A&A - Lice e Dé vão morar juntos
1 Quando tudo mudou
Notas iniciais
Chego na casa dele. Pela primeira vez na vida, peguei um uber black. Quero que a ficha caia do que aconteceu. Sempre fiquei abrindo e fechando o aplicativo do uber várias vezes, por causa do preço dinâmico, pra conseguir economizar de alguns centavos a uns dois reais. Tudo parece tão normal, tão igual... Mas eu sei que agora é tudo novo e minha vida será outra.
Penso nisso enquanto subo para o apartamento. Toco a campainha e espero. Quantas vezes já fiz isso? Ele abre a porta se escondendo atrás dela, igual sempre. Fecho a porta, olho pra ele por um segundo, ele começa a esboçar um sorriso e me jogo em cima dele, num abraço apertado. Ele retribui.
—Eu ainda não acredito, Lice. Sério, qual a chance?
Ele está eufórico. Fico feliz, porque eu também. Respondo:
—Uma em 50.063.860. Eu pesquisei. Isso na mega sena, prêmios menores a probabilidade é maior.
Ele provoca, com aquele sorriso que conheço tão bem:
—Espero que você não me deixe agora que já não precisa me usar por causa do meu dinheiro...
Faço uma cara muito feia, como se estivesse profundamente irritada.
—Você sabe que eu jamais faria isso.
—Será?
Lasco um beijo nele. Quase começo a rir quando penso nessa expressão, lascar um beijo. Mas é a melhor descrição para o que faço. Nos afastamos e ele olha pra mim, bem fundo nos meus olhos, e pergunta o que venho me perguntando sem parar nas últimas horas:
—Como as coisas vão ser agora?
Respondo com a maior sinceridade que encontro:
—Eu não sei... Mas quero descobrir junto com você.
Sorrimos um para o outro. Agora nos sentamos no sofá da sala. Respiro fundo, meu coração bate tão forte em meu peito que quase dói, estou muito nervosa. Uso a velha estratégia de começar a falar logo, porque quanto mais fico na expectativa e em dúvida, pior.
—Então, falando nisso... Eu tenho uma proposta pra te fazer — pego na mão dele e continuo falando antes mesmo de ver sua reação — quer morar comigo?
Espero um segundo, vejo diferentes emoções passando por seu rosto e continuo falando, disparo as palavras.
—Eu converso com seus pais junto com você, a gente dá um jeito, juntos! Antes eu dependia da aprovação dos meus pais e do dinheiro que eles me davam pra qualquer coisa, pra tudo. Mas não é mais assim, e nunca mais vai ser. Agora eu sou livre para viver como eu quero, Dé, e o que eu mais quero é viver com você.
Estou quase chorando agora e mal posso aguentar a espera, mas como que para me torturar, ele me abraça e não diz nada. Aperto-o forte e cochicho em seu ouvido "a gente dá um jeito, Dé".
Ele se afasta de mim, olha nos meus olhos e diz, com um tom quase condescendente:
—Lice, nada me faria mais feliz do que isso. Infelizmente, essa frase tem um mas. Minha mãe não deixa nem você dormir aqui em casa. Meus pais vão achar que não tenho moral pra isso. Minha mãe e irmã ficam controlando a hora que vou chegar em casa. Acham que eu ainda não tenho capacidade de dar conta de mim. Na visão deles, vão achar que eu não tenho moral pra ir morar com minha namoradinha.
Ele parece arrasado. Meu coração só bate ainda mais rápido e forte. Eu esperava por isso.
—Eu achei que você diria isso. Por isso te faço outro pedido — me ajoelho na frente do sofá e pego a caixinha no meu bolso. Não sem alguma dificuldade, acho que minhas mãos estão tremendo, a abro — Minha alma gêmea, quer casar comigo?
Não encontro palavras para descrever sua expressão. Ainda de joelhos, falo:
—Tudo seria diferente se ao invés de sua "namoradinha" eu fosse sua esposa, não seria?
Ele ainda parece indeciso, então falo algo que é muito importante pra mim, espero que seja pra ele também:
Ei, vai ser do nosso jeitinho. Igual a gente não é namorados do mesmo jeito que o conceito de todo mundo. Não precisa ter igreja, não precisa de casamento civil, nada de comunhão de bens, nada de "até que a morte nos separe".
Ele parece quase convencido, então tento uma última coisa:
—A primeira vez que você me pediu em namoro, que eu disse não, você falou que só queria poder dizer que eu era sua namorada, que isso ia facilitar pra sua mãe deixar a gente encontrar mais. Só quero poder te chamar de marido, pra podermos ficar juntos todos os dias.
Ele se ajoelha no chão e me beija. Depois se afasta e pega um dos anéis de bala na caixinha chique e põe na minha mão.
—Eu aceito!
Eu coloco o outro anel na mão dele. São roxo e vermelho, nossas cores favoritas. Neste momento eu conheço o sentimento que sempre lia nos livros: "agora eu sou a pessoa mais feliz do mundo".
Notas finais
Obrigade por ter lido.
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