ACBAH - Academia de Belas Artes Hudson
37 Desencana Emily.
Notas iniciais
Emily estava sentada de pernas cruzadas na praça do condomínio. Havia um caderno de desenho apoiado em suas pernas, a mão esquerda segurava o caderno e com a direita ela rabiscava.
Nunca teve muito talento para aquele tipo de arte, porém sua mãe tinha. Quando ainda estava em sua casa, em Nova York ela costumava a passar no corredor e ver os desenhos de sua mãe em quadros que seu pai havia posto pela casa, obsevava os traços e tentava distinguir como ela possivelmente estaria se sentindo enquanto desenhava, mas além disso, sempre olhava a assinatura dela, sempre no canto inferior esquerdo do desenho, ela era canhota.
Mais uma habilidade que ela não havia puxado da mãe.
Quem olhasse para o desenho naquele caderno imaginaria que seria uma obra abstrata de tão ruim que era, mas ela não ligava muito para isso, só queria rabiscar mesmo.
Suspirou ao ver um casal se abraçando, ela era pequena de mais para ele por isso estava na ponta dos pés, ele a soltou e depois de alguns poucos segundos se beijaram.
Emily abaixou a cabeça, sentia falta de momentos como aquele, momentos quem que ela só abraçava Charlie, apoiava a cabeça em seu peito e ficavam apenas assim por um bom tempo, as batidas do coração dele e seu cheiro a acalmavam até que ela ficasse totalmente relaxada envolvida pelos braços do seu... de Charlie.
Cada vez ela se sentia mais idiota pelo que havia acontecido e pelo oque estava acontecendo.
Emily Davis, sentada na grama quase chorando por um homem. Ela realmente nunca imaginou que aquilo aconteceria de verdade.
Correção: sentada na grama chorando.
Limpou as lágrimas, mas era inútil, pois cada vez saiam mais. Charlie era um idiota, ela era uma idiota, todos eram idiotas!
Sentia raiva dela, raiva de Charlie, raiva da vida!
Jogou o caderno de lado abraçando as pernas pousando a testa nos joelhos deixando as lágrimas saírem.
Droga, droga, droga.
Se lembrou dos momentos felizes, aqueles pequenos momentos que na hora parecem inúteis, mas depois são tão importantes quanto os grandes momentos.
O jeitinho que ele a olhava com aquele sorrisinho bagunceiro de lado, o modo como acariciava seus cabelos e bochechas tentando acalmá-la, como sempre a puxava para ele em qualquer momento para ficarem mais próximos, seu rosto sereno enquanto dormia com ela nos braços, a primeira palavra depois de acordado que saia rouca e sexy, o cenho franzido de prazer durante as várias noites deles e... o delicioso beijo enquanto a segurava delicadamente, mas com força....
Mas ao lembrar-se de seu rosto zangado enquanto discutiam... todas as lembranças boas pareciam ser meio encobertas por esse pequeno grande detalhe.
Lutou contra si mesma tentando controlar as lágrimas, sabia que sua maquiagem provavelmente estava toda borrada e seu nariz e bochechas parecendo um porquinho rosado.
E quando pensou que não podia ficar pior sentiu uma mão em seu ombro.
– Emy? Tudo bem?
Ela levantou a cabeça depressa limpando rapidamente as lágrimas.
– S-sim, eu só estou com alergia, o pólen.
Abby a olhou com pena, não era tola para acreditar na desculpa do pólen, sabia que ela estava chorando por causa de Charlie.
– Não me olhe assim, por favor.
– Como? – ela perguntou.
– Está me olhando com pena, não faça isso.
Emily nunca gostou de ter aquele olhar direcionado a si, se sentia fraca como se precisasse da piedade dos outros, mas não precisava.
– Desculpa – Abby disse – agora vem, vamos pra casa.
– Eu quero ficar aqui.
– Eu comprei Cookies... não garanto que sobrará algo se não for pra casa comigo.
E movida pelos Cookies, Emily foi.
. . .
– Temos que fazer alguma coisa, a situação ta grave – Kate disse se apoiando no balcão da cozinha.
– E sobre o que estaríamos falando? – Abby tonga perguntou.
– Sobre o que será, né? – Sarah cruzou os braços olhando para a menina com as sobrancelhas erguidas.
Abby pensou um pouco e fez aquela de expressão de "ah, entendi".
– Ah, Emily, entendi entendi, podem prosseguir – ela disse e Sarah revirou os olhos pensando "depois Emily que é a loira burra".
– Então... não tem nada que possamos fazer, a não ser... não falar dos meninos para ela.
– Gente, ela tava chorando na praça – Abby suspirou – todas nós sabemos que Emily não é de chorar, ela quase nunca chora.
– Só quando é grave...
– Mas talvez tenha sido melhor – Kate disse e todas olharam para ela.
– Como?
– Eles ficam lindos juntos, certo, mas... talvez não seja uma relação tão saudável assim, a Emy já foi atropelada por uma discussãozinha, imagina se acontece algo pior?
As três permaneceram caladas alguns instantes.
– É óbvio que eles se amam, mas... talvez tenha virado algo meio obsessivo.
– Então... não devemos ajudá-los a se resolver, mas a ficarem longe?
– Acho que sim – Sarah disse.
– Mas não vamos tipo, os forçar a ficarem longe um do outro – Kate disse – não vamos ajudar, nem atrapalhar. Vamos continuar distraindo Emily como sempre fazemos e se eles voltarem... bem, o que posso dizer? Se eles voltarem vai ser para ficarem juntos, porque nunca vi um relacionamento que tinha tudo para dar errado dar tão certo.
– Verdade – Sarah disse – até eu e Nick brigamos menos.
– Enfim – Abby estalou os dedos – então vamos basicamente ser nulas na situação? Indiferentes?
Sarah e Kate assentiram vendo que Abby captou a mensagem, o que às vezes demorava um pouquinho.
– Ah, isso é fácil – ela deu de ombros tranquila – e ah, ninguém demonstre pena, porque ela odeia.
– Isso é óbvio... ah, não venha me dizer que você demonstrou pena?
– Foi sem querer ok? Então não façam isso.
– Ah, quer saber? Eu vou pegar um filme de terror ai porque ela gosta e terror não tem erro – Sarah pegou seu casaco saindo pela porta da cozinha.
– T-terror? – Kate gaguejou – espera, vamos negociar, que tal uma comédia? – ela foi correndo atrás de Sarah.
– Nem vem Cupcake!
. . .
Samantha não estava em casa e Chloe aparentemente também não, por isso as meninas aproveitaram a casa vazia e se acumularam no sofá com cobertores, travesseiros, muita comida gostosa e um filme de terror que ouviram falar que era bom, A casa de cera.
No começo nem parecia filme de terror, mas os gritos logo começaram e com menos de uma hora de filme Kate já estava agarrada em Emily que estava ao seu lado.
– Que gato – Sarah disse olhando para o menino do filme.
Totalmente aleatória.
– Vai morrer, os bonitos sempre morrem – Abby disse – os dois bonitos vão morrer e os feios vão viver, é a lei dos filmes de terror.
– Sacanagem – Emily murmurou – nós, mulheres já somos maioria no mundo, boa parte dos meninos bonitos são gays, a outra parte é comprometida e o resto ainda morre? – ela parecia indignada – desperdício de homem bonito no mundo, desperdício.
Sarah riu até o filme dar um susto em todas elas que as fizeram dar um pulinho no sofá.
– Não, não entra ai! – Kate gritou desesperada.
E como sempre, as pessoas em filmes de terror são burras e surdas porque se ouvissem quem está assistindo nunca morreriam, mas ouvem? Não!
– A pipoca acabou... – Sarah murmurou meio triste olhando para o pote com alguns milhos no fundo, mas nenhuma pipoca.
– Eu faço mais! – Kate se levantou e foi correndo para a cozinha como uma criança atrás de doce.
Estava louca para sair dali, e fazer pipoca era uma boa desculpa para não parecer covarde.
– A Paris Hilton vai morrer – Sarah disse do nada, novamente.
– Certeza, ela é loira, loira são burras – Abby disse na maior naturalidade.
Emily olhou para Abby que engoliu seco.
– Encare que você é loira e loiras são burras.
– Eu não sou burra, mais inteligente que você, por sinal.
– Pra tudo existe uma exceção.
– Kate, quando vier trás chocolate! – Sarah gritou.
– Chocolate, onde? – ela saiu correndo da cozinha.
– Armário, segunda porta.
Tão louquinha por doce quanto uma criança.
. . .
O filme havia acabado de acabar, e bem, o que dizer a não ser que Kate não dormiria aquela noite? E provavelmente o restante daquela semana.
– Vamos comer alguma coisa? – Abby, a saco sem fundo sugeriu enquanto Sarah devolvia o CD à caixinha, Emily se levantava preguiçosamente e Kate acabava com o chocolate.
– Claro, estou louca por um hambúrguer – Sarah lambeu os lábios com um sorriso maquiavélico que fez Kate rir.
– Sarah seria uma boa vampira, né – vez de Kate falar algo sem noção do nada.
– Vampira? – Abby franziu o cenho e Sarah gargalhou da incrível observação de Kate.
– É – Kate assentiu – a cara de fome dela misturada com esses caninos afiados que ela tem... é muito a cara de um vampiro.
– Acho que alguém anda assistindo Crepúsculo de mais – Emily cantarolou e Kate fez uma careta.
– E você loirinha, seria uma sereia – ela disse e Emily fez cara de confusa.
Abby e Sarah riram.
– Por quê? – Emily acabou rindo.
– Porque é bonita e perigosa.
– Uhhhh quero ser sereia – Emily sorriu.
– E eu, Cupcake? – Abby perguntou ansiosa pela resposta.
– Vejamos... acho que você podia ser um lobisomem.
– Por quê? – Abby sorriu.
– Ah, você é estranha – Kate deu de ombros e Emily e Sarah dispararam nas risadas.
– Kate especialista – Sarah disse enquanto Emily colocava seu salto novamente.
– Vamos comer ou não? – perguntou Abby meio mal-humorada.
– Vamos lobisomem – Emily a pegou pelo ombros.
E por decisão unânime elas foram para a lanchonete de sempre.
No carro ao sentir que estava tudo muito silencioso, Sarah ligou o rádio no volume máximo onde tocava "One Thing" e logo todas começaram a soltar a franga, era sempre bom soltar a franga cantando, e logo depois de "One Thing" veio "Moves Like Jagger".
Ninguém sabia a parte de Christina Aguilera, só Abby que continuou soltando a franga imaginando que todo mundo ia continuar cantando com ela, mas não.
– Porque pararam? – ela perguntou e elas começaram a rir.
– Eu esqueci a letra – Emily riu de si mesma.
– Eu não sabia mesmo – Kate deu de ombros.
Sarah estacionou o carro olhando atentamente no retrovisor como uma motorista ajuizada faria.
– Eu quero uma porção enorme de batatas fritas! – Kate disse enquanto elas entravam.
A primeira coisa que Kate viu foi os meninos sentados em uma mesa no canto da lanchonete, e com meninos digo, Charlie, Nathan e Nick.
O Cupcake arregalou os olhos e quando Emily entrou ela já a puxou para o outro lado da lanchonete subindo as escadas com ela de modo que ficavam bem encima da mesa dos garotos, ou seja, não conseguiam se ver de jeito nenhum.
– Calma Kate, o que foi? – Emily perguntou já que a menina a puxou tão forte que quase arrancou o braço dela.
– N-nada, eu só gosto dessa mesa.
Emily a olhou com aquela cara de louca e Kate sorriu daquele jeitinho de "eu não fiz nada, sou santa".
– Mas sempre sentamos lá embaixo – ela disse olhando para o andar de baixo e Kate puxou o rosto dela.
– Mas eu gosto daqui.
– Ta bom, né.
A loira olhou para baixo vendo Sarah e Abby com cara de bravas fazendo um gesto para alguém parar ou sair, Emily tentou enxergar melhor, mas quem quer que estivesse recebendo a "bronca" estava debaixo dela.
– O que está acontecendo ali? – ela perguntou, Kate parecia nervosa – Sarah ta brigando com alguém de novo?
– L-loucas, passou a vida inteira com elas e ainda estranha? – Kate a puxou para a mesa para que ela sentasse.
Abby e Sarah subiram com a mesma cara de "eu não fiz nada, sou santa" e se sentaram com Emily com sorrisos grandes demais para serem espontâneos naquela situação.
Kate engoliu seco quando viu os garotos arrastando Charlie para a saída, ele parecia bem confuso e até meio bravo, mas eles o tiraram dali de qualquer jeito.
Na verdade, ele nem parecia Charlie... parecia doente, bem doente.
Antes de sair Nick olhou para Sarah que o olhava discretamente para a porta e fez um positivo com a mão fechando a porta em seguida.
– Menos um problema – ela acabou murmurando.
– Como? – Emily perguntou.
– N-nada – ela disse.
Emily franziu o cenho e olhou para as meninas.
– Ok...
– Vamos pedir? – Kate tentou mudar de assunto.
– Batata frita! – Abby se empolgou mexendo os braços.
Emily olhou para as meninas tentando imaginar o que estava acontecendo, mas decidiu ignorar, já tinha muito com o que se preocupar.
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