A árvore de memórias
15 14. A Árvore e a necessidade.
Notas iniciais
Assim como o clima local, a vida de Itsuki mudara drasticamente e depois seguiu rápida e leve como a brisa que se estabeleceu nas semanas presentes. Natsume não sabia se havia alguma conexão entre as duas coisas, mas parecia que o clima ouvia os desejos da meio-yokai.
Tudo parecia calmo a ponto de que maior preocupação da menina fosse se estava causando boa impressão entre os humanos. Já Natsume estava mais preocupado com o fato de não saber se ela voltaria a se tornar yokai novamente — e como ela não parecia se importar com isso.
A chegada da meio-yokai havia sido um processo de adaptação para ele também. Itsuki era extremamente diferente da maioria das pessoas alí, tanto em aparência quanto em comportamento. Apesar de ser aluna do primeiro ano, ela era frequentemente vista andando com Natsume e seus amigos nos horários vagos, o que obviamente atraiu atenção para ele também. E, principalmente porque Itsuki o seguia pelos corredores no horário de almoço e ele a acompanhava até sua casa no final das aulas, os boatos voltaram a surgir — e desta vez, o rapaz escolheu ignora-los completamente. Não sabia dizer se fazia isso porque estava cansado, envergonhado ou por simplesmente não querer negar e nem afirmar a situação. Fazia um tempo que o rapaz não entendia muito bem os próprios sentimentos pela meio-yokai.
Quando seus pensamentos ficavam fora do controle, Natsume fazia questão de relembrar suas prioridades. E sua prioridade no momento era entender se Itsuki havia virado humana de uma vez por todas — e depois encontrar a mãe dela. Mas ela parecia ter a mania de desaparecer justamente quando ele mais precisava. Desta vez porém, bastou que fosse até a casa dela para que tudo se resolvesse.
— Ele deve chegar a qualquer momento. — explicou o gato.
— Huh... Eu espero que ele não queira me matar...
— Você está falando do mesmo Natsume que eu? — Perguntou o gato em tom de ironia.
— Ele pode parecer bem perigoso às vezes sabia? Você precisava ter visto como ele brigou comigo quando viu meu quarto. — choramingou a menina que estava sentada em sua varanda com Nyanko. Ambos esperavam Natsume, mas não pareciam muito preocupados — o mesmo já não ṕodia ser dito da reação que esperavam do rapaz.
Natsume chegou com seu típico olhar de desaprovação. Não que andasse sempre por aí com cara fechada — é que estava mais que acostumado a tratar das confusões causadas pelos dois seres que estavam agora a sua frente.
— O que houve dessa vez...? — perguntou o menino desanimado.
Itsuki deu-se por satisfeita ao apontar para seus ‘chifres’. Foi o suficiente para que o rapaz entendesse a situação, mas não para analisa-la, pois seu gato o interrompeu primeiro.
— Mas o ser superior que vos fala já resolveu tudo. — Nyanko o olhava debaixo, por causa de sua altura, mas demonstrava tal confiança que parecia ser 2 metros mais alto que Natsume — uma cena cômica.
— Como? — Por sua vez, o rapaz parecia bem cético.
— Nyanko-sensei me mostrou como me ‘fingir’ de humana... Como estou usando minha própria imagem, ele acredita que não vou gastar muita energia...
— Então não devia ter faltado as aulas de hoje, ‘Naoko-chan’
Natsume usou o nome que havia dado a menina somado pelo honorífico ‘chan’ na intenção de demonstrar uma certa decepção, como se ela fosse criança. Mas tudo que conseguiu foi ficar envergonhado por lembrar do dia que havia dado o nome a ela — Itsuki também ficou mais envergonhada que ofendida. O rapaz desviou do sentimento
— Já que você decidiu se tornar humana devia prestar atenção na escola. É o que fazemos... É importante.
Naoko Itsuki então, abriu um grande sorriso prometendo que se comportaria apartir daquele momento. Desde então Natsume não conseguiu tirar a imagem daquele sorriso de sua cabeça. Foi uma noite longa -
Mas logo o dia seguinte veio. Ele era cinza e triste.
O rapaz acordou ainda cansado, em meio a uma densa chuva. Caminhou para a escola arrastado, tanto porque precisava desviar das poças de água acumulada, tanto porque não havia dormido porque sua cabeça acumulada pensamentos ensolarados. Nunca havia visto a si mesmo numa confusão tão grande e se perguntava se conversar com alguém não ajudaria — mas quem? Obviamente, havia pensado na yokai que o acompanhava. Mas tinha bastante certeza que essa confusão girava em torno dela, por isso não sabia se deveria contar... Sem falar que o que ela entenderia sentimentos...humanos?
Divagando sobre o assunto, Natsume olhava para outros possíveis candidatos para a conversa. Havia se distanciado dos amigos, não por falta de conversas, mas porque seus pensamentos já não eram tão direcionados para eles. Na sua mistura de pensamentos, veio a memória do dia em que havia prometido que não esconderia nada da menina da qual ele deu nome. Nesse mesmo dia ela havia provado que o entendia — e também havia lhe dado uma bela lição de moral. É óbvio que era mais fácil lembrar do que botar em prática, mas talvez ser sincero com ela nesse momento fosse um bom começo. (ou recomeço)
Então lá estava ele, em pé na porta da sala da meio-yokai, recolhendo sua coragem para falar com ela. Mas por mais que a procurasse, não a achava de jeito nenhum.
Porque ela nunca estava lá quando precisava??
— Veio procurar a Naoko-chan, Natsume-senpai? — Interrompeu a divagação silenciosa do rapaz, uma das colegas de classe da meio-yokai, ao ver o rapaz se aproximando da porta da sala de aula.
Natsume olhou perplexo por alguns instantes, quase não reconheceu o nome ‘Naoko’ porque não costumava usá-lo. Mas ficou feliz ao perceber que Itsuki havia levado seu pedido a sério, e não pode deixar de esboçar um pequeno sorriso por isso.
— Na verdade sim... — respondeu assim que voltou ao ar, ainda meio sem jeito.
— Nós achávamos que você sabia o motivo das faltas dela... Quer dizer, vocês andam sempre juntos por aí... Aliás, vocês não estavam...namorando ou algo do tipo? Hm, de qualquer forma, você devia ir verificar pessoalmente, não acha?
Takashi ficou surpreso com a capacidade das meninas do primeiro ano de falarem tão rápido. Parecia que nos seus discursos não haviam pontos ou virgulas. Ela continuou a falar, mas o rapaz simplesmente deu meia volta e agradeceu, ignorando completamente quaisquer pergunta que ela tenha feito. Continuou caminhando sem rumo, e dessa suas prioridades já não o ajudavam — chegou a um espaço aberto onde costumava almoçar com a menina, que no dia estava completamente vazio porque a chuva havia acabado de parar. Colocou as mãos no bolso como se procurasse respostas, e então percebeu que havia algo dentro.
Um celular. Acompanhado de um bilhete.
‘Não adianta brigar comigo dessa vez. Esse comprei com meu dinheiro!’ dizia o bilhete. Analisando mais de perto, havia pequenas letras bem desenhadas que diziam que se tratava de um presente para ele. Natsume ficou se perguntando quando ela havia colocado isso em seu bolso, mas entendia o motivo — provavelmente sabia que ele não iria aceitar se entregasse-o em mãos. Resolveu ligar o celular, quando recebeu uma ligação. O contato tinha o nome de Itsuki, então atendeu.
— Alô? Itsuki? Porque não vei...
— Natsume-san, certo? Aqui quem fala é o Hideki, primo dela. Estou ligando do celular da Naoko-chan porque acho que ela precisa de você agora. Meu avô Ryotaro morreu hoje de madrugada e bem... ela não reagiu da melhor forma possível.
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