A árvore de memórias
4 04. A árvore e o Presságio
Notas iniciais
Natsume entrou sorrateiramente pela janela ao amanhecer. Arrumou-se para a escola, desceu e tomou o café. Após se despedir, calmamente caminhou pela a estrada e, quando chegou no prédio sentou-se à sua mesa. Fez o possível para não dormir durante as aulas, mas sua face exprimia seu estado. Quando levantou-se no intervalo, sentiu as pernas bambas e a visão turva, então desmaiou. Acordou algum tempo depois na enfermaria, uma de suas professoras conversava com a enfermeira e notou seu despertar.
– Natsume-san, que bom que acordou. Estava preocupada com sua ausência na aula.
– Oh... perdão. — O rapaz respondeu um tanto cabisbaixo. Realmente não queria arrumar problemas para seus guardiões. Ficou um pouco tenso, torcia para que, se fosse repreendido, o problema não passasse para eles.
– Ficou vendo tv até tarde? — a professora sorriu. Takashi era um bom aluno, então não pretendia reclamar. Todos falaram que sua cara estava péssima na manhã em questão, provavelmente o rapaz tinha bons motivos.
– A verdade é que o calor insuportável está me fazendo ter dificuldades para dormir... Além disso — pensou rapidamente numa desculpa para reforçar seu argumento — meu gato passou muito mal nessa madrugada, acredito que também por causa do calor. Fiquei de olho nele.
De fato, fazia um calor terrível nos últimos dias — a própria professora dormira mal na última noite. Não hesitou em perdoá-lo.
– Natsume-san, minha aula é a última do dia e irá começar agora. Você perdeu mais duas aulas, mas não se preocupe. Avisarei para os outros professores pessoalmente que você passou mal. Pode ir para casa, você está liberado. Mas, por favor, lembre-se de pegar o conteúdo perdido com um de seus amigos ok? — A professora deu uma pequena “piscadela” e foi em direção à porta. – Oh, e se seu gato continuar mal, não hesite em levar ao veterinário.
Natsume parou por alguns momentos para processar a informação. Ainda faltava uma hora para que pudesse voltar para casa no horário normal. Sabia que se voltasse antes do tempo, Touko ficaria preocupada e provavelmente iria procurar a professora. Mas estava extremamente cansado... Pensou então num lugar tranquilo onde estaria o suficientemente protegido para dormir. Voltou à grande árvore anciã e avistou novamente Itsuki, a yokai.
– Você está com a cara péssima, Natsume-san. O que houve?
– Ah... — com uma das mãos esfregou a área dos olhos — Quando humanos não dormem o suficiente, ficam assim... Posso dormir aqui? ... Se não for muito incomodo, claro.
A yokai se surpreendeu. Com o raciocínio rápido, concluiu que a culpa pela privação de sono do rapaz era dela, que ficou tagarelando a noite inteira — apesar de o histórico de mau sono do rapaz vir da semana extremamente quente.
– Oh, claro! eu ficarei de olho em você — deu um sorriso simpático e bateu na grama como se estivesse afofando uma cama para ele. Após isso, subiu em um dos galhos e pôs-se em estado de vigília.
Takashi se deitou usando a mochila como travesseiro. Pensou por alguns segundos que o local era mais confortável do que esperava. Uma leve brisa batia em seu corpo e — confessou mentalmente — o fato da yokai estar em um dos galhos o observando o deixou, estranhamente, com um sentimento de segurança. Rapidamente caiu num sono pesado, acordou duas horas depois com os berros de Itsuki, e sentindo batas baterem em seu rosto.
– Pare com isso! Eu estava protegendo Natsume-san!! Você não pode se aproximar dele assim seu gato gordo! — Itsuki gritava com bastante raiva, mexia os braços em pura histeria.
– É claro que eu posso me aproximar dele! Eu me aproximo do jeito que eu quiser! — O gato — seu guarda-costas- gritava e depois dava língua para a yokai. – Ele é MINHA presa!
– Tenho quase certeza que é o contrário, gato gordo! — ao perceber que Natsume havia acordado, Itsuki virou para ele — Natsume-san, eu sei que disse que iria te proteger e eu realmente fiz! Só deixei esse gato se aproximar porque obviamente não é perigoso. É gordo demais para isso, veja! Mal consegue se mexer!!!
Nyanko se estremeceu de raiva, pulando na yokai. Os dois começaram uma briga que parecia ser protagonizada por duas crianças de jardim de infância. Natsume riu dos dois, que obviamente olharam com uma expressão de “porque diabos ele está rindo? não vê que o assunto é sério?” O gato, por sua vez, pulou no colo de seu “dono” — ou “presa” como havia dito — e lhe deu um sermão.
– Porque você estava aqui? Devia estar na escola!! Você demorou,hoje volta mais cedo e estava aqui!!! Touko estava preocupada!! E MAIS IMPORTANTE. ESTOU COM FOME, ME ALIMENTE!! HUMPF.
Eram tantas reclamações que Takashi teve de parar e analisa-las por uns instantes. "Touko-san estava preocupada", pensou, de resto, ignorou as reclamações do gato que pareciam a de uma esposa folgada. Segurou-o e despediu-se de Itsuki.
– Muito obrigado por me deixar dormir aqui, Itsuki-san. — fez uma rápida e formal reverencia — mas preciso ir agora. Minha família está preocupada com minha ausência.
– Não há de que, Natsume-san. É um prazer lhe ajudar, principalmente depois do débito que deixei com sua avó. — A yokai sorriu docemente — É bom ter alguém que note sua ausência, por isso não de trabalho à sua família. Vá. — fez um gesto com a mão como se o enxotasse do lugar. Natsume percebeu o peso de suas palavras pela expressão solitária que a yokai fez. Acenou com a mão e caminhou para casa com Nyanko.
Ao chegar em casa Touko o indagou pela demora. Natsume respondeu que ficara um pouco mais além do tempo para ajudar um dos amigos com uma lição. A mulher sorriu com a bondade do menino — que se sentiu um tanto culpado por contar tantas mentiras num dia só — serviu as sobras do almoço para ele e para o gato, pedindo desculpas. Após isso Natsume explicou que dormiu mal durante a noite, subiu e arrumou-se para dormir. O tempo havia esfriado consideravelmente. Deitado, olhou com expressão pensativa para seu gato.
– É difícil não ter onde morar.
– Hm? — O gato não entendeu nada da frase solta que Natsume falara. Olhou para ele desconfiado de onde aquele raciocínio ia dar.
– Estou falando da Itsuki-san. Sei pelo que ela está passando. É difícil — falou pausadamente.
– Você não sabe o que é ser um yokai. Não devia estar se metendo nos assuntos dos outros. Além disso, se expôs a um perigo muito grande hoje. Dormir assim, despreocupadamente, próximo a um yokai do qual você não conhece. Podia ter sido comido! — As palavras de Madara eram pesadas e ríspidas. O rapaz ficou profundamente ofendido.
– Mas sei o que é não te casa, não ter família e amigos! Além do mais, durmo ao seu lado desde que nos conhecemos e também não sei sua “procedência” — ironizou — Posso ser comido todos os dias, não foi à mim que você se referiu como “presa” hoje mesmo? Não te conheço! — Natsume não achava que ia ser comido por Madara, nem que o yokai iria traí-lo. Na verdade, passaram poucos segundos e se arrependeu do discurso. Madara era seu amigo. Um dia prometera que iria esperar por sua morte natural para por as mãos em seu livro e que o protegeria até lá. Natsume acreditara em todas as palavras dele, ainda acreditava. – Desculpe, eu....
Madara virou o rosto, em sinal de extrema desaprovação ao discurso do rapaz. Os dois estavam machucados. Nunca haviam brigado desse jeito. O clima gelado foi interrompido por uma voz que vinha da janela.
– Psiu! Natsume-san!
– Hm? — Natsume foi até a janela e viu Itsuki pendurada. — ...Itsuki-san?!
– Preciso lhe avisar algo importante. Há uma tempestade vindo.
Ele fez sinal para que a menina entrasse em seu quarto e se sentasse. Itsuki continuou o discurso.
– É uma tempestade forte. E perigosa, principalmente para pessoas como você... Cuidado!
– Você está falando de uma tempestade espiritual? E como diabos você sabe que haverá uma? — Nyanko perguntou em tom de reprovação. Ninguém sabia quando uma Tempestade Espiritual viria.
– As árvores sempre sabem. Elas me contaram.
Itsuki torceu o nariz reprovando a dúvida de Madara. Natsume sentiu que outra discussão entre os dois iria começar, mas não deu chance. Havia uma bateria de perguntas que gostaria de fazer, mas se os dois começassem a discutir, poderia desistir delas.
– Espera, espera. Itsuki-san, porque você diz que essa tempestade é perigosa?
Itsuki, que parecia um pouco impaciente e apressada, respondeu de forma resumida – Essa não é uma tempestade qualquer. É uma tempestade que afeta os seres espirituais, para restaurar o equilíbrio do local por onde passa. Os yokais que se recusam a ir — a morrer, por assim dizer — são levados por essa tempestade.
– Como assim morrer? — Natsume não entendia muito bem o que estava ouvindo, mas Madara explicou.
– Lembra de alguns yokais “deuses” que encontramos? Os que já não eram adorados por tantos humanos assim, então estavam extremamente fracos...
– Lembro, lembro sim.
– Alguns ficam tão fracos que “morrem”. É bem simples.
– Não exatamente morrem.... — complementou Itsuki. — voltam a ser pedras, troncos, orvalho. Enfim, voltam à natureza. Mas alguns não querem voltar a ser tão simples. Se recusam. É para isso que essa tempestade serve. — O sentimento de impaciência de Itsuki aumentava cada vez mais. Agora ela batia os dedos sob o vestido cheio de folhas.
– Oh...Entendo. Mas porque a tempestade é perigosa, para mim em específico, então?
– É um momento de instabilidade espiritual. Alguns yokais ficam mais... perigosos. Além disso pode lhe afetar de algum outro modo. É um tanto imprevisível...
Natsume pareceu um tanto nervoso. Madara fez um rápido comentário do tipo “eu estou aqui” para que não se preocupasse tanto. Então o rapaz reparou no rosto desolado da menina. Além de impaciente, parecia que ia estourar em choro a qualquer momento.
– Tem mais alguma coisa que você gostaria de falar, Itsuki-san...?
Num gesto extremamente tímido, Itsuki mordeu os lábios e virou o rosto, tinha extrema dificuldade para pedir favores. Naquele momento, estava morrendo de medo de ser rejeitada pelo rapaz. Fazia muito tempo que não falava com outra pessoa.
– Eu... — A jovem tinha a respiração pesada e a fala pausada — ...gostaria de...pedir um favor seu... se possível, obvio. — sua fala, de repente começou a aumentar a velocidade até chegar num nível onde nada se entendia — Se não for possível eu compreenderei perfeitamente!! Não precisa se incomoda além da conta com alguém como eu...Talvez eu nem devesse pedir nada... Desculpe, Natsume-san. — Itsuki encostou a testa no chão em sinal de reverencia. – Não se incomode com alguém como eu!! — repetia incansavelmente.
Takashi moveu levemente a cabeça. Estava um tanto curioso, também com certa pena. Sem pensar muito encostou levemente as mãos sobre o cabelo da yokai, e quando esta levantou o rosto, pousou as mãos sobre ele levantando-o gentilmente. – Você nem pediu nada ainda, Itsuki-san. — e sorriu calmamente, meio envergonhado.
– Oh... — A yokai ficou extremamente vermelha com a aproximação do rapaz. — Que quando percebeu, retirou imediatamente as mãos do rosto dela, fazendo gesto de desculpas — Sentiu o coração bater acelerado e, não sabia exatamente o porquê, mas lembrou de algumas palavras de Reiko. Chacoalhou a cabeça como se quisesse esquecer e se preparou para falar.
– ...É que... A árvore que eu protejo... Está morrendo. Não vejo minha mãe, mas sei que está viva por causa da árvore — mas está fraca. Tenho medo que essa tempestade a leve — Nesse momento a yokai já estava perdida em choro — Natsume-san, por favor, me ajude a achar minha mãe!! Eu não quero perdê-la! Ela é tudo que eu tenho...
Natsume ficou extremamente desconcertado. Controlou-se para não chorar com a yokai, que já usava o pano de seu vestido para limpar as lágrimas. Olhou firmemente para ela e afirmou de todas as maneiras possíveis que iria ajudá-la. Enquanto isso, Madara olhava desconfiado e extremamente descontente. Detestava o rumo que a história estava tomando.
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