A última despedida
1 Capítulo 1
Notas iniciais
31 de março de 1946
Querida Kitty,
Nem tudo com que sonhamos se pode concretizar, de verdade! Há um ano descobri isso, apesar de ter uma vida por muitos considerada boa e descontraída só por ser alemã.
Se já notaste, querida Kitty, que a minha escrita hoje está um pouco monótona, tens toda a razão. Hoje, dia 31 de março de 1946, faz um ano que a minha melhor amiga faleceu. Não há palavras para descrever ou suavizar essa afirmação. Foi uma brutalidade o que fizeram com ela, só porque era de uma raça diferente. Ela era judia e chamava-se Anne Frank... Aquele dia vai ficar marcado tanto na história como na minha memória para sempre.
—-------
Acordei como sempre na fria manhã de março em Amesterdão, época da Segunda Guerra Mundial. Tudo estava calmo e sombrio e da minha janela não se avistava viva-alma. A SS, para minha sorte, ainda não tinha começado a patrulhar as ruas, por isso era a hora certa de me encontrar com a Anne.
Vesti-me à pressa e saí de casa, sem nem mesmo tomar o pequeno-almoço. A rua estava gélida e com manchas de sangue — sinal de que tinha acontecido um massacre durante a noite — segui até à entrada de uma fábrica de condimentos, que na altura estava em nome de Victor Kugler por causa dos nazis, que não permitiam que os judeus tivessem nada em seu nome. Entrei pelos fundos, subi ao escritório principal e quando dei por mim estava em frente da famosa estante de livros. Arrastei-a e entrei.
Lá dentro era o mais absoluto silêncio, era a penumbra, até parecia que naquela "casa" não morava ninguém. Mal eu sabia que dentro de poucas horas aquele espaço contíguo a quem eu e a minha melhor amiga chamávamos de lar deixaria de existir!
Fui até à sala de convívio, apesar de saber que lá não estava ninguém. Esperei na sala alguns minutos, mas não aguentei e fui ter ao quarto da Anne, que ela partilhava com o Albert Dussel. Conversamos sobre variadas coisas, desde como ela se sentia ali até ao tempo lá fora, em voz baixa, até às oito horas, altura em que eu tinha que ir embora, para ir à escola. Despedi-me de todos (até parecia uma despedida definitiva, e de certo modo, sem nos apercebermos, já nos estávamos a despedir), peguei numa saca que continha alguns livros para serem entregues à biblioteca e cartas de Albert Dussel para a noiva, e saí sem ser notada pelos trabalhadores que já tinham chegado.
Também cumprimentei a Mieps que ia a entrar na fábrica com uma cesta para levar lá para cima.
Meti pelo beco atrás da fábrica e sem querer tropecei virando todo o conteúdo da saca no chão de paralelos. Foi quando notei um caderno de capa aos quadrados brancos e vermelhos e o abri. Dentro na primeira página podia ler-se:
Ik hoop dat ik kam vertrouwen, zoals ik nooit kon vertrouwen iedereen, en ik hoop dat je een grote bron van troost en steun kunnen zigin.
(Espero poder confiar-te tudo, como nunca pude confiar em ninguém, e espero que venhas a ser uma grande fonte de conforto e apoio.)
Imediatamente percebi que era o diário da Anne, aquele que ela me tinha falado nessa manhã. Eu não sabia como tinha ido parar ali, mas decidi que devia voltar ao anexo e entregar-lho e foi o que fiz. Mas quando lá voltei encontrei membros da SS arrastando a Anne e os outros para uma carrinha.
Não sei o que aconteceu, apenas sei que fugi o mais rápido possível dali com medo que me vissem. Também não sei o que aconteceu à Anne, à Margot, aos seus pais ou aos outros... Sei apenas que o único que voltei a ver foi Otto Frank e ele já não era a mesma pessoa alegre que conseguia passar confiança a qualquer um. Era um homem taciturno que tinha perdido a família na maior guerra da história. E, diferente de todos os outros, eu sei a razão da sua tristeza, pois descobri os horrores que Otto e a sua família viveram.
Para sempre
Fale com o autor