A última joia de Nerem:Convocada
5 O primeiro inimigo, ou amigo
Notas iniciais
Passaram-se três dias e a angústia de Katherina não passava. Ficava ainda maior, não saia de sua barraca por nada, tinha sonhos horríveis de como foi que a civilização mudara tanto, o primeiro sonho foi com Yuri Nerem tomando o poder. Será que com mais uma Prova de Passagem, tudo iria ficar a mesma coisa? Piorar? Melhorar? Ou simplesmente continuar a mesma, como sempre acontece?
Todos conheciam Yuri, seu rosto era estampado nos yurs, e o N junto à bandeira azul, púrpura e prateada de Nerem. Ele simplesmente era um louco que tomou o poder de vários países e os juntou, fazendo uma nação. Tendo territórios a leste e oeste, convocando todas as pessoas possíveis para se juntar a guerra. Negros, asiáticos, até cegos. Conseguiu dominar tudo, logo após isso, Yuri teve uma grande ideia: “que tal separarmos todas essas pessoas em classes e transformar isso em uma sociedade doentia e controladora? Perfeito!”
Desde assim, essa é a divisão de Nerem, poucas pessoas entender o porquê de tanto ódio aos negros e asiáticos, as pessoas da Magna e algumas da Superior sabem o motivo. Em seus discursos e entrevistas, Yuri sempre dizia que eles eram inferiores, um erro da natureza e assassinos. Assassinos de que? Da ordem.
Yuri Nerem era um homem baixo e magro, rosto longo, branquíssimo de cabelos negros e olhos azuis esverdeados. Seus lábios e nariz eram finos. Na bochecha esquerda, tinha uma cicatriz não muito pequena de um N.
Não era adepto a um sentimento chamado felicidade, muito menos paz.
Muitos odeiam Yuri, não posso dizer que odeio sua pessoa. Não o conheci, mas eu odeio que ele fez com o mundo. Como eu viveria, se ele não estivesse tomado o poder? Eu teria nascido? Tantas perguntas e nenhuma resposta
O segundo pesadelo foi pior, teve mais sangue muito mais sangue. Sonhou com a revolta das Terras do Oeste. Bombas matavam famílias inocentes inteiras, crianças e jovens fuzilados pelos Atiradores Supremos. A maioria das batalhas desta guerra são no mar, navegações enormes que lançavam bombas uma contra as outras, fazendo o lindo mar se tornar uma imensidão de vermelho. Até hoje é assim, os motivos da guerra não acabar são infinitos, e dos soldados quase nunca desertarem por uma guerra que não acreditam são quase desconhecidos, mas um todos sabem: Ilusion, droga altamente viciante que é usada como forma de manter os soldados na guerra. É uma planta que vira um pó ligeiramente dourado, que pode ser fumado, ou inalado. Existe o boato de que, ao serem recrutados, há pequenas porções de Ilusion na bebida e na comida; os soldados mais velhos oferecem a droga para os mais novos e quase todos que provam ficam viciados. É quase impossível resistir e, se por acaso o soldado pensar em deserdar, ele não terá como sustentar esse vício, porque Iusion é uma droga extremamente cara e difícil de cultivar.
Os dias foram passando, as pessoas olhavam pra Katherina com apreensão, ela seria a primeira negra na história da Joias, isso os preocupava, lhes dava medo de ser algum tipo de punição. Porém o medo deles não se comparava ao medo que a jovem sentia. Ela não queria ser uma Joia, não queria ir à guerra, não queria ser um pontinho preto na imensidão branca.
E na sua última noite na Inferior, ele teve o pior pesadelo, ela sonhou com a morte de seus pais.
Katherina teve sorte, ela sempre pensou que vive uma vida miserável, mas existem pessoas que vivem pior do que ela. Sua família era pequena, filha única, tinha apoio do avô, que era o homem mais poderoso daquela região da Inferior.
Seu avô era o dono do Quarto, que era uma espécie de cassino, hotel, bar, banco, restaurante e hospital. Era uma casa subterrânea, muito maior que um quarto, eles tinham tudo sobre controle, os soldados não os punia porquee até eles frequentavam o lugar. Até que seu pai foi recrutado para lutar no lugar mais atroz de toda essa guerra: a muralha dos tigres. Que é uma enorme muralha que divide Nerem e as Terras do Oeste, é uma estrutura de ferro, prata e platina, feita em forma de vários tigres que liga os dois países, é o lugar de muitas batalhas navais, tentativas de invadir o terreno inimigo, dizem que lá a água é meio rosada por causa do sangue que nunca para de cair no mar. O pai (seu nome era Carter) dela não sobreviveu, naquela época Katherina tinha oito anos, ela ficou devastada, mas sua mãe (Cissa era como se chamava) ficou ainda mais, ficou extremamente depressiva, não saia da cama, comia, tomava banho, nada, mal olhava a filha nos olhos. “Você parece seu pai’’, dizia, logo após desabava a chorar e se escondia em um canto escuro. Dois anos depois ela se suicidou e seu avô a criou com muito carinho. Se não fosse ele, era ela que teria se matado. Demorou um tempo até que o avô dela falecesse, ela tinha quinze anos, não conseguiu administrar o Quarto e seguiu sua vida sozinha pescando, aquele lugar não se casava com ela, tinha boas lembranças de lá, porém não pertencia a ela.
Ela perdeu todas as pessoas que amava em muito pouco tempo e isso a deixou um pouco frágil, decidiu que, então decidiu viver de forma simples. Acordar, pescar, beber, ganhar dinheiro, comprar comida, dormir. Era assim que ela vivia, pelo menos antes de ser Convocada. Ela começou a murmurar, gritar por ajuda, chamar pelos pais. Então sentiu algo como se fosse alguém a puxando e acordou bruscamente.
– Calma! Eu só queria ajudar, você estava tremendo e dizendo coisas sem sentido. Achei melhor te acordar – do lado dela havia um adolescente. Era asiático, olhos escuros, rosto pequeno bem magrinho e tamanho médio, a jovem nunca havia o visto na vida.
– Quem é você? O que faz aqui?
– Eu me chamo Adam – ele se apresentou – Assim como você, também fui convocado para a Prova de Passagem. E vim te chamar para vir comigo, vamos ficar junto aos outros.
Ela se sentiu aliviada, Adam podia ser o seu primeiro amigo, ou seu primeiro inimigo, queria ser positiva e confiou nele. Podia ser um erro enorme, mas não tinha tempo para pensar.
– Me espere na frente da cabana – disse ela. — Eu vou me trocar e vamos direto para a Praça da Felicidade tomar alguma coisa.
– Certo.
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