A última ceia

1 A Última Ceia


–Vamos, homens! Animem-se! Brindemos nós sob a luz adocicada dessa lua pela última vez! – Incentiva a tristeza.

As libertações triunfavam, destiladas. A reinvenção da sugestão da audácia morre nas faringes. Como sempre acontece – mas nunca se sabe – anéis tintos acumulam-se ao redor dos pés das taças

–Não entendo como pode estar tão animada para morrer. – Questionava a ansiedade.

Pequenas folhas desabavam sobre a mesa envernizada, repousando as mágoas de um passado outono.

Delirando sob o fardo do esquecimento, no canto de uma mesa circular, relembrava a racionalidade seus dias de glória. Seus tempos de existência.

–Já estava cansado, de qualquer jeito. Tem andado muito repetitivo. A graça de sua comida preferida está na sua baixa frequência. – Desabafava o medo.

Carregando as mágoas dos mortos, apressava-se o vento, escasso. Sem desrespeitar o silêncio, pequenos grãos de terra refletiam resquícios mal tropicalizados, insistindo no sonho do qual poderiam revolucionar o mercado funerário.

–Por que nada fazemos? – Pergunta o pessimismo, sem os velhos brilhos que sempre habitaram suas lagrimas.

Investindo em um plano perverso, persistia a selva em invadir as ruínas que protegiam a mesa. Eco. Sobre tudo, o eco.

–É Verdade! Vamos tomar de volta o que é nosso! – Cobiçava a memória, revivendo o que já não era mais real.

Rebelando-se contra a rebeldia, debatia-se no caixão o arquiteto da construção, afinal esqueceu da porta. Abençoado seja o dia em que criou Deus o esquecimento, pois sem ele não poderíamos esquecer sua existência, e nem de colocar a porta.

Sem se importar com consequências, lembra-se o relâmpago, assassinando o céu e doando mais alguns segundos de vida ao pai.

Resumindo fulgores e séculos em não mais que intervalos, concretizou a racionalidade:

–Nós compomos humanos e nada mais. Humanos e nunca mais.

Falha do acaso. Criou-se outro.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!