A.K.A. Edward Cullen

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Novamente comemorando o aniversário do Rei todo soberano do fandom. Dessa vez eu não sei se ele curtiu muito a jornada dele não.

Agradeço aqui minha "beta" Janize por parar a vida para ler minha baboseira e arrumar. Qualquer erro, a culpa não é dela.

Boa leitura! Deixem um comentário se curtirem, e não esqueçam de comentarem as outras fics do projeto!

(Dia 1)

Eu viro de lado na cama sentindo uma movimentação diferente. Meu braço parece leve demais, eu pareço fora do meu peso. Meu cabelo, que eu havia raspado fazia pouco tempo, enrosca no meu rosto, entrando pela minha boca e grudando no meu pescoço. Giro na cama para arrumar uma posição melhor, ouvindo um som estranho quando meu tórax dói.

Não, não é o meu tórax que dói, é uma dor mais muscular, estranha.

Alguma coisa não está certa.

Ainda ouvindo sons estranhos, mas sem me importar com eles por enquanto, levo uma mão até o peito por extinto, achando que estou tendo um ataque cardíaco.

Não é possível!

Dou um pulo da cama e caio sentado nos lençóis, meu peitoral está inchado. Dos dois lados.

Eu estou tendo um ataque do coração. Eu estou morrendo.

Achei que eu fosse morrer por algo relacionado a bebida, provavelmente um problema no fígado.

Eu preciso ligar para alguém.

Mas por que meus peitos estão tão grandes?

Aperto o peito esquerdo, o peito direito, dou uma sacudida e ouço o gemido estranho quando eles doem.

Não consigo encontrar o que está fazendo aquele barulho, então me concentro em apertar meus peitos mais uma vez para descobrir o que faz doerem tanto.

Eles doem muito.

Eu vou morrer.

É isso.

Meus olhos se enchem de lágrimas e um nó se forma na minha garganta. A vontade de chorar vem forte, como nunca antes. Nem quando perdi minha professora preferida quando eu era criança.

Que monstro eu sou, por que eu não chorei quando a minha professora morreu? Ela era incrível!

Agora eu estava chorando pela minha professora.

Eu não sei o que me leva a chorar por isso, eu só preciso chorar.

Fecho as duas mãos ao mesmo tempo em volta dos dois peitos para lamentar a existência da morte e me arrepender por todos os meus pecados.

Eu os sinto quentes nas minhas mãos. Está tão confortável. Ainda doem. Mas é confortável.

E já fiz isso antes. Diversas vezes. Nunca em mim, porque eu não tenho seios.

Seios.

Seios!

De mulher!

Eu tenho seios!

Puxo os dois para fora, esperando que eles saiam de mim. Mas nada acontece e eles só doem mais. E ouço o barulho estranho mais uma vez.

São meus peitos que fazem barulho? Puta merda, no que eu me transformei? Meus peitos fazem barulho? Que pesadelo é esse?

Ouço o barulho de novo e... Isso é a minha voz?

Testo falar alguma coisa.

Meu Deus, esse barulho estranho definitivamente é a minha voz.

Olho para minhas mãos e só então noto que estão menores. Meus braços mais finos. Fico olhando para eles como se não fizessem parte do meu corpo. E não fazem! O que está acontecendo aqui?

Levanto da cama como se meu corpo estivesse pegando fogo. Paro de costas para o espelho do banheiro com o suor escorrendo pela minha testa, pelo meu sovaco. Estou respirando tão pesadamente que acho que vou acordar o prédio todo.

Por que não acordei ainda? O dia está claro lá fora, a qualquer momento meu despertador vai tocar e me acordar desse pesadelo. Nunca quis tanto ser acordado.

Espero alguns minutos, que parecem horas, podem ter sido horas, mas nada acontece. Decido me virar para o espelho.

Enquanto meu coração parece que vai saltar para fora do meu corpo, viro de olhos fechados, me cagando de medo do que vou encontrar me encarando de volta. Ao mesmo tempo torço para acordar no meio do caminho e não ver nada.

A última coisa que lembro depois de abrir os olhos é de uma mulher com olhos iguais aos meus arregalados.

==AKA==

Fazia uma hora que eu havia acordado para o meu pesadelo. Ou sei lá há quantas merdas de horas estava acordado. Rodei o apartamento todo sem saber o que fazer. Eu estava desesperado!

Como dormi eu e acordei... isso?

Não faz sentido!

Não, não faz sentido nenhum.

Eu não estava mais nu como quando acordei, com vergonha do que estava acontecendo, joguei uma calça larga e um moletom por cima do meu corpo para me esconder. Depois que me vesti, passei um bom tempo com raiva. Joguei todas as roupas do meu armário para fora, gritando e xingando com a minha nova voz.

Terminei o ataque em uma crise de choro, deitado no chão com minhas roupas em volta.

Depois de começar a me comparar com uma adolescente sofrendo agarrada às roupas do namorado após um término, era hora de parar com o drama e ser prático: procurar no Google o que estava acontecendo.

Como esse era, obviamente, o meu dia de sorte, tudo o que eu achei foram referências à filmes: um brinco, um biscoito da sorte ou um raio que fazem pessoas mudarem de corpo entre si. Mas em todos esses casos duas pessoas de sexo oposto trocavam de lugar, e se eu tinha certeza de alguma coisa nessa merda, era que esse corpo era meu. Os olhos que vi no espelho antes de desmaiar eram os meus próprios olhos, em um rosto diferente. Mas não completamente diferente. Qualquer um que me conhece saberia que era eu. Ou, pelo menos, pensaria que era uma parente. A irmã que não tenho.

No meio da minha pesquisa voltei a ficar ansioso, nervoso, querendo me esconder na cama e só sair quando tudo voltasse ao normal.

Quase fiz isso, mas uma imagem de uma atriz em um filme de vampiros (que nada tinha a ver com mudança de sexo) me lembrou alguém que poderia me ajudar. Se o Google não estava conseguindo cumprir o seu papel, ela conseguiria.

Corri os dedos pelos meus contatos, chegando rapidamente ao nome de Bella, torcendo para não estar mais bloqueado por ela. Enviei um simples ‘oi’ e esperei.

Eu ia esperar, mas a verdade é que a ansiedade tomou conta de mim e comecei a digitar loucamente pedindo para que ela viesse até o meu apartamento o mais rápido possível. Disse que só ela e sua mente de quem lê muitos livros e sabe tudo de computador poderia me ajudar. Não tive coragem de escrever o motivo do meu pedido, apelei para a curiosidade dela.

Dez minutos depois Bella me ligava e eu encerrava a ligação. Ela tentou de novo, encerrei mais uma vez. Um áudio desaforado apareceu na minha tela, ameaçando me bloquear novamente e ‘deixar eu me foder sozinho’. Devolvi o áudio com a minha nova voz, apelando para que confiasse em mim só dessa vez e viesse até meu apartamento. Passei o código da portaria e avisei que a porta do apartamento estaria aberta para ela. Bella ainda perguntou quem estava falando, exigiu que a pessoa me passasse o telefone e ameaçou chamar a polícia. Consegui deixa-la curiosa, e muito preocupada, o suficiente para que concordasse em vir até mim.

==AKA==

— Edward Cullen, eu acho bom que você não esteja aprontando uma com a minha cara ou eu vou te matar! – Bella gritou da sala. – Eu juro que dessa vez eu te mato! Aonde você se meteu?

— No quarto! – Meu novo ‘eu’ respondeu.

— Olha, mas eu juro, juro que se isso for um joguinho de sexo, eu corto o teu pau fora!

Silêncio.

— E se você for uma assaltante ou uma louca e tiver machucado o Edward, eu te mato também!

Isso conseguiu me arrancar um pequeno sorriso.

Eu ainda estava sentado no meio das minhas roupas quando Bella entrou pelo quarto com uma lata de spray de pimenta em uma mão e um facão na outra. Ela olhou para todos os lados, desconfiada, antes de se aproximar mais.

— Ei, você está bem? – Bella viu que estava perto demais da cama e se afastou, apontando o spray de pimenta para baixo do móvel. – Aonde ele está? Ele te machucou? EDWARD CULLEN, EU VOU TE MATAR!

— Bella, você quer parar de gritar? Eu estou aqui!

— Eu estou te vendo aí. Ele te drogou? Ol-

Levantei do chão e fiz menção de me mover até onde ela estava. Não sei o que me assustou mais, as armas que tinha em mãos ou o olhar assassino que recebi.

— Bella, olha para mim. – Implorei. – Sou eu, Edward. Isso aqui... – Movi as mãos pelo corpo feminino que eu abrigava. – sou eu.

Ela estreitou os olhos, se aproximando de mim enquanto inclinava o rosto.

— Prova. – Desafiou.

Eu a conhecia bem, eu sabia o que ela queria.

— Quando eu me afastei de você, disse que você não era boa o suficiente para mim.

— É. – Ela respirou fundo. – Cruel o bastante. É você. – Ela deu de ombros simplesmente.

Eu estava ao mesmo tempo aliviado e horrorizado por ela ter aceitado tão facilmente.

Mas eu fiquei horrorizado por ser chamado de cruel, novamente meus olhos encheram de lágrimas e a vontade de chorar veio.

Bella era quem me olhava horrorizada agora.

— Você está chorando? – Antes que eu pudesse responder, ela riu, mas se segurou quando viu a cara feia que fiz. Ela esperou eu me recompor antes de falar de novo. – Então, vai se explicar ou vou ter que adivinhar sozinha? – Perguntou se jogando sentada na minha cama.

— Explicar o que? – Sentei ao lado dela, cruzando os braços e gemendo de dor no processo. – Eu não faço ideia do que está acontecendo. Acordei assim.

Bella me olhou com uma sobrancelha levantada.

— Edward, seus seios estão doendo?

— Para caralho. Dormi em cima deles, devem estar amassados.

Bella caiu na gargalhada e se levantou.

— Qual desculpa você deu para faltar ao trabalho? Você conseguiu pensar nisso? Quer ajuda?

— Não, eu consegui raciocinar um pouco. Avisei que estou com dor de garganta.

Eu havia encaminhado para a minha chefe uma mensagem de voz antiga, originalmente enviada para minha mãe. Era um ‘bom dia, tudo bem?’ seguido por uma tosse rouca o suficiente para alguém acreditar que minha garganta estava ruim. Depois, encaminhei uma mensagem escrita justificando minha falta. Por fim, escrevi uma mensagem direto para ela, pedindo desculpas por ter encaminhado as mensagens anteriores, alegando que eu as enviei no lugar errado e preferi reencaminhar ao invés de fazer tudo de novo.

Genial!

Bella estreitou os olhos para mim e fez um ‘hm’.

— Tudo bem, Edward, eu vou te ajudar a voltar ao normal. Ou a lidar com o que está acontecendo. – Arregalei os olhos para ela, desesperado com a possibilidade de ficar assim para sempre. – Arruma uma bolsa com coisas que você não pode viver sem e me encontra na sala. Acho que a minha casa está mais equipada para você no momento.

— Como eu vou sair assim?

— Você que escolheu essas roupas largas. – Ela deu de ombros. – É só trocar.

— Eu estou falando sobre o meu corpo! – Esbravejei. Como ela podia pensar que eu estaria preocupado com a minha roupa?

— Ninguém vai reparar que é você. Coloca uns óculos escuros, faz um coque, coloca um boné para esconder a cor do cabelo e pronto. – Ela começou a sair do quarto, mas voltou. – Ah, e escova os dentes, por favor.

==AKA==

Acabei de guardar minhas coisas no quarto de hóspedes de Bella e fui procura-la pela casa. Encontrei-a sentada em uma sala na frente de vários monitores. Parei na porta e fiquei apenas olhando enquanto ela falava com alguém ao telefone para cancelar a agenda do dia e clicava sem parar com o mouse e espalhava páginas pelas telas.

Ela tinha a própria empresa que criava aplicativos para celulares. Escolhia a hora que queria trabalhar e o local. Era a própria chefe que recebia mensagens estranhas de pessoas que faltavam ao trabalho.

Ou alguém recebia por ela. Não sei.

Conheci Bella na fila do cinema da pré-estreia de um filme de super herói. Conversando para passar o tempo enquanto nossos respectivos amigos não chegavam, descobrimos que ambos estávamos estudávamos na mesma universidade. Eu fazia Relações Internacionais, ela fazia Ciência da Computação. Bella era uma nerd dos computadores. Baixinha, doce e linda. Eu me lembro de ter achado os óculos vermelhos que ela usava na época terrivelmente sexys. Nem me importei que ela não curtisse o mesmo super-herói que eu, eu precisava ficar com ela.

Depois dela fugir de mim por todo um semestre, por motivos que eu nunca soube, nos encontramos em uma viagem insuportável que fizemos para Washington DC com a faculdade. Recusamos todos os passeios não obrigatórios para sermos a única companhia um do outro. Nessa época, eu não tinha problema nenhum em repetir minhas conquistas.

Foi maravilhoso enquanto durou, mas quando voltamos eu não estava conseguindo desapegar como queria. Eu não tinha um relacionamento com Bella, eu não queria ter esse relacionamento, mas não consegui deixá-la seguir o caminho dela. O pior, eu segui o meu. Nunca vou esquecer o choque e a decepção no rosto dela quando chegou uma noite no meu apartamento e me encontrou com outra. Fui atrás dela para conversarmos depois do ocorrido, Bella me surpreendeu dizendo que entendeu o que estava conhecendo, e me perdoou. Ali eu notei que ela estava muito envolvida, e não era justo brincar com os sentimentos dela. Então, a minha brilhante ideia foi dizer barbaridades para ela, com o intuito de fazê-la me odiar e achar alguém que a merecesse.

Funcionou. Nunca a vi com tanta raiva como naquele dia. Primeiro veio a mágoa, o que quase me fez desistir do meu plano. Depois o rosto dela assumiu um tom de vermelho vivo e a mãozinha dela voou no meu rosto como se fosse uma manada de elefantes me atropelando.

Eu sabia que seria difícil achar alguém como ela, porém eu tinha que deixa-la ir.

Um mês depois, meu colega de quarto, Jasper, e a colega de quarto de Bella, Alice, começaram a namorar. Nossas reuniões eram as mais divertidas.

São, até hoje. Alice e Jasper ainda estavam juntos e nós ainda éramos amigos. O irmão de Alice, Emmett, virou um grande amigo nosso e resolveu se engraçar com a irmã do Jasper, Rosalie, que também era amiga das meninas.

Os anos passaram e Bella aprimorou a arte de me evitar em qualquer ocasião na qual éramos obrigados a dividir o mesmo espaço. Diversas vezes eu tentei me aproximar e perdi a coragem depois de ver os olhos de Bella arregalados atrás dos óculos vermelhos.

Por que não liguei para meus outros amigos e os escolhi para me ajudar? Basicamente porque Alice era solidária a Bella e me odiava. E Jasper nunca acreditaria nisso, ele acabaria contando para Alice. Emmett só saberia rir da minha cara, o homem não era dos mais inteligentes. E Rosalie... Ela conseguia me odiar mais do que qualquer outra pessoa. Quanto menos pessoas soubessem, melhor. Bella sempre foi discreta e mente aberta, vivia em um mundo de fantasia com os livros. Se alguém poderia me ajudar com essa merda, é ela.

— Seus seios ainda estão doloridos? – Perguntou Bella, ainda de costas para mim.

— Não chame de seios. – Não chame de nada.

E sim, eles ainda doíam como o inferno.

— Prefere tetas? – A cadeira girou, um sorridente rosto me olhava com uma sobrancelha levantada para me provocar. – Mamas? Como você costuma chamar? Amigos? Garotas?

— Ei, eu mereço respeito, Bella. – Eu disse emburrado, obviamente fazendo-a rir.

Eu não estava realmente irritado. É só que... era coisa demais para assimilar. Eu literalmente me belisquei, achando que a dor poderia me levar de volta para a realidade. Nem sei mais quantas vezes me assustei levando a mão para coçar o saco para descobrir que ele não estava lá.

— Você está achando tudo isso muito engraçado, não está? – Perguntei quando vi que ela ainda sustentava um sorriso enorme.

— Sim, estou. – Arrumou os óculos pretos sobre o nariz. Eu gostava mais dos vermelhos. Apesar de eles não diminuírem em nada a beleza dela. – Porém, para a sua sorte, eu não guardo rancor e vou te ajudar. Vem sentar aqui comigo, vem ver o que eu achei.

Puxei outra cadeira e coloquei ao lado da dela.

— Uow, alguém esteve ocupada.

A mesa estava cheia de papéis e alguns livros, fora todos os sites abertos em diversos monitores.

— Isso não tem nada a ver com você. – Bella fez um círculo com o indicador na bagunça de papéis, se apressando meio envergonhada para tirar tudo de perto de mim. – Aquilo tem. – Apontou para as telas.

Eu estava preocupado demais com o meu problema para pensar no que poderia ter naqueles papéis que a deixaram envergonhada.

— Como você achou isso tudo? – Externei minha admiração. – Eu só encontrei trailers de filmes e páginas genéricas.

— Aposto que você não é muito bom com computadores.

— Não faço questão. Isso aqui – Fiz um gesto em geral em cima da mesa. – não é a minha praia.

— Isso aqui – Bella imitou o meu gesto. – vai salvar a sua vida.

Ela mexeu com o mouse e juntou todas as janelas em uma tela só. Depois mexeu em mais um monte de coisas e me entregou um iPad.

— Divirta-se. Vou dobrar a receita do almoço.

— O que? – Questionei-a meio desesperado. – Você não vai me ajudar?

— É claro que vou, Edward. Mas você ainda precisa comer. Eu acho.

==AKA==

Eu ainda passava o olho em todo o material quando Bella voltou para o quarto empurrando um carrinho com o nosso almoço. Pelo jeito que movia aquela coisa com maestria pelo cômodo, aquele era o modus operandi dela na hora de comer.

— Ok, Edward, primeiro vou te falar o que eu acho depois de ter lido essas coisas todas, depois você diz. – Enquanto falava, ela entregava minha comida e bebida e pegava as dela. Agradeci por ela ter começado primeiro, minha cabeça estava doendo e não me deixava concentrar no que estava lendo. – Pelo que entendi, isso acontece quando a pessoa precisa de uma reviravolta na vida. Quando ela precisa aprender alguma coisa. É uma lição que a vida, ou alguém, te dá.

— Eu tinha uma vida muito boa, obrigado. – Bella sussurrou ‘obrigada’ para si, mandando eu seguir quando franzi as sobrancelhas sem entender. – E não consigo pensar em nada que eu precise muito aprender. – Continuei.

— A ser mulher? – Bella perguntou, escondendo o riso com o copo. Olhei de cara feia para ela. – E se for isso? E se, ao contrário de estar sentado aqui almoçando comigo, você devesse estar na rua aproveitando o dia sendo do sexo oposto? Sei lá, entrando no vestiário de uma academia. Pedindo para conhecer os camarins de uma casa de strip-tease. Fazendo guerra de travesseiros com outras mulheres. Tendo relações com outra mulher. Ou com um homem.

— Ei! – Protestei.

— O que? E se você precisar disso para voltar? Ter toda a experiência? Não que toda mulher tenha a experiência de ter relações com homens, mas você entendeu. O que a gente não entende é o que está acontecendo. Pode ser qualquer coisa, Edward. E se você tiver que fazer alguma coisa específica até, por exemplo, a sexta lua azul do milênio, e essa lua for hoje? Você está perdendo o seu tempo sentado aqui comigo.

Acabei de mastigar o que tinha na boca e abri meu melhor sorriso.

Que eu nem sabia se ainda era meu melhor sorriso. Talvez eu apenas estivesse fazendo uma careta para Bella.

— Você pode me ajudar a riscar uma dessas coisas da lista. – Terminei piscando um olho para ela, esperando não ter piorado a careta.

— Não me surpreende que só isso tenha te interessado. – Bella respirou fundo. Acho que o sorriso não funcionou.

— Ah não, não foi só isso. As ideias da academia e do clube de strip? Geniais!

— E se sua provação for se depilar? – Ela desconversou. – Aliás, você tem pelos? – Eu vi o brilho da curiosidade nos olhos dela.

— Os mesmos de antes lá embaixo e pelo corpo. Menos a barba, graças a Deus.

Além de ter virado uma mulher, ter virado uma mulher com barba teria sido demais para mim. Eu teria o que? Problemas hormonais? Bella ia insistir para me levar ao ginecologista. Que merda.

— Acaba de comer, Edward, nós temos que sair. Quanto antes, melhor.

— Não mesmo. Não estou indo na rua desse jeito sob hipótese nenhuma. Vir até aqui no seu carro, ok. Mas encarar outras pessoas? Não mesmo!

— Vai sim, e ainda vai me agradecer nos próximos dias. Nós precisamos fazer uma lista de coisas do universo feminino para você fazer. E se a cada ação feita uma parte sua volta ao normal?

— Eu espero que não. Se o meu pau volta enquanto eu ainda tenho peitos? – Olhei para o pouco de comida no prato e senti meu estômago se revirar. Puxei o carrinho para perto e dispensei o restante do almoço. – Já estou me sentindo estranho o suficiente.

Bella teve a bondade de concordar comigo, mas frisou que não somos nós quem controlamos como a minha modificação está acontecendo, portanto, eu deveria prestar atenção a qualquer detalhe fora do normal e torcer para as ideias dela darem certo. E frisou também que eu deveria informar o mais rápido possível caso começasse a sentir dor no abdômen. Só concordei, com medo de perguntar o motivo.

— Eu preciso tomar banho para sair? – Perguntei quase convencido. – Se sua reposta for sim, estou fora.

— Você ainda não tomou banho? O que ficou fazendo esse tempo todo no quarto de hóspedes? Achei que tivesse guardado suas coisas e… sei lá, explorado o seu corpo novo. Que tivesse ficado curioso.

O que eu fiz foi ficar sentado na cama olhando para o nada. Pensando que eu tinha me transformado em mulher e só queria ser eu de novo. Apavorado de não encontrar explicação e solução para isso e ter que continuar assim para sempre.

Bella colocou o prato vazio junto ao meu no carrinho e o empurrou para longe.

— Esquece, não precisa me responder. – Bella tocou o meu joelho, enviando uma onda de arrepios pelo meu corpo. Sorte que eu ainda estava completamente coberto e ela não viu.

— Eu não consigo me tocar, Bella.

— O que você quer dizer com isso, Edward? Você está com nojo de si?

— Não, claro que não. Não é isso. Eu... acho... que esse corpo não é meu? Antes eu tinha certeza, por causa dos olhos. Mas e se não for? E se for de outra pessoa? E se meu corpo está por aí também, sendo apalpado por alguém? Eu não consigo pensar nisso, então estou cuidando desse corpo como eu gostaria que o meu fosse cuidado.

— Não acredito nisso. Você pode não estar igual fisicamente, mas ainda é você. Esse é o seu corpo, em outra forma. Seus olhos continuam os mesmos. Inclusive, seus cílios ficaram incríveis! – Ela abriu um pequeno sorrio, o rosto quase colado ao meu para ver mais de perto os tais cílios.

— E se forem só os olhos que se mantiveram? Ou se existe outra pessoa com os olhos iguais aos meus e esse for o corpo dela?

— Você tem alguma marca de nascença? Cicatriz? Se esse for o seu corpo, elas ficaram. – Pensei em alguma coisa que fosse só minha, mas antes que outra coisa a não ser o meu pau viesse em mente, Bella abriu um enorme sorriso como se tivesse solucionado todos os meus problemas. – Tem sim! Deixa eu ver uma coisa.

Ela levantou e puxou a gola do casaco na parte das minhas costas. Os seios dela ficaram bem na minha visão, mas meu cérebro estava cheio demais para eu aproveitar a vista como aproveitaria no passado.

— Suas sardas continuam no mesmo lugar. Você pode continuar a desrespeitar o seu corpo como antes. – Avisou, arrumando meu casaco e voltando a se sentar. Era só isso, ela não tinha descoberto minha cura. – Ei, será que isso não é uma DST? Quando foi a última vez que você teve relações sexuais com alguém?

Definitivamente a mente ainda era minha e não estava cheia demais, ouvir Bella falar ‘relações sexuais’ trouxe um sorriso para o meu rosto.

— Ontem a noite. – Respondi orgulhoso.

— Sabe quem era?

— Sim. — Os olhos dela se arregalaram. Não sei se por eu saber quem era, ou por ter sido tão recente.

— Edward, você não pensou em procurar essa mulher?

— Ela não é uma bruxa, Bella. Ela é florista.

— Vou fingir que entendi o que uma coisa tem a ver com a outra. Onde está o seu celular?

Sem esperar que eu respondesse, Bella levantou e foi sozinha procurar pelo aparelho. Um tempo depois ela voltou com ele, por pouco não esfregando-o na minha cara.

— Liga para ela!

Meu rosto não desbloqueou a tela. Que ótimo, nem meu celular me reconhecia.

— E vou falar o que? Ela nem mesmo vai acreditar que sou eu.

— Pensa comigo, Edward, se ela fez isso com você, é claro que vai acreditar. Talvez esteja esperando um contato para te explicar as regras. Nós, porque eu vou participar, primeiro vamos ouvir o sermão que ela vai passar em você, depois o que é preciso fazer para que tudo volte ao normal.

E foi por isso que eu a escolhi para me ajudar. Eu nunca pensaria nessas coisas sozinho. Se não tivesse Bella, provavelmente ainda estaria no meio das minhas roupas, chorando e gritando com um louco. Esperaria tudo voltar ao normal com o tempo, ou alguém encontrar um corpo de mulher no meu apartamento e me acusar de assassinato.

— Ei, nós vamos resolver isso, ok? Vamos pensar em algo. Vai ficar tudo bem.

Eu acreditei nela, obviamente, e tomei banho e troquei de roupa para irmos na rua como queria.

Obviamente eu me arrependi e preferia ter ficado em casa.

Quando eu era adolescente, imaginava o inferno como uma turnê de uma banda: sexo, drogas e rock’n roll. Algo aceitável. Conforme fui me educando e aprendendo mais, a visão mudou para aquela visão de tortura.

Tipo passar por uma depilação.

O que eu estava sofrendo agora.

Eu estava puto.

Muito puto.

Comigo, com o universo, com a sociedade, com a Bella.

Ah, com a Bella eu estava muito puto.

Além de ter passado o dia me chamando de Edythe, ela conseguiu me convencer a fazer uma depilação. Uma experiência que eu não repetiria e não seria capaz de descrever sem meus olhos encherem de lágrimas e minhas bolas entrarem para o meu corpo.

Não que minhas bolsas existam nesse momento. Espero que elas estejam sendo bem tratadas onde quer que estejam junto com o meu pau.

Se a porra toda da questão era viver a experiência feminina, eu teria que depilar o corpo todo. Partes que nunca viram a luz do sol e nunca veriam, se dependesse de mim. Mas Bella não deixou. Ela disse que, assim como nem toda experiência feminina me levaria a ficar com um homem, nem toda mulher faz depilação. Fazer apenas uma coisa básica daria conta do recado e mandaria o sinal.

Graças a ela, eu estava agora com as duas pernas completamente dormentes. E meu sovaco ardia tanto que eu não podia nem mexer os braços direito. Não quero nem imaginar o que teria sido de mim e das minhas preciosas partes íntimas se Bella tivesse me deixado aceitar a tal depilação brasileira que a recepcionista ofereceu. Ela era muito gostosa e eu estava caindo facinho no papo dela.

Uma coisa era certa, eu não reclamaria mais pela falta de depilação de mulher nenhuma. Ninguém merece passar por esse sofrimento. Quer ficar cheia de pelos? Vá em frente, eu te apoio! Quer só aparar? Apoio também! Se a higiene está em dia, não tem nada fedendo, está tudo bem. Se a lição dessa experiência era eu não reclamar mais quando visse uma depilação vencida, coisa que já fiz, lição mais do que aprendida.

Eu ainda fiz isso tudo com a merda do peito doendo e uma vontade do caralho de chorar por qualquer gesto mais delicado que a depiladora fazia.

Acho que, no final das contas, eu tenho mais é que agradecer pelo que Bella fez por mim. Mas a filha da mãe não precisava ter assistido a sessão de tortura rindo da minha cara. Ela gargalhou de chorar e ter dor na barriga. Minha humilhação estava sendo a diversão dela.

Mesmo agora em casa, Bella olhava para mim e segurava o riso. Eu estava me sentindo muito ofendido com o tratamento dela. Passei pela tortura toda apenas para o prazer da sádica que servia um queijo quente no meu prato agora.

— Lamento informar que seu plano deu errado, Bella. Continuo com o instrumento errado entre as pernas.

Bella parou do outro lado da bancada da cozinha e colocou as duas mãos uma de cada lado do meu prato.

— Quer voltar e comprar o plano completo de depilação? – Engoli em seco com a imagem da cera puxando os cabelinhos do meu... braço. – Foi o que eu pensei. – Levantou novamente. – Você devia ligar para o seu encontro de ontem e se passar pela irmã que não tem. Perguntar se ela notou alguma coisa estranha.

— Recapitulando pela milésima vez: comprei as flores de manhã, dei em cima dela, almocei com meus pais, voltei na floricultura na hora de fechar, trepei com ela nos fundos, depois foi cada um para sua casa. Eu ainda a levei até o carro dela do outro lado da rua. – Bella rolou os olhos e resmungou um ‘que cavaleiro’. – Não teve nada estranho. Nenhuma fumacinha. Nenhuma língua morta. Mais o que você perguntou? Nenhuma bebida ou jura de vingança.

Eu estava ficando irritado com Bella toda hora perguntando se eu não tinha esquecido de nada sobre a noite passada.

— Não quer ligar para ela, não ligue. Você que sabe. Se você tiver outras ideias, por favor, fale. Porque só quem está dando ideias aqui sou eu. Se não está satisfeito, pode ir embora.

— Ei, calma.

— Calma não, Edward. – Bella meio que gemeu frustrada, ajeitando os óculos que escorregavam pelo nariz. – Você só reclama. Eu consigo imaginar o quanto eu estaria agoniada se algo semelhante acontecesse comigo, mas eu iria atrás para reverter isso. Ficar sentado reclamando e rechaçando minhas ideias não vai te ajudar.

— Eu sei. – Funguei. – Eu estou passando por um grande processo de aceitação aqui, ok? Não precisa me tratar assim.

Bella me olhou como se estivesse fascinada com alguma coisa. Ainda sussurrou um ‘isso é incrível de assistir’. É, eu estava servindo um ótimo entretenimento.

Terminamos de comer em silêncio, eu não queria dar mais munição para ser a distração da casa.

— Vou ligar para ela. – Sussurrei enquanto lavava a louça. Ganhei um tapinha nas costas.

Claro que eu não tinha o telefone dela, não foi necessário ter. Eu ligaria para a floricultura e torceria para ela estar lá.

No terceiro toque ela atendeu. Fiz como Bella me pediu e fingi ser uma irmã mais nova preocupada com o bem-estar do irmão mais velho. Como a florista achou fofo eu estar levando flores para o almoço com a minha mãe, não foi difícil ela cair na história estranha que minha família era muito unida e minha irmãzinha só queria saber o que poderia ter me aborrecido no dia anterior.

Eu me surpreendi quando ela perguntou se eu era a mulher que estava olhando pela vitrine ontem mais cedo, e depois do outro lado da rua quando voltei no fechamento da loja. Alguém me observava nas duas vezes em que estive lá. Estranho. Pedi a descrição da pessoa para ela mas não tinha muita coisa: cabelos encaracolados ruivos, alta comparada ao carro perto de onde ela estava parada.

Puxei em minha memória todas as possíveis ruivas com quem eu tinha ficado, mas as opções não correspondiam em uma ou outra característica. Bella iria hackear o sistema de câmeras da floricultura e tentar conseguir uma imagem para facilitar.

==AKA==

Fiquei revirando na cama na hora de dormir, demorei horas para finalmente pegar no sono. Acordei desesperado, suando para caralho, me tremendo todo. Tive um pesadelo no qual estava preso dentro do meu próprio corpo, sendo controlado por outra pessoa.

Bella apareceu na porta com um livro na mão, sem fôlego, perguntado se estava tudo bem. Pedi desculpas por acorda-la, mas ela dispensou as desculpas, dizendo que tem insônia e não tinha nem pensado em deitar ainda, estava voltando da cozinha quando me ouviu “gritar”.

— Se está tudo bem, vou deixar você voltar a dormir. Boa noite, Edward. Que você tenha sonhos melhores dessa vez.

Alguma coisa aconteceu dentro de mim que me fez segurar a mão dela quando se virou para sair do quarto.

— Fica aqui comigo. – Apertei a mão dela.

Ela me olha séria por alguns segundos antes de decidir ficar.

— Já volto. – Apertou minha mão de volta.

Eu estava na ponta da cama, cheguei para trás no travesseiro e a deixei ficar com o lado que já estava quente. Sempre fiz isso quando dormíamos juntos, mas ganhava recompensas melhores do que um agradecimento morno enquanto ela tirava os óculos e colocava na mesa de cabeceira.

Esperei que se arrumasse na cama para fechar os olhos e tentar voltar a dormir. Estranhamente eu estava mais confortável agora que tinha companhia.

— Posso perguntar com o que você sonhou?— Uma companhia que tem dificuldade para dormir.

— Pode. – Respondi e fiquei em silêncio.

Bella riu e me empurrou no ombro.

Contei sobre o pesadelo, a sensação horrível de estar preso dentro de mim, sem controle algum sobre o que fazia.

Bella colocou a mão esquerda no meu rosto e fez um carinho com o polegar. Era uma pena ela estar tão perto quando o quarto estava escuro e eu não conseguia vê-la.

— Sabe que você falando assim no escuro eu quase me engano que nada mudou? Mesmo com a voz feminina. Aliás, sem os outros elementos, dá para notar que ela continua quase a mesma coisa: meio aveludada, sexy.

— Minha voz é sexy, Bella? – Tentei deixar a voz provocativa como fazia antes. Eu dominava meus atributos antes, agora tinha que aprender tudo de novo.

— Você sabe que é, para de me provocar.

— Desculpa, é mais forte do que eu.

— É estranho saber que é você mentalmente, mas em um corpo completamente diferente. Até seu cheiro é o mesmo. – Ouvi uma fungada, provavelmente Bella estava cheirando o travesseiro.

— Eu conversei com meus pais e Emmett por mensagem, eles não notaram nada de diferente. Foi estranho ver os vídeos idiotas que o Emmett enviou e não me identificar com aqueles caras.

— Eu tenho medo de você, em algum momento, se identificar com o tipo de vídeo idiota que ele envia.

— Homens. — Atestei simplesmente. – Mulheres vivem mais porque nós pensamos como animais.

— Primeiro: animais são mais inteligentes e nem precisam pensar. Segundo: sua expectativa de vida aumentou hoje, parabéns.

— Aumentou? Com o choque que tive ela diminuiu uns bons anos.

Bella riu e bocejou. Depois de um tempo em silêncio, no qual achei que finalmente eu poderia voltar a dormir, ela gargalhou sozinha.

— Edward! – Risos. – Edward eu acabei de descobrir uma coisa! – Mais risos.

Eu ouvia os risos e sentia a cama tremer enquanto ela se revirava.

Comecei a ficar irritado por ser deixado de fora da piada e perguntei se poderia rir também.

— Não! – Bella segurou o riso. – Não pode! Já passou.

Silêncio.

— O que você descobriu, Bella?

— Você é gay. – Mais risos. – Você é mulher, e gosta de mulheres.

Como funciona a cabeça dessa mulher?

Mas eu não podia negar que ela tinha razão. Se eu era uma mulher que gostava de mulher…

— É. Eu acho que sou. É. Eu sou gay.

A cama tremeu mais uma vez do meu lado, dessa vez me juntei a ela nas risadas.

Eu nunca achei que gostar de mulheres fosse fazer isso comigo.

==AKA==

(Dia 2)

Acordo com um incômodo do caralho na barriga e corro até o banheiro sentindo que estou cagado. Sento na privada e encontro minha calça e minha boxer sujas de sangue.

Não pode ser.

Não.

Não é possível!

Alguma coisa me diz que a bolsa que Bella deixou separada para mim no dia anterior vai ter minhas respostas. Ela repetiu diversas vezes que aquilo iria salvar a minha vida. Dito e feito. Encontro absorventes de todos os tipos e tamanhos, e até algumas coisas de plásticos. Tem também algumas calcinhas gigantes, com alguma coisa parecendo plástico por dentro. Remédio para cólica e dores em geral.

Tem um bilhete de Bella com muitas instruções escritas e desenhadas nos mínimos detalhes, e um aviso de que eu posso chamá-la a qualquer momento. Santa Bella! Eu fiquei com os olhos marejados pelo cuidado que ela teve separando as coisas para mim. Ela pensou em tudo. Ela era incrível! Por que eu a deixei escapar de mim? Por que fui tão mau para ela?

Quando saí da cama ela dormia tranquilamente, não teria coragem de acordá-la tão cedo para me ajudar. Tentei me virar como pude. Seguindo todas as dicas deixadas, acho que me saí bem no final. Só não tive coragem de inserir objetos no meu corpo e tomar o remédio, já estava lidando com hormônios demais, vai saber o que aconteceria se eu colocasse esse negócio para dentro. Guardei para depois.

Tinha até uma tesourinha, que demorei um pouco para entender o que fazia ali. Mas eu continuava bem sem a depilação, ela ia servir.

Graças a Deus Bella era rica o bastante para o quarto de hóspedes ter o próprio banheiro e o próprio closet juntos. Não tive que me humilhar andando na frente dela com a toalha amarrada em volta do corpo. Se eu tivesse chamado Emmett para me ajudar, com certeza teríamos uma foto desse momento para me humilhar depois.

Depois de ter me virado como pude com a calcinha (que era grande o bastante para não se parecer com uma calcinha) e o absorvente, quanto mais proteção, melhor, saí de mansinho do banheiro, meio encurvado com a dor na barriga. Eu só queria me enrolar na cama e esperar o tempo passar.

Bella estava acordada e de banho tomado, trocando a roupa de cama. Senti-me culpado pela sujeira e me ofereci para ajudar. Ela dispensou a ajuda, me mandando tomar o remédio e me liberando para morgar o dia todo se eu quisesse.

Voltei para cama, medicado conforme fui orientado. Só levantei para ir ao banheiro me trocar, e abrir a porta quando Bella colocava alguma coisa para eu comer no carrinho.

No meio da tarde, uma batida na porta revelou uma cesta com um vibrador embrulhado com um laço. Um bilhete dizia que ele poderia ser bom para as cólicas. Sofri pensando em usar aquilo e admito que fiquei um pouco chocado por Bella ter sugerido algo tão sexual.

Pelo restante do dia fiquei pensando se era um aparelho que ela tinha em casa, ou se tinha comprado para mim. Em certo momento minha excitação por imaginar Bella usando aquilo atingiu um nível maior do que a minha aversão a ele.

Mas ainda existia a cólica que me fazia visitar a privada mais vezes do que o normal. E o sangue, muito sangue. E um desconforto enorme por várias dores em outras partes do corpo que eu nem sabia que doíam durante a menstruação.

Guardei o brinquedo de volta e, novamente com os olhos marejados, agradeci a Bella por existir.

Na hora em que me preparava para dormir, ela veio até o quarto perguntar se eu queria alguma coisa e me desejar boa noite.

Eu quase pedi para que ficasse novamente, não tive coragem.

No meio da madrugada eu ainda estava tentando dormir quando ouvi passos pelo corredor.

— Bella? – Chamei.

Ela colocou a cabeça para dentro do quarto, os óculos para o alto na cabeça, um livro em uma mão, os olhos vermelhos e marejados.

— Quer companhia? – Brinquei, como se ela tivesse procurado por mim ontem, e não o contrário.

Ela ficou parada olhando para a cama, debatendo internamente o que queria.

— Consigo ver a fumaça saindo da sua cabeça daqui. Te fiz uma pergunta tão difícil assim?

Bella mordeu o lábio inferior e entrou no quarto.

Queria perguntar o que se passou na cabeça dela, preferi deixar quieto.

==AKA==

(DIA 3)

— Pega os dois de uma vez, Edward. – Bella gemeu. – Edythe! – Ela se corrigiu, olhando para os lados se certificando de que ninguém a ouviu.

Estávamos no mercado no meio da tarde. Bella precisava comprar comida e me carregou para que eu escolhesse coisas para mim também. Fiz birra como se fosse uma criança de cinco anos, implorando para ficar em casa porque minha barriga ainda estava doendo. Como alguém conseguia viver com esse negócio chamado menstruação? A cólica! Com sangue escorrendo de você o dia inteiro? A cabeça doendo, vontade de matar alguém, vontade de chorar, de gritar, tudo ao mesmo tempo? Questionei Bella, indignado que ela estivesse me obrigando a ir na rua nesse estado.

— Agora você imagina isso todo mês. Por anos! Com várias pessoas dizendo que não é nada, que você deveria agradecer por ser mulher e amar o seu corpo. Coloca uma roupa e vamos.

Eu estava com outras roupas largas. Uma calça de moletom cinza minha que quase caía do meu quadril e uma camisa do Seattle Seahawks. Eu me sentia um bebê de fraldas cagadas. Meus ouvidos pareciam estar apurados e todo barulho que o absorvente fazia eu ouvia. E achava que todos ao redor ouviam junto. Qualquer menção que eu fazia a dor ou a algum incômodo da menstruação tomava um olhar assassino de Bella. A única coisa que não a incomodava era quando eu perguntava se minha calça estava suja. Eu não confiava naquelas porras de absorvente e calcinha de jeito nenhum!

— Edw- Só pega os dois queijos e vamos para a próxima coisa da lista.

— Isabella, você viu quanto custam esses queijos? – Eu poderia me alimentar por uma semana com aquele valor.

— Para a nossa sorte eu posso pagar por eles.

— Se eu soubesse que você tinha virado a amiga rica, tinha entrado em contato antes.

Bella apenas semicerrou os olhos na minha direção. Fiquei sem graça sob o olhar dela e coloquei um queijo qualquer no carrinho. Ela bufou e pegou o outro também.

Estávamos no corredor das bebidas alcoólicas quando um homem a chamou. Fiquei entre o carrinho e a prateleira enquanto Bella dava a volta para cumprimentar o homem com um beijo.

Opa.

— Quer dizer que não tem tempo para mim, mas está batendo perna com uma amiga? – Não gostei do tom dele. Foi uma piada, ou pelo menos ele tentou fazer parecer uma piada, mas não me convenceu.

Bella, pelo amor de Deus, riu e levou a mão até a boca para roer a unha. Dei um tapa na mão dela por extinto, deixando os três surpresos pela minha atitude. Eu havia lembrando de algo que ela havia me pedido para fazer no avião quando voltávamos da viagem e ela estava nervosa.

Por que Bella estava nervosa por causa desse homem baixinho que estava olhando para os meus peitos? Quando os olhos dele encontraram os meus, fiz cara feia. Bella respondia alheia aos olhares dele para o meu corpo, dizendo que eu era uma estagiária, Edythe, em treinamento. O cara, tal de Alec, não sei para que Bella fez questão de nos apresentar, perguntou se eu estava apenas trabalhando ou também morando na casa dela.

Novamente os sorrisos bobos de Bella para ele. E ele olhando para os meus peitos. Eu acabei olhando também, achando que talvez a minha camisa estivesse suja e eu estivesse sendo injusto com o cara. Ela não estava, mas os meus faróis estavam acesos, marcando bem na camisa, que era larga o suficiente para caberem duas pessoas. Da próxima vez vou aceitar o sutiã quando Bella oferecer.

Eu não tinha problema nenhum com as mulheres me olhando quando era homem, mas ter um homem me olhando agora era estranho. Até o jeito que ele me olha, como se fosse me comer de quatro no meio do mercado, era diferente. Sem contar que ele estava em algum tipo de relacionamento com Bella. Um pouco de respeito, fazendo o favor.

Eles se despediram, com Bella prometendo compensar o sumiço depois. Tremi de nojo, mas nenhum dos dois percebeu. Segui olhando de cara feia para o tal Alec, que apontou para a minha mão e disse que a cerveja escolhida era ruim. Sem ser convidado, ele pegou a garrafa de mim e trocou por outra “melhor”. Eu quis enfiar a garrafa no cu do baixinho abusado. Ainda na frente dele, destroquei as garrafas e mandei que tomasse conta da própria vida.

— Gostei da sua estagiária, Bella, arisca igual você era.

Arrumei tudo no carrinho e saí empurrando as compras pelo mercado, me poupando de assistir outra despedida dos dois.

Como Bella decaiu no gosto por homens.

==AKA==

Estávamos na cozinha arrumando as compras nos armários depois de voltar do mercado. Bella toda hora fazia que ia falar alguma coisa e desistia.

— Fala de uma vez, Bella. O que você quer?

— Eu estava pensando... você ainda está super incomodado com a menstruação, nós podíamos dar o dia por encerrado e você se esconder no quarto novamente.

— O jeito que você está falando isso me leva a crer que tem segundas intenções na sua bondade.

— Eu estava pensando em chamar o Alec para vir aqui essa noite. – Levou o dedo até a boca. – Ele já te viu mesmo. – Deu de ombros.

O que? Aquele homem asqueroso sob o mesmo teto que eu novamente? Não mesmo!

— Eu estou bem. – Eu não estava nada bem. – Tive algumas ideias para nós fazermos hoje. Pegar minha lista de contatos e ver alguns números que eu ainda não apaguei e tentar descobrir os rostos das donas. Ou pegar fotos das minhas seguidoras nas redes sociais e comparar com a mulher da gravação. Você deve ter algum tipo de escâner de rostos, não? Não é a moda nos programas de celular? Não é assim que vocês roubam os nossos dados?

— Minha empresa não opera dessa forma, eu não tenho escâner de faces. Apenas roubo dados de cartões de crédito de homens maus e compro vibradores para minhas amigas. – Piscou um olho para mim. Fiquei em dúvida se era verdade ou mentira. – Mas eu curti a sua ideia. Podemos começar a fazer isso do jeito lento mesmo, abrindo foto por foto. Vai nos dar um trabalhão, mas eu topo. Quanto antes começarmos, melhor.

— O cabelo dela é bastante chamativo. Eu teria me lembrado se tivesse dormido com aquele tanto de cabelo.

— Ela pode ter feito transição capilar, pode ter alisado no dia, ter pintado... Só espero encontrá-la, do jeito que estiver.

— E aí minha irmã vai ter uma conversa com ela.

— Pensa comigo, Edward. Ela vai querer conversar com você. Te dar uma lição de moral, te explicar o que a levou a fazer isso.

— Mas eu não tenho coragem de falar com ela.

— Eu vou junto. Quero saber quem deu o direito dela mexer com a vida das pessoas assim. – Fingi que não fiquei orgulhoso dela me defendendo.

— E correr o risco de ser transformada em homem? Não posso deixar você fazer isso, Bella.

— Ei, se eu virar homem você vai saber como é transar sendo uma mulher, porque eu com certeza vou querer saber como é transar sendo homem, e você é a opção mais fácil.

Bella me deixou sem fala. Arregalei os olhos para ela e não sei por quanto tempo fiquei assim enquanto ela continuava a conversa como se não tivesse falado nada demais.

Ficamos com preguiça de cozinhar depois de guardarmos as compras e nos empoleiramos na frente da TV com uma caixa de pizza. Cada um. Bella era das minhas, não tinha medo de comer.

Não sei por qual motivo idiota eu aceitei assistir a uma comédia romântica. Eu fiquei o tempo todo esperando a parte da comédia, aquilo só tinha drama e romance. Que era a mesma coisa. Bella chorava com a história e me olhava para saber se eu estava chorando também. Eu estava mais concentrado nela do que na televisão em si, então foi fácil me segurar até o final, quando a morte do personagem principal, finalmente, foi demais para eu aguentar. Isso fez minha companheira rir.

— Desculpa, Edward, mas eu estou amando os hormônios te fazendo chorar.

— Eu percebi. – Funguei. – Você está me usando. E eu fui acusado de ser cruel.

— Você é cruel! – Uma pizza quase voou na minha cara. – Desculpa.

— Eu não sou cruel, eu fui cruel, tem um abismo de diferença aí. – Rebati. – E faz muito tempo. E foi só com você. Você não está sendo justa comigo, Bella.

Ela não deixava passar uma oportunidade para jogar de volta na minha cara o que eu fiz. Eu merecia, claro. Mas ela não podia esperar minha persona dramática sumir para fazer isso? Tinha que ser logo quando eu estava com os sentimentos todos descontrolados?

— Nossa, Edward, obrigada por lembrar que foi só comigo.

E eu aproveitava qualquer oportunidade para dizer a coisa errada para ela.

O tal do Alec escolheu esse momento para ligar. Sem saber se ficava feliz ou não pela intromissão, fugi para o banheiro para checar como as coisas andavam lá embaixo.

Que saudade do meu pau. Do meu saco.

Era estranho não ter nada pesando e balançando. Não ter nada para coçar e ajeitar. Quando contei para Bella como era diferente não ficar coçando o saco toda hora, ela me fez prometer que, se desse tempo, usaria uma calcinha de tamanho normal depois que a menstruação passasse. Ela queria saber como seria a minha experiência com uma calcinha entrando na bunda o dia inteiro.

Eu queria muito saber o que se passava na cabeça dela para vir com essas ideias.

Sentei no meu lugar de antes, pegando o controle para escolher o próximo filme. Fui mexendo sem prestar atenção, incomodado com o silêncio.

— Você e o baixinho do mercado estão juntos?

Era melhor ter ficado no silêncio.

— Yep.

Silêncio.

— Desde quando?

Silêncio.

— Um ano.

— Uau!

— Pois é.

Aceite o silêncio, Edward. Aceite o barulho do botão do controle, da rua…

— Seu namorado estava olhando para os meus peitos.

Puta que pariu!

— Eu sei. – Girei na direção dela de olhos arregalados pela naturalidade com que falou aquilo. – O que? Ele é homem, homens são assim. Sem contar que você é linda! Todos os homens olham quando você passa. Você é bem atraente, mesmo vestindo esses sacos de batata.

— Da próxima vez vou me cobrir mais. E usar um sutiã.

— Incomoda, não é? – Ela riu sem humor algum. – Alguma vez se sentiu assim sendo homem?

— Nunca. Nem quando saía sem camisa.

— Próxima vez que formos na rua me lembra de passarmos em uma obra. Ou perto de um grupo de homens. Coloque a roupa que quiser, não vai fazer muita diferença. Agora vamos aos trabalhos.

Ela mudou de assunto tão rápido que nem consegui raciocinar e dar minha opinião.

Não que ali fosse o meu lugar de fala.

Ainda sentados lado a lado no sofá, trocamos as caixas de pizza por notebooks. Cada um tinha um no colo fazendo buscas nas redes sociais.

Nossa busca só tinha me rendido mais frustração. Não tínhamos encontrado ninguém, e eu estava puto com meu celular que não reconhecia mais o meu rosto para desbloquear.

— Bella, você acha mesmo uma boa ideia irmos até a floricultura manhã?

— Eu posso ir sozinha, não tem problema.

— Não mesmo, não insiste. Se aquela mulher for uma bruxa, não quero que ela faça alguma coisa com você.

— Ela pode ser uma fada. Uma feiticeira. Uma deusa. – Resumindo: bruxa.

— Uma louca. Tipo você. – Que também era teimosa e não me ouvia.

— Enquanto está em um corpo de mulher está me chamando de louca?

— Tem razão.

Continuamos nossas buscas em silêncio. Mas ele estava me incomodando demais.

— Ei, eu posso estar sonhando. Existe uma chance enorme de que eu esteja sonhando.

— Edward, eu te garanto que isso não é um sonho. Eu estou bem aqui, sou bem real.

— Isso é o que sua personagem do sonho diria.

— Edward, se isso fosse um sonho, você já teria tentado ficar comigo faz tempo. E aí teria acordado.

Bella tinha razão. Eu com certeza a teria seduzido para ficar comigo novamente. A química que tivemos foi tão incrível que eu não perderia a oportunidade de fazê-la acontecer de novo. Eu sabia que isso não era um sonho e ela estaria mais do que disposta a me socar se eu tentasse alguma coisa.

==AKA==

(Dia 4)

Fomos até a floricultura. Novamente com roupas largas e fraldas. Eu parecia estar sangrando há dias. Bella fez um coque com o meu cabelo e o escondeu em um boné. Enfiei um óculos escuro dela na cara e lá fomos nós.

Bella foi até o balcão procurar pela florista, que eu não lembrava mais o nome, pedir ajuda para fazer um enorme buquê de flores para uma mesa no hall da casa dela. A mesa realmente existia, com chaves, cartas, um guarda-chuva e um daqueles aparelhos que responde quando você fala com ele, nenhum jarro esperando flores. Pelo valor nas plaquinhas ao meu redor, buquê custaria uma pequena fortuna. Bella não parecia gostar de flores, espero que não desperdice esse dinheiro todo jogando isso lixo.

Enquanto nós andávamos pelo local, eu ficava me perguntando porque fiquei com a mulher. Ela não era simpática, toda vez que Bella mostrava desconhecer uma flor ou queria combinar duas flores que achou bonitas a mulher debochava. Bella mostrou um buquê da Internet que havia se interessado antes, a mulher riu e falou que fazia um melhor. Como estávamos ali para pesquisa, eu segurei Bella pela cintura para não avançar na mulher com respostas afiadas e a fiz ver que deveria concordar com a sugestão.

Afastei-me para ler os nomes das flores e procurar alguma que fizesse alguma alusão a troca de sexo. Se um biscoito da sorte e um brinco podiam fazer pessoas trocarem de corpo, por que uma flor não poderia provocar uma mudança em mim? Não é como se essa merda tivesse alguma regra.

— Ei, Bella, olha essas flores roxas aqui no canto, elas combinam com as luzes do seu computador.

Ela veio até mim, a antipática seguindo atrás.

— Seu nome é Bella? – A florista perguntou, animada demais. – Sabia que em italiano Bella significa bela, bonita?

— Sim, eu sei. – Foi a resposta curta, grossa, e desconfiada de Bella.

— É claro que você sabe, desculpa. – A mulher corou. – Eu que não sabia.

— Não precisa se desculpar, não tem problema. E é normal não saber.

— Um cliente me contou no domingo.

Ah.

Merda.

Acho que tive uma leve perda de memória do domingo e ela estava voltando no momento errado. Da pior forma possível.

— Um cliente te contou no domingo que bella significava bela? – Bella indagou, de repente super interessada na florista antipática que, maldita hora, resolveu ser simpática. O que deu nessa mulher? – Que… específico. Ele era italiano?

— Ah, não! Não mesmo. Ele era daqui de Seattle mesmo.

— Entendi. Desculpa, não, eu não entendi. Conta mais sobre esse cliente. Nós queremos ouvir, não é, Edythe?

Eu estava apavorado com os olhares de rabo de olho que recebia. A mensagem ‘você vai morrer’ transmitida por eles estava clara e límpida.

— Nós estávamos… — A florista inclinou para perto da gente e começou a sussurrar. – Ele não era um cliente comum. Nós flertamos quando ele veio comprar flores para a mãe pela manhã, e depois ele voltou e nós fomos para o quartinho dos fundos dos funcionários.

— E aí ele te chamou de bella. Em italiano, claro.

Eu queria me enfiar em um vaso e gritar igual àquela planta de Harry Potter. Quando Bella me arrancasse pelos cabelos, ela com certeza faria isso, eu ainda estaria gritando.

— Foi. – A mulher respondeu, alheia as intenções de Bella com aquele interrogatório.

Depois disso eu me afastei das duas. Na verdade, me escondi no canto oposto de onde estavam, esperando o buquê ficar pronto e minha tortura psicológica acabar.

Eu estava muito fodido.

Saímos em silêncio da floricultura, minha mente fazendo uma contagem de zero a dez até Bella abrir a boca e me engolir. Cheguei no cinco.

— Você falou o meu nome enquanto estava com outra mulher!

— Por que você está com raiva? Eu não falei o nome de outra enquanto estava com você.

Era óbvio que eu ia falar a coisa errada. Quando eu ia aprender a ter uma comunicação decente com Bella?

— Ed- Não é essa a questão! Apesar disso ser horrível, a questão é você ter escondido de mim quando perguntei o que tinha acontecido naquela noite.

— Eu esqueci!

— Como você esqueceu, Ed- Como? Você chamou uma mulher pelo nome de outra! Eu não sei se você sabe, mas isso meio que ofende a pessoa. Isso é um enorme motivo para alguém querer te transformar. Até te matar!

— Ela nem percebeu, Bella. – Os olhos dela se arregalaram por trás dos óculos. Novamente a resposta errada. – Merda, não foi minha intenção errar o nome dela, eu juro! Não fiz de sacanagem. E eu realmente não lembrava que isso tinha acontecido.

— A gente volta a esse assunto quando chegar em casa. Nem tente se esconder no seu quarto.

Quase falei um ‘Sim, mamãe’, porém, fui mais esperto dessa vez e calei a boca. Ofereci-me para carregar o buquê gigante e pesado, que me foi entregue de bom agrado porque eu mereço “sofrer um pouco”.

Estávamos fazendo nosso caminho de volta, Bella não tendo deixado o assunto para depois e ainda falando no meu ouvido, quando ouvimos duas pessoas, Alice e Rosalie, gritando.

— Merda. – Bella disse entre dentes. – O trabalho delas é aqui do lado.

As duas atravessavam a rua sacudindo as mãos como se nós não estivéssemos paradas, ou parados, esperando por elas.

— Essa é Edythe, minha estagiária. Edythe, minhas amigas Alice e Rosalie. – Fui apresentado para as duas, que não escondiam a curiosidade.

— Nós vamos almoçar, querem ir com a gente? – Alice perguntou enquanto se desvencilhava de um abraço em mim. – Você não tem como dizer não, Bella.

Tinha, mas Bella não quis. Fomos almoçar com as duas. Escolhemos um restaurante com um pátio externo, eu pude ficar com meus óculos de sol e o boné.

— Lindas flores! – Alice elogiou apontando para o gigante buquê deitado em uma cadeira só para ele. – Foi Alec quem deu?

— O namorado da Edythe comprou para ela. – Bella disse depressa demais. Alice e Rosalie não estavam entretidas o suficiente com o buquê para não notarem.

As duas olharam para Bella esperando uma explicação, que eu precisei dar.

— Ele está viajando e o entregador foi até a casa de Bella quando já estávamos na rua. Ele voltou para a floricultura com a encomenda, nós pegamos lá.

— Entendi. – Disse uma Alice não convencida. – E qual foi o milagre que te trouxe para a rua, Bella?

— O que? Eu não posso sair na rua? – Bella perguntou na defensiva, fechando a cara.

— Acalma aí, fera. – Rosalie riu. – Alec não está te desestressando o suficiente?

— Esquece o Alec.

— Mas ele é o seu namorado. – Alice disse inocentemente.

Espera, elas também não gostavam do baixinho abusado?

— Sim. É.

— E é tão sem graça… — Rose fez cara de vômito. – Ele me faz sentir falta de ver você e Edward se olhando de cara feia em um mesmo cômodo. Aquilo ali sim daria uma ótima foda para você.

Interessante. Eu estava começando a gostar desse almoço.

— Quer sabe? Vamos falar do Alec, esquece o Edward. – Ah, não Isabella, não mesmo!

— Esperem! – Eu devia ter tirado as facas da mesa antes de começar a falar. – Não, vamos falar desse tal de Edward? Ele é bonitão? Gostosão? Eu conheci o tal Alec e ele tem muita cara de quem tem o pau pequeno. – Girei na cadeira para ficar mais de frente para Alice e Rosalie do que para Bella, que me chutou por baixo da mesa. – Acreditam que ele ficou olhando para os meus peitos enquanto falava com a Bella? Eu quis arrancar os olhos desse nojento!

— Não sabemos o tamanho do pau do Alec, mas ele não deve saber usar muito bem.

— Rose! – Alice riu. – Ele é legal. – Alice o defendeu, sorrindo de forma simpática para Bella. – Só é meio… Sem graça.

— E o tal Edward que foderia a Bella com jeito? Como ele é?

— Ei! – Bella me beliscou. – Edythe, cala a boca!

— O que? Se minha chefe pode ter uma foda boa e ficar de bom humor, eu quero saber sobre o responsável.

— Edward não vai me foder. Ele deixou bem claro que já me usou o suficiente.

Jogando na minha cara mais uma vez. Eu precisava me desculpar com Bella urgentemente.

— O jeito que ele olha para você diz outra coisa.

— O que? – Perguntei espantado para Alice. – Como ele olha para ela?

— Com cara de ódio e nojo. – Bella cruzou os braços.

— Deixa de ser sonsa que você olha para ele da mesma forma. – Alice revirou os olhos. – Vocês dois deveriam ser trancados juntos até conversarem. Ou foderem.

— Como eles se olham, Alice? – Eu estava inclinado sobre a mesa, quase me jogando sobre Alice e implorando para ela falar.

— Como se quisessem se comer.

Era isso que Bella via quando olhava para mim? Por isso arregalava os olhos e sumia sempre? No rosto dela eu não via nenhum indício de desejo por mim. Talvez essas duas estivessem falando isso tudo apenas para provocar a amiga.

— Não somos time Edward, mas se esses dois quiserem só foder por aí, eu apoio. – Lógico que Rosalie ia apoiar a perversidade. – Vai fazer bem para eles.

Enquanto eu achava aquela conversa muito interessante, Bella afundava na cadeira para se esconder.

— Vamos sair hoje? – Alice mudou o assunto. – Vamos para uma boate!

— Tô dentro! – Confirmei antes de me lembrar quem eu era no momento.

Como seria uma noitada no meu novo corpo? Será que eu atrairia algumas mulheres gostosas, ou só teria homem tentando passar a mão em mim?

— A gente pode chamar o Edward. – Talvez o assunto não tivesse sido trocado, apenas a abordagem. – Não ouço Jasper falar dele tem um tempinho, mas aposto que ele topa. É só a gente não contar que a Bella vai. Ou contar. – Alice deu uma risadinha que fez todos na mesa rolarem os olhos.

Será que Bella dançaria comigo como ela dança com as amigas? A última vez que o céu abriu e concedeu o milagre dela ir para uma boate eu quase gozei nas calças. A mulher estava com um vestido azul curto e um salto que deixava as pernas dela gigantescas. Passei a noite me imaginando no meio daquelas pernas.

Se eu tivesse um pau agora, ele estaria duro.

Mas eu estava apenas… Sentindo algumas coisas estranhas entre as pernas. Uma vontade de cruza-las e… me esfregar em alguma coisa. Remexi na cadeira, colocando uma perna por cima da outra e, pela primeira vez, adotando a postura de uma mulher.

Que merda estranha.

Mas a sensação foi deliciosa. Eu estava excitado por causa da imagem que estava na minha mente, e ninguém sabia disso. Sensacional!

— Vamos, Bella? – Sorri para ela, imaginando-a com o mesmo vestidinho azul. Será que ele ainda existia? – Talvez esse tal de Edward nem vá.

Bella merecia se divertir com as amigas. E eu estava louco para ver como elas se comportariam sem Edward estar por perto. Será que falariam de mim novamente?

— Vai você com elas, Edythe. Você e Edward se dariam muito bem. Ele pode ser o pai dos seus filhos, imagina só!

Não entendi o motivo de tanta animosidade.

— Talvez eu vá mesmo, Bella. Talvez eu vá para casa com ele e tenha muitos filhos. Imagina só se o Edward que eu encontrar pela frente não for o mesmo que você conhece e, sim, nós ficarmos juntos? Você teria algum problema com isso?

Bella ficou olhando para mim de olhos semicerrados, tentando entender o que estava acontecendo. Nem eu sabia mais o que estava falando, ela começou, eu só fui no embalo.

— Cuidado para não pegar uma DST.

Eu cavei a minha própria cova quando rompi com ela daquele jeito. Eu dei margem a ela de pensar o pior de mim.

— Por que, você pegou alguma quando estava com ele?

— Não, mas naquela época ele era mais seletivo. Agora ele só pula de uma para outra. Quer saber de uma coisa? Vai lá, fica com ele. Leva ele para sua casa e sejam felizes. Espero que ele saiba que você é um ser humano, que tem sentimentos e não brinque com eles. Que ele pelo menos tenha a decência de te tratar bem se um dia não der certo.

— Bella, você está com ciúme de quem?

— O que? – O pescoço dela quase quebrou quando se virou ultrajada para Rosalie. – De ninguém!

Então era isso? Toda essa animosidade gratuita era ciúmes?

— Tem certeza? – Rose insistiu.

— Depois vocês perguntam porque prefiro ficar em casa.

Bella ia me esfolar vivo quando chegássemos em casa.

— Vamos mudar de assunto, Rosalie.

Alice e Rosalie trocaram alguns olhares que eu jamais entenderia se não fosse mulher. Que merda estava acontecendo na minha cabeça agora? Quanto mais eu fico nesse corpo, mais começo a pensar como uma mulher e a entender como o mundo delas funciona. Será que meu tempo estava acabando? Será que a transformação estava se completando?

— Edythe, você está bem? – A voz de alguma delas soou baixa e distante.

— Não.

— Mulher, você está mais pálida do que antes.

— Eu não estou nada bem.

— O que foi? – Bella parecia preocupada, a mão no meu rosto. – Cólica ainda?

— Sim?

Bella levantou correndo da mesa e me fez levantar junto.

— Pelo amor de Deus, Edythe, não morre sob minha responsabilidade.

— Bella! – Alice gritou horrorizada. Eu apenas ri. Entendi o que ela quis dizer.

Enquanto Alice provavelmente pensava que Bella não queria ter trabalho com uma funcionária morrendo, Bella estava preocupada com um homem morrendo no corpo de uma mulher. Sem documentos, sem nenhuma prova de existência.

— Vou levá-la para casa. Mais tarde nos falamos, tchau.

Fui rebocado até o carro mesmo dizendo que estava melhor. Meu eu feminino continuava sendo maior que ela, mas a baixinha era forte!

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Eu já não achava que o motivo da pane no meu sistema fosse por causa da possível transformação acelerada, eu sabia que era por causa do que ouvi no restaurante.

Eu sabia dos meus sentimentos por Bella, empurrados para o fundo do meu ser, tendo sua existência ignorada dia sim e outro também. Não sabia de uma possível existência por parte dela também.

Não sabia o que fazer com aquela informação. Se é que era para eu fazer alguma coisa com ela. Se Bella quisesse que eu soubesse de alguma coisa, ela teria me contado, não?

Claro que não. Que pensamento absurdo! Ela não queria nem que as amigas comentassem sobre, imagina eu.

Entrei em silêncio em casa, ainda remoendo na minha cabeça tudo o que havia sido falado entre Bella e eu no restaurante.

Ela me parou no corredor. Ficou olhando para os meus olhos antes de forçar os próprios fechados e sacudir a cabeça. Ela respirou fundo ainda de olhos fechados, esfregou as mãos no rosto por baixo dos óculos, me olhou… E me beijou.

Beijei de volta o melhor que pude, apesar do susto e, bem, do encaixe do novo corpo. E foi maravilhoso. Incrível como todos os outros beijos que dividimos. Nós nos conhecíamos não importava como.

Ela se afastou primeiro, balbuciando um monte de palavras que eu não entendi, e se trancou no próprio quarto.

Novamente: se eu ainda fosse homem, estaria de pau duro.

Depois de me convencer que Bella não sairia mais para se explicar, resolvi me recolher também.

=AKA=

Estava sentado na cama olhando para o nada e ainda pensando na conversa do restaurante quando Bella bateu na porta e entrou no quarto. Ela se sentou ao meu lado.

— Desculpa. Eu não deveria ter te beijado.

— Está tudo bem, Bella.

Ela colocou a mão na boca e começou a roer a unha. Delicadamente tirei a mão dela e segurei com a minha.

— Eu sabia que você ia partir o meu coração. – Começou a dizer. – Quando nos conhecemos naquela fila do cinema, eu já sabia que um cara tão bonito daquele jeito só ficaria comigo e depois iria embora. Eu te evitei por seis meses, não queria me envolver, mas foi impossível quando chegamos em DC e precisávamos dividir ônibus e o mesmo andar do hotel. Quando te vi na cama com aquela mulher, tudo o que eu sempre achei me foi comprovado. Mas eu já gostava de você, então pensei que era melhor ter alguma coisa, do que ter nada. Então você foi cruel comigo, disse coisas horríveis. – Bella parou de falar e me olhou. Meus olhos estavam marejados, o que a fez abrir um sorriso. – Eu prometi que ia te esquecer, mas com Alice e Jasper começando a namorar foi praticamente impossível. Mesmo assim, não limitei minha vida a você. Namorei outros caras, até cheguei a achar que tinha te superado com alguns deles. Mas então você aparecia em algum lugar, com uma cara de cachorro que caiu do caminhão da mudança, e eu ficava desesperada que viesse falar comigo, porque eu não ia conseguir esconder o que sentia. Eu não queria saber que você mudou, queria guardar o ódio por você dentro de mim, queria sentir raiva, queria te desprezar e me lembrar que você não me merecia. Mas como é complicado. É impossível mandar nos nossos sentimentos. Se eu pudesse escolher, ainda te odiaria pelo jeito que me tratou. Mas os anos foram passando, e aprendi a conviver com isso.

Eu não queria, e não ia chorar. Seria muito mais fácil ter essa conversa na minha forma normal. Ia ser muito melhor falar sem um nó na garganta.

— Tantas e tantas vezes eu tentei te pedir desculpas, Bella. Eu via a expressão no seu rosto toda vez que eu chegava perto, então desistia. Eu sinto muito pelo modo como falei com você naquele dia. Eu realmente quis que você me odiasse, quis tudo isso que você acabou de falar. – Pausa para se recompor. – Eu gostava de você também, mas não tinha coragem de admitir. Ao invés de conversar como uma pessoa normal, joguei uma bomba no seu colo e corri. Não me achava digno de você e tentei fazer você ver isso, de uma forma completamente errada. – Mais uma pausa, com Bella rindo de mim, o que aliviou um pouco a tensão. – Eu peço desculpas pelo que te causei naquele dia. Aquilo era eu, e eu não queria que você tivesse que lidar com aquilo. No fundo, eu tinha razão, eu ia te machucar, e machuquei. Quando disse que não te queria, que você não era boa o suficiente para mim, eu estava mentindo.

Pronto. Saiu.

— Sim, você poderia ter conversado comigo. Mas eu acho que não teria entendido. Ou escolheria não entender, não acreditar. Talvez ficasse iludida achando que conseguiria mudar você. Ou algo assim. Eu sabia que não tínhamos exclusividade, que não éramos namorados, você podia fazer o que quisesse com a sua vida. Mas, como eu já disse, era melhor ter alguma coisa, do que ter nada. Eu não menti quando disse que não me importava com isso, era verdade. Mesmo que não tivéssemos um relacionamento amoroso, eu pensei que tínhamos algo, confiava em você. O jeito que você fez foi horrível, mas me abriu os olhos para tanta coisa, tirou uma cortina de ingenuidade e confiança que eu ainda tinha. Foi importante para mim. – Ela juntou as duas mãos em volta da minha. – Eu acho que teria quebrado a cabeça e sofrido muito mais se tivéssemos ficado juntos. Lamento bastante que tenha acontecido, apesar de tudo, mas o tempo me fez entender o que aconteceu, e eu te desculpo. Você não é mais o mesmo, eu não sou mais a mesma, não tem mais motivos para eu ficar guardando isso.

— Puta merda, Bella, parece que um peso foi tirado de cima de mim. – Sacudi os ombros.

— De mim também.

Desculpas pedidas, desculpas aceitas.

Hora de ir adiante e não desperdiçar mais oportunidades.

— Bella… Quando isso tudo acabar… Você sai comigo? Em um encontro?

— Sim. Eu acho que sairia mesmo que isso tudo não acabasse. – Ela tampou o rosto com vergonha.

— Sério? – Se eu não me transformasse de volta ela ainda ia me querer?

— Acho que sim. – Confirmou ainda escondida.

— E o seu namorado? – Os olhos castanhos apareceram novamente para se franzirem acompanhados de um sorriso.

— Puff, quem se importa? – Bella viu meu espanto e gargalhou. – Eu terminei com ele depois de te beijar, Edward. Não sou esse tipo de pessoa, minha consciência ia pesar eternamente se eu mentisse.

— Espera, você contou para ele que beijou outra mulher?

— Sim. – Era tudo sempre tão simples assim com ela? – Ele perguntou se era você, Edythe, e entendeu o que aconteceu. Disse que se um dia a gente quis-

— Não, obrigado.

Eu não quero aquele pinto pequeno chegando perto de mim.

— Como se você não fosse fazer a mesma oferta. – Ela rolou os olhos. – Eu dispensei a oferta por você, pode deixar.

— Obrigado pela consideração. – Empurrei-a com o ombro. – Então... Como nós ficamos agora?

— Não ficamos. Você acha mesmo que vai conseguir alguma coisa antes de me pagar um jantar?

— Eu não tenho condições nenhuma de te levar para qualquer lugar agora, mas eu prometo que quando me estabelecer em... alguma coisa, você vai ser a primeira a saber. – Pisquei para ela.

— Eu espero. – Ela colocou a mão no meu joelho. – Eu vou estar bem aqui do seu lado te apoiando no que acontecer.

— Eu fico imensamente feliz que tenha se interessado por mim mesmo como Edythe. Na verdade, que não tenha deixado de se interessar. Mas, não me leve a mal, não vejo a hora de voltar a ser Edward Cullen.

— Eu também. Seu beijo continua incrível, mas... – Ela pegou minha não na dela e ficou rodando-a de um lado para o outro. – Senti falta de algumas coisas que Edward tem e Edythe não.

— É, eu sinto falta delas também. Deles.

Aproximei o rosto dela, pedindo autorização para beija-la. Bella fez o resto do caminho.

==AKA==

(Dia 5)

Acordei em uma paz que não sentia fazia algum tempo. Espreguicei-me, bocejei, virei para o lado e pensei em dormir mais cinco minutos. Mas então meus olhos se arregalaram e eu pulei de pé. Apalpei todo o meu corpo, parando para deixar escapar um pequeno soluço de felicidade quando minhas mãos agarraram entre minhas pernas.

Olhei em volta sem reconhecer o quarto onde estava. Peguei rapidamente minhas roupas em uma poltrona e coloquei de volta, notando que estava nu, e não com a calcinha estranha para conter o sangramento que estava ontem a noite. Vesti tudo sem cueca mesmo, quanto mais rápido eu saísse, melhor.

Por que eu acordei em um lugar completamente diferente? Onde Bella estava? O que estava acontecendo?

Meu celular não estava a vista e não havia nada que indicasse a quem pertencia esse lugar.

Toda a paz que eu sentia se foi e comecei a entrar em pânico. Corri para a janela, mas na minha ânsia de sair dali só brinquei de fantasma com as cortinas e quase arranquei tudo da parede.

— Ei, tudo bem aí?

Bella!

Saí da cortina e corri até ela, quase derrubando os dois no chão com um abraço de urso.

— Seja bem-vindo de volta. – Ela me apertou contra ela.

— Não foi um sonho? Que lugar é esse?

— Edward, você está gelado e tremendo. – Alisou minha cara. — Vai lavar o rosto, escovar os dentes e volta para conversarmos.

Mais calmo, sentei com ela na cama.

— Bella, que lugar é esse?

— É o meu quarto. – Ela riu e olhou em volta. O único cômodo da casa que eu não tinha entrado. – Você não se lembra da noite passada?

— Nós estávamos conversando no meu quarto. Eu te devo um jantar. A última coisa que me lembro foi que estávamos nos beijando.

— Nós fizemos um pouco mais do que isso. Mas eu vou deixar que se lembre sozinho.

— Sério? Eu consegui mesmo sem o jantar? Merda, por que eu não me lembro disso? Por isso eu estava pelado?

Eu não acredito que perdi isso!

— Não. – Ela riu. – Você estava menstruado, não fizemos tanto. Nós dormimos, e quando eu acordei hoje de manhã para me arrumar para trabalhar, Edythe tinha ido embora. Você “acordou” junto comigo e me seguiu até aqui, nem percebeu que tinha se transformado novamente. Imaginei que a calcinha fosse te incomodar e a tirei. Trouxe suas roupas para cá agora pouco.

— Você não viu como aconteceu a mudança?

— Nada. Quando eu acordei o seu braço cabeludo estava me puxando de volta para você, sua voz rouca de sono desejava um delicioso bom dia no meu ouvido.

— Eu queria me lembrar.

— Não tem problema. Você se lembra de tudo o que conversamos ontem? – Fiz que sim com a cabeça. – É tudo o que você precisa lembrar.

— Bella, eu não sei como começar a agradecer tudo o que você fez por mim.

— Apenas faça o mesmo por mim algum dia.

— Eu prefiro agradecer de outra forma, vamos deixar as inexplicáveis mudanças de sexo no passado. Que tal se eu começar a agradecer agora?

Puxei-a pela nuca e a beijei com todo o meu potencial. Comecei-a deitá-la na cama, mas Bella resistiu e me empurrou para sentar novamente.

— Edward... – Ela colou a testa na minha e respirou fundo. – Eu senti falta disso para caralho. E não digo apenas ontem à noite, mas por anos. Entretanto, eu preciso ir trabalhar.

Olhei para as roupas dela, uma saia cinza e uma blusa roxa de manga longa. Nos pés um daqueles saltos de me matar de tesão.

— Ei, você está sexy. – Beijei-a no pescoço.

— Obrigada. – Foi o gemido que recebi em resposta. – A reunião é por vídeo, eu vou estar no quarto ao lado. Se precisar de alguma coisa, se vira. – Ela me deu um beijo rápido e saiu antes que eu conseguisse puxá-la de volta.

==AKA==

Bati na porta do escritório algumas horas depois para avisar que eu estava indo até a floricultura pedir desculpas para a florista. Minha consciência estava pesando, eu precisava fazer aquilo.

Bella deixou umas pessoas falando sozinhas no computador e veio até mim desejar boa sorte e se lamentar que não veria a cena da minha humilhação.

E é claro que teve humilhação.

Fui até a floricultura, fui sincero nas minhas palavras, mas claro que a mulher, Lauren, não aceitou minhas desculpas. Pegou um vaso cheio de água que tinha na bancada e jogou tudo em mim. Fui escorraçado para a calçada molhado da cabeça aos pés.

Pelo menos fiz o que tinha que fazer.

Dei um paço para pegar o caminho de volta para casa quando vejo uma conhecida cabeleira ruiva do outro lado da rua. Ela estava rindo de mim. Sacudindo a cabeça enquanto entrava em uma loja.

Peguei o celular e disquei para Bella, que atendeu no primeiro toque.

Ei, você, está voltando? Eu estou acabando aq-

— Bella! – Interrompi antes que ela se empolgasse. – Eu achei a ruiva!

Edward! Aonde?

— Ela entrou em uma loja em frente a floricultura.

Espera que eu estou indo! Não sai daí! Não perde essa mulher de vista, Edward! Não entra na loja sem mim!

Alguns minutos depois Bella descia de um ônibus mais adiante e vinha correndo com a mesma roupa social dessa manhã, incluindo o salto alto, até mim.

— Por que você não veio dirigindo?

— Eu ia ter que procurar estacionamento, ia demorar muito mais tempo. – Ela me olhou de cima abaixo com as sobrancelhas franzidas. – Por que você está molhado?

— Um vaso inteiro de água, cortesia da sua amiga florista.

— Bem feito. – Riu. Sempre servindo o melhor entretenimento para ela. – E aí, vamos?

Atravessamos a rua.

— Uma loja de quinquilharia. – Olhei a vitrine do lugar.

— Antiquário. – Bella me deu um tapa na testa. – Não deixa ela saber que você não aprendeu nada esses dias. Eu gosto da Edythe, mas ela é muito clichê e exagerada. Edward é meu preferido, mesmo sendo todo errado, e escolho que ele fique por aqui.

— Muito engraçada você. Mas eu também prefiro ser eu.

Bella tomou as frentes e abriu a porta, eu estava me cagando de medo de pisar lá dentro e virar Edythe de novo. Ainda mais depois de Bella ter brincado com isso.

— Olá, em que posso ajudá-los? – A ruiva nos recepcionou atrás do balcão no fundo da loja.

Ela foi simpática, mas uma ira ebuliu dentro de mim e precisei interromper a saudação que Bella começava a dizer. Não era o melhor jeito de começar, mas era o que eu tinha.

— Por que você fez isso comigo? – Esbravejei enquanto sentia uma mãozinha gelada abrir meu punho e entrelaçar nossos dedos.

A mulher pediu para aguardarmos um instante enquanto ia até a porta da loja e a trancava.

Merda.

Ela voltou e abriu três cadeiras no meio da loja para conversarmos.

— O que você achou da experiência… Desculpa, qual o seu nome?

— Edward. – A mulher virou minha vida de cabeça para baixo e nem sabia o meu nome.

— Edward, eu me chamo Victoria. O que você achou da experiência?

Essa pergunta era séria? Eu virei uma mulher contra a minha vontade, sem nenhuma instrução, e passei por uma menstruação. Como isso seria bom?

— Foi horrível! Se a resposta certa que eu deveria dar era o contrário, desculpa, eu não consigo.

— Você não passaria por aquilo novamente?

— Não, é claro que não.

Nada te faria passar por toda essa experiência mais uma vez?

Ao invés de se explicar, a mulher ficava fazendo pergunta trás de pergunta. Era como se eu devesse algo a ela, e não ela me devesse um mundo de respostas. Eu estava ficando puto.

— Por que eu escolheria passar por aquele inferno de novo? Nem se atreva a fazer alguma coisa comigo mais uma vez.

— Você gostaria de esquecer tudo pelo que passou? Vai ser como se nada tivesse acontecido.

Victoria fincou os olhos em mim e parecia que não os tiraria dali enquanto não sugasse toda a minha vida.

Bella estava com as sobrancelhas franzidas do meu lado. Eu achei que ela fosse me defender, falar alguma coisa. Por que ela estava tão calada?

— Bella ainda vai se lembrar de alguma coisa?

— Eu não sei ainda. – Ela olhou para Bella, que desviou os olhos quando olhei para ela. – Pode ser que sim, pode ser que não. O que cause menos dano a ela. Mas e você? Qual dano esquecer tudo te causaria? Você não aproveitou nada desse tempo? Foi só um incômodo na sua vida?

A cadeira do meu lado rangeu quando Bella se mexeu.

Merda! Por que eu sou tão burro?

— Bella! – Girei o pescoço na direção dela. É claro que ela era a resposta de todas as perguntas. Estiquei a mão para ela colocar a dela por cima. – Eu faria tudo de novo. Por ela. Eu passaria por qualquer coisa. A jornada foi um inferno, mas me trouxe o paraíso. – Ergui a mão dela até mim e a beijei. – Desculpa, por favor, não me castiga. – Victoria riu. – Eu vou te amar como você merece dessa vez.

— E eu vou te matar por ser tão imbecil! – Ela xingou, mas estava sorrindo, nitidamente aliviada.

Foram os quatro piores dias da minha vida, que pareceram durar muito mais tempo. Eu não quero nem imagina o quão piores eles poderiam ter sido se Bella não estivesse comigo.

— Eu achei que você fosse matar a menina do coração. – Victoria deu um suspiro dramático e limpou um suor imaginário da testa. – A história de vocês não estava encerrada ainda. O casal tem muitos anos juntos pela frente. Se ninguém fizer uma burrada. – A ruiva olhou diretamente pra mim.

— Ei! – Protestei.

Por que não poderia ser Bella a pessoa a fazer a burrada?

Não, não poderia.

— Nada pessoal. – Victoria piscou para mim. – Então, hora de vocês fazerem suas perguntas. Podem mandar.

— Por que eu? Por que você fez isso?

— Eu era igual a você, me chamava James. Eu saía por aí magoando as pessoas que me amavam. Às vezes eu sabia, mas não me importava. Outras vezes era sem querer. Até que uma dessas pessoas resolveu me dar uma lição. Ela era dona dessa loja, me ensinou o que respeito, cumplicidade e amor significam. Eu escolhi mudar por ela, não tinha muito da minha antiga vida que me enobrecesse.

— Espera, tinha como eu ficar daquele jeito? – Um arrepio gelado subiu pela minha espinha.

— Era só você escolher. Ou alguma coisa dar muito errado. – Victoria olhou para Bella.

Olhei junto, encontrando-a encantada com a história. Quando notou que ambos olhávamos para ela, corou e limpou a garganta, fazendo uma pergunta.

— E como você o descobriu?

— Eu o vi entrar para comprar as flores na parte da manhã e depois voltar. E depois eu e minha esposa estávamos jogando o lixo no beco atrás da floricultura quando ouvimos um certo diálogo em italiano. A magia fez seu trabalho depois.

— Eu te odeio, Edward. – Bella rolou os olhos. – Eu tenho algumas dúvidas. Ele esqueceu de algumas coisas que aconteceram logo antes de se transformar de volta para Edward. Será que ele vai se lembrar algum dia?

— Provavelmente não. Infelizmente não temos como controlar algumas coisas.

— Outra coisa. – Bella continuou com sua curiosidade. – A florista não te reconheceu, por que, se a sua loja é de frente para a dela?

— Ah, normal. – Victoria abanou a mão. – É uma proteção. Tipo os óculos do Super Homem. Seria fácil demais se ela apontasse direto para cá.

Seria, teria me poupado bastante humilhação.

Era para eu estar furioso, quebrando a loja e processando essa mulher e a esposa que estava escondida em algum lugar. Mas eu só conseguia me sentir grato por ter Bella novamente ao meu lado.

E agora estava satisfeito com o que tinha conseguido ali, só pensava em ir embora e começar um novo capítulo da minha vida, com Bella. O problema é que ela estava fascinada por Victoria e não parava de fazer perguntas.

Demorou para que finalmente estivéssemos de volta ao hall de casa, o gigante buquê enfeitando a mesa e fazendo Bella rir ao lembrar do banho que tomei.

Puxei-a pela cintura e a apoiei contra a mesa.

— Eu te amo, Bella. Eu vou te levar em um encontro, dois, três, não importa quantos, mas eu sei que não quero mais que você saia da minha vida. Eu te amo, e dessa vez vou aproveitar a minha chance para fazer isso direito. Se você quiser, claro.

— Acho que vou esperar os encontros. Você merece sofrer um pouquinho.

— Justo. – Falei desanimado.

— Estou brincando, Edward. – Bella segurou meu rosto e me fez olhar para ela. – Eu te amo, também. O que passou, passou, você está perdoado de seus pecados. E só queria acrescentar que Victoria me deu o telefone dela, caso eu precise.

— Você não teria coragem? – Olhei espantado para ela. – Bell-

— Não, Edward! Não isso! – Bella soltou uma gargalhada. – Você insistiu em saber o que fizemos ontem à noite, eu ia dar um jeito. – Ela piscou para mim.

Demorei uns segundos a mais para entender que ela estava falando sobre a possibilidade de Edythe voltar.

— Bella, Bella, você tem certeza que Edward é seu preferido?

— Está com ciúme de si mesmo, Edward Cullen? – Provocou.

— Ei, quem começou com a ter ciúme de mim comigo mesmo foi você. – Ela me olhou franzindo as sobrancelhas. – Ontem no restaurante. Você teve ciúme da Edythe comigo.

— Isso só prova que você é meu preferido. – Provou seu ponto.

— Tem certeza? Não sei se Alice e Rose concordariam. Elas devem estar com algumas dúvidas quanto suas preferências no momento.

— Eu percebi. – Bella escondeu o rosto no meu meu peito e respirou fundo antes de voltar a me olhar. – Tenho total certeza que é você que quero. Mas é que é você sendo ela e... Eu queria que você se lembrasse também.

— Obrigado por existir, Bella. Obrigado por ainda ter paciência e me querer. E me desculpa por tudo, mais uma vez.

— Só se a gente subir logo para o quarto e começar a criar novas memórias.

— Não precisa pedir de novo.

==FIM==

Notas finais
Eu amei sair da caixinha e aloprar a vida do Edward! Espero que tenham gostado também!

Jani, obrigada mais uma vez por ter parado de fofocar o povo na janela do apartamento para ler minha baboseira.

Até a próxima, galera!

Ah, e comentem!!
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