Francisco de Assis. Fez o sinal da cruz junto da genuflexão e então saiu sem olhar para trás. Então esse era o grande segredo que se revelara de forma inusitada!
Assim que chegou ao corredor, Saori encontrou a irmã Elisabeth que a interpelou falando baixinho:
– Irmã Saori, isso chegou hoje e é para você.
– Para mim? – perguntou ela pegando o envelope lacrado.
– Sim e o garoto que o entregou disse que era urgente.
A noviça agradeceu e foi até o pequeno pomar. Após sentar-se entre as árvores, ela abriu o envelope e retirou uma carta. O papel semelhante a um papiro egípcio trazia uma mensagem sem assinatura, mas ela sabia que era do Capitão.
Encontre-me às 23hs, St Hellen, 54.Entre pela porta lateral.
Saori apertou o lábio inferior com os dentes e a imagem de Seiya lhe veio à mente, mas não o colocaria mais em outra situação deste tipo. Entretanto, pensou que tinha em suas mãos a chance de melhorar as coisas no convento e não podia recuar.
Hilda permaneceu na capela, os olhos pregados na imagem de Maria com o menino Jesus.
– A senhora é mãe e conhece a dor... Sei que não sou digna, mas, por favor, me ajude. – disse ela e pela primeira vez se deu conta que suas palavras eram sinceras.
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– Você está muito calado nas últimas horas, Camus...
O ruivo virou-se de onde estivera olhando para o lado de fora da janela da carruagem, observando as sombras da noite.
– Perdão, estava relembrando a cena no parque.
A observação de Milo em relação ao seu silêncio tinha sido certeira. O acontecido se repetia em sua mente muitas e muitas vezes... Sua memória vasculhava cada detalhe da cena inusitada. De repente, ele olhou para o vidente que o observava com uma expressão interrogativa.
– O que foi, lembrou-se de algo importante? – questionou Milo.
– A arma... O sujeito lançou uma arma na direção do animal e ela sumiu na escuridão!
– Então ela ainda deve estar lá. – disse Milo.
Camus sorriu de leve.
– Tem toda a razão! Tenho de voltar.
–Agora?
– Os lampiões ainda devem estar acesos e eu posso usar uma lamparina. Melhor agora que o parque está vazio.
– Vazio em termos... O Kensington Garden nunca fica, totalmente, abandonado. — disse o vidente.
Camus elevou uma sobrancelha.
– Venha comigo.
A travessura estampou-se nas feições belas do vidente.
– Terei um prazer imenso em acompanhá-lo.
A alegria nos olhos de Milo fez Camus experimentar uma sensação nova, um bem-estar raro para si.
– No caminho vou pegar Seiya para nos ajudar.
– Está com medo de ficar sozinho comigo?- provocou Milo.
Os olhos de Camus se estreitaram.
– E porque eu teria medo?
– Ora, Camus... Todos sabem que Kensington Garden é o lugar preferido dos amantes e... Bem, indo até lá há essa hora, arriscaremos encontrar um clima propício ao amor. – respondeu Milo de forma provocante.
Ao contrário do esperado, Camus sorriu.
– Eu não temo o amor, meu caro Milo.
– Não? Então teme a mim! Que ótimo saber disso.
O ruivo encarou-o de modo desafiador. Milo aceitou o desafio e se aproximou dele, algo que vinha evitando até então. Os dois continuaram aquela disputa de olhares, até Camus se deter nos lábios fartos do vidente. Você não deve! Não faça isso! Ouviu sua mente gritar.
Milo não facilitou e deixou que seus lábios pairassem sobre os de Camus, estabelecendo o forte magnetismo que os levava de encontro um ao outro. Afaste-se dele! Não permita que... E então, quando o ruivo fez que ia se afastar, Milo abriu-lhe ao lábios com a língua e o beijou. O beijo foi uma mistura de sentimentos não ditos e paixão profunda, até ambos se afastarem um do outro com o corpo pedindo mais...
– Não devemos fazer isso... – disse Camus e o tom da sua voz parecia sugerir o contrário.
– Eu sei, mas... não me contive. – falou Milo mordendo o lábio inferior.
– Você tem lábios tentadores. Deixe-os afastados de mim, Milo. – o suspiro que se seguiu à frase deixando claro que era preciso fazer um supremo esforço para não cair em tentação e, consequentemente, despertar a entidade divina em si. – Não quero e não vou permitir que seja machucado.
– Camus...
Aproximando-se do ruivo, Milo ignorou a advertência e puxou-o para si beijando-o novamente com uma paixão que incendiou o sangue de Camus e trouxe um calor que se propagou pelos corpos com uma intensidade atroz. Os lábios do francês se abriram e a língua de Milo tocou a sua com luxúria e desespero. A respiração dos dois tornou-se mais rápida, cada parte do corpo de ambos ansiando por libertar-se das amarras, de sentir, apenas, o estremecer prazeroso da intimidade... Os olhos azuis de Milo estavam escurecidos de desejo e os de Camus estavam iguais.
– Basta... – disse Camus se afastando, o esforço hercúleo estampado do rosto alvo.
– Eu posso conter Imnotep por um tempo. – falou Milo.
– Sinto não poder dizer o mesmo.
– Aquele dia, na sua casa... Nós dois pudemos ficar juntos.
– Eu sei. O pentagrama desenhado no piso impede a entrada de magia.
– Então, porque nós não...
Camus interrompeu a fala de Milo colocando o dedo naqueles lábios tentadores.
– Quanto mais nos envolvermos, mais estaremos à mercê destas duas entidades, entende?
– Imnotep apareceu para mim e disse que temos que ficar juntos. A frase exata foi: As areias se juntam à neve... Fogo e gelo, unidos na espiral do tempo. A força dos opostos precisa de um vínculo, algo único e indissolúvel. Só assim, o demônio será aprisionado, novamente, e a vingança será completada!
Camus fitou Milo bem dentro dos olhos.
– Nós precisamos encontrar um modo de romper esse elo. Loki deseja Imnotep e vice-versa. Esse enigma pode ser um ardil, uma forma de nos levar a crer que um vínculo entre nós solucionará tudo.
– Posso fazer uma pergunta? – disse Milo.
– Sim, qual é? – respondeu Camus.
– Você sente algo por mim, além dessa loucura que se instaura quando nos tocamos?
A pergunta pegou o ruivo desprevenido. Era certo que a atração e o magnetismo que os envolvia era fortemente erótico. Entretanto, havia uma sensação interna que parecia colocá-lo na beira de um precipício, cada vez que encarava aqueles olhos profundos. Não era luxúria, era muito além... Mas ele não saberia colocar em palavras românticas ou atos de ternura e sim, apenas em uma afirmação direta e verdadeira.
– Sim, Milo, eu sinto e é por isso que pretendo por um fim nessa história e ficar livre. Livre para desfrutar da sua companhia como eu desejo e como eu acho que deve ser.
O grego sorriu.
– Então vamos, meu caro ruivo. Porque quando tudo isso terminar, eu quero você inteiro para mim.
Camus sorriu se sentindo leve. Milo compreendia e expressava de forma franca e alegre tudo o que lhe vinha à cabeça. Mesmo que parecesse pouco, essa intimidade natural era para si de um significado e força inestimáveis.
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Já estava bem escuro quando Saori chegou ao endereço que lhe fora dado. Ela inspirou fundo e olhou para a sua companhia, sorrindo.
– É aqui! Fico feliz por ter aceitado vir comigo.
Hilda franziu o cenho. Mesmo depois de ter sido ríspida com a noviça, ela voltara como uma resposta às suas orações e a convidara para conhecer o benfeitor que ajudava Calvera. Aquela menina não desistia nunca! Porém, contraditoriamente, ela se sentia feliz por Saori não ter desistido e também pela sensibilidade dela em não tocar mais naquele assunto.
– Essa hospedaria não me parece ser muito respeitável. – disse a abadessa.
– Nós vamos entrar por uma porta lateral. – falou Saori com uma pontinha de entusiasmo na voz.
A abadessa olhou-a e sentiu sua consciência acusá-la. Desde quando se tornara tão amarga ao ponto de perder a vivacidade e a crença em um bem maior? Aquela jovem, apesar de ter sido maltratada por ela, ainda a olhava com otimismo e compaixão. Saori tinha uma vocação nata para a vida religiosa. Apesar da pouca idade, ela era uma verdadeira abadessa em espírito e atitudes.
– Então vamos! – disse Hilda.
Ouvia-se uma cantoria vinda da taverna, assim como vozes altas e outras quase sussurradas. Um homem negro as recebeu com um sorriso franco e simpático, assim que a porta se abriu. Ele não era alto, mas tinha um porte forte, parecendo um lutador. No entanto, não havia nada de agressivo nele e Saori relaxou.
– Boa noite. – disse ela mostrando o selo da carta que recebera.
– Boa noite, sou Raphael. Por favor, irmãs, me acompanhem. – disse ele num tom gentil.
As duas se olharam e, em seguida, obedeceram. Num ato instintivo, Saori tomou a mão de Hilda na sua e a apertou num gesto de cumplicidade. A abadessa deu um meio sorriso e devolveu o gesto, algo inédito para si.
Andaram por um corredor iluminado com lamparinas, até chegar a uma escada alta que as levou a outra porta. Raphael bateu duas vezes e então abriu a porta, revelando um cômodo simples, contendo uma poltrona junto de uma mesa escura, ambas iluminadas por uma lamparina.
Saori espiou e não viu ninguém. Sua expressão foi tão explícita que Raphael sorriu.
– Há outra pequena sala, atrás daquela cortina. O Capitão está dando as últimas instruções aos seus homens e já virá recebê-las.
Hilda franziu o cenho.
– O senhor conhece bem esse... Capitão? – perguntou a abadessa.
– Sim, irmã. Posso dizer que devo a ele a minha vida.
Ambas as religiosas fitaram-no com vivo interesse. Porém, antes que alguma delas comentasse algo, uma voz grave se fez ouvir no ambiente.
– Tolice, Raphael. Você está exagerando...
Hilda estava de costas e sentiu-se gelar ao escutar aquela voz. Para ela o tempo parou, apesar de ouvir as vozes longínquas e os sons de um lugar que nada tinha de silencioso. Seu coração também pareceu parar e ela temeu se mexer, porque não tinha mais controle sobre o seu corpo sob as vestes de religiosa. Não pode ser! Essa voz...
– Bem, vou deixá-los às sós. – respondeu o homem.
– Capitão... Eu tomei a liberdade de trazer a nova abadessa, espero que não se importe. – disse Saori se virando com um sorriso.
Poseidon estudou o perfil da religiosa que permanecia de costas.
– Abadessa...?
– Abadessa Hilda. – disse Saori, enquanto Hilda virava e os dois se encaram com os olhos arregalados e repetindo o nome um do outro.
Por alguns segundos, o clima pesou e Saori ficou confusa.
– Hã... vocês dois se conhecem?
Nem Hilda, nem Poseidon responderam à pergunta. Seus olhares estavam conectados, envoltos em uma bruma de nostalgia e surpresa. A abadessa entreabriu os lábios, era difícil acreditar em seus olhos. Deus Todo Poderoso...
Poseidon engoliu em seco, porém as adversidades pelas quais passara o faziam absorver os golpes e se refazer. Pensara tanto nela e ali estava ela, a mulher que nunca saíra do seu coração!
– Hilda... sinceramente, eu jamais esperava...
– Me ver, eu sei. Nem eu acredito nesta coincidência inusitada. – disse ela com os lábios trêmulos.
– Você se tornou uma religiosa e eu... Um ladrão refinado. Pensou ele, enquanto não sabia como apresentar-se.
Saori sentiu-se sobrando, naquele momento. Ela pigarreou e fez menção de deixar o aposento.
– Vou esperar lá fora.
Novamente o silêncio. Hilda e Poseidon só tinham olhos um para o outro. Então, o homem conhecido como o Capitão estendeu as mãos enluvadas.
– Venha, sente-se aqui. – disse ele tomando as mãos trêmulas de Hilda nas suas e levando-a até uma cadeira.
– Obrigada. Eu jamais esperava que você fosse o benfeitor do convento.
– E eu nunca esperava que você tivesse se tornado uma religiosa. Pensei que seu pai a casaria, assim que me expulsou.
Hilda olhou com ternura e tristeza para o rosto de Poseidon. Ele continuava belo, apesar das pequenas rugas de expressão na área dos olhos. Seu porte continuava altivo e dava para notar que seu corpo esguio era forte e saudável, apesar das mãos cobertas. Ela soubera o que seu pai mandara fazer e se perguntara, tantas vezes, como Poseidon resistira ao ato cruel.
– Eu me recusei a obedecê-lo, então fiquei doente e ele me confinou no convento.
Poseidon se deteve no rosto austero de Hilda. Ela sempre fora doce, cheia de vida e inteligente. Era difícil vê-la com aquelas vestes escuras e uma expressão amarga.
– Ele fez isso depois... que você perdeu o bebê?
A menção ao assunto da criança fez Hilda deixar cair as lágrimas que lhe queimavam os olhos. Ela soluçou e Poseidon tomou-a nos braços e encostou o queixo no véu que lhe cobria a cabeça. Ele fechou os olhos e sentiu o calor do corpo de Hilda... Ah, Deus... Como sentira falta dela...
– Poseidon... O bebê...
– Eu sei, meu amor. Eu sei... Mas, não foi culpa sua.
– Você não entende... Eu não perdi a criança. Minha mãe mentiu dizendo que ela nasceu morta! Mas a verdade é que nós temos uma filha e ela foi colocada em um orfanato.
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Lençóis brancos e perfumados, travesseiros de plumas... Afrodite sentia-se quase da realeza, ali. Um fogo vivo ardia em uma lareira imprimindo um delicioso calor ao ambiente. O aposento era mobiliado com sobriedade e elegância. As paredes tinham um tom azul-claro e as cortinas na janela um tom dourado escuro.
Olhou para o curativo em seu braço e a lembrança do olhar e toque preciso do médico voltou com força. Shura era um belo homem e possuía um caráter irrepreensível. Era possível saber, apenas pelo cheiro que ele exalava. Um cheiro primitivo que mostrava sua índole guerreira e jazia sob o verniz civilizado da profissão escolhida. Sentiu-se culpado por tal pensamento. Era apenas uma fraqueza momentânea, um reflexo dos longos séculos em que permanecera sozinho, apenas com as lembranças de um tempo feliz e cheio de amor...
Uma batida na porta e Shina adentrou o quarto com uma bandeja nas mãos.
– Trouxe vinho e algo para comer. O senhor deve estar com fome.
Afrodite sorriu.
– Sua gentileza me comove. Eu não desejo incomodar.
– Ah, não é sempre que temos a honra de hospedar alguém famoso e que entenda do mundo da arte. – disse Shina colocando a bandeja sobre uma pequena mesa.
– Olhei pela janela e vi crianças no pátio. São filhos do senhor Milo?
– Ah, não! Milo usa parte da mansão para abrigar órfãos.
– Sério? Além de vidente ele é um filantropo, então...
– Milo acha que deve ajudar os outros. Ele tem um coração enorme.
– E a senhorita o ajuda nesta missão.
– Sim, eu e Milo dividimos a mesma opinião. A sociedade pode ser cruel com os menos afortunados.
– É verdade. Mas, mesmo assim, são poucos que se importam. Agradeço a honra de poder conviver com pessoas que pensam desta forma. – disse Afrodite.
Shina sorriu e encarou aquele homem lindo. Os cabelos loiros e sedosos revelando uma estrutura óssea impecável, com uma simetria que acentuava as sobrancelhas finas e arqueadas. Os olhos semiencobertos por pálpebras espessas e de um curioso tom de azul que parecia transpassar-lhe a alma... Ele parecia ser da realeza, um príncipe estrangeiro em Londres!
Afrodite serviu-se de uma taça de vinho e sua mente divagou...
Sim, ele, mais que ninguém, sabia como a sociedade podia ser cruel, não importando o lugar. Hipocrisia, traição e descaso era o legado sombrio de toda e qualquer civilização. Já vivera tanto quanto sua raça permitia. E nesta jornada experimentara o melhor e o pior do ser humano. Esperava cumprir o que era esperado dele e então repousar em paz...
– Se precisar de mais alguma coisa, pode pedir. Vou deixá-lo descansar. – disse Shina e Afrodite forçou um sorriso.
– Obrigado. – disse ele.
Assim que a jovem o deixou sozinho, Afrodite se deitou na cama larga e preparou-se para mais uma noite insone. As lembranças vieram como uma visita indesejada...
As areias do tempo... Grãos dourados refletidos pela graça de Rá, o deus Sol, símbolo da vida e da morte. A cortina sedosa vinha lembrá-lo que seu clã nascera diferente dos habitantes do deserto e forjado, em essência, para o combate.
Como fiéis e orgulhosos descendentes do Senhor da Necrópole, Anúbis, o deus chacal, os Vilkas herdaram uma vida longa e se dispuseram a servir e proteger, andando de dia com Rá em forma humana e nas noites de lua cheia com Khonsu em forma de lobo.
Quando os demônios sanguinários profanaram a Necrópole, eles foram convocados e os caçaram. Anúbis lhes infringiu poder renovado, resistência além do imaginável e o controle do poder de transformação.
A derrota dos demônios trouxera a paz, porém os humanos em sua ambição e prepotência compactuaram com eles ao longo dos séculos e os deixaram retornar. Logo, os templos foram profanados e a magia de proteção rompida. Com isso, os demônios se tornaram ativos, novamente, trazendo o caos e a morte.
Foi então, que seu companheiro, o destemido Máscara da Morte foi o escolhido para liderar um ataque contra os demônios. Ele era um guerreiro formidável, um Vilka capaz de lutar em sua forma de lobo ou humana com igual ferocidade.
No entanto, nem mesmo Máscara da Morte pode escapar da traição vil do Vizir. Após condenar a rainha Tiy injustamente, ele se aliara aos demônios e invocara Seth, o deus do caos para que abrisse o Portal Escuro, berço de Apófis, onde poderia transitar na escuridão da noite e evitar que o faraó inaugurasse o culto a Aton.
Com o abalo do sistema politeísta, o Egito experimentou o período mais sombrio de intrigas, magia negra e execuções. Os Vilkas foram chamados para lutar e apaziguar, sem desconfiar das intenções pérfidas dos sacerdotes comprados pelo Vizir.
A batalha fora um ardil, um meio de exterminar aqueles que jamais se curvariam ao pérfido Vizir. Os Vilkas experimentaram a derrota e a dor.
Ao dar-se conta da traição, Máscara da Morte foi possuído pela ira, arrancando cabeças num frenesi de violência e loucura. Já não distinguia amigos dos inimigos, tomado pela fúria cega de Sekhmet, outra ação vil daquele que os traíra e que conjurara o encantamento que enlouquecera o líder dos Vilkas.
Ainda lembrava com uma tristeza profunda o olhar que ele lhe lançou. Ele não conseguia parar, precisava ser detido. E deter Máscara da Morte significava... matá-lo.
“Obrigado” dissera ele, quando o mordera na jugular, não como um demônio de sangue, mas como o lobo ceifador. O sangue jorrou em sua boca, o gosto metálico para sempre gravado em sua memória... As lágrimas de agradecimento e por fim, a morte.
Uma coruja piou na noite e Afrodite se permitiu interromper suas lembranças. Levantou-se da cama, abriu a janela e fitou as estrelas na escuridão da noite. A dor arrefecera com o tempo, mas a promessa feita, ainda precisava ser cumprida.
– Eu juro que não partirei desta vida sem vingá-lo, meu amado. O demônio está aqui e eu vou encontrá-lo, novamente. Na próxima vez, não vou falhar. Eu vou matá-lo e me certificar que não haverá nenhum outro como ele.
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