A última Malfoy
7 O armário das almas.
Faltava exatamente um dia para o Natal em Hogwarts e lá fora a neve caía em graciosos e delicados flocos cobrindo tudo de branco. Alunos corriam de pijamas e robes brincando uns com os outros e saudando a chegada do primeiro dia de neve. Dentro do castelo as lareiras estavam acesas e decorações pendiam por todos os lados, criando assim, um clima agradável e aconchegante.
Nas masmorras, em seu quarto Ágata ainda dormia enquanto sonhava com alguém que vinha tomando conta de sua mente e coração nos últimos dias.
“ Em seu sonho era primavera. Ela usava uma blusa leve e cor de rosa enquanto andava na beira do lago próximo ao castelo. As árvores e a grama estavam repletas de flores e tudo estava incrivelmente colorido, uma paisagem fora do comum. Ela caminhava quase correndo, sentia a ansiedade tomar conta de si a cada passo que dava. O sol refletiu em seu rosto e ela apertou as pálpebras a fim de proteger os olhos. E do meio daquela luz, ele surgiu caminhando em sua direção.
Tom vinha despreocupado e sorrindo, não usava o costumeiro uniforme da Sonserina, ao contrário, também vestia uma camiseta leve como se pudesse sentir o calor que fazia, como se fosse um garoto do mundo real.
Ele correu ao encontro da garota e quando se aproximaram ele a beijou enquanto levantava-a do chão com um abraço. O coração da Malfoy disparou diante daquele beijo, nunca havia sentido nada assim, parecia que ia explodir de felicidade. Assim que interromperam o beijo ela acariciou seu rosto, tentando memorizar cada detalhe daquele momento. Ele por sua vez, segurou suas mãos entre as dele e as levou aos lábios, beijando-as carinhosamente. O momento era perfeito, nenhuma palavra precisava ser dita, eles deixavam que os beijos e as carícias falassem por eles.
De repente em meio a toda aquela perfeição ela ouviu um ruído diferente, como algo vibrando em seu ouvido e tudo começou a se desfazer como fumaça.
—Não...- Tentou argumentar enquanto tentava segurar a mão de Riddle que também começava a desaparecer...”
Acordou com Vladmir ronronado ao lado de sua cama. Esfregando os olhos, ela sentou-se enquanto acariciava a cabeça do felino que começou a miar com mais intensidade.
— Obrigada por me acordar na melhor parte. – Disse com ironia para o gato, como se ele pudesse entende-la.
Olhou para a cômoda que ficava ao lado de sua cama, o diário estava lá, mas nem sinal de Tom. No fundo ela se sentiu aliviada, seria terrível acordar e olhar para ele depois daquele sonho embaraçoso. Trocou de roupa e desceu para o café da manhã. Esperava que Alex e as gêmeas já estivessem no salão principal, hoje era o dia que aproveitariam que o castelo estava quase vazio para seguir a bússola de Salazar e encontrar o próximo objeto. Não sabia exatamente o que os esperava, mas se sentia preparada para enfrentar o que quer que fosse.
Felizmente os três a aguardavam sentados juntos e tomando o café da manhã. Como haviam poucos alunos por ali ninguém precisava sentar-se na mesa de sua respectiva casa, foi a primeira vez que ela viu Sonserina, Grifinória e Corvinal na mesma mesa. Aquela imagem entraria para sua lista mental de “coisas estranhas que só acontecem em Hogwarts na véspera de Natal ”. As duas como sempre, discutiam arduamente. Enquanto isso ao lado, Alex apoiava a cabeça nas mãos sonolento, quase fazendo a omelete em seu prato de travesseiro.
— Não coma Bacon! Faltam duas semanas para o baile anual de inverno e você não vai caber no vestido! – Dizia Rosie batendo na mão da irmã e fazendo-a derrubar o pedaço de Bacon que levava a boca.
— Meninas, brigando logo cedo?
— Finalmente ela acordou, estávamos te esperando. – Disse Rosie esquecendo da irmã e virando-se para Ágata.
Enquanto isso Lizzie aproveitando-se da distração da outra, enfiou dois pedaços de bacon inteiros na boca e começou a mastigar loucamente antes que a irmã percebesse.
— Acabei perdendo a hora. Mas agora estou com toda a energia necessária para irmos atrás do próximo objeto.
—Tem alguma noção do que pode ser? – Perguntou Alex no meio de um bocejo.
— Ainda não, mas sei que temos que estar preparados. Algo pode estar guardando o objeto, e além do mais, não podemos chamar a atenção do zelador Willian’s. Seria difícil inventar uma desculpa para Medeia sem deixá-la desconfiada. Ela é muito paranóica.
— É uma pena que não cabemos os quatro embaixo da capa do Alex. – Disse Rosie.
— Hoje vai ser fácil andar pelo Castelo, os poucos alunos que estão aqui vão passar o dia aproveitando a neve. É nossa chance de procurar aqui dentro tranquilamente.
-E o Matt? – Perguntou Alex.
— Não quero que ele saiba sobre o que vamos fazer hoje, não posso confiar em alguém que me desafia.
—Se quiser posso ficar de olho nele e descobrir o que anda fazendo.
— Me informe de qualquer coisa estranha que perceber, se precisar siga-o, você é muito bom nisso.
— Se quisermos sair de vista antes que Matt perceba que estamos aqui precisamos ir agora. – Disse Lizzie olhando pela entrada do salão principal.
Matt entrava com uma garota do sexto ano da Lufa Lufa, riam muito e estavam despenteados com as roupas amarrotadas, provavelmente tinham passado a noite juntos em algum lugar fora do dormitório e vindo direto para o café da manhã. Malfoy virou rapidamente o resto de seu café e pegou uma torrada, enquanto isso todos se levantavam para sair dali antes que o garoto os visse.
Andaram pelo castelo até chegar em um dos corredores mais vazios, em uma ala inabitada. Ali Malfoy tirou a Bússola do bolso do seu casaco e a abriu, ela apontava sempre para a mesma direção desde que fora ativada com o sangue da garota: ala leste do castelo. Conforme caminhavam, foram chegando a corredores que eles nunca tinham acessado antes, lugares mais sombrios e silenciosos. A pouca iluminação e as teias de aranha que apareciam aqui e ali, sugeriam que quase ninguém passava pelo local a algum tempo, nem mesmo para fazer a limpeza. No final do corredor haviam vários objetos amontoados, mesas, cadeiras, armaduras entre outras coisas e bem atrás uma porta dupla de madeira. A bússola começou a brilhar mais intensamente.
— O que quer que seja está atrás dessa porta, vamos ter que dar um jeito de remover toda essa tranqueira para ter acesso.
— Já me arrependo de ter feito as unhas ontem. – Disse uma das gêmeas em tom choroso.
—Cale a boca e comece a nos ajudar. – Disse a irmã cortando-a.
Usavam alguns feitiços para remover o que era mais pesado, e algumas coisas removiam manualmente para irem mais depressa. Enquanto tentava tirar uma armadura do lugar Lizzie derrubou uma parte no chão fazendo um barulho enorme.
— Tenha cuidado! Quer que o Willians venha investigar o barulho? – Sussurrou Ágata repreendendo a garota.
—Desculpe! Foi sem querer.
— Não quero desculpas, quero eficiência. — Ela não tinha paciência com pessoas desastradas.
— Isso mesmo, eficiência ... – Sussurrou Rosie rindo da irmã.
—E você também, trabalhe mais. E pare de pegar as coisas com as pontas dos dedos, vai acabar derrubando algo também. – Esbravejou para a outra que segurava um objeto empoeirado com o nariz torcido como se em suas mãos tivesse uma bomba de bosta.
Depois de algum tempo conseguiram liberar espaço suficiente para abrir um lado da porta. Com as varinhas em punho eles adentraram a sala. Tudo estava terrívelmente escuro, a Bússola brilhava tanto que nem precisaram usar o feitiço para iluminar. Finalmente as gêmeas se calaram, podiam sentir que havia algo rondando aquela sala e não era nada amigável. A luz dourada da Bússola em conjunto com as sombras formadas pela escuridão, fazia com que seus rostos se parecessem com máscaras distorcidas.
Ali dentro estava mais frio do que o normal, quando expiravam, o ar saía de suas narinas como se fosse fumaça branca e densa. Malfoy começou a tremer de frio e uma sensação estranha invadiu seu peito, uma angústia terrível como se tudo em sua vida tivesse sido em vão. No meio da sala havia um armário alto que parecia ser muito antigo, feito de uma madeira tão sólida quanto a porta daquela sala. Olhando melhor observou que havia alguns arabescos entalhados em volta, e as portas estavam escancaradas. Olhando dentro o armário parecia não ter fundo, a impressão que a garota tinha, era que se chegasse muito perto cairia em uma escuridão sem fim por toda a eternidade.
Alex fez menção de ir na frente afim de protegê-la, mas Ágata o deteve colocando o braço esticado na frente do garoto. Devagar ela começou a avançar, e sentiu que algo se movia nos cantos escuros da sala. Os outros, que iam logo atrás pararam bruscamente olhando para os lados e apertando os olhos, tentando distinguir o que se movia naquela escuridão. A menina fez sinal para que os amigos ficassem onde estavam e avançou sozinha para o armário. Chegando perto podia ver algumas runas entalhadas, enquanto observava as runas começaram a mexer-se e se transformaram em letras:
“ O forasteiro que chegar até aqui é porque mérito alcançou. Se o seu coração está realmente repleto de magia das trevas não será difícil cumprir com a troca:
Uma alma sacrificada para ter em suas mãos o anel de Ekrizdis. “
Mal acabou de ler e escutou um grito de agonia: era Lizzie! Virou-se rapidamente e viu a garota tremendo muito, sendo levantada a dois palmos do chão. O que a erguia? Uma criatura obscura que flutuava usando trapos esfarrapados e negros. Enquanto a criatura puxava a garota pela gola da blusa, Malfoy pode ver o olhar de terror da amiga que abria a boca involuntariamente enquanto chegava cada vez mais perto de onde deveria estar a face da criatura, porém aquele espectro não tinha rosto, dentro do capuz havia apenas uma esLizziecuridão tão profunda quanto a do armário. Com fascínio ao invés de medo ela se deu conta do que era: um Dementador!
Rapidamente, lembrou-se do sonho que tivera pela manhã e pronunciou alto e forte as palavras que achou que nunca usaria fora da sala de treinamento de seu pai.
—EXPECTO PATRONUM!
Imediatamente da ponta de sua varinha saiu uma pantera prateada que foi em direção a criatura. Lizzie foi solta e caiu no chão com um baque. Tremia e chorava muito. O Dementador foi impelido pelo patrono de volta para dentro do armário e suas portas fecharam-se bruscamente.
Saíram da sala, e ajudaram Lizzie a sentar-se no chão do corredor com a irmã do lado tentando acalmá-la. Ágata e Alex moveram os objetos novamente sobre a porta e assim que a garota conseguiu se sentir melhor voltaram para o salão principal onde Alex conseguiu um chocolate quente para a amiga. Sentados em frente a uma lareira Alex e Rosie expressavam sua preocupação com Lizzie, enquanto isso Ágata extasiada observava as chamas, o coração quase explodindo em alegria. Encontrara um Dementador! Aquelas criaturas haviam se tornado extremamente raras depois da segunda grande guerra bruxa, onde o Ministério deixou de usá-los para guardar os prisioneiros em Azkaban e os substituiu por Aurores. As criaturas foram classificadas como não confiáveis, já que tomaram o lado de Voldemort na batalha. Sem almas ou sentimentos negativos para se alimentar eles param de se reproduzir e estavam praticamente extintos. Ela nunca tinha visto um a não ser nas figuras de livros de DCAT. O feitiço do patrono não era mais ensinado em Hogwarts, se ela soube o que fazer foi porque seu pai sempre a ensinava algumas fora da escola também.
Quem diria que ela encontraria ali, em uma sala do castelo aquela criatura magnífica? Talvez fosse uma das últimas de sua espécie. Voldemort era realmente muito sagaz, anos após a sua morte e ele ainda conseguia manter um Dementador em Hogwarts, bem debaixo do nariz de Medeia e de todo o Ministério da Magia. Soltou um risinho de satisfação ao pensar em tudo isso, mal podia conter sua empolgação. Mas ainda tinha alguns detalhes a resolver, como por exemplo, o armário contido na sala. O objeto que devia obter o tal anel de Ekrizdis. Nunca havia ouvido falar nesse nome, seria alguém que fez parte do passado da comunidade bruxa? Com certeza encontraria algo na sessão reservada da biblioteca. A outra questão era sobre o que a inscrição do armário dizia: uma alma para sacrificar. Quem ela escolheria?
Passou os olhos pelo salão, algumas meninas da Lufa Lufa riam sem parar enquanto jogavam xadrez de bruxo. Em outro canto um grupo de garotos da Corvinal pregavam uma peça em um garoto menor. Ela tinha que pensar muito bem, afinal se era para ser um sacrifício não deveria ser a alma de alguém que tivesse algum valor para ela? Olhou para Alex sentado ao seu lado, estava tão concentrado conversando que nem reparou que ela o encarava. Se ela pedisse o garoto pularia de bom grado dentro daquele armário sem nem pestanejar. Mas ela não seria tola, Alex estava destinado a coisas maiores no futuro. Do outro lado do garoto as gêmeas estavam recostadas, apoiadas uma na outra ouvindo atentamente o que quer que o garoto estivesse lhes dizendo. Todos achavam que elas não passavam de garotas ricas e fúteis, mas Ágata já havia presenciado momentos em que elas demonstraram uma genialidade sem limites, aquilo tudo era só uma fachada para serem aceitas e elas ainda tinham algum valor para ela.
Sentado quase embaixo da árvore de Natal Matt limpava sua vassoura assoviando enquanto polia o cabo. O maldito Matt Wood, que havia desafiado sua autoridade, que se recusava a aceitá-la como líder mesmo depois dela ajuda-lo a se libertar e tomar o controle. Ela tinha que mantê-lo bem perto, saber de cada passo dele, sentia que se descuidasse ele tentaria esfaqueá-la pelas costas na primeira oportunidade. Talvez devesse jogá-lo dentro daquele armário, ser um idiota seria motivo suficiente para pagar perdendo a alma em sacrifício? Talvez. Por um segundo sentiu falta de Mathew, ele era fraco, mas era fácil de manipular e com as palavras e atitudes certas ela poderia fazê-lo ser leal.
Suspirou cansada. Teria que pensar muito bem no que faria, não podia agir por impulso. Ela só tinha uma certeza diante daquilo tudo: as coisas estavam ficando mais intensas, era uma só questão de tempo até alguém perceber a magia das trevas que voltava a rondar o local para que um escânda-lo começasse a surgir em Hogwarts.
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