AMALDIÇOADOS!

11 O círculo se fecha


Notas iniciais
**♥** Olá, galera amada do bem!!! Mais um capítulo. Espero que se divirtam! Obrigada aos leitores que comentam. **♥** Bjs e que a semana que termina seja muito abençoada para todos!! XD

Defteros exultou ao sentir o pulsar da carótida sob o delicado pescoço feminino. A jovem estava seduzida, pronta para uma entrega que seria muito diferente do que esperava, mas o magnetismo demoníaco a impedia de pensar com clareza, ela apenas sentia e desejava o que seria a sua morte disfarçada em prazer...

O padre inspirou, sentindo a antecipação do ato a executar... Sangue! O mais puro néctar da vida... Posso sentir o gosto em meus lábios, mesmo antes de prová-lo!

Com o coração disparado e a excitação tornando seus seios intumescidos, a jovem foi tomada por uma languidez, enquanto se apoiava no corpo forte e esguio de Defteros...

A cena que se seguiu foi tão rápida, quanto inusitada. Ao mesmo tempo em que as presas se alongavam, prontas para cravar a carne macia, um imenso lobo surgiu em meio às árvores e saltou sobre Defteros desequilibrando-o e derrubando a jovem junto a ele. Neste exato instante, Camus apareceu correndo se deparando com gritos apavorados, gente dividida entre assistir e fugir e um animal belamente estranho, uma espécie de lobo cujo pelo era longo, branco como a neve e ondulava sob a brisa noturna.

Por rápidos segundos, o olhar da criatura encontrou o de Camus e, mesmo que fosse um animal exótico, o ruivo vislumbrou uma expressão humana naqueles olhos azuis translúcidos e ferozes.

Com o ataque inesperado, as pupilas de Defteros dilataram, tornando-se dois pequenos orbes vermelhos, porém ele nunca estava desprevenido. Antes de tornar-se um amaldiçoado ele fora um guerreiro, um dos mais ferozes templários a serviço da Ordem. Dentro da sua atual condição tivera que adaptar-se, mas nem isso o tornava menos mortal. Sacou de uma lâmina em formato de meia lua que carregava junto ao corpo movendo-a com precisão e afastando a criatura. Um chumaço de pelos alvos dançou no ar e o lobo exibiu as presas longas, rosnando ameaçadoramente.

Camus foi até a jovem que estava aterrorizada vendo que ela só estava com pequenas escoriações devido à queda. Então se voltou para a luta que continuava sob o olhar atônito de casais curiosos. O lobo exibia movimentos estudados e havia algo bizarro na forma com que ele o fazia, enquanto Defteros desferia golpes precisos que mantinha o animal longe de si.

A polícia chegou com seus bastões de madeira para conter o tumulto o que causou ainda maior comoção. Apenas o inspetor Dohko tinha permissão para portar uma pistola e foi ele quem gritou a ordem:

– Aqui é a polícia! Parem!

Entre rápidas passagens de nuvens que ocultavam a lua clara, Defteros pensou rápido, precisava sair dali. Então lançou sua lâmina na direção do lobo, enquanto se agachava murmurando algo em latim:

– Portais noctis, inferior mundos aperta et hide nunc (Portais da noite, mundos inferiores, abrir e ocultar, agora!)

Embora fosse quase um murmúrio, Camus compreendeu o que ele dizia e presenciou o seu desaparecimento como por encanto. Os presentes e a polícia ficaram boquiabertos e, enquanto isso, o lobo virou-se tão rápido quanto o padre e disparou em meio às árvores deixando um pequeno rastro de sangue.

– Deus! O que aconteceu aqui? – perguntou-se Dohko em voz alta.

Ninguém sabia responder, nem sequer tecer alguma teoria sobre o caso. Camus era o único que estava familiarizado com aqueles acontecimentos inexplicáveis pela lógica. Mas, ainda assim, ele tentava estabelecer conexões lógicas dentro daquele cenário sobrenatural.

– Muitas coisas estão acontecendo, ao mesmo tempo, inspetor. Algumas, por enquanto, são inexplicáveis.

– O que eu acabei de presenciar... Deus, o que era aquilo?

– Um animal de grande porte e o assassino, creio eu.

– O assassino? Tem certeza?

Camus inspirou, depois olhou para Dohko com uma interrogação dentro de si. Poderia partilhar tudo com aquele homem ou era melhor guardar para si aquele mundo desconhecido e perigoso?

– Só posso afirmar o que eu vi. Eu havia deixado o teatro e resolvi dar uma caminhada no parque, quando, enfim, aconteceu de me deparar com esta cena.

Dohko nada disse. Levou a mão ao queixo e, em seguida, guardou a pistola que ainda empunhava. Olhou para Camus e então falou:

– Creio que precisaremos tomar algumas medidas específicas, daqui para frente.

– E quais seriam? – indagou o ruivo.

– Primeiro, vou pedir ajuda à Scotland Yard e, em seguida, voltar a consultar o senhor Milo. Creio que ele poderá lançar alguma luz sobre tudo isso.

Camus quis protestar, mas permaneceu sob controle. Milo não era frágil e possuía mesmo um grau de vidência. Se alguém tinha passagem livre em questões sobrenaturais, esse alguém era o grego.

– Posso fazer contato com ele, agora, se isso ajudar. Ele está se apresentando no teatro. – falou Camus.

– Faça isso. Agora, se me dá licença, tenho que interrogar aquela jovem. – falou Dohko olhando na direção da mulher que fora amparada por seus guardas.

– Boa noite, inspetor. Retornarei ao senhor pela manhã.

Os dois se separaram em meio ao público que ainda comentava sobre o horror que haviam presenciado. O parque foi esvaziando, enquanto o teatro continuava lotado mesmo após a apresentação. Muitos esperavam a chance de ao menos tocar em Milo que passava pelo amplo corredor. Saga era um dos espectadores mais ansiosos. Havia ido à casa do vidente, mas fora informado pelo criado que ele não havia se sentido bem. Então decidira não incomodá-lo, porém ao saber que haveria espetáculo, postou-se na primeira fila e esperava uma chance de falar com ele.

– Senhor Milo! – falou o duque num tom de voz alto.

O vidente olhou-o e sussurrou.

Sua Graça... Seu irmão já se encontra em Londres e vejo que requer cuidados. Ele precisa recuperar um tesouro valioso para que a sua saúde seja restabelecida. Atenda o convite que recebeu...

Saga franziu o cenho. Convite? Não recebi nenhum convite, hoje.

– Volte para casa. – completou Milo, enquanto continuava a caminhar pela plateia.

Ao andar mais, o vidente deparou-se com Camus. O olhar sério do ruivo evidenciava que ele o estava criticando por estar ali. Entretanto, Milo tinha certeza que estava, exatamente, onde devia.

– Precisamos conversar, ainda esta noite... – murmurou o vidente.

– Também preciso falar com você. O encontrarei após o espetáculo. – respondeu Camus.

Um meio sorriso brincou nos lábios do grego e ele continuou a percorrer a plateia até sentir um formigamento na nuca e reparar em um homem muito belo que estava sozinho em um camarote lateral. Pela aparência ele parecia ser um nobre, mas dava para perceber que ele estava ligeiramente ofegante e o encarava como se o conhecesse.

Milo olhou para Shina que permanecia atenta e cuidando de cada detalhe do espetáculo como sempre. Fez um movimento de cabeça alertando-a para aquela presença fora dos padrões usuais de suas apresentações e ela assentiu indo discretamente até lá.

– Senhor? Por favor, perdoe-me, mas é que ninguém costuma ficar aqui em cima e...

– Eu é que peço perdão, acabei de chegar, sofri alguns percalços e estou um pouco cansado. Na realidade, eu também me apresentarei aqui, por isso estou observando de cima. Quero ter uma ideia do espaço e do público. – falou o homem cuja face bela e delicada deixaria metade do público feminino de Londres com inveja.

– O senhor vai se apresentar aqui? Também é vidente?

Os lábios rosados e cheios se abriram em um sorriso encantador.

– Não, senhorita. Chamo-me Afrodite Christoffer Vargen e sou ilusionista. Fui aluno do grande mágico Jean Eugène Robert-Houdin.

– Oh! – disse Shina levando a mão à boca.

– Bem, não desejo atrapalhar. Ainda preciso ver um hotel para me hospedar. – disse ele olhando bem dentro dos olhos verdes de Shina.

Por alguns segundos, Shina viu-se presa àquele olhar cristalino cujo azul se igualava a uma pedra preciosa. Mesmo sem conhecê-lo, ela sentiu uma vontade irresistível de convidá-lo para se hospedar na mansão.

– O senhor nos daria a honra de aceitar hospedar-se em nossa casa? – disse ela, surpresa com a facilidade com que aquelas palavras saíram da sua boca.

– Eu não desejo incomodar. – respondeu ele ainda olhando-a de forma profunda.

– Não vai incomodar! Eu e Milo teremos um imenso prazer em recebê-lo!

– Sendo assim, eu aceito e agradeço a sua gentileza, senhorita?

– Oh, sim! Que indelicadeza a minha, nem me apresentei! Eu me chamo Shina Scuzziatto de Ofiúco.

– Muito prazer, senhorita Shina. – disse Afrodite cumprimentando-a com uma reverência própria do tratamento dado aos nobres.

Feitas as apresentações, logo, os dois estavam no camarim de Milo que já tirara a maquiagem e a indumentária egípcia. O grego voltou-se para Afrodite que sorria de forma sedutora, enquanto Shina parecia uma menina empolgada com uma nova amiga.

– Milo, este é o senhor Afrodite Christoffer Vargen, ele é um ilusionista e vai se apresentar aqui. Ele foi aluno do grande *Jean Eugène Robert-Houdin!

– Muito prazer, senhor Milo. – disse o belo homem estendendo a mão delicada.

– Um ilusionista? Mas que atividade interessante.

– E eu o convidei para hospedar-se na mansão. Creio que vocês dois terão muito a conversar! – falou Shina com entusiasmo.

– Mas é claro, seja bem-vindo, senhor Afrodite. – respondeu Milo surpreendendo-se com a excitação de Shina.

Uma batida na porta e logo Camus também adentrava o camarim no instante em que Milo e Afrodite trocavam um cumprimento.

– Com licença. Perdoem a intromissão, mas preciso falar com o senhor Milo. –disse o ruivo.

Milo sorriu e Afrodite recuou um passo, tornando a dar atenção à Shina.

– Ah, senhor Camus... Deixe-me apresentar o senhor Afrodite. Senhor Afrodite, este é o senhor Camus, um desmistificador de fraudes, ou seja, tenha cuidado com ele.

Afrodite sorriu, ligeiramente, estendendo a mão para cumprimentar o ruivo.

– Muito prazer.

– O prazer é meu, senhor Afrodite. – falou Camus apertando fortemente a mão delicada e tendo a sensação que conhecia aquele homem.

Quando as mãos se apertaram, uma ligeira expressão de dor perpassou as feições do ilusionista e ele quase ofegou.

– Perdão, eu... o machuquei? – perguntou Camus.

– Ah, não, senhor, a culpa não é sua. A carruagem que me trouxe teve um pequeno acidente e machuquei o braço.

– O senhor está sangrando! – gritou Shina ao ver a manga da camisa branca tingir-se de vermelho.

Nesse meio tempo, Shura apareceu na porta do camarim, os cabelos revoltos indicando que saíra apressado. Seus olhos escuros pousaram no ilusionista que também o encarou. Mas logo, o médico desviou sua atenção para Milo.

– O senhor não devia estar aqui. Fui até a sua casa e não acreditei quando disseram que ia se apresentar hoje. Corri até aqui, sem acreditar que o senhor tivesse feito isso.

– Eu estou bem, doutor Shura. – disse Milo revirando os olhos. — Agora deixe-me apresentar o senhor Afrodite. Ele acabou de chegar à Londres.

– Doutor, aproveite e veja o braço dele. Ele disse ter sofrido um acidente! – interviu Shina antes mesmo de Shura esboçar qualquer reação.

O belo ilusionista retesou o corpo.

– Ah, não! Não é necessário, foi apenas um arranhão. Não se incomodem comigo. – falou com um tom casual.

Shura franziu o cenho, sentindo o brilho dos olhos daquele homem de beleza ímpar sumir, por um instante. Sentiu algo esquisito, como se uma energia poderosa e viva emergisse de dentro daquelas íris e, em seguida, se apagasse como por encanto. Muito tempo lidando com os mortos, Shura... Agora, deixe de bobagem e foque no que foi preparado para fazer. Pensou ele, enquanto apoiava a maleta sobre a penteadeira.

– Por favor, sente-se aqui. – disse o médico com voz firme, não abrindo espaço para nenhuma negativa.

Afrodite inspirou e sentou na poltrona de couro próxima da penteadeira. Ao ser solicitado para mostrar seu ferimento, arregaçou a manga visivelmente contrariado. Quando terminou, um corte profundo na pele clara fez Shina ficar horrorizada.

– Céus, senhor Afrodite! Isso deve estar doendo. – disse ela.

– Vou precisar desinfetar isso. – falou Shura estreitando os olhos. — Um acidente, o senhor disse?

– Sim, foi. Nada demais! – respondeu Afrodite sem prolongar o assunto.

Como médico experiente, Shura percebeu que aquele ferimento havia sido feito por um material cortante, mais precisamente a lâmina afiada de uma faca ou espada. Entretanto, ele sentia algo de estranho naquele homem que não conseguia explicar. Era como se a beleza daqueles traços perfeitos fosse uma armadilha muito bem preparada pela natureza, para apanhar os desavisados... Fingiu acreditar naquela história e fez o seu trabalho em silêncio, desinfetando a ferida e fazendo um curativo.

Afrodite não deixou escapar um ai e permaneceu altivo o tempo todo.

– Pronto. Procure não mover muito o braço nos próximos dois dias e vai ficar tudo bem.

– Obrigado, doutor. – falou Afrodite levantando os olhos e baixando-os em seguida, ato que provocou um estremecimento interno em Shura.

O médico fez um gesto assertivo com a cabeça e foi falar com Milo e Shina. Em seguida, combinou algo com Camus e então foi embora. Afrodite deixou que ele virasse as costas para então olhá-lo novamente. Embora o belo rosto parecesse uma efígie, ele se sentia incomodado com as sensações que o médico despertara ao cuidar do seu ferimento. Fazia muito tempo que alguém mexera consigo...

– Então, senhor Afrodite, Shina vai levá-lo até a mansão e providenciar a sua acomodação. Eu e o senhor Camus temos um assunto para resolver. – disse Milo interrompendo as divagações do ilusionista.

– Oh, sim! Obrigado pela gentileza. – respondeu Afrodite.

Seguidas às palavras, Milo voltou-se para Camus que permanecia silencioso e observador.

– Estou a sua disposição, senhor Camus. – disse o vidente.

O ruivo cumprimentou os demais e os dois deixaram o teatro rumo à conversa séria que mudaria ambos os destinos.

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Saori sorriu tímida para Hilda ao sentar-se na carruagem no assento oposto. Os olhos violáceos estavam cheios de esperança, mesmo sabendo que a abadessa não simpatizava muito com demonstrações de afeto e cortesia. Entretanto, foi Hilda quem acabou com o silêncio perguntando:

– Quantos anos tem Lívia?

– Dez, reverenda madre, e ela é muito inteligente e madura para a sua idade. Percebeu?

Hilda não respondeu, seu olhar perdeu-se na paisagem urbana e suas lembranças pareceram espinhos sendo cravados em sua pele. Aquela menina possuía traços e atitudes que eram suas. De repente, ela colocou a cabeça para fora da carruagem e gritou:

– Cocheiro, vá até a Rua Brompton Road, 47.

– Hã... desculpa eu perguntar, mas onde estamos indo? – disse Saori.

– Até a casa dos meus pais. E antes que questione o que faremos lá, saiba que preciso esclarecer algumas coisas sobre o meu passado. Agora, por favor, mantenha-se em silêncio. – respondeu Hilda.

Obediente, Saori recostou-se no assento e ficou olhando as pessoas na rua durante o trajeto. Pela sua cabeça passavam várias teorias, mas nenhuma delas lhe parecia muito lógica. Então resolveu esperar...

Ao chegar a uma mansão imponente, as duas desceram e Hilda respirou fundo antes de bater a aldrava em formato de cabeça de leão. O mordomo abriu e ao vê-la, uma das sobrancelhas se elevou, porém ele cedeu espaço para que ela entrasse.

– Por favor, entre. Vou avisar a duquesa que a senhora está aqui.

Hilda percebeu que o clima da casa era lúgubre, embora mantivesse a imponência e o luxo que conhecera quando criança. Os lustres reluzindo, a escadaria de mármore carrara, as obras de arte, os móveis escuros e o mesmo silêncio...

Seu corpo se retesou quando uma senhora vestida de preto veio ao seu encontro com o rosto pálido e os olhos inchados por chorar. Ao seu lado, Saori percebeu que havia uma tensão familiar e, instintivamente, compreendeu o fato da abadessa agir daquela forma fria e autoritária.

– Ah, Hilda! Foi Deus quem a enviou. Eu ia mandar chamá-la, ainda hoje.

– Olá, mãe. Essa é Saori, uma das noviças que me acompanha.

– Muito prazer, irmã. – disse a mulher sem nem olhar para Saori. — Você já soube? Foi por isso que veio? – perguntou fitando Hilda.

– Soube do quê?

– Seu pai... Ele está muito doente e o médico já o desenganou. Não passa de hoje.

– Não, eu não sabia. Vim por outro motivo.

– Venha até o quarto dele, vocês precisam conversar.

Com uma inspiração profunda, Hilda concordou, enquanto Saori esperava ali, em pé, observando a cena.

– Saori, pode voltar para o convento. Eu irei mais tarde. – disse Hilda.

A noviça fez uma reverência e deixou a mansão.

A abadessa subiu as escadas em direção ao quarto onde seu pai se encontrava. Ao adentrá-lo, sentiu um mal-estar pelo ar pesado e com cheiro forte de láudano. As cortinas estavam fechadas e havia um castiçal imprimindo uma luz fraca sobre a cama ampla.

– Sigmund... Hilda está aqui para vê-lo. – disse a mulher se aproximando e olhando para o homem acamado com ternura.

– Hilda...? – falou ele com a voz rouca e baixa.

– Sim, meu querido... Ela está aqui. – falou ela acariciando o rosto desfigurado.

– Quero... Vê-la...

A mulher olhou para Hilda que permanecia ereta, sem se aproximar.

– Por favor, filha...

Filha! Agora ela me chama de filha. Pensou a freira, enquanto fazia a vontade de sua mãe.

Sigmund encarou-a com um brilho febril nos olhos azuis. Seu rosto estava encovado e a textura da pele mostrava que a doença o tinha envelhecido muito além dos seus 62 anos.

– Eu esperei por isso... – disse ele. – Aproxime-se, chegue mais perto para que possa me ouvir! – ordenou.

Hilda o atendeu e aproximou o ouvido dos lábios ressecados.

– Eu quero... quero que diga... diga que se arrepende do que nos fez! – disse ele.

Com os olhos arregalados de surpresa e fúria, Hilda encarou-o e não pode mais se conter.

– O senhor espera que eu... Eu lhe peça perdão? Depois de todo esse tempo e das atrocidades que cometeu é o senhor quem deve pedir perdão, não eu!

– Você... minha única filha... me envergonhou!

– E o senhor me destruiu! Condenou-me a esta morte em vida! Feriu um homem inocente e também lhe destruiu a vida! Creio já ter pagado o suficiente por ser sua única filha!

– Você ousa... ousa me desafiar em meu leito de morte... Eu...Eu... a amaldiçoo! – disse ele levando a mão ao crucifixo que Hilda usava e arrancando-o do pescoço dela.

Hilda deixou escapar uma risada amarga.

– Me amaldiçoa? Pois saiba que é o senhor que arderá no Inferno, se existir um! E saiba que eu rezo todos os dias para que exista!

– Peça... perdão! Eu ordeno...!

– Nunca! Se era isso que esperava antes de morrer, sinto muito, mas nunca ouvirá um pedido de perdão da minha boca!

– Sigmund! Hilda! – gritou a mulher em pânico.

O homem começou a tossir forte e seu corpo estremeceu. Um filete de sangue escorreu do canto da boca e ele arregalou os olhos, para então estancar com um som rouco vindo do fundo da garganta. Os olhos vítreos e a boca aberta em um esgar indicavam que a morte viera e o estava acolhendo em seus braços...

Hilda não se mexeu, nem chorou, apenas observou o corpo sem vida e o crucifixo deslizando pelos dedos nodosos do pai que, até o último instante, a fizera sofrer e também sofrera.

– Oh, meu Deus! – gritou a mãe de Hilda se jogando sobre o corpo de Sigmund.

Sem demonstrar nenhuma comoção, Hilda pegou a mãe pelo braço e a encarou.

– Agora que meu pai morreu, diga a verdade! Meu bebê... Ele não morreu ao nascer, não é?

A mulher virou o rosto coberto de lágrimas sem nada dizer.

– Por Deus, mãe! Não minta mais para mim! Por favor, fale a verdade! Eu tive um bebê e ele está vivo... eu sinto! – insistiu Hilda.

– Seu pai acabou de falecer e...

– E eu quero saber a verdade! Se algum dia você me amou, por favor, acabe com isso e me diga!

– S-Sim, você teve. E eu... o deixei na roda dos expostos.

– M-Menino ou m-menina? – perguntou Hilda já sabendo a resposta.

– Menina. Dei-lhe o nome de Lívia, porque tinha a pele muito branca e se parecia com você.

– Por que, mãe...? Por que fez isso? – perguntou Hilda com a voz embargada.

– Porque eu amava o seu pai e vi o quanto ele sofreu quando você nos traiu. Ele nunca soube que tinha uma neta bastarda e eu cuidei para que nunca descobrisse.

Os olhos azuis de Hilda fitaram o rosto sofrido da mãe com dor e desprezo.

– Eu os traí? Desde quando amar alguém significa traição? Traição foi a mentira sórdida e cruel que você me fez acreditar por anos e a maldade de me encarcerar num convento! Como pode, mãe?

– Você destruiu todos os nossos sonhos se entregando para o filho do mordomo! Um reles serviçal! Eu é que pergunto, como você pode? Você envergonhou a mim e a seu pai. Eu não deixaria a prova desta vergonha coexistir entre nós! – gritou a mãe, aos prantos.

Sem saber o que dizer, Hilda deixou o quarto e a mãe que chorava sobre o corpo do marido. Desceu as escadas correndo e tratou de deixar aquele lugar opressivo e amaldiçoado para si.

Nunca mais voltaria ali! Nem mesmo para o enterro do duque!

Quando colocou os pés na rua, Saori a esperava.

– Por que não voltou para o convento como ordenei? – questionou sentindo a garganta e o peito doer.

– Achei que devia esperá-la.

Hilda cambaleou, os passos ora firmes, agora estavam hesitantes.

– Devia ter ido... devia ter me deixado.

A noviça não respondeu, apenas levou a mão ao peito de Hilda e depois, sem dizer nada, a abraçou.

A abadessa sentiu uma pressão no peito e, em seguida, uma liberação tão violenta que não conseguiu controlar as lágrimas e os soluços que afloraram aos borbotões. Seu corpo estremeceu e ela chorou...

– N-Não... eu não devo... – disse Hilda soluçando.

– Sim, a senhora deve. Neste instante, não somos religiosas, reverenda madre, somos apenas mulheres. – falou Saori, enquanto estreitava a abadessa nos braços e se irmanava com o sofrimento dela.

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Saga leu o convite com o cenho franzido.

– Maldito! Roubou a carga e ainda tem a coragem de enviar um convite para um leilão.

O mordomo cuidava as expressões do duque de forma discreta. Por um lado, se sentia um pouco incomodado por enganar Saga, mesmo que nutrisse uma aversão por todos os nobres arrogantes e egoístas que viviam naquela cidade. Os gêmeos eram orgulhosos, mas nunca tratavam os criados com crueldade. Após ter passado fome e quase mendigado nas ruas, ele e seu filho haviam sido ajudados pela boa madre Calvera que os acolhera e lhes conseguira emprego. No entanto, compreendia o que seu filho Poseidon fazia e lhe dava total apoio.

– Julian, como Kanon passou o dia?

– Bem, senhor. Tomei a liberdade de adicionar uma colher de láudano ao café dele para que relaxasse. A cegueira o está deprimindo.

Levando a mão aos cabelos longos e bem amarrados em um rabo de cavalo baixo, o duque suspirou.

– Mandei chamar um especialista de Portugal. Ele chega logo. Enquanto isso preciso me preparar para esse... leilão.

– Precisa de mais alguma coisa, Sua Graça?

– Não, Julian. Obrigado. Vou ver meu irmão.

As escadas foram subidas lentamente, Saga não sabia mais o que fazer, além de responder aos desafios que iam se acumulando diante de si. Abriu a porta do quarto e viu Kanon adormecido. Chegou bem perto e acariciou a face serena, mas que ainda conservava uma dor latente que o feria, profundamente, também.

Kanon abriu os olhos de forma lenta.

– Saga...?

– Sim, sou eu. — disse o duque se sentando na cama.

– Recebemos um convite... o ladrão vai leiloar o manto.

– Eu sei. Não se preocupe, vamos resgatar o manto.

– Você está nervoso...

– Eu? Claro que não. Por que diz isso?

– Não posso ver, mas posso sentir. Meus sentidos estão ampliados com a falta da visão.

Saga tentou se levantar, mas Kanon o segurou pelo braço.

– Não. Fique.

– Você precisa descansar.

– Eu preciso de você...

A frase dita daquela forma fez Saga franzir o cenho e sentir uma pulsação no baixo ventre. Não era momento de se sentir assim!

– Eu estarei aqui sempre. Agora descanse.

Kanon não se deu por vencido e destapou parte do corpo.

– Deite-se aqui comigo...

– Kanon...

– Por favor...

Saga obedeceu, deitando-se ao lado do irmão. Kanon virou-se de lado, de forma que Saga podia enlaçá-lo pela cintura e ficar bem perto, sentindo todos os contornos do corpo do irmão. Por alguns minutos, ambos ficaram em silêncio, usufruindo do calor dos corpos... Entretanto, apesar do clima terno, Saga sentia-se excitado pelo jeito que a bunda roliça de Kanon estava aninhada contra o seu membro, as coxas musculosas tocando ambas as suas, os cabelos longos contra o seu rosto...

– Você está excitado...

A voz rouca de Kanon o fez sentir uma tensão no corpo e tentar afastar-se

– Não... Não se afaste... Eu quero... Sempre quis. – sussurrou Kanon e logo, as bocas se uniram em um beijo urgente e primitivo.

Os braços de Kanon envolveram Saga num abraço forte, enquanto as línguas se tocavam eroticamente, as respirações se transformando em gemidos e ofegos.

Saga segurou em concha o rosto de Kanon e fitou seus olhos com extasiada agonia, enquanto o irmão o puxava para cima de si e movimentava o corpo sedento pela posse.

As roupas foram retiradas com pressa, camisas foram rasgadas, calças atiradas ao chão de qualquer jeito...

Kanon moveu as palmas pelo peito de Saga até alcançar os mamilos e acariciá-los com os dedos e depois com a boca. Contraindo o rosto, pelo prazer do toque, Saga cerrou os dentes, embalando-se contra ele, pressionando o falo túrgido na entrada estreita e penetrando-o numa graduação excruciante, profunda e lenta.

Levantando os quadris para apressá-lo, Kanon foi recompensado com um gemido rouco e cavernoso que emergiu das profundezas da garganta do irmão ao adentrá-lo de forma profunda.

Músculos ondularam e retesaram... As peles roçavam uma na outra em uma dança selvagem, ardente fazendo-os sentir na carne, prazeres que até aquele momento haviam sido reprimidos...

O gêmeo mais velho quase saiu de dentro do mais novo para projetar-se mais forte e fundo, arrancando gemidos entrecortados e roucos, fazendo-o se contorcer sob o seu corpo. Ao olhar para baixo e ver seu falo entrando e saindo, enquanto Kanon arqueava o quadril para recebê-lo, Saga vivenciou um erotismo visceral que jamais experimentara com um amante.

Kanon movia-se junto, tomado por uma febre insuportável e uma sensação de que estava se dissolvendo em chamas... Ser possuído pelo irmão era vida e morte, ascensão e queda... e quanto mais fundo o tinha dentro de si, gemia mais alto, tanto de prazer quanto de dor. Mesmo que tudo aquilo fosse proibido, ainda assim sentia a vida pulsar em cada nervo, em cada respiração e, principalmente, em seu coração...

Enlouquecido de prazer e sentindo o cavalgar do clímax, abraçou-se a Saga, enquanto ele o preenchia. Emaranhando os dedos nos cabelos e levando a boca aos lábios de Kanon, Saga começou a se mover furiosamente dentro dele, tocando-o nas profundezas de seu corpo fazendo-o gritar, enquanto ele também sentia o deleite de ser aprisionado pela cavidade quente e apertada do irmão.

Ao gozar, Kanon gemeu alto e Saga que ainda o beijava, engoliu o som em seus lábios, sentindo o prazer quente molhar seu corpo, enquanto se desfazia dentro dele, sentindo as coxas apertando-o, a pulsação do orgasmo engolindo seu falo e se expandindo em todas as partes de seu corpo...

Quando os tremores cessaram, Saga continuou deitado sobre Kanon por um longo tempo, ainda dentro dele. Saboreou a violenta fusão de seus corpos suados e dos corações que batiam acelerados... Então deslizou para o lado, abraçando Kanon e soltando o ar com força. Fechou os olhos e sentiu um arrepio em todo o corpo, assim como uma estranha paz quando ouviu a voz rouca do irmão dizer próximo dos seus lábios:

– Eu te amo...

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Mulheres bem vestidas saíam das lojas, cavalheiros conversavam nos cafés e carruagens se aglomeravam nas ruas centrais, enquanto a carruagem ia em direção à Abadia de Westminster.

– O senhor está muito calado nas últimas horas...

Hyoga virou-se, deixando de observar as ruas da janela da carruagem. Havia decidido investigar mais sobre o convite que recebera e que se constituíra em uma armadilha. Observou a mansão que frequentara àquela noite, as portas e janelas fechadas indicando que estava vazia.

– Quem o atendeu, quando perguntou pelos proprietários? – questionou Hyoga.

– Um caseiro que diz morar nos fundos. Ele afirmou que devíamos estar enganados, pois os proprietários faleceram ano passado e o único a ter as chaves é ele.

A resposta de Isaak fez Hyoga franzir o cenho e tornar a olhar as ruas, quando algo chamou a sua atenção.

– Cocheiro, pare! – falou o jovem.

– O que foi? – perguntou Isaak.

Hyoga não respondeu. Abriu a porta com força e rápido, o cenho franzido.

– Parem já com isso! – gritou ele para quatro meninos que atiravam bolas de lama num jovem que ele conhecia muito bem e que se mantinha altivo e sereno em meio às agressões.

Os meninos ainda tentaram enfrentá-lo, mas Hyoga não permitiu.

– Se não saírem daqui, imediatamente, eu mesmo vou lhes dar o que merecem! – disse o jovem.

O menino alvo das bolas de lama fixou os grandes olhos verdes em Hyoga e sorriu:

– Senhor Hyoga, eu estava indo falar com o senhor!

– Shun, o que está fazendo aqui? E esses garotos...

– Eram idiotas! Mas eu não reagi, porque eles não são guerreiros. São fracos e se eu usasse tudo o que aprendi, não seria honrado. O Bushido é bem claro. – respondeu o menino.

– Bushido?

– O código de honra que todos nós, samurais, seguimos. — respondeu Shun com olhar firme e postura ereta.

Hyoga retirou um lenço de linho de dentro do casaco e limpou o rosto belo e delicado.

– Seu irmão sabe que está se aventurando pela cidade?

– Não e nem precisa saber, se é que o senhor me entende... O que me fez sair é um assunto muito importante.

– E que assunto é esse? – perguntou Hyoga sorrindo para Shun.

– O senhor corre perigo. A criatura que eu ataquei aquele dia na sua mansão me contou.

– Criatura?

– Sim, na verdade a criatura é um homem muito grande. Ele não quer fazer mal, mas ele tem um mestre.

Sério, Hyoga esperou que Shun continuasse.

– E esse mestre é o bispo Tatsumi. E o bispo disse a ele que o senhor deve ser punido por tentar trazer a sua mãe de volta a vida.

– O bispo sabe sobre a minha mãe?

– Sim, ele sabe.

Isaak se aproximou dos dois.

– O que está acontecendo? O que este jovem faz aqui? – questionou ele.

– Nada. – mentiu Hyoga.

Shun olhou para Isaak e, em seguida, para Hyoga.

– Bem, eu já disse o que queria, agora tenho que voltar. Eu e Ikki estamos hospedados na casa paroquial.

– Eu levo você de volta. – falou Hyoga com um sorriso.

O menino sorriu de volta, mas ficou sério ao ver Isaak fitá-lo como se tentasse ler seus pensamentos.

– Eu posso voltar sozinho, não precisa se incomodar.

– Venha, será um prazer. – disse Hyoga estendendo a mão para Shun, enquanto pensava em confrontar o bispo e impedir que o menino continuasse naquele lugar.

Notas finais
**♥** Um aviso: após este capítulo irei atualizar fics mais antigas, então demorarei um pouco. Não é, em hipótese alguma, uma desistência, mas a necessidade de honrar outros leitores que esperam a finalização de outras fics. ***Jean Eugène Robert-Houdin (6 de dezembro de 1805 – 13 de junhode1871) foi um mágico ilusionista francês. Robert-Houdin frequentemente é referido como o “pai do ilusionismo moderno” uma vez que terá sido dos primeiros ilusionistas a trazer a magia para os palcos elegantes dos teatros. **♥**Obrigada a todos que derem a sua energia boa, passando por aqui. Seja lendo e comentando ou lendo em silêncio!!! Bjs e boa semana!