A última guerreira de Konoha

2 Capítulo I: A sobrevivente


Capítulo I: A sobrevivente

Pakura cuidava dos meus ferimentos depois de mais uma sessão de chicotadas no salão do Trono na noite anterior. Pela primeira vez em anos, eu não desmaiei, eu aguentei firme cada duro golpe que marcava minhas costas, lembrando-me constantemente de quem eu era, uma sobrevivente. A antiga princesa de um Reino esquecido.

Minha criada, possuía a mãos ágeis e fez um rápido curativo na carne viva que latejava dor. Nós não falamos a mesma língua, ela como eu tinha sido trazida a Sunagukare como prisioneira de um País distante daqui, mas nos comunicávamos por gestos. Pakura era uma mulher de incomum cabelo verde escuro, com as pontas laranjas. Ela era responsável por me manter bem vestida e alimentada dentro do castelo, para que eu pudesse servir a princesa Temari como dama de companhia. A loira de olhos verdes, tinha um gênio forte e por isso não tinha muitas amigas, então quando vim para o palácio, o Imperador me colocou para fazer companhia a sua filha.

Sunagukare era totalmente diferente de Konoha o clima aqui era árido e quente ao contrário de Konoha que era leve e fresco. A vila fica no País do vento sendo cercada por um grande e tortuoso deserto que podia tornar vitima até o mais experiente explorador. Este cerco oferece ao Reino um obstáculo natural contra os possíveis invasores, uma vez que poucas potências estrangeiras estariam dispostas e preparadas para enfrentar as tempestades de areia e a escassez de água e alimentos comuns a aquele ambiente. O vilarejo situa-se em um vale fortificado atrás de um precipício de rochas com passagem para dentro e fora da vila restrita a uma única fenda entre dois abismos, tornando a área muito difícil de ser atacada pelo solo. Fugir daqui era praticamente impossível, se eu não fosse pega pelos guardas reais, morreria de sede e fome no deserto. Eu estava fadada a sobreviver nessa situação de submissão ao Imperador que destruiu a minha vida.

Após terminar o curativo, Pakura me vestiu com um longo vestido de veludo verde escuro de mangas com detalhes dourados na saia, balançando a cabeça positivamente pelo vidro do espelho para avisar-me que eu já estava pronta. Levantei-me devagar para evitar o atrito do tecido com os curativos e sorri para a moça que tinha idade para ser minha irmã mais velha, ela devolveu o sorriso e saiu silenciosamente do quarto, me deixando sozinha. Caminhei para o lado de fora do quarto em direção ao corredor principal para encontrar a princesa Temari para irmos tomar café. O cheiro das panquecas no andar debaixo, invadiam as minhas narinas, fazendo com que meu estômago roncasse alto de fome.

Bati na porta e rapidamente a criada de Temari, Maki, uma menina de olhos verdes escuros com cabelos curtos castanhos, a abriu e deu passagem para que eu entrasse no recinto. – Bom dia, Tema. – Falei com um sorriso. – Bom dia! – ela disse animada. A loira veio em minha direção, passando seu braço no meu para sairmos de seu quarto. – Você está linda hoje. – Disse para ela. Por ser a princesa de Suna, ela tinha acesso aos melhores costureiros e tecidos de todo o Reino. Naquela manhã, a menina usava um vestido de veludo azul escuro com uma capa da mesma cor e uma tiara de prata com brilhantes rubis cravejados ao seu redor. – Obrigada, você também está! – ela falou com um sorriso doce enquanto descíamos as escadas. Apesar de Temari ser filha do Imperador Rasa, ela não era nada parecida com o pai, nem na aparência e muito menos na personalidade. Dos três filhos, o mais parecido fisicamente com o pai, era Gaara, Kankurou e Temari haviam puxado a Imperatriz Karura.

Ao chegarmos no grande salão de refeições, nos sentamos e fomos servidas pelas criadas da cozinha. O Imperador e a Imperatriz comiam em seus quartos, eles só usavam o salão de refeições em ocasiões especiais, o lugar era reservado para que seus filhos fizessem suas refeições. O local era luxuoso, suas paredes claras eram preenchidas por grandes quadros, de um lado haviam pinturas que representavam os quatro elementos, fogo, ar, terra e água e do outro lado pinturas que representavam as quatro estações. Debaixo da mesa, havia uma enorme tapeçaria de lã vermelha, a cor do da família Sabaku. – O que vamos fazer hoje? – Perguntei para Temari enquanto dava mais uma garfada na minha panqueca. – Hoje é dia de spa, esqueceu? Precisamos estar lindas para a festa de hoje! – ela disse me encarnando com seus grandes olhos verdes – Esqueci completamente dessa festa! – Confessei e ela riu. – Vamos Ten, é a nossa oportunidade de dançar um pouco e sermos cortejadas por homens bonitos de todo o reino! – Disse ela animada e eu assenti.

A festa de hoje era em comemoração aos dez anos de conquista de Konoha por Sunagukare. Eu odiava esse dia com todas as minhas forças, pois as lembranças ainda atormentavam todas as noites quando em encostava minha cabeça no travesseiro. Nesse dia, o Imperador Rasa fazia questão de me exibir para o seu povo como um animal de estimação, como um cão vira lata que foi adotado por uma família benevolente da qual eu devia ter gratidão eterna. Mesmo sendo de conhecimento geral os maus tratos que eu sofria dentro do palácio, todos exaltavam seu líder por ter me mostrado a sua a misericórdia naquela noite. Porque para eles, eu tinha deixado de ser uma pessoa no momento em que meu Reino foi destruído e transformado em ruínas pelos soldados de Suna.

Após terminarmos o nosso desjejum, nos levantamos da mesa e caminhamos pelos corredores do castelo em direção a sala da Imperatriz que era onde as mulheres da corte real passavam a maior parte do dia. No céu, o sol estava brilhante, todas as janelas do castelo estavam abertas, deixando uma brisa leve entrar por elas. – O dia está lindo hoje. – Comentei distraidamente. – Sim! Vamos caminhar um pouco no jardim? – Perguntou ela e eu concordei.

Os guardas reais abriram a porta dos fundos do castelo que davam acesso ao grande jardim real. Ele, era um dos poucos lugares de Sunagukare onde a grama crescia, quando passávamos as tardes aqui, eu me lembrava da minha infância em Konoha, onde o verde era presente em todos os lugares da vila. As arvores aparadas enfileiradas formavam um grande e fresco corredor que estendia até o pequeno lago no centro do jardim. Temari tirou suas sapatilhas brancas e jogou no canto perto da porta e pisou na grama com os pés descalços, sentindo o frescor do terreno recém regado. – Para mim, essa é a melhor parte do castelo – Disse ela enquanto caminhava calmamente até o banco de mármore do outro lado do lago. – Eu não poderia concordar mais com você – Falei com um sorriso. De fato, o jardim era o melhor e o único lugar do palácio do qual eu gostava, pois era o único que me lembrava do meu verdadeiro lar.

Nós duas nos sentamos e ficamos tomando um pouco de sol. A luz solar atravessava a pele alva da princesa, fazendo-a brilhar, já a minha pele morena absorvia o sol como um alimento. – Kankurou já voltou de viagem? – perguntei de olhos fechados abanando-me, concentrada nos raios de sol entrando em minha derme. – Sim, voltou ontem a noite, depois do jantar. Ele passou no meu quarto para conversar. – Respondeu ela distraidamente – Novidades? – Insisti. Kankurou foi enviado a Konoha para investigar um suposto motim de rebeldes no antigo reino. – Nada demais, ele só me disse que os rebeldes foram subjugados e aqueles que se curvaram diante dele, obtiveram o perdão real e tornaram-se escravos em nossas minas ao invés da morte. – Ela comentava entediada como se achasse aquilo normal. Abri os olhos incomodada com a sua falta de sensibilidade e me ajeitei no banco – Ah... Nada demais então. – Concordei como se estivesse desinteressada, mas no fundo meu coração doía em saber que mais inocentes morreram.

Quando o calor do sol começou a queimar nossas peles, voltamos para o interior do castelo. Temari calçou novamente suas sapatilhas e fomos em direção a sala da Imperatriz. Agarrei seu braço e caminhamos distraidamente sem perceber quem nos esperava no corredor principal. – Bom dia, meninas. – Falou uma voz rouca, fazendo com que eu levantasse meu olhar rapidamente. Gelei ao fitar os frios olhos verdes do homem, desviando-os apressadamente. Temari me largou e correu em direção ao ruivo em nossa frente. – Gaara! Que surpresa te ver aqui! – Disse a loira animada dando um abraço em seu irmão. Gaara vestia uma calça preta de couro, uma blusa branca com um colete preto por cima e ainda um casaco preto com detalhes prateados na manga com sua coroa de ouro na cabeça. – Bom dia, príncipe. – Falei me curvando brevemente em sua frente. – Quando você voltou? – Temari perguntou curiosa, soltando-o. – Hoje pela manhã, trouxe informações de Iwagakure para o papai. – Disse ele dando os ombros desinteressado e ela assentiu. Temari admirava demais o Gaara, apesar de ele ser o irmão mais novo, ele se comportava como se fosse o mais velho dos três. – Você ficará para o almoço? – Questionou-o. – Ficarei até que papai me enxote novamente. – Ele respondeu e os dois riram. – Fico muito feliz que ficará um tempo com a gente aqui no castelo! – Afirmou a loira com um sorriso. – Eu também. – Ele concordou com um sorriso.

– Bem, agora nós já vamos indo. Já estamos atrasadas para nos arrumarmos para a festa de hoje! – Disse ela puxando-me pelo pulso delicadamente. – Sobre isso, preciso levar a Lady Tenten para a sala do Trono. Nosso pai estava requisitando sua presença. – Ele falou sério. Senti meu estômago se revirar e o meu café da manhã subir pela minha garganta, Temari revirou os olhos e me soltou. – Tenten, quando terminar de conversar com meu pai, me encontre na sala da Imperatriz, tudo bem? – Ela disse olhando em meus olhos apreensiva e eu concordei. – Tudo bem, nos vemos em breve. – Falei tentando aparentar calma, ela sorriu e continuou seu caminho pelo longo corredor. Levantei meu olhar para Gaara que me encarava com seus olhos de verdes mais claros que o de sua irmã. – Sabe do que se trata, príncipe? – Perguntei ansiosa, ele balançou a cabeça negativamente. – Infelizmente não, ele só me pediu para te chamar. – Respondeu-me, oferecendo seu braço para eu segurar.

Dei um baixo suspiro e me segurei nele enquanto caminhávamos silenciosamente para a sala do Trono. O salão oval estava lotado pela corte de Suna, as paredes cor creme eram realçadas pelas colunas cinzas que sustentavam o seu redor. Ao passarmos pela grande entrada do salão, encolhi meus ombros e caminhei vacilantemente pelo tapete vermelho estendido no chão, chegando em frente aos cinco tronos de madeira escura e assentos vermelhos acolchoados, dos quais três estavam ocupados pelo Imperador no meio, Kankurou ao seu lado direito e pela Imperatriz ao seu lado esquerdo. Gaara me soltou e eu fiz uma breve reverencia em frente ao Imperador. – Mandou me chamar, Vossa Majestade? – perguntei olhando para o chão de mármore cinza, eu só podia olhar em seus olhos quando ele autorizasse. – Princesa Mitashi. – Disse ele ironicamente. – Eu requisitei a sua presença aqui, pois preciso confirmar uma informação que só alguém de Konoha é capaz de me dizer. – Continuou ele. – Estou a sua disposição. – Falei trêmula. – Kankurou veio de Konoha com a notícia de que existe um esconderijo antigo em Konoha que os rebeldes usam como refúgio. Você saberia me dizer onde fica? – Perguntou se inclinado em minha direção. Eu sabia exatamente onde era, ficava nas pedras onde foi construído o nosso antigo castelo, o acesso até as cavernas no centro das rochas era difícil, se tornando assim um ótimo esconderijo, mas eu jamais contaria para ele. Eu não entregaria o meu povo. – Vossa Majestade, quando eu sai de Konoha eu era muito nova, não tinha a permissão para explorar meu reino sem estar acompanhada. Lamento não poder te informar onde fica esse esconderijo. – Falei enquanto encarava a barra do meu vestido.

O Imperador deu um suspiro pesado e ajeitou-se em seu trono. – Tenten, olhe para mim. – Ele me ordenou, lentamente levantei meus olhos aos seus. O Imperador trajava uma calça preta de linho e uma blusa de manga preta de alfaiataria com detalhes e ombreiras douradas, além da sua adornada coroa de ouro. – Eu vou te perguntar mais uma vez. Onde fica o esconderijo dos rebeldes em Konoha? – Ele perguntou com raiva na voz. Senti minhas pernas vacilarem e meu olhar paralisar em seus olhos castanhos cheios de ódio. – Vossa Majestade... Eu lamento não poder te informar onde fica esse esconderijo. – Respondi novamente, mas com a voz mais baixa dessa vez. Ele bufou e deu um sorriso sádico logo em seguida. – Então, acho que terei que fazer você lembrar onde ele fica. – Disse ele se levantando de seu Trono e caminhando em minha direção. O homem estendeu o braço para um dos guardas reais que ficavam ao lado do seu trono e de seu cinto ele tirou um chicote preto de couro, entregando-o na mão do Imperador. – Ajoelhe-se. – Ele me ordenou.

Senti as lagrimas quentes tomarem conta dos meus olhos enquanto eu colocava meus joelhos no mármore frio do grande salão. Fechei meus olhos com força, esperando o barulho do golpe e a dor que vinha em seguida, mas por alguns minutos nada aconteceu, ao abrir meus olhos lentamente para ver o que tinha acontecido, senti a dor latejante tomar conta das minhas costas, rasgando a parte de trás do meu vestido. – AH! – Urrei de dor enquanto meu sangue escorria pelo piso do lugar, fechando meus olhos novamente. O barulho do chicote ecoava no salão que estava em absoluto silêncio durante meu espancamento. Rasa levantou o chicote mais uma vez e o impacto veio com toda a força, logo depois veio outro e mais outro até o total de quinze golpes, um mais dolorido do que o anterior, deixando minha pele rasgada, vermelha e em carne viva, mais uma vez. – Estou satisfeito, pode se retirar. – Disse o homem se sentando novamente em seu trono. Me levantei com dificuldade, segurando meu vestido para que meus seios não ficassem a mostra, me curvei novamente em frente ao Imperador e caminhei aos tropeços para a saída do Salão.

Quando consegui sair das vistas da corte real, me encostei na parede mais próxima e deixei todas as lagrimas reprimidas saírem do meu corpo. Chorei pela dor dos ferimentos, pela vergonha da humilhação e também por essa vida miserável que eu vivia, eu não aguentava mais sofrer na mão de um sádico que me espancava toda vez que estava com raiva. Eu não tinha nascido para ser escrava, eu tinha nascido para ser uma princesa, a princesa de Konoha. “Não esqueça de quem você é”, as últimas palavras de minha mãe ecoavam na minha mente enquanto o sofrimento tomava conta do meu corpo. Eu nunca esqueci de quem eu era, nem por um segundo durante esses malditos dez anos, mas o que eu poderia fazer? Sozinha eu não poderia retomar Konoha. Os poucos rebeldes que ainda restavam, estavam muito longe para me resgatar, não existiam mais esperanças para mim.

Ouvi passos pesados no piso de madeira do corredor e levantei meus olhos para que eu pudesse ver quem vinha em minha direção. Com suas botas de couro preto, Gaara acelerou seus passos ao me encontrar, ele passou seus braços ao redor da minha cintura, com cuidado para não tocar nas feridas causadas por seu pai e me ajudou a andar em direção ao meu quarto no segundo andar do castelo. Percebi que durante o caminho, ele abriu a boca algumas vezes para dizer algo, mas fechou-a logo em seguida, naquele momento eu não precisava de palavras bonitas, eu precisava de repouso e cuidados médicos. – Me desculpe... – Ele sussurrou e eu balancei a cabeça. – Eu já estou acostumada, príncipe. – Falei com um sorriso fraco e ele suspirou cansado. – Eu gostaria de ajudar de algum jeito. – Suplicou-me. – Você já está me ajudando, príncipe. Sou grata por isso. – Falei sinceramente. Não era obrigação dele me ajudar, mas mesmo assim ele estava ali comigo.

Ao chegarmos na porta do meu quarto, ele a abriu e me colocou sentada em minha cama. Peguei o pequeno sino de ferro ao lado da minha cama e o balancei chamando a Pakura, que chegou em poucos minutos. Ela se assustou ao ver o príncipe em meu quarto e fez uma reverência prolongada assim que ele notou sua presença. – Deixo a Tenten em suas mãos, cuide dela por mim. – Pediu o príncipe e a criada concordou prontamente. – Eu te vejo a noite no baile. Até breve, Lady Tenten. – Disse ele com um breve aceno, saindo do quarto.

Após ele sair, Pakura levou seus olhos aos meus e eu apontei para minhas costas, ela pegou a maleta branca de primeiros socorros em cima da escrivaninha de carvalho perto da janela e deixou meu vestido cair no chão para examinar os ferimentos. Ouvi um suspiro cansado quando ela percebeu que os curativos que ele tinha feito mais cedo tinham sido abertos na nova sessão de chicotadas, a mulher disse algo em sua língua nativa e começou a tirar os esparadrapos encharcados de sangue, esterilizou os machucados e colocando novos no lugar. Depois disso, Pakura, passou o antisséptico nos ferimentos novos e os enfaixou também.

Assim que terminou de cuidar dos ferimentos, Pakura foi em direção ao pequeno armário de duas portas e pegou um novo vestido para me vestir, seu tecido era rosa claro e tinha as costas cobertas por um grande bordado. Ela o passou por baixo do meu corpo para que não desmanchasse os curativos recém feitos em minhas costas e o abotoou. Após, a criada retocou a minha maquiagem borrada por causa das lagrimas, deixando-me apresentável novamente. A agradeci com um sorriso fraco e ela levou sua mão em meu ombro como um gesto de solidariedade e saiu em seguida, me deixando sozinha novamente. Encarei minha própria imagem no espelho e suspirei, será que um dia esse pesadelo iria ter fim?

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.