AFTER YOU - 4 temporada
5 O CÍRCULO SE FECHA
Notas iniciais
CAPÍTULO 5 — O CÍRCULO SE FECHA
POV EDWARD
O silêncio dentro do carro na volta para casa conseguiu ser ainda mais sufocante do que na ida. A interferência de Felix havia sido cirúrgica, como prometido; os policiais na escola receberam uma ligação de instâncias superiores antes mesmo de abrirem seus blocos de notas, o boletim médico do garoto ferido foi classificado como "acidente doméstico de recreio" e a Diretora Vance foi gentilmente aconselhada a aceitar uma polpuda doação anônima para o fundo de expansão da escola em troca do seu silêncio absoluto.
Estávamos limpos perante a lei. Mas, dentro do meu peito, a engrenagem operava em um ritmo frenético. Olhei pelo retrovisor interno. Tony estava sentado na cadeirinha, com o rosto limpo de sangue, olhando fixamente para a janela. O choro desesperado havia sumido no milésimo de segundo em que pisamos para fora da escola. Ele estava calmo. Satisfeito.
Quando entramos no elevador privativo da cobertura, eu só conseguia pensar em uma coisa: isolar o perímetro. Trancar as portas. Precisávamos colocar ordem no caos antes que a nossa estrutura trincasse de vez.
A porta eletrônica da cobertura bipou e se abriu. Eu esperava encontrar o vazio gelado do apartamento. Em vez disso, o que se apresentou diante dos meus olhos fez o meu sangue ferver instantaneamente.
No centro da sala, jogados de qualquer jeito no sofá de linho italiano, Bree e um rapaz — que só podia ser o tal Tyler Lockwood — estavam no maior amasso. As almofadas estavam espalhadas pelo chão, a camiseta de Tyler estava jogada sobre o tapete e as mãos dele estavam firmemente cravadas na cintura da minha filha adotiva, enquanto os dois se consumiam em um beijo barulhento e urgente.
— Mas que porra é essa?! — o rosnado saiu direto da minha garganta, a pose de professor de literatura polido evaporando no ar.
Ao meu lado, Tony deu um passo à frente, os olhinhos castanhos arregalando-se antes de se estreitarem em uma fúria minúscula, mas assustadoramente idêntica à minha.
— Ei! Larga a minha Bree! — Tony gritou, a voz infantil carregada de uma marra violenta, os punhos cerrados ao lado do corpo gordinho.
O casal se separou como se tivesse tomado um choque elétrico. Bree deu um pulo para trás, o rosto passando do vermelho para o pálido em um segundo, os cabelos completamente bagunçados. Tyler arregalou os olhos, a respiração ofegante, olhando para mim e para o Tony como se estivesse encarando um pelotão de fuzilamento.
POV BELLA
O contraste da cena foi quase cômico. Nós vínhamos de um cenário de quase homicídio escolar e, ao abrirmos a porta de casa, nos deparamos com o mais puro suco de drama adolescente. Senti a tensão de Edward irradiar ao meu lado como uma parede de calor, e o pequeno Tony parecia pronto para avançar na jugular do garoto.
Eu precisei intervir imediatamente. O controle do ambiente é a minha especialidade, e eu não ia deixar o chilique possessivo dos meus dois homens estragar o meu disfarce de mãe civilizada.
— Edward, Tony, por favor, controlem-se — falei, a voz melodiosa e suave, dando um passo à frente com o meu melhor sorriso social, enquanto passava as mãos pelo meu vestido para alinhar o tecido. Caminhei até o centro da sala, fingindo total normalidade. — Olá, Tyler. É um prazer finalmente conhecê-lo. A Bree fala muito de você.
Bree olhou para mim, e a inteligência dela — aquela percepção aguçada que ela herdou da convivência conosco — entrou em alerta máximo. Ela olhou para o meu sorriso perfeito, depois para o maxilar travado de Edward e, finalmente, para a postura rígida de Tony. Ela percebeu, no mesmo segundo, que havia algo muito, muito errado acontecendo ali. O ambiente cheirava a perigo.
— Tyler... é melhor você ir embora. Agora — Bree disse, a voz trêmula, empurrando o ombro do namorado de leve.
O garoto não contestou. Ele praticamente voou do sofá, agachando-se para catar a camiseta no chão. Ele a vestiu ao avesso, os dedos trêmulos errando os movimentos por causa do nervosismo sob o meu olhar atento e sorridente.
— Tchau, Tyler. Depois marcamos um jantar com calma... foi um prazer verdadeiro lhe conhecer... — falei, mantendo o tom aveludado de uma anfitriã impecável enquanto o conduzia com o olhar até a saída.
— Foi... foi um prazer, Senhora Cullen... Senhor Cullen, me desculpe... tchau, Bree... — ele gaguejou, o rosto pegando fogo de vergonha. Ele abriu a porta social e saiu praticamente correndo, batendo-a atrás de si.
No milésimo de segundo em que a fechadura bateu e o trinco estalou, a fachada desmoronou.
Eu não consegui me segurar. Dei um passo para trás, apoiei a mão na parede e soltei uma gargalhada alta, histérica e genuína. O absurdo da situação era delicioso demais.
Imediatamente, recebi três olhares repreendedores, pesados e gélidos. Edward me encarava com uma fúria indignada; Tony estava de braços cruzados, com o bico enorme; e Bree parecia horrorizada com a minha reação.
— O que foi? Pelo amor de Deus, Bree... que físico! Que homem! E que amasso! — brinquei, jogando as mãos para o ar, limpando uma lágrima de riso no canto do olho.
— Isabella! — Edward gritou o meu nome, a voz ecoando pelo teto alto da cobertura, os olhos pretos de pura exasperação.
— O que foi, Edward? — ri, dando de ombros, provocando o puritanismo hipócrita dele. — Eu super pegava ele também, se ele fosse alguns anos mais velho...
Tony deu um passo à frente, fechando a cara com uma seriedade assustadora para um menino de quatro anos.
— Você é casada com o meu pai, mãe. Não pode pegar ninguém.
— Olhar não tira pedaço, Tony — brinquei, piscando para o meu caçula, mas o garoto não achou graça nenhuma. Ele virou o rosto na direção da porta, os olhinhos brilhando com aquela mesma frieza analítica da escola.
— Eu vou matar esse Tyler — Tony declarou, a voz baixa, firme. Uma promessa real.
Edward deu um passo à frente, a paciência dele finalmente esgotando-se. Ele apontou o dedo indicador na direção do corredor dos quartos, olhando para o filho com uma autoridade inquestionável.
— A sua cota de caos já foi ultrapassada até os seus vinte anos de idade, Anthony! Pro quarto agora. Você está de castigo, lembra?
Tony olhou para o pai, mediu a rigidez na postura de Edward e percebeu que ali não havia espaço para negociação. Ele descruzou os braços, soltou um suspiro pesado e caminhou pisando firme em direção ao corredor, batendo a porta do quarto logo em seguida.
O silêncio voltou a reinar na sala, mas agora era o silêncio pesado da realidade nos alcançando. Bree deu um passo à frente, os olhos dela pulando de mim para Edward, o pânico adolescente sendo totalmente substituído pelo pavor real de quem conhece a natureza da nossa família.
— O que aconteceu? — Bree perguntou, a voz quase um sussurro. — Onde vocês estavam? Por que o Tony está de castigo? O que ele fez?
Edward caminhou até o bar da sala, servindo-se de uma dose generosa de uísque puro. Ele virou o copo de uma vez, sentindo o líquido queimar a garganta, antes de se virar para a filha.
— Sente-se, Bree — Edward disse, a voz voltando ao tom gélido e sem emoção. — Nós precisamos conversar sobre o seu irmão. O Tony acabou de tentar matar um colega de classe na escola.
A reação de Bree cortou o ar como uma lâmina afiada. Ela olhou para Edward, depois para mim, e um sorriso nervoso, quase cínico, brotou em seus lábios. Ela soltou uma lufada de ar que evoluiu para uma risada desacreditada.
— Quem puxa aos seus, não degenera... — Bree disse, cruzando os braços, a voz carregada de uma ironia sombria. — Vocês realmente achavam o quê? Que iam criar um anjinho fofo regado a risoto e passeios no parque? Olhem para vocês dois. O Tony só pulou as preliminares.
— Não seja leviana, Bree — Edward rebateu, a voz cortante enquanto ele largava o copo de uísque na bancada com um baque seco. — O problema não é a natureza dele. É a exposição. Felix conseguiu conter a polícia por agora, mas a escola foi categórica. Para o Tony não ser expulso permanentemente e virar alvo do serviço social britânico, ele vai ter que passar por um acompanhamento psiquiátrico forense institucional. Um profissional vai revirar a cabeça do seu irmão.
A palavra psiquiatra ecoou no meu cérebro como um alarme de incêndio. Senti minhas mãos tremerem, uma onda de calor sufocante subindo pelo meu pescoço. Levei as mãos à cabeça, os dedos cravando-se nos meus cabelos enquanto eu começava a andar de um lado para o outro na sala, o oxigênio parecendo faltar. O peso daquela barriga ainda plana, o peso do sangue no uniforme do Tony, o peso de manter uma mentira viva por anos... tudo desabou de uma vez só. Eu estava colapsando.
— Vocês não entendem... — comecei, minha voz subindo de tom, quebrando a pose de frieza, revelando a fratura exposta da minha mente. — Vocês entendem que eu não tô dando conta de um, imagina de dois?! Olhem para o Tony! Olhem para o que ele fez com quatro anos! Uma bebê está vindo aí... Outra extensão nossa. Outro monstro faminto. Eles vão me matar ou eu vou matar eles! Eu não sei ser mãe de pessoas normais, como eu vou controlar duas criaturas que herdaram a porra do nosso pior lado?!
Edward deu um passo na minha direção, os olhos arregalados com o meu surto, mas antes que ele pudesse me tocar, o som estridente da campainha ecoou pela cobertura.
Bree recuou, olhando de relance para nós dois, e caminhou até a entrada. Ao girar a maçaneta, a imponência do passado cruzou o batente.
Félix entrou primeiro, impecável em seu terno escuro, com a expressão de quem havia acabado de comprar o silêncio de metade da Scotland Yard. Logo atrás dele, ajustando os óculos escuros antes de deslizá-los pelo nariz, estava Renée. Direto de Madre Linda para conter o caos em Londres. Ela olhou para o luxo da cobertura, depois para a minha expressão desfigurada pelo pânico e para o uísque na mão de Edward.
Renée abriu um sorriso teatral, lento e deliciosamente venenoso.
— Vocês não sabem o prazer que é estar de volta... — ela destilou, a voz mansa, saboreando a nossa ruína iminente.
Félix e Edward se trancaram no escritório com as portas blindadas fechadas para traçar a estratégia de contenção psicológica do Tony. Bree havia subido para o quarto, nos deixando sozinhas.
O silêncio na cozinha era quebrado apenas pelo barulho da água fervendo. Eu estava de pé diante da bancada, os olhos fixos no vazio, sentindo o peso invisível da maternidade esmagar os meus ombros. Renée se aproximou em silêncio. Sem o sarcasmo habitual, sem as provocações de Madre Linda. Pela primeira vez na vida, vi algo parecido com compaixão nos olhos da minha mãe. Ela esticou a mão e, em um gesto fofo e genuíno que nunca havia acontecido entre nós, colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha e segurou o meu rosto.
Eu desabei internamente. Segurei o pulso dela, os meus olhos marejando.
— Eu estou com medo, mãe... — confessei, a voz saindo pequena, despida de todas as minhas defesas. — Não é só do Tony. É do Edward. Eu sinto que... se eu não for o centro absoluto dele, se eu falhar em ser perfeita, ele vai se entediar. E se ele se entediar, ele vai buscar o caos. Eu tenho medo de perdê-lo para a escuridão dele... ou de virar a próxima vítima se a nossa parede de vidro quebrar.
No corredor escuro, a poucos metros da porta semiaberta da cozinha, uma silhueta permaneceu estática. Edward estava ali, parado na penumbra, escutando escondido. Cada palavra minha entrou como um estilete no peito dele.
Renée suspirou, olhando profundamente nos meus olhos, a voz caindo para um tom de seriedade mortal.
— Filha, você não acha que essa brincadeira de casinha já deu o que tinha que dar? — ela disse, as palavras pesadas, realistas. — Vocês tentaram. Mudaram de país, adotaram uma filha, tiveram um menino, compraram móveis caros... mas vocês são o que são. Vocês vão se destruir, Bella. E não é se destruir como eu e o seu pai, com divórcio, brigas e processos. É literalmente muito sangue derramado até um de vocês cair. Olhe para vocês... e olha para o que o Tony fez hoje na escola. Aquilo é o reflexo do amor doente de vocês. Vocês infectaram aquela criança com a psicopatia de vocês. Até quando vocês vão fingir que isso vai terminar bem?
Aquelas palavras flutuaram no ar, densas como chumbo. Na penumbra do corredor, Edward fechou os olhos, sentindo o impacto do diagnóstico de Renée. Aquilo mexeu com ele no nível mais profundo. Mexeu comigo. A verdade nua e crua estava exposta na nossa mesa.
POV EDWARD
A noite desceu sobre Londres como um manto de neblina pesada. No quarto principal, a escuridão era quase total, quebrada apenas pela luz fraca dos postes da rua que atravessava a vidraça. Bella estava deitada de lado, encolhida, olhando para o nada.
Entrei no quarto com passos lentos. Sentei-me na borda do colchão. O silêncio entre nós não era mais o do sexo violento ou da cumplicidade no crime; era o silêncio do medo.
— Bella — chamei, a voz mansa, despida de qualquer máscara acadêmica ou manipulação social. — Conversa comigo.
Ela não se moveu. Apenas suspirou.
— Eu ouvi o que a Renée disse na cozinha — confessei, e vi o corpo dela enrijecer levemente sob os lençóis. — Eu ouvi tudo. Ouvi o seu medo.
Virei-me um pouco mais na direção dela, sentindo uma dor genuína e humana apertar o meu peito — um sentimento que eu raramente experimentava.
— Você quer se separar de mim, Bells? — perguntei, e pela primeira vez, minha voz fraquejou. A possibilidade real de não tê-la ao meu lado causou um vazio aterrador na minha mente.
Bella virou-se lentamente, os olhos castanhos brilhando na penumbra, cheios de uma angústia profunda.
— Eu tenho medo, Edward... de tudo isso. Do que nós somos. E principalmente no que isso vai refletir para os nossos filhos. Olha o Tony... ele tem quatro anos e já é um monstro. O que nós fizemos com ele? O que vamos fazer com a Charlotte? Se continuarmos juntos, nós vamos acabar nos matando ou destruindo eles.
Aproximei-me dela, deslizando pelo colchão até colar o meu corpo ao dela. Pela primeira vez na nossa história, eu não estava usando o sexo para calá-la, nem a lógica para manipulá-la. Eu estava lutando pelo amor dela. Pela nossa família.
— Nós não vamos nos destruir — falei, a voz carregada de uma convicção feroz, desesperada. Segurei o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhar para a minha alma nua. — Eu vou fazer até o impossível para as coisas ficarem bem, Bella. Se você quiser ir embora daqui... se quiser largar Londres, largar a universidade, mandar tudo para o inferno e recomeçar em outro lugar, em uma fazenda isolada, no meio do nada... nós vamos. Eu largo tudo por você. Eu mudo o mundo de lugar se isso mantiver você segura e ao meu lado. Eu não existo sem você, Bells. Nós dividimos o mesmo cérebro, lembra?
Bella olhou para mim, as lágrimas finalmente rolando livremente pelas suas bochechas. Ela esticou a mão, tocando o meu peito, sentindo o compasso acelerado do meu coração.
— Não podemos fugir toda vez que as coisas saírem de controle, Edward... — ela sussurrou, a voz embargada. — O problema não é o lugar. O problema somos nós.
— Então nós vamos consertar a nós mesmos — respondi, puxando-a para o meu peito com uma ternura infinita, envolvendo-a nos meus braços como se ela fosse a coisa mais preciosa e frágil do universo. Apoiei meu queixo no topo da cabeça dela, respirando o cheiro de alecrim dos seus cabelos. — Me perdoa... Me perdoa por deixar você sentir medo de mim. Me perdoa por trazer o caos para perto do nosso ninho. Eu amo você. Mais do que a minha própria vida. Mais do que qualquer impulso de destruição.
Havia uma beleza melancólica e cósmica naquele abraço, uma atmosfera que parecia saída dos versos mais profundos de Saturn, do Sleeping at Last. Era a sensação de duas estrelas massivas, perigosas e destrutivas, que encontravam a paz apenas quando colidiam e orbitavam uma à outra, encontrando luz na imensidão do próprio caos. “Você me ensinou o sabor da minha própria mortalidade”. Nós éramos imperfeitos, éramos monstros, mas éramos o universo um do outro.
Bella relaxou os ombros, afundando o rosto no meu pescoço, chorando baixinho enquanto as minhas mãos acariciavam suas costas em um ritmo calmo, protetor. Pela primeira vez em muito tempo, a parede de vidro não parecia prestes a quebrar por causa de uma ameaça externa; nós estávamos cuidando das rachaduras por dentro, segurando a estrutura com as nossas próprias mãos ensanguentadas. E, no silêncio daquela noite em Londres, nós decidimos que, se fôssemos cair, cairíamos juntos.
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