A última Noite
1 Primeiro e único
Notas iniciais
A neve caía. Naquela noite inóspita de inverno, eu estava ali. Observando-a.
Olá, senhorita Alice.
Que tipo de sonho
Você pode ver
Com olhos de vidro?
Entrando em transe?
Era jovem. Pura. Bela. Era assim a doce menina que eu conheci criança. A menina que cresceu junto a mim. Acompanhei sua trajetória. Vivemos juntos durante muito tempo, até que ela se foi. E nunca mais a vi.
E agora, finalmente a encontrei. Finalmente. Lembro-me de suas brincadeiras. Parece que foi ontem. Mas já faz tanto, tanto tempo! Por onde será que ela andou? O que fez? Como ela acabou...
Era tão cheia de vida! Tão alegre, sorridente...! E agora...
Novamente eu,
Meu coração irá se despedaçar
E desmoronar
Todas as suas memórias
Aderidas às lacunas
Que foram remendadas
Senti de imediato um aperto em meu peito ao contemplá-la. Seu rosto continuava doce, meigo. Continuava branco e macio, como uma boneca de louça. Porém, gelado. Frio, como o vento daquela noite soturna. As pequeninas e delicadas mãos juntas ao corpo, unidas. Ela andava sempre assim, sorridente, porém ali, ela já não sorria. Não apertava seus olhos azuis e brilhantes, em sinal de reprovação a qualquer coisa. Eles estavam cerrados. E jamais iriam se abrir novamente. Ela havia morrido.
Olá, senhorita Alice.
Quem é você?
Jogando amor fora
Com lábios adocicados?
Você está de luto?
O que me corrói por dentro é saber que jamais irei tê-la. Por toda a minha vida nutri um sentimento que era muito mais do que amizade. O problema é que apenas notei que a amava quando vi sua face inerte.
O corpo imóvel coberto pelo delicado vestido rosa-claro. Por que eu nunca lhe disse nada?Nunca mais vou tê-la. Agora ela se foi, sem saber o quanto eu a amava. Sentado à beira da cama, acariciei-lhe os longos cabelos castanhos pela última vez. Eu não queria sair dali, mas aquela visão já estava me deixando... agoniado. Encostei de leve os meus lábios aos dela.
Doces e frios que um floco de neve. Não sentia mais a respiração apressada e quente que antes lhe saía das narinas.
Eu já,
O fervor da língua
Que protela essa história
Tornou-se frio
E eu nem mesmo posso cantar as canções
Que adoro tanto.
Quieta, você não responde.
O jovem médico saiu do quarto. Carregava a vela na mão esquerda e a maleta de couro negro na mão direita. Olhou para os dois senhores de idade, que também traziam velas em suas mãos. Observavam-o, apreensivos.
- Infelizmente, ela faleceu. Não consegui salvá-la. Meus pêsames.
A senhora quase deixou a vela escapar-lhe das mãos. As lágrimas vieram como cachoeira, escorrendo pelo rosto envelhecido. Abraçou-se ao senhor de idade, lamuriando.
- Minha filha.... Minha pequena... Porquê, meu Deus? Porquê não me levaste? Porquê minha filha?
O rapaz seguiu até a saída da casa, de cabeça baixa. Deixou a vela em cima de uma mesa que havia na sala. Abriu a porta da frente.
- Até mais ver. — disse, saindo.
Já não nevava mais. Porém o vento gelado soprava forte. Por dentro, o rapaz também havia falecido. Morrera junto com aquela jovem.
Quieta, você não responde.
Notas finais
Ah, se alguém quiser ouvir a música : http://www.youtube.com/watch?v=BWUxZ7LIUss :3
Sabia que eu amo reviews? 8D
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