ADN - Horizontes
5 Respirando Fundo
Notas iniciais
5 — Respirando Fundo
– Posso me sentar aí também? — perguntou Serena, com a voz um pouco fraca.
– Claro. — depois se sentou perguntei — Como se sente?
Era uma pergunta óbvia, como alguém se sente quando contam a ela que sua mãe se foi? Impossível que alguém não sentisse nada.
– Horrível, claro. Mas o que eu queria saber mesmo, é por que você fugiu de lá?
– Não sei bem, eu não aguentei, tive que ir embora. — confessei, mas parte da história eu omitiria para meu próprio bem. Ela esperou que eu completasse a resposta, dizendo a causa de eu não aguentar, então continuei — Me lembro muito bem daquele dia, aconteceram várias coisas e quando Fátima falou sobre isso, senti que se não saísse dali ia perder o controle de tudo.
– Ela mencionou uma amiga sua, o que aconteceu com ela? — questionou, sem saber que aquele era um assunto muito delicado para mim.
Extremeci, por mais que eu tentasse fingir que estava tudo bem, aquilo ainda me deixava tão transtornada aponto de querer arrombar a porta da casa para tentar liberta-la.
– Alguma coisa aconteceu com ela, não foi? — adivinhou — Pode me contar, talvez eu até possa ajudar mais tarde.
Esse argumento me convenceu, essa ajuda seria o melhor para tira-la das mãos do Francis, e eu só precisava tomar coragem para contar. Por isso respirei fundo, mentalizei toda a história para contar apenas o resultado final de seus esforços. Não foi difícil, só doloroso, as imagens de toda aquela aventura ficara gravada em minha mente para nunca mais esquecer.
– Ela não conseguiu sair. — não consegui dizer mais que isso, sentia como se a culpa de tudo fosse minha.
Em outras circunstâncias, o sumiço de Isabel me deixaria muito preocupada, mas essa parecia especialmente minha culpa. Se eu tivesse pensado em deixa-la na minha frente, para proteger sua retaguarda talvez ele tivesse pego a mim e ela estaria em segurança. Ele dissera que nada aconteceria com ela, mas confiar em alguém que sequestra e mata para realizar um plano mirabolante era outra história.
– Eu sinto muito. — ela disse, e pelo tom entendeu que Francis a tinha matado.
– Não, acho que você não entendeu direito. Isabel está viva, eu acho. Ela está presa lá do mesmo jeito que nós estavamos. — contei, mas não ia me aprofundar para não preocupa-la mais.
Pensou por um segundo, pareceu ficar mais aliviada. Mordeu o lábio inferior, aparentemente estava decidindo se dizia algo ou não. Dois segundos se passaram até que decidisse, perguntou:
– Elas já tiveram uma conversa dessas com você, não é?
Isso me surpreendeu, esperava que ela quisesse perguntar sobre Isabel ou sobre qualquer outra coisa, nem me lembrava mais que haviam "recrutado" mais um membro.
– Tiveram sim, por que? Não está acreditando? — respondi.
– Como foi com você?
– Sinceramente? — questionei, fazendo uma pequena careta. Ela fez que sim com a cabeça e eu continuei — Primeiro elas raptaram o Dav, depois me levaram e fizeram as mesmas perguntas que fizeram com você.
– Só isso? Você parecia brava enquanto elas falavam, pensei que tivesse acontecido alguma coisa com você naquele dia.
– Fora o fato da Fátima ter ameaçado acorrentar a mim e a meu irmão se falassemos qualquer coisa? — ela levantou as sobrancelhas — Ou que depois me trancou num quarto igual a esse? Mesmo eu tendo... — parei de falar, esse era um de meus piores defeitos. Por mais que eu não contasse tudo, sempre deixava escapar uma parte, e essa parte sempre deixava a pessoa curiosa para saber o que era.
– Tendo o que? — perguntou, preocupada.
– Eu não gosto de falar sobre isso, está bem? — olhei para a porta, essa era minha chance — Eu realmente preciso tomar um ar. Com licença.
Me levantei e saí do quarto, cheguei na sala e olhei na direção da porta, ainda trancada. Respirei fundo. Teria que conversar com Fátima para conseguir minha liberdade, ela não me deixaria sair sem um ótimo motivo.
– Fátima. — chamei, ela olhou para mim — Eu preciso ir lá fora, você pode, por favor, abrir a porta.
Ela se levantou, andou até parar de frente parar mim. Olhou no fundo dos meus olhos e disse:
– Não. — eu estava pronta para reclamar de todas as formas possíveis quando ela continuou — Não antes de você me responder umas perguntinhas. — ela riu.
– Que tipo de perguntas? — questionei.
– Do tipo que você quer que respondamos, sobre alguns segredos.
Essas perguntas me interessariam se fossem dirigidas a elas, para eu obter as respostas. E a única forma de consegui-la era trocando pelos meus próprios segredos, se ela os descobrisse, eu jamais saberia o que tanto queria. Pensando dessa forma, minha reação foi responder:
– Se eu contar os meus segredos você conta o que quero saber sobre tudo isso?
– Não está na hora. — ouvi um suspiro de Maria, provavelmente ela achava que já estava na hora de contar — Mas tem algumas coisas em você que me deixa intrigada... — deveria ter dado certo, pelo que disseram,
– Você pode me deixar sair, por favor? — pedi novamente.
– Por que? Está prestes a demaiar, por acaso? — zombou.
– Eu não estou muito legal, preciso tomar um ar, é serio. — expliquei, cansada demais para discutir.
– Então vai, não vou discutir. — parecia meio brava, por ter sido vencida na discussão.
– Você não... — olhei para a porta, esperando vê-la trancada, mas tudo que vi foi Maria ao lado da porta aberta — Nossa. — murmurei.
Andei até a porta sem olhar para trás, se quer me importei em dar tchau, só fui embora daquele lugar. No curto caminho até em casa tentei não pensar em nada, mas por mais que eu tentasse não conseguia parar de pensar em como quase disse que tinha claustrofobia, que tinha que acabar com isso antes de revelar tudo para qualquer um. Quando estava perto da Fátima tentava não dar abertura nenhuma para que não desconfiasse, mas pelo visto ela começou a desconfiar de minhas ações.
"O que eu posso fazer? Ninguém pode estar por perto na hora, se eu começar a gritar vai ser meio embaraçoso. Precisa ser em um lugar que ninguém ouça, nem saiba que estou lá..." Me concentrei, mas nenhuma ideia de local adequado me veio à mente.
A ideia de torturar a mim mesma esoava estranho. Para quê eu faria aquilo mesmo? A certo, para perder um medo que nem sei se pode ser perdido. E se nada acontecer? E se ninguém me encontrar e eu morrer de fome ou sede? E se o meso aumentar? E se o Francis me achar lá? Era impossível prever o que aconteceria, talvez eu só fizesse com que os outros ficassem preocupados comigo e quando eu voltasse estaria num estado deplorável.
Imagino que perguntariam por que estava daquele jeito e para que fiz aquilo, seria obrigada a contar e ainda sofreria com aquilo. Não parecia muito feliz a ideia de um fracasso, e duvido que em apenas uma noite eu conseguisse superar aquele trauma.
Cheguei em casa, não passara nem três minutos de uma casa à outra, tempo muito curto considerando a velocidade da caminhada. Andei até a parte detrás do quintal, nenhum dos meus irmãos estava lá, o que me deu mais tempo para pensar.
Por mais que eu não quisesse, não conseguia parar, era irracional, os pensamentos vinham aos montes. Eu ficava lembrando do que aconteceu, e cada coisa que vinha a minha mente me levava a pensar sobre outra que aconteceu antes. Lembrei da reunião que acabamos de ter, então lembrei de como foi aquela mesma conversa comigo, que me lembrou de ficar presa no quarto que, por sua vez, me fez pensar em todas as vezes que me trancaram em um lugar como aquele, a conversa que tive com Caroline me veio à mente e pensar nela me fez lembrar que era meu dever resgatar Isabel antes que o mesmo acontecesse com ela.
Senti vontade de chorar, mas forcei as lagrimas para dentro. Não tinha tempo para chorar, precisava encontrar um jeito de tirar minha melhor amiga de lá e deter Francis, mesmo sem saber o que ele pretendia. Ei devia isso a ela, depois de tantos anos me ajudando a sair daquele quartinho, o mínimo que eu poderia fazer era ajuda-la com uma coisa que era minha responsabilidade.
Olhei para o céu, tinha nuvens mas não parecia que a chuva viria durante algumas horas. Respirei fundo, tentando afastar esses pensamentos. Sentei no chão, com as costas apoiadas na parede de casa, e comecei a examinar o quintal para distrair.
A grama não estava muito legal, olhando de longe parecia perfeita, mas de perto tinham lugares onde faltava, como buracos. As árvores estavam com rachaduras na casca, desconfiava que se tentasse seria fácil arrancar um pedaço. As paredes da casa não estavam muito melhor, apesar de não ter rachaduras nem nada que pusesse a casa em risco, precisava urgentemente de uma limpeza.
De tudo que tinha ali, desde a grama repleta de folhas até as paredes, haviam poucas coisas que eu pudesse fazer. Varrer o quintal e lavar as paredes eram as únicas que eu tinha certeza de como arrumar.
Sinceramente, vontade de fazer aquilo era o que me faltava. Não queria voltar a pensar naqueles assuntos, e qualquer coisinha que eu visse enquanto pegava as coisas me faria voltar a lembrar, além disso ficar sentada ali dava preguiça, vontade de continuar ali, dormir e esquecer do resto. Sem me importar com nada, era isso que eu queria, ficar parada, tentar esquecer os problemas, só precisar fazer alguma coisa mais tarde.
Bocejei, depois de tanto estresse não entendi como conseguia sentir sono. Minhas palpebras ficaram pesadas e não tentei resistir, se quer saí do lugar. Deixei que minha cabeça pendesse para frente aos poucos, enquanto meus olhos iam se fechando.
Eu não sabia o que estava me fazendo ficar daquelae jeito, foi só questão de eu me sentar e olhar a paisagem para ficar com sono, isso nunca havia acontecido antes, não tão rápido. Antes que conseguisse pensar em qualquer coisa já estava inconciente.
Pelo menos foi o que pensei, a sensação era a mesma, eu não via nada, minha respiração era lenta e meu corpo parecia pesado. Não tinha a intensão de tentar me mexer até sentir que haviam me deitado em um lugar úmido. Me forcei a abrir os olhos, a visão estava completamente embaçada, tudo que vi foi uma mancha escura indo para longe, ela era grande o bastante para serem duas pessoas.
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