A última noite.

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Este é o meu primeiro desafio do Nyah. O motivo pelo qual eu escolhi o vigilante de Gotham foi por que ele é o super herói cujo mundo é o que eu considero mais atraente.

Espero que gostem da minha curta e melancólica perspectiva do cavaleiro das trevas.

As gotas que caíam do céu eram como bênçãos da noite, como um abraço caloroso. Gelavam sua pele, sim, mas aqueciam sua alma. A noite que ele aprendeu a abraçar o abraçava de volta, tentando desesperadamente o esconder de seu próprio sofrimento.

Os primeiros passos que deu adentro da mansão foram lentos e hesitantes. Ele caminhou, observando a escuridão da sala principal. Era uma escuridão diferente da qual estava acostumado. Era melancólica, pesada, tirava-lhe as forças. Estava fraco. Até mesmo carregar sua pesada capa, molhada pelas lágrimas da noite, provava-se uma tarefa impossível.

Não. Ele não estava fraco. Ele sempre foi.

Ele sabia, desde o começo, sobre a podridão que o cercava. Sabia, sim; e foi exatamente por isso que se tornou o homem que era. Um símbolo de justiça, mas também de medo. Ele não poderia usar a desculpa da inocência. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Uma vez sequer hesitou. E da última não foi diferente.

Ele ainda podia ouvir os risos. Queria que fossem gritos, mas, por mais que cortasse, espancasse e dilacerasse a carne, ele nunca conseguira tirar o sorriso satisfeito do rosto daquele homem. Ele havia sido derrotado. Havia vencido a luta, mas perdido a si mesmo. Havia ido exatamente de encontro caminho daquilo que jurara extinguir; era um criminoso.

As manchas que enfeitavam o preto de suas vestes eram sórdidos mementos do que havia feito. Manchavam seu nome, sua reputação, sua essência. Já não eram as sombras, e sim o sangue que o envolviam.

Mas não era por isso que o homem chorava. Não era por isso que as lágrimas, agora já não escondidas pelo calor da chuva, rolavam pelo seu rosto. Ele havia perdido muito mais.

Novamente, era culpado. Ele já sabia que para salvar alguma coisa, é preciso sacrificar outra. Para criar alguma coisa, é preciso que outra seja destruída. E, justamente em Gotham, ele havia decidido se tornar herói. Era, sem sombra de dúvidas, responsável pelo próprio destino. Para salvar aquela cidade, seus sacrifícios teriam que se tornar altos demais.

Teria que sacrificar a felicidade, o amor, o dinheiro. Sacrificaria todos eles sem pensar duas vezes. E sacrificou. Lutou com todas as suas forças, julgando levianamente que seria o bastante. Mas ele sabia que se enganava. Sabia que a podridão de Gotham não poderia ser mudada por um único homem. Sabia que os bons não tinham vez ali, que a justiça era uma piada de mau gosto.

Não tardou, o sacrifício passou a ser alto demais.

A expressão do homem se manteve dura. Mas, como se gritasse em seu lugar, o céu brandiu seus trovões e iluminou momentaneamente a noite que envolvia a casa. Sentiu-se despido, desprotegido. Mais uma lágrima escapou.

Ele se agachou perante o corpo inerte em sua frente, murmurando um pedido de desculpas que nunca deixou seus lábios.

— Oh, Alfred...

Aquilo foi tudo que conseguiu dizer. Aquela cidade o havia tirado tudo. Seus pais, sua infância, sua vida. Sua felicidade. Sua família. Seu eu. Tudo.

Ele segurou seu mentor nos braços, fechando seus olhos, paralisados em desespero. Seu rosto ostentava um sorriso manchado de sangue, que jamais desapareceria. Aquele sorriso macabro e desesperador, que vinha sempre acompanhado da mesma carta.

Sempre a mesma carta. Sempre o mesmo sorriso. Sempre a mesma coisa.

Nos últimos três meses, vinha caçando-o. Dissera a Alfred: “Voltarei apenas quando tiver livrado essa cidade deste homem”. Naquela ocasião, ele se virara para trás e a última expressão que viu foi a costumeira expressão de preocupação de seu mentor. “Patrão Bruce...”. Sem dizer mais nada, ele havia desaparecido na noite, se escondido, como sempre fazia.

Começou com Harvey Dent. Seu companheiro, seu amigo, se é que podia chama-lo assim. Mas o fato é que Dent era um dos poucos homens bons que restavam em Gotham. Uma das poucas pessoas que queria realmente acabar com a podridão daquele esgoto.

Já ali, Bruce estava infundido com um sentimento de vingança. Essa mesma vingança parecia tê-lo cegado. Seu fiel parceiro ofereceu-se para acompanha-lo. “Você não precisa fazer isso sozinho”. Mas não queria coloca-lo numa cruzada tão feroz. Não quis sua ajuda, e ali mesmo o condenou. Não percebeu que, mesmo longe de sua proteção, nada impediria Robin de lançar-se ao auxílio de seu professor. Eventualmente, até mesmo Dick fora uma das muitas vítimas do assalto do Coringa.

Poderia tê-los evitado. Poderia tê-los previsto, se não estivesse entorpecido pelo ódio. A culpa da falha o corroía, lentamente. Falhou com eles. Com aqueles que conhecia, admirava, amava. Até mesmo com os quais os nomes nunca saberia. Pensou que, continuando sua busca, poderia redimir-se.

Não haveria redenção. Não para ele. Nenhum deles havia voltado.

Agora, cumprida sua missão, ele notou sua própria desonra. Havia descumprido o juramento que fez com jovem Greyson numa de suas muitas noites juntos; trilhar sempre o caminho do que é certo. A forma horrenda com a qual matou e torturou seu nêmeses não era nada que honrasse sua palavra.

O homem fechou seus olhos, e tentou, por um único segundo, esquecer-se de tudo. Por anos da sua vida, acreditou seriamente que enfrentar seus medos o tornaria uma pessoa forte, mas não era assim. Ainda era fraco. Era aquele mesmo menininho assustado que teve seus pais mortos e não pôde fazer nada. Ainda não conseguia fazer nada. A coragem de nada o ajudava em sua fraqueza. Era apenas uma ilusão que o cegava, que o fazia acreditar ser capaz de acabar com o que jamais teria fim.

— Por quê, Alfred? Por que mentiu pra mim?

O homem já não conseguia controlar. As lágrimas escorreram impiedosamente pelo seu rosto, pingando sobre o sangue seco do homem que por décadas foi sua única família.

Vivera um conto de fadas. Não era o tipo de conto de fadas que se conta para que as crianças possam dormir, mas que para ele funcionara bem. Alfred fora como um pai para ele. E até para coloca-lo para dormir, inventava histórias de que o mundo poderia um dia ser um pouco melhor.

No entanto, não poderia mais se enganar. Restava-lhe quase nada. Até mesmo o legado dos Wayne havia sido quase completamente tomado dele, afundado em dívidas, espólios de uma administração que nunca se propôs a tomar. Restava-lhe apenas aquela casa. Poderia, quem sabe, vendê-la. Usar o dinheiro para afundar-se em tudo que pudesse entorpecê-lo, entregar-se de vez à magia da cidade. Viraria um verdadeiro cidadão de Gotham, alguém como todos os outros.

A ideia lhe pareceu confortável, por alguns instantes. Mas não era o que ele realmente queria. Não iria de encontro ao que lutou para defender. Preferia manter seu orgulho de vigilante, de defensor do crime, de guardião da noite a se entregar aos encantos da cidade.

Ele se levantou, e com o último resquício de força que lhe restava, levantou também o corpo do mordomo. Carregou-o degrau por degrau, os músculos protestando a cada passo. Estava cansado. Mais cansado do que nunca esteve.

O corpo de seu mestre repousou sobre a cama do homem. O quarto estava impecável, perfeitamente arrumado para quando retornasse. Ainda que fosse adulto, seu quarto era sempre arrumado com o mesmo apreço de quando era o menino Bruce. Desde sempre, Alfred sempre aguardara seu retorno. Só que, dessa vez, era tarde demais.

Um fino manto branco cobriu-lhe o rosto, bem como o resto de seu corpo. Desta forma, seu mestre parecia apenas estar repousando, pensou Bruce. Apenas repousando.

Ele colocou a mão sobre o peito do velho e deu-lhe um beijo em sua testa, como Alfred fazia com ele, quando era apenas um menino. Ele sussurrou preces de boa noite e deixou-o descansar.

Como uma sombra rastejando pelos corredores e saltando pela janela, o Wayne fez seu caminho até o telhado da mansão. De lá de cima, podia ver as luzes dos prédios de Gotham. Podia ver todos os cantos que brincava, do lado de fora, quando era pequeno, mesmo que recebesse broncas de seus pais. Lembrava-se perfeitamente dos pontos de fuga que usava para escapar do mordomo, apenas pela diversão de fazê-lo.

Eram lembranças agradáveis. Ali, longe do ar macabro do meio da cidade, ele pode ter pequenos e breves momentos de felicidade.

No céu, podia ver o sinal que representava o seu nome. Veementemente, incessantemente, impiedosamente, a cidade o chamava. Ainda que tentasse se afastar, ela sempre o chamava de volta.

A noite era, de fato, como uma criança. Uma criança que o chamava para brincar de super-herói, brincar de faz de conta, de fingir ser alguém que não era. Era como uma criança problemática, a espera que os outros resolvam a bagunça que elas mesmas fazem. Aquela era à noite, sua única e verdadeira amiga.

Ele, no entanto, olhou para a velha companheira com remorso. Sentiu-se mal. Já não mais poderia brincar com ela. Havia perdido a magia, a vontade do faz de conta. Não mais acreditava que poderia ser um herói.

Queria poder fantasiar mais uma vez. Queria ouvir novamente aqueles contos de fadas para que pudesse dormir à noite. Queria a voz calma de Alfred lendo para ele a noite. Queria seus conselhos, seus consolos. Queria o calor do beijo de sua mãe, do abraço de seu pai. Queria voltar a ser criança. Voltar a acreditar que o mundo poderia ser um lugar melhor.

Simplesmente o menino Bruce.

Iluminado pela noite, o homem morcego abriu suas asas e saltou ao seu encontro. Caiu depressa, sem remorso. Foi, novamente, como sentir um de seus sonhos de criança. Afinal, quem um dia nunca sonhou em voar?

Foi o descanso final do cavaleiro das trevas.

Notas finais
Meu objetivo com essa história foi passar um ar de suspense, fazer com que o leitor desvendasse o acontecido a cada linha. O final foi ambíguo de propósito, e cabe a vocês decidir o que vocês acham que aconteceu.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!