AFTER YOU - 4 temporada

4 HERANÇA DE SANGUE


Notas iniciais
Olá, meus sobreviventes. Se no capítulo anterior a primeira rachadura apareceu no casamento de Bella e Edward... neste capítulo vamos descobrir que talvez o verdadeiro problema nunca tenha sido Katherine Santiago. Talvez o problema tenha nascido dentro da própria casa. E, sinceramente? Depois desse capítulo, acho que vocês nunca mais vão olhar para o Tony da mesma forma. Boa leitura. 🖤

CAPÍTULO 4 — HERANÇA DE SANGUE

POV EDWARD

A alucinação da noite anterior havia deixado um resíduo amargo na minha boca. Acordei com os músculos tensos, a mente operando em uma rotação perigosamente acelerada. O rosto daquela garota, Katherine, sobreposto ao de Bella no momento do meu ápice, não era apenas um susto visual; era uma falha no meu sistema. Uma invasão de privacidade que eu mesmo causei ao permitir que o nome dela orbitasse meus pensamentos.

Quando entrei na sala de jantar, o apartamento estava silencioso demais. Um silêncio doméstico, mas que para os meus ouvidos treinados parecia o silêncio que precede uma emboscada.

À mesa do café, apenas Bree e Tony estavam sentados. Bree tentava, de forma desajeitada, espalhar geleia em uma torrada, enquanto Tony, com as pernas gordinhas balançando na cadeira alta, mastigava seu cereal com uma lentidão quase hipnótica. O lugar de Bella estava vazio. O bule de café ainda estava quente, mas a xícara dela não estava lá.

— Onde está a mamãe? — perguntei, minha voz saindo no tom calmo de sempre, embora meus olhos estivessem escaneando o ambiente atrás de qualquer anomalia.

Tony engoliu o cereal e, antes que a irmã pudesse impedi-lo, olhou para mim com aqueles olhos castanhos excessivamente focados.

— A mamãe saiu cedo, papai. Ela estava bem nervosa. Ela bateu a porta do armário muito forte.

Bree deu um tapinha imediato no braço gordinho do irmão, a testa franzida em uma censura ansiosa.

— Cala a boca, Tony! — ela sibilou, olhando para mim logo em seguida com um sorriso amarelo, forçado demais para ser natural. — Bom dia, Edward. Não liga para ele, você sabe como o Tony inventa coisas.

Sentei-me na ponta da mesa, cruzando os dedos por cima do jogo americano. Observei o tremor sutil nos dedos de Bree enquanto ela largava a faca de geleia. Ela estava assustada. A tensão entre mim e Bella na noite anterior havia deixado marcas invisíveis pelas paredes da casa, e as crianças sentiam o cheiro de queimado.

— Bree — chamei, baixando o tom de voz, usando aquela suavidade clínica que desarma qualquer resistência. — A Bella estava bem?

Bree hesitou, olhando para o prato, engolindo em seco.

— Ela... ela saiu muito apressada. Disse que precisava ir ao mercado comprar umas coisas para a casa, mas... foi bem estranho, Edward. Ela nem tomou o chá dela. Ela parecia... sei lá, com pressa. Como se estivesse fugindo de...

A frase de Bree foi cortada pelo som do bipe eletrônico da fechadura da entrada. A porta pesada se abriu e Bella passou por ela.

Ela estava impecável, os cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo alto, usando óculos escuros que escondiam suas reações. Carregava duas sacolas de papel de uma boutique de jardinagem de alto padrão, mas o que realmente chamou a minha atenção foi o homem que vinha logo atrás dela. O porteiro do prédio, ofegante, carregava duas caixas grandes de madeira repletas de mudas de plantas e terra fresca.

— Deixe ali perto da varanda, por favor, Thomas — Bella ordenou, a voz melodiosa, o epítome da patroa gentil.

Ela tirou os óculos escuros, e foi aí que nossos olhos se cruzaram. Havia uma rigidez quase imperceptível na linha dos ombros dela. Uma defensividade física. Ela estava com medo de mim. A constatação me causou um prazer sombrio, mas também uma irritação profunda. Minha esposa estava se blindando contra o seu próprio marido.

Aproximei-me das caixas enquanto o porteiro se retirava. Meus olhos, treinados na botânica forense e na toxicologia por pura necessidade de sobrevivência ao longo dos anos, travaram em uma muda específica. Folhas verde-escuras, recortadas, flores que ainda não haviam desabrochado, mas cujo formato de elmo era inconfundível.

Aconitum napellus. Conhecida popularmente como Mata-Lobos.

Uma das toxinas mais letais do planeta. A ingestão de apenas alguns miligramas causa paralisia cardíaca instantânea. O veneno perfeito para uma eliminação limpa e sem rastros.

— Jardinagem, Bells? — comentei, esticando o dedo para tocar a folha da planta venenosa, olhando de soslaio para ela. — Não sabia que tínhamos espaço para algo tão... delicado na nossa varanda.

— Renovar o ambiente faz bem para a saúde, Edward — ela respondeu, sem vacilar, aproximando-se da mesa para dar um beijo rápido no topo da cabeça de Tony e um sorriso para Bree. — Precisamos de mais vida nesta cobertura.

— Precisamos conversar. A sós — sussurrei perto do ouvido dela, minha mão espalmando a curva da sua cintura, apertando com uma firmeza possessiva.

Bella esquivou-se com uma leveza cirúrgica, pegando a mochila de Tony no chão.

— Agora não dá, querido. Estou completamente atrasada. Preciso deixar o Tony na escola e a Bree na faculdade, o trânsito de Londres de manhã está infernal. Vamos, crianças.

Ela usou os dois como escudo humano. Ela sabia que eu não faria uma cena na frente deles. Assisti, em silêncio, enquanto ela recolhia as crianças e cruzava a porta, deixando-me sozinho na sala com o cheiro do perfume dela e o vaso de Mata-Lobos entre nós.


Peguei o telefone e liguei para a secretaria da universidade. Usei minha melhor voz de homem prostrado por uma virose súbita. Dei duas tosses secas, pedi desculpas pelo transtorno e avisei que os alunos deveriam ler os capítulos subsequentes de Dostoiévski por conta própria. Desliguei o aparelho e joguei-o no sofá. Eu não ia a lugar nenhum. Não com a minha esposa estocando veneno de elite na nossa varanda.

Fiquei duas horas sentado na poltrona do meu escritório escuro, exatamente na mesma posição, encarando o vaso de Mata-Lobos que eu havia trazido para dentro. A mente operando em cenários. Xadrez puro.

Quando a porta principal se abriu novamente, o silêncio do apartamento foi quebrado pelos passos leves dos saltos de Bella. Ela entrou em casa achando que estaria sozinha. Quando passou pela porta do escritório e me viu ali, estático na penumbra, ela deu um sobressalto, a mão indo instintivamente ao peito.

— Edward! — ela exclamou, os olhos castanhos arregalando-se por um segundo antes de voltarem à frieza habitual. — O que está fazendo aqui? Você não deveria estar dando aula?

— Eu mudei os meus planos, Bells — respondi, minha voz saindo de um ponto muito escuro da minha garganta. Apontei com o queixo para as folhas verde-escuras na minha frente. — Estava aqui pensando... Você comprou isso para me eliminar? Vai me descartar como fez com o Jacob Black? Uma dose errada? O coração para de bater e o Professor Cullen vira estatística de infarto fulminante?

Bella me encarou por alguns segundos. A surpresa dela deu lugar a algo assustadoramente calmo. Ela caminhou até a escrivaninha, apoiou as duas mãos na madeira, inclinando o corpo na minha direção. Um sorriso frio, quase perverso, desenhou-se em seus lábios vermelhos.

— Não seja ridículo, Edward. Eu nunca usaria isso em você. Você é o meu marido.

— E para quem é, então? — perguntei, sem mover um único músculo.

— É para a sua aluna — ela sussurrou, os olhos brilhando com uma maldade pura, territorial. — Vou matar a Katherine Santiago exatamente como fiz com a Elena Salvatore. Eu vou arrancar aquela garota do seu cérebro, nem que eu precise usar cada folha dessa planta para transformar o sangue dela em gelo. Nenhuma mulher toca no que é meu. Nenhuma mente entra no território que eu projetei.

Eu olhei para ela e, contra todos os meus instintos de autopreservação, eu soltei uma risada. Uma gargalhada sombria, ecoando pelo escritório. Ela era inacreditável. Uma psicopata grávida, territorial e absolutamente letal. O fato de ela estar pronta para assassinar uma estudante de vinte anos apenas para garantir o meu foco absoluto era a coisa mais doentia e excitante que eu já havia presenciado.

Me levantei da poltrona, contornando a mesa, e a puxei pela cintura, colando o corpo dela ao meu.

— Você não tem jeito, Bells... — murmurei, roçando meus lábios na bochecha dela, sentindo o calor da sua pele. — O que eu preciso fazer para você entender, de uma vez por todas, que eu só amo você? Que nenhuma daquelas mentes medíocres daquela faculdade chega aos pés do monstro perfeito que você é?

Bella relaxou o corpo contra o meu, os braços envolvendo o meu pescoço, embora os olhos ainda guardassem uma centelha de desconfiança.

— Quero garantias, Edward. Não quero rachaduras na nossa casa.

— Nós vamos dar um jeito — respondi, passando a mão pela barriga dela, que ainda mantinha a rigidez plana de antes. — Sabe o que nós vamos fazer? Terapia de casal. Vamos contratar um daqueles profissionais caros de Londres, sentar no sofá deles e fingir que somos um casal normal com problemas normais. Vamos preparar a família para a chegada da nossa bebê, da nossa Charlotte.

Apertei o corpo dela contra o meu, descendo os beijos para o pescoço dela, sentindo a pulsação acelerada na artéria carótida dela.

— Isso tudo que você está sentindo... essa paranoia, essa fúria... são apenas os hormônios da gravidez, Bells. É a biologia agindo. Você está segura comigo. Sempre esteve.

POV BELLA

A racionalização dele funcionou como um combustível. Ouvir Edward sugerir terapia de casal com aquele tom de superioridade, enquanto me puxava para perto, fez a minha raiva se transformar instantaneamente em um tesão violento, faminto e possessivo. Eu precisava dele. Precisava marcar o meu território dentro dele, cravar as minhas unhas na carne dele até que ele esquecesse a própria existência de qualquer outra mulher na Terra.

— Me prova... — sussurrei contra a boca dele, puxando o cabelo da nuca dele com força.

Edward não respondeu com palavras. Ele me prensou contra a parede do escritório, derrubando o vaso de Mata-Lobos no chão. A cerâmica se quebrou, a terra se espalhou, mas nenhum de nós se importou. As mãos dele foram direto para os meus saltos, arrancando-os, e em seguida rasgando o zíper do meu vestido com uma urgência brutal.

Ele me carregou para o quarto principal, jogando-me na cama de casal enorme. Eu mal tive tempo de respirar antes que ele subisse na cama, arrancando a própria camisa, os músculos do peito dele subindo e descendo com uma respiração pesada, animalesca.

Edward me puxou pelas pernas até a beirada do colchão. Ele se ajoelhou no chão, segurando as minhas coxas com as duas mãos, abrindo as minhas pernas com uma força que me fez soltar um gemido agudo. Ele não foi gentil. Ele afundou o rosto diretamente entre as minhas pernas, a boca e a língua dele trabalhando com uma agressividade faminta, explícita.

— Edward... — meu grito saiu arranhado, minhas mãos agarrando os lençóis de seda enquanto a língua dele me consumia de forma impiedosa, sugando o meu clitóris com uma força que fazia o meu quadril dar espasmos involuntários.

O prazer era tão intenso que beirava a dor. Ele usava os dedos por dentro, me abrindo, me esticando, enquanto a boca dele continuava o trabalho brutal lá embaixo, lambendo o meu suor, me levando ao limite absoluto antes mesmo de me penetrar. Eu arqueava as costas, a cabeça jogada para trás, completamente entregue àquela humilhação deliciosa de ser consumida pelo meu próprio monstro.

Quando eu achei que ia colapsar, eu o puxei pelos cabelos para cima.

— Agora, Edward... entra em mim agora! — implorei, a voz trêmula de puro desejo.

Ele subiu na cama, o membro rígido e pulsante implorando por espaço. Eu mudei de posição com uma agilidade faminta; sentei-me sobre o quadril dele, segurando o membro dele com uma das mãos e me guiando para baixo. Eu me empalei nele de uma vez só.

Um gemido longo, ecoante, rasgou o quarto. Comecei a cavalgar em cima dele com força, jogando o meu peso para baixo, sentindo cada centímetro dele preencher o meu útero. Meus cabelos castanhos voavam pelo meu rosto, o suor colando a minha pele à dele. Edward segurava o meu quadril, impulsionando o corpo dele para cima a cada descida minha, fazendo o impacto ser profundo, violento, ritmado.

No meio do nosso ritmo brutal, quando o quarto estava cheio com o som dos nossos corpos se chocando e a minha respiração errática, o som estridente e mecânico do meu celular começou a tocar em cima da mesa de cabeceira.

O toque de chamada de emergência da escola de Tony.

Tentei ignorar, fechando os olhos, focando na sensação do Edward dentro de mim, mas o som persistia, quebrando a nossa bolha de isolamento.

— Não atende... — Edward roçou os dentes no meu mamilo, mordendo de leve, as mãos dele apertando a minha bunda com força para me manter colada a ele. — Esquece o mundo, Bells... continua...

— É... é da escola do Tony... — arfei, o corpo inteiro tremendo enquanto eu continuava a me mover em cima dele, sentindo o ápice subir pelas minhas pernas. — Preciso... preciso atender, Edward... pode ser algo sério...

Edward me encarou de baixo, os olhos dele pretos de pura luxúria, um sorriso perverso e doentio cruzando os lábios dele. Ele soltou o meu quadril, esticou o braço e pegou o celular na mesa de cabeceira, estendendo-o para mim enquanto mantinha o quadril dele se movendo para cima, lento e firme.

— Atende — ele ordenou, a voz rouca, o olhar cravado no meu. — Atende, mas continua em cima de mim... cavalga em mim enquanto fala com eles. Quero ver você se controlar.

A proposta era insana. Era doentia. Era puramente nós.

Peguei o telefone com a mão trêmula, deslizando o dedo pela tela para aceitar a chamada, enquanto rebolava com força no colo dele, sentindo-o raspar no meu ponto mais sensível. Coloquei o aparelho no ouvido, mordendo o lábio inferior com tanta força que quase sangrou.

— A-Alô? — minha voz saiu um pouco alta, trêmula.

Ao mesmo tempo, Edward subiu as duas mãos pelo meu corpo. Ele agarrou os meus peitos, apertando-os, e começou a chupar um dos meus mamilos com força, enquanto a outra mão dele descia até o meu clitóris, os dedos dele me masturbando de forma rápida, impiedosa, forçando o meu orgasmo a subir como uma parede de fogo.

— Sra. Cullen-Higginbotham? — a voz da diretora do outro lado da linha parecia vir de outro planeta, tensa, trêmula. — Aqui é a Diretora Vance, da escola do Tony. Peço desculpas por ligar a esta hora, mas temos uma situação de extrema gravidade aqui.

Eu fechei os olhos com força, tentando manter a voz firme enquanto o quadril de Edward me empurrava para cima e os dedos dele me levavam à loucura. Eu estava prestes a gozar. O prazer estava explodindo no meu cérebro.

— Sim... Diretora... pode falar... — tentei controlar a respiração, cada palavra saindo pausada, enquanto eu continuava cavalgando no Edward, sentindo o corpo dele também enrijecer abaixo de mim, o ápice dele chegando junto com o meu.

— Sra. Cullen, eu preciso que a senhora e seu marido venham imediatamente. Houve um incidente terrível no pátio durante o intervalo...

Edward desferiu uma estocada profunda, e os dedos dele pressionaram o meu clitóris com força total. Eu estava a um milésimo de segundo de soltar um grito de orgasmo e desabar no peito dele. Meu corpo inteiro travou, os músculos da minha vagina se contraindo ao redor dele de forma violenta.

Mas as palavras seguintes da diretora ecoaram no meu ouvido como um balde de água congelada, evaporando todo o prazer do meu corpo em um piscar de olhos.

— O seu filho... o Tony... ele acabou de pegar um coleguinha de classe e espancar o menino. Ele arrastou o garoto pelos cabelos e bateu a cabeça dele contra a parede de pedra com força, várias vezes. O chão está coberto de sangue, Sra. Cullen. A ambulância está a caminho. O Tony está na minha sala, em silêncio absoluto, apenas sorrindo. Venham agora.

O choque elétrico que percorreu a minha espinha não foi de prazer. Foi de puro terror e reconhecimento.

Eu travei em cima do Edward. Parei de me mover instantaneamente. Meus olhos se arregalaram, fixos na parede vazia do quarto. O clímax do meu corpo morreu ali mesmo, substituído pela adrenalina fria da sobrevivência.

— Ele fez o quê? — perguntei para a linha, minha voz mudando completamente, voltando a ser a voz gélida, calculista e cortante de sempre. — Certo. Entendido. Eu vou ligar para o meu marido e vamos para aí imediatamente.

Desliguei o telefone com um clique seco, a mão trêmula. Pulei de cima do colo de Edward de uma vez só, deixando-o exposto na cama.

Edward, cuja mente ainda estava presa na névoa do tesão e do orgasmo interrompido, apoiou-se nos cotovelos, a testa franzida em uma mistura de frustração e confusão.

— Ei... Bells, o que foi? Nós não acabamos... o que aconteceu?

Olhei para ele de cima, com o corpo nu coberto de suor, mas com os olhos completamente frios, desprovidos de qualquer luxúria.

— Seu filho... — comecei, a voz saindo em um sussurro que fez o sorriso de Edward desaparecer instantaneamente. — O Tony acabou de pegar um coleguinha na escola e espancar ele... batendo a cabeça do menino na parede com força, várias vezes. A diretora disse que o chão está coberto de sangue.

Edward paralisou na cama. O membro dele amoleceu instantaneamente enquanto a informação penetrava a barreira da sua racionalidade. Os olhos dele, antes dilatados pelo sexo, estreitaram-se em um choque puro, congelante. O monstro que nós havíamos criado e tentado domesticar dentro de uma rotina perfeita... tinha acabado de acordar antes do tempo.

POV EDWARD

O trajeto de vinte minutos até a escola de Tony foi feito em um silêncio absoluto e sufocante. Eu não passei da terceira marcha; minhas mãos seguravam o volante com tanta força que as articulações dos meus dedos estavam brancas. Ao meu lado, Bella olhava fixamente para o painel de bordo, os braços cruzados sobre o peito, a mandíbula tão rígida que eu podia ver o músculo de sua bochecha pulsar.

Não éramos um casal normal correndo desesperado por causa de um acidente. Éramos dois cientistas olhando para o microscópio e percebendo que a cultura de bactérias letais que tentamos isolar havia escapado da incubadora.

Quando cruzamos os portões de ferro da escola primária de elite no centro de Londres, o ambiente parecia o cenário de um crime fresco. Uma ambulância estava estacionada perto do pátio, com as luzes vermelhas e azuis piscando em silêncio contra os tijolos antigos da fachada. Dois paramédicos passavam carregando uma maca. Olhei de relance. Havia um lençol branco com uma mancha escarlate se expandindo rapidamente na altura da cabeça. Um garotinho. Seis anos, no máximo.

Bella nem piscou. Ela apenas apressou o passo pelos corredores decorados com desenhos coloridos de giz de cera e colagens infantis, uma ironia visual grotesca que fazia meu estômago dar nós.

Batemos duas vezes na porta de carvalho com a placa DIRETORIA. Sem esperar resposta, Bella girou a maçaneta.

A sala cheirava a chá de camomila e pânico. A Diretora Vance, uma mulher de cinquenta anos com pérolas no pescoço e o rosto completamente desprovido de cor, estava de pé atrás de sua mesa, segurando um telefone fixo como se fosse uma arma de defesa. Mas ela não foi a primeira coisa que meus olhos catalogaram.

No canto esquerdo da sala, sentado em uma cadeira de couro grande demais para ele, estava Tony.

O uniforme escolar dele, o suéter azul-marinho que Bella havia passado a ferro naquela manhã, estava desalinhado. As mangas brancas da camisa social estavam arregaçadas até os cotovelos gordinhos. E ali, na pele alva dos braços dele e salpicado nas bochechas infantis, estava o sangue. Sangue arterial, vivo, que não era dele.

Ele não estava chorando. Não estava tremendo. Ele balançava as pernas curtas para frente e para trás, no mesmo ritmo hipnótico em que mastigava o cereal mais cedo. Quando a porta se abriu, ele virou o rosto na nossa direção. O olhar esverdeado dele, idêntico ao meu, brilhou. E ele sorriu. Um sorriso puro, angelical, de quem acabou de ganhar um brinquedo novo.

— Papai! Mamãe! — ele exclamou, a voz infantil e doce quebrando a tensão da sala como um vidro estilhaçado.

— Sra. Cullen... Professor Cullen... — a Diretora Vance deu um passo à frente, a voz trêmula, os olhos pulando entre mim e Bella. — Graças a Deus vocês chegaram. O que aconteceu aqui... eu nunca, em vinte anos de carreira, vi algo dessa natureza em uma criança de quatro anos. É... é patológico.

Bella deu um passo à frente, assumindo imediatamente a postura da mãe aristocrática e ultrajada. A máscara dela era perfeita, uma obra de arte da dissimulação.

— Diretora Vance, por favor, acalme-se — Bella disse, a voz firme, fria, destilando uma autoridade que fez a mulher engolir em seco. — Onde está o outro menino? O que exatamente aconteceu? Meu filho é uma criança dócil, ele nunca levantou a mão para ninguém em casa. Deve ter havido uma provocação extrema.

— Provocação? — a diretora soltou uma risada nervosa, quase histérica. Ela pegou uma pasta sobre a mesa e a abriu com dedos trêmulos. — Sra. Cullen, o pequeno Leo apenas pegou o boneco de plástico que o Tony estava usando no recreio. Não houve discussão. Não houve grito. O Tony simplesmente caminhou até ele, chutou a parte de trás dos joelhos do menino para derrubá-lo e... meu Deus... ele o agarrou pelos cabelos.

A mulher cobriu a boca, os olhos marejados de horror real.

— Ele bateu a testa do Leo contra o muro do pátio quatro vezes. O inspetor disse que o som parecia o de um coco quebrando. Quando conseguimos arrancá-lo de cima do menino, o Tony não estava bravo. Ele olhou para o inspetor e disse... ele disse que queria ver o que tinha dentro da cabeça do Leo que fazia ele querer o brinquedo dos outros.

Um calafrio elétrico e terrivelmente familiar subiu pela minha espinha. Olhei para Tony. O garoto continuava nos encarando, as pernas balançando. A mecânica daquela ação... a ausência de raiva, a curiosidade puramente anatômica e utilitária sobre a dor alheia. Não era um surto infantil. Era uma execução científica. Ele não aprendeu isso vendo televisão. Estava no DNA. Estava no sangue que eu e Bella demos a ele.

POV BELLA

O meu coração batia em um ritmo compassado, mas a minha mente estava em chamas. Olhar para o sangue nas bochechas do meu filho de quatro anos causou um curto-circuito no meu sistema. Não era culpa. Não era remorso. Era o pavor absoluto de que o mundo visse através da nossa cortina de fumaça. Nós havíamos construído uma fortaleza em Londres, trocado de nomes, comprado ternos de tweed e feito risotos de cogumelos para nos misturarmos ao gado. E o meu próprio filho havia acabado de pintar um alvo vermelho gigante nas nossas costas.

— Isso é um absurdo — falei, dando um passo em direção à mesa da diretora, batendo as palmas das mãos na madeira com uma força que fez as xícaras de chá tremerem. — O Tony tem quatro anos! Uma criança dessa idade não tem força física nem coordenação para planejar algo assim. O seu inspetor deve ter negligenciado uma briga onde o meu filho foi agredido primeiro e apenas tentou se defender!

— Sra. Cullen, o muro está marcado com o sangue do garoto! — a diretora rebateu, a voz subindo de tom, tentando recuperar o controle da sua própria sala. — O Leo está a caminho do hospital com suspeita de traumatismo craniano severo! A polícia já foi acionada. Eles estão vindo para cá agora para registrar a ocorrência e acionar o serviço social. A escola está suspendendo o Tony permanentemente, e nós vamos recomendar uma avaliação psiquiátrica forense institucional.

Polícia. Serviço social. Avaliação psiquiátrica forense.

Aquelas palavras piscaram na minha mente como luzes de aviso de uma ogiva nuclear prestes a detonar. Se um psicólogo forense sentasse com o Tony por trinta minutos... se eles começassem a cavar o histórico familiar... se eles cruzassem os dados da nossa chegada súbita a Londres... o mundo ia desabar sobre as nossas cabeças.

Senti a mão de Edward pousar no meu ombro. O toque dele era frio, mas a pressão dos dedos dele era um comando silencioso: Deixe comigo.

— Diretora Vance — Edward interveio, sua voz deslizando pelo ambiente como veludo preto. O tom do Professor Cullen, o homem acadêmico, o intelectual respeitado e compreensivo. — Por favor, peço que nos dê dois minutos a sós com o nosso filho antes que a polícia chegue. Como professor de literatura e estudioso do comportamento humano, eu sei o quanto o choque inicial pode travar a mente de uma criança. Nós precisamos acalmá-lo para que ele possa colaborar.

A diretora olhou para Edward, claramente intimidada pelo porte dele e pelo respeito que o nome dele carregava na comunidade acadêmica. Ela limpou o suor da testa com um lenço.

— Dois minutos, Professor. A polícia deve estar cruzando a avenida. Eu... eu vou esperá-los na recepção.

Ela saiu da sala, fechando a porta atrás de si.

No milésimo de segundo em que a tranca da porta estalou, a atmosfera na sala mudou. A simulação de família desmoronou.

Edward caminhou até o Tony. Ele não o abraçou. Ele se ajoelhou na frente da cadeira alta do menino, ficando na altura dos olhos dele. Eu me aproximei por trás, olhando para os dois. Duas cópias. O criador e a criatura.

— Tony — Edward chamou, a voz mansa, mas com uma frieza que cortaria aço. — Olhe para mim.

Tony parou de balançar as pernas. Os olhinhos castanhos fixaram-se nos de Edward.

— Você sentiu raiva do Leo? — Edward perguntou, estudando cada linha do rosto do filho.

— Não, papai — Tony respondeu, a voz fina e inocente, como se estivesse explicando por que não gostava de brócolis. — Ele pegou o meu boneco. O boneco era meu. Você disse que nós protegemos o que é nosso. Você disse que as pessoas comuns não podem pegar as coisas dos homens extraordinários. O Leo é comum. Ele chorou muito rápido.

Edward piscou. Senti um nó se apertar na minha garganta. O Edward vinha moldando a mente daquela criança em segredo, plantando os conceitos de Dostoiévski e as suas próprias justificativas psicopatas na cabeça de um menino de quatro anos durante as histórias para dormir.

Edward olhou para cima, encontrando os meus olhos sobre a cabeça de Tony. Havia um brilho de puro fascínio e, ao mesmo tempo, um pavor gelado nas pupilas dele.

— Ele absorveu tudo, Bells... — Edward sussurrou, a voz trêmula por uma revelação sombria. — Ele não é como as outras crianças. Ele é... como nós. Desde o início.

— Não temos tempo para uma crise de orgulho paterno, Edward! — sibilei, dando um passo à frente, agarrando os ombros de Tony com força, forçando o menino a olhar para mim. — Limpe esse rosto agora. A polícia está lá fora. Se eles pegarem você com esse sangue, se eles levarem você para um hospital para fazer exames, acabou. Nós vamos para a cadeia e eles vão tirar a Charlotte de dentro de mim no momento em que ela nascer!

Tony olhou para a minha barriga e, pela primeira vez, o sorriso dele sumiu, substituído por uma seriedade protetora e possessiva.

— Eles não vão tirar a minha irmãzinha — Tony disse, o maxilar miúdo se contraindo.

— Então você vai fazer exatamente o que a mamãe mandar — falei, puxando um lenço de papel da bolsa, cuspindo nele e começando a esfregar o sangue da bochecha dele com violência. — Quando aqueles homens de farda entrarem por aquela porta, você vai chorar. Você vai soluçar até soltar catarro. Você vai dizer que o Leo tropeçou no pátio, bateu a cabeça e que você tentou ajudar ele, e por isso ficou sujo de sangue. Você vai dizer que ficou com tanto medo que não conseguiu falar. Você entendeu, Anthony? Você vai ser a porra de uma vítima traumatizada!

Tony olhou para mim, processando a ordem com uma velocidade assustadora para uma criança. Ele olhou para Edward, buscando a validação do pai.

Edward assentiu lentamente com a cabeça, levantando-se e limpando a poeira das calças de tweed.

— Faça o que a sua mãe disse, campeão. É hora de atuar.

O que aconteceu nos cinco segundos seguintes me deu mais medo do que qualquer monstro que já enfrentei.

Tony respirou fundo. Os olhos dele, antes frios e focados, começaram a lacrimejar instantaneamente. Os lábios dele começaram a tremer, o peito subindo e descendo em espasmos ensaiados de choro. Uma lágrima gorda desceu pela bochecha dele, seguida por um soluço agudo, sôfrego e desesperado que ecoou pela sala. Ele encolheu as pernas, abraçou os próprios joelhos e começou a tremer como uma folha ao vento. Uma performance perfeita de uma criança em choque.

Eu e Edward nos entreolhamos no meio da sala da diretoria.

O som da sirene da polícia parou logo na entrada da escola. Nós havíamos conseguido o álibi para os próximos trinta minutos. Mas, enquanto eu limpava os vestígios de sangue dos meus próprios dedos, uma certeza terrível se assentou no meu peito.

Nós estávamos tão preocupados com a parede de vidro quebrando por causa do passado, das investigações ou de alunas brilhantes como Katherine Santiago... que não percebemos que o teto da nossa fortaleza já estava desabando. O monstro que ia nos destruir não vinha de fora. Ele dormia no quarto ao lado. E ele tinha apenas quatro anos de idade.

O choro teatral de Tony ecoava pelas paredes, uma sinfonia de desespero infantil tão perfeita que quase me fez esquecer a frieza que existia por baixo daquelas lágrimas. Edward mantinha a postura ereta ao lado da mesa, os olhos fixos na porta, calculando os segundos. O som das portas dos carros da polícia batendo no pátio lá fora indicava que o nosso tempo havia evaporado.

Mas eu precisava de uma rede de segurança. Se a polícia de Londres começasse a puxar os fios daquela corda, o tapete sob os nossos pés sumiria.

Puxei o celular do bolso da jaqueta com as mãos firmes. Ignorei os registros de chamadas, os e-mails da universidade e fui direto para o único contato criptografado que poderia mover as peças no tabuleiro institucional antes que o Estado nos esmagasse. Disquei.

O aparelho chamou apenas duas vezes.

— Fale — a voz de Felix veio do outro lado da linha, gélida, cortante, com a costumeira impaciência de quem lida com os problemas que o dinheiro comum não consegue apagar.

— Felix, preciso de você. Agora — disparei, limpando uma mancha invisível de poeira da minha calça, mantendo a voz em um sussurro baixo e letal, longe dos ouvidos que cruzavam o corredor. — Escola Primária de St. Jude, no centro de Londres. Preciso de interferência no relatório da polícia local e no serviço social. Abafamento total de mídia e de registro médico de terceiros.

Houve uma pausa pesada na linha. Eu podia ouvir o som sutil de papéis sendo movidos do outro lado, em algum escritório de fachada em Madrelinda. Felix soltou um suspiro carregado de um asco profundo, misturado com cansaço.

— Que porra você e o Edward fizeram? — ele perguntou, a voz caindo um tom, destilando uma acusação perigosa.

Olhei para Tony, que continuava soluçando de forma impecável no canto da sala, e depois para Edward, cujos olhos castanhos me acompanhavam com uma intensidade cirúrgica. Dei um sorriso amargo, o peso de toda a nossa linhagem maldita se concentrando nas minhas cordas vocais.

— Nós fizemos o Anthony... — respondi, o tom despencando para a mais pura e sombria realidade. — E ele fez algo terrível.

O silêncio de Felix durou três segundos. Três segundos onde ele processou exatamente o tamanho da anomalia genética e psicológica que nós havíamos jogado no mundo.

— O perímetro estará limpo em cinco minutos — ele limitou-se a dizer, e a linha ficou muda.

Guardei o aparelho no bolso exatamente no instante em que a maçaneta da diretoria girou. Duas fardas escuras da polícia metropolitana surgiram no batente, acompanhadas pelo rosto pálido e apavorado da Diretora Vance.

Edward deu um passo à frente, os braços abertos em um gesto de acolhimento paternalista, enquanto eu me ajoelhava ao lado da cadeira de Tony, abraçando o corpo trêmulo do meu filho. O teatro havia começado. E a polícia de Londres não tinha a menor ideia de que estava entrando no palco de três monstros.

Notas finais
Eu avisei que After You seria diferente. Até agora vocês estavam preocupados com Katherine. Com a obsessão do Edward. Com os fantasmas do passado. Mas e se o maior perigo da história estiver sentado na mesa do café da manhã? Quero saber: 🖤 O Tony assustou vocês? 🖤 Bella e Edward estão criando um monstro... ou apenas enxergando quem o filho realmente é? 🖤 E a pergunta mais importante: Vocês acham que Katherine Santiago é realmente a maior ameaça desta temporada? Nos vemos no próximo capítulo. Porque algumas heranças não são dinheiro. Algumas heranças são sangue. 🖤🩸