A Única Exceção do Rei

31 A Maior Batalha Vem de Dentro


Notas iniciais
Quase 4.000 palavras que saíram milagrosamente! Boa Leitura ♥

— Para o Inferno, Thranduil! — gritava nas costas do rei enquanto continuava sendo carregada por ele. — Você não pode me tratar assim. – batia nele com todas as minhas forças, mas Thranduil mal vacilava acima dos murros e tapas, pois era firme como uma rocha — Não sou sua propriedade para achar que pode me carregar de um lado para o outro livremente.

Thranduil continuou sua caminhada calado. Sua atitude fazia meu sangue ferver de ódio e minhas mãos tremerem de tanto nervosismo. Kirkel iria me pagar por ter permitido que esse elfo miserável que se denomina rei me tratasse dessa forma. Ambos iriam pagar por essa insolência, desgraçados!

O elfo arrastou-se pela cidade em passos largos retendo a atenção dos demais para nós dois naquela cena deplorável. Desceu alguns morros sem dificuldade alguma e permaneceu calado enquanto proferia palavras esdrúxulas para ele. Maldito!

O rei parou na entrada de um rochedo. Mais ao fundo havia um portão grande com grades maciças que escondia uma caverna fria e úmida, longa e escura. Havia alguns poucos guardas dele por lá prontamente resguardando a entrada enquanto os outros ajudavam algumas senhoras a se instalarem.

— O que pensa que está fazendo? — gritei para Thranduil quando senti suas mãos me agarrando pelos pulsos e me colocar no chão antes que alguém nos visse.

— Acalme-se, Ris! — ele respondeu visivelmente vermelho pelo pelejo da movimentação, e puxou-me para um canto escondido longe de possíveis olhares curiosos.

Não sei quanto às outras pessoas, mas quando alguém me pede para ter calma eu fico ainda pior. Minhas mãos tremiam tanto que os braços de Thranduil também começaram a tremer e eu estava considerando cuspir em sua face quando ele me soltou.

— Por favor, acalme-se. — Ele sussurrou cautelosamente — Está fora de controle. Acabou de se mostrar uma completa desiquilibrada frente a Bard e posso lhe garantir que muitos dos meus elfos também ouviram enquanto caminhávamos para cá. É isso mesmo o que pretendia?

Fiz que não com a cabeça um pouco envergonhada. Eu não queria envolver ninguém em minhas brigas com Thranduil, mas ele estava sendo insuportável e eu não aguentei as palavras entaladas em minha garganta.

— Desista dessa guerra. – Pedi novamente. — Não pode botar nossas vidas em risco por causa de míseras joias.

Thranduil arfou. Seus olhos estavam fundos, mas seu semblante voltava a sua cor habitual

— Não botaria sua vida em risco nem em meus mais profundos pesadelos. — Ele esclareceu um tanto sentimental e eu senti meu corpo paralisar.

— E o que pretende fazer? — perguntei segundos depois, forçando-me a continuar olhando Thranduil com o desdém que venho alimentando por ele a tempos.

O rei me pegou pelo colo mais uma vez e me colocou em seus ombros, eu definitivamente odiava aquela atitude grosseira dele de quem pensa que tem esse direito sobre mim, afinal, qual era o problema em conversar comigo e resolver as coisas civilizadamente? Mas não, ele tinha que se portar feito um animal sem a mínima educação e ainda por cima me provar que tinha poder sobre meu corpo.

— Por que diabos você está me carregando outra vez? — gritei enquanto ele tentava me levar novamente para o rumo da entrada. – Eu tenho pernas!

— Porque eu sei que você vai tentar fugir.

— Ora essa! — Reclamei, tentando permanecer em pé apoiando-me em seu ombro para ver exatamente o que ele estava fazendo. – Pare imediatamente!

— Preciso que fique longe desta guerra, Ris! Não há nada que possa fazer que irá impedi-la e eu não a deixarei colocar os pés em Valle até que tudo acabe. — ele esclareceu. – Eu não a deixaria participar disso mesmo que você não tivesse ido até mim, só que era um assunto ao qual eu iria tratar mais tarde.

— Quem pensa que é para me impedir de alguma coisa? Thranduil, eu não sou sua serva, não sou sua escrava, não faço parte do seu reino e também não sou sua mulher, e mesmo que fosse você não teria esse direito.

Thranduil colocou-me de pé a sua frente, seus olhos pareciam soltar faíscas e seu rosto voltava para a cor avermelhada.

— Se você não fosse impossível — ele recomeçou, coçando a garganta e se forçando para falar baixo — seria a minha mulher, sim. E seria uma rainha, e essa atitude não é a de uma rainha! Você nunca conseguiria ser da realeza se portando tão baixo.

O quê?

— Eu nunca quis ser rainha! — Berrei e o elfo ficou um pouco mais rubro em sua vergonha, torcendo para que ninguém tivesse entendido o que estava acontecendo ali. — Está muito equivocado em pensar que esse era meu objetivo.

— Eu conheço o seu objetivo, Melrise. — ele balbuciou suspirando em seu nervosismo – Me lembro exatamente o porquê você me deixou. Estava em busca de algo que eu não posso lhe dar, a única coisa que eu neguei a você por não ser mais capaz de sentir. Eu lhe dei roupas, comida, joias, uma casa, companhia, meus dias e minhas noites, meu corpo, meu prazer, meus segredos, a sua tão estimada liberdade e lhe prometi tudo o que tinha – inclusive o meu reino! -, mas nada disso era suficiente para você porque o amor vem acima de qualquer coisa e sua índole foi construída acima dele. Nada do que eu ofertasse a você seria o suficiente porque eu não posso mais amar alguém como amei minha falecida mulher! Mas você tem Kirkel, não é? — ele perguntou sarcástico. — Oh, me esqueci: você não o ama! – ele provocou. – Ainda bem que nada deu certo no final das contas. Nem para mim, nem para você.

Senti meu rosto esquentar mais uma vez acima daquelas acusações, eu havia me esquecido como era lidar com aquele pedaço de palmito coroado.

— E por causa disso, por causa das diversas coisas que me deu após me raptar uma segunda vez – sim, porque você me raptou, e só me esclareceu isso quando descobri o verdadeiro motivo do senhor ter ido atrás de mim -, acha que eu devo algo a você? Acha que ainda estou presa naquele contrato ao qual lhe dá a liberdade de brincar comigo como se eu fosse o seu fantoche? – Questionei enquanto tentava me segurar para não chorar em frente a ele. – O contrato que tínhamos já fora pago, e muito bem pago, por mim. Não há mais nada para cumprir!

— Não! – ele rebateu e passou suas mãos em seu rosto exasperado. – Eu só estou tentando fazer uma coisa ao qual eu ainda não tive a chance de fazer; proteger você. Não se meta nessa guerra. Você não sabe se proteger sozinha e já demonstrou isso para mim. É fraca demais, mesmo tendo aprendido a manusear uma espada. – Thranduil acusou.

— E é exatamente por isso que eu fui procura-lo, se não se lembra! Confesso que sou fraca e tem o conhecimento do quanto eu odeio guerras. Milhares dos homens da Cidade do Lago nunca precisaram estar numa batalha, e nós não praticamos táticas de guerra porque estamos ocupados demais tentando não morrer de fome! Kirkel nunca brigou com ninguém, Thran, assim como quase todos os que sobraram ali. Eu estou pedindo cautela, não é proteção.

O rei encarou-me por uns segundos e engoliu em seco. Se olhar desviou dos meus e ele suspirou. Quando me fitou novamente, vi que seus olhos estavam marejados. Foi quando eu percebi o meu erro: eu o chamei de Thran.

Droga!

— Isso não está mais em pauta, nós vamos guerrear. – Ele respondeu seco, tentando se recompor. – E, por favor, nós podemos conversar depois que tudo isso acabar? Não acha que devemos isso a nós mesmos?

Balancei a cabeça negativamente. Não, definitivamente eu não tinha nada mais para falar com ele.

— Nós não temos assuntos em comum mais, Majestade. – Respondi severamente. – Pelo nosso bem devemos fingir que não nos conhecemos mais. Adeus.

Tentei dar meia volta e sair de sua presença, mas Thranduil puxou-me outra vez para si.

— Onde pensa que vai? – Ele perguntou, forçando meu corpo para cima dos seus ombros novamente, carregando-me até a entrada da caverna. – Posso fingir que não a conheço depois da guerra se assim desejar, mas antes dela é minha prioridade proteger você.

O rei pulou adentrou aquele buraco comigo em seus braços antes mesmo que eu respondesse. O local tinha um cheiro insuportável de mofo e já estava habitada por algumas pessoas.

— Não pode me deixar aqui! – protestei. – Preciso proteger minhas irmãs!

— Suas irmãs virão para cá, assim como todas as mulheres e crianças. – Ele respondeu e se postou ao lado de um guarda. – E pelo seu bem, fique quieta até eu voltar.

— Pode demorar dias! – gritei, minhas mãos suando e tremendo.

— Então ficará dias em segurança. – O rei argumentou firme, assistindo-me desesperar novamente. – Por favor, fique de olho nela. Não deixe que saia enquanto as demais entram. – Pediu ao guarda que apenas assentiu com a cabeça.

***

Eu já disse em algum momento o quanto eu odeio Thranduil? Se eu disse, era mentira. Não, o que eu sentia no passado quando eu dizia que o odiava era pura e simplesmente rancor. Quando ele me trancafiou em sua masmorra, quando não quis me libertar, quando me disse que nunca poderia amar novamente, quando nos separamos, todas essas passagens trágicas são explicadas por esse sentimento. Mas agora, nesse exato momento trancafiada nesse calabouço bolorento, suando frio enquanto ouço os gritos de uma guerra acima de nós totalmente desnecessária e aparentemente extremamente sangrenta, esse sentimento sim é ódio. O mais puro e verdadeiro ódio, esse que você deseja simplesmente pegar o que está lhe causando tanto amargor e desferir mil golpes de espada em seu coração para que ele sinta exatamente o que você está sentindo. Porque tudo o que estava acontecendo naquele momento não envolvia apenas a mim, mas todos os cidadãos de uma cidade em ruínas, e Thranduil era o culpado pelas mortes que estavam acontecendo naquele exato momento junto com os anões. Por isso eu o odeio, por ele colocar sua ganância acima do bem estar de qualquer pessoa, como se as vidas que ali estavam fossem menos importantes do que a dele – ou pior, menos importantes do que míseras joias.

Foi, então, quando eu finalmente entendi: a lembrança de sua mulher estava ainda mais forte e viva dentro de si do que qualquer outra coisa. Não importaria o quanto ele se dedicasse a mim pelo resto de nossas vidas juntos, eu nunca seria a mulher pela qual ele travaria uma guerra. Eu nunca seria a mulher que ele guardaria no coração como o verdadeiro sentimento... Eu era sua amante e seria para sempre, mesmo que ele me desposasse e me tornasse sua rainha, mesmo que eu dedicasse todo o resto da minha vida a conquista-lo e fazê-lo feliz.

Eu não me permiti chorar e tranquei meu estômago contra qualquer tipo de ânsia quando horas depois Hern trouxe-me comida e água. Eu não me permiti chorar quando olhei para Mirph e Matilda desamparadas e angustiadas, e nem quando me peguei pensando em Kirkel tentando matar alguém – na verdade, estava tão brava com Kirkel quanto estava com Thranduil.

O tempo parecia arrastar. Não havia mais apenas homens, anões e elfos naquela guerra; os orcs também fizeram questão de dar as caras e aparentemente chegaram águias gigantes — e eu realmente não sabia o que isso significava, mas minha imaginação nem me permitia pensar muito sobre. Eu estava exausta, interna e externamente. Eu só queria me livrar daquilo tudo, daquele sentimento que se apoderou do meu peito tão de repente e de todo o sofrimento que eu passei nos últimos dois anos, tudo graças a minha estúpida vontade de me tornar livre. E o que eu era naquele momento? Livre de casa, livre de pais, livre de objetos pessoais, mas estava presa a Kirkel e a Thranduil de um jeito que me sufocava!

Não! Definitivamente aquela não era a vida que eu queria, não era a liberdade que eu tanto sonhava e não chegava nem perto do amor que eu desejava para mim.

Adormeci em algum momento entre minha amargura e tristeza. A gritaria e todo o barulho foram ignorados por mim no instante que meu ouvido começou a zumbir. Quando acordei, foi com um comunicado de um elfo que estava no portão de guarda, mas não consegui ouvir praticamente nada.

Algumas mulheres olharam desoladas umas para as outras em busca de conforto interno. Todas, sem exceção, estavam com os ombros caídos e os olhos fundos, cheios de angústia.

Para mim, ficar trancafiada enquanto homens lutam era um absurdo. Não conseguia engolir aquela guerra, mas ao menos poderia participar dela para defender o povo assim como os demais. Entretanto haviam dois deles – ou melhor, três – que achavam que minha vontade própria e escolha não valiam de nada. Não me surpreende Kirkel temer por minha vida e tentar poupá-la, mas Thranduil? Ele sabia que eu era capaz de assumir um posto nessa luta, assim como Tauriel era a chefe de sua guarda real, eu poderia enfrentar a batalha como uma igual.

Enquanto ouvia os suspiros e lamentos baixos vindos das moças cabisbaixas e quase silenciosas, notei uma pequena brecha no que parecia uma porta cor de cinza. A luz clareava precariamente, mas sim, era uma passagem.

Encarei os guardas por um segundo antes de checar até onde ia aquele novo caminho. Os dois que estavam atrás das grades vigiando-nos e conversavam distraídos.

Me arrastei até o portal e, sem chamar a atenção abri um pouco mais a porta e adentrei. Mirph e Matilda estavam encolhidas num canto, de olhos fechados e expressões tristes. Fechei a porta cautelosamente antes que alguém percebesse e me virei para um longo túnel vazio e um pouco mais escuro do que eu gostaria que fosse.

Com alguma coragem tomei rumo para a frente, forçando minha visão para não trombar de surpresa contra algo. Eu queria e precisava sair daquele lugar, ou enlouqueceria.

Enquanto caminhava pude perceber que os passos acima de mim ficavam cada vez mais audíveis. Até um certo momento estava dentro de uma caverna, mas tudo se clareou à minha frente quando me dei conta da ponte suntuosa que ligava Valle à Cidade do Lago. Caminhei até ela, notando que estava ainda abaixo dos pés de alguém que por ali andava. Era um segundo compartimento da ponte que possivelmente servia como passagem secreta até a montanha, e que fazia a poeira levantar e me arrepiaram por completo por causa do barulho irritante de ferro e madeira rangendo. Eram passos muito pesados para serem de humanos, elfos ou anões. Segurei minha respiração e me forcei a ficar quieta num determinado momento, provavelmente eram orcs fugindo. Um deles, muito pesado, pisou forte em cima do alçapão que estava logo acima de minha cabeça, que quebrou na parte de sua tranca e fez seu pé ficar preso nele. Me encolhi fora do campo de visão ao máximo que desse, engolindo em seco e praticamente imóvel de tanto medo, rezando para que ele não me visse ali e que meu corpo resistisse ao desespero.

Proteção uma ova! Se o maldito me visse eu seria sua refeição, e naquele buraco eu não conseguiria me proteger e muito menos correr. Belo esconderijo esse que Thranduil foi me arrumar.

Mas, para a minha sorte, ele soltou seu pé sem ao menos encarar a abertura abaixo de si e prosseguiu, para o meu alívio.

Alguns minutos se passaram e não ouvi nenhum outro ruído. A guerra também parecia estar em seu fim, pois o som diminuíra significativamente. O alçapão estava praticamente solto nesse momento, se algum outro orc pesado pisasse em cima certamente cairia ali dentro. Eu precisava sair dali antes que a sorte resolvesse me abandonar mais uma vez, normalmente ela não se engraçava muito comigo e me deixava sempre ao limite.

Calma, Melrise. Você consegue subir. – falei comigo mesmo, limpando minhas mãos na barra do meu vestido para secá-las e não escorregar.

Pulei para cima e empurrei a tampa um pouco mais até dar espaço suficiente para sair. Em outro impulso, agarrei nas beiradas e forcei meus braços. Aos poucos e com muito esforço, consegui projetar metade do meu corpo para fora, ficando apenas com as pernas penduradas dentro daquela joça. Meus braços vacilavam fracos, mal conseguindo manter o meu peso, mas não me permiti cair e com um último impulso me projetei totalmente para fora.

Me deitei no chão da ponte por um instante para sentir o vento retomar o meu fôlego enquanto sentia a dor espalhada em todo o meu corpo pelo esforço se apaziguar. Eu queria morrer naquele instante, confesso. Também confesso que eu estava com esse desejo de morte a muito tempo. Eu não sabia o que estava por vir e temia que não aguentasse presenciar a angústia da guerra. Eu não sabia se alguém estava vivo, se os orcs venceram, se os anões dominariam a ferro e fogo os humanos e elfos, se o mundo que eu vivia agora seria melhor ou pior do que o de antes, mas precisava prosseguir.

Me pus de pé com enorme custo, olhei para todos os lados a minha volta e corri retornando para a cidade de Valle quando percebi que não havia perigo.

Já na cidade o caos reinava. Sangue, corpos de todas as raças envolvidas ao chão, armas, casas próximas destruídas. Meu ouvido recomeçava a zumbir tão forte e minha cabeça a rodar enquanto todo o meu corpo tremia em ansiedade e angústia. Pessoas estavam caídas gemendo de dor, quase moribundas, suplicando por ajuda e eu podia jurar que, na verdade, havia chegado ao inferno.

— Srta. Phalnn... Mel...rise.— Uma voz falha parecia clamar meu nome. Segui tentando desvendar quem a pertencia. Identifiquei o elfo Hern caído perto de mais dois elfos ruivos que jaziam mortos.

— Hern! – gritei assim que fui ao seu encontro. Ele tinha uma flecha cravada em seu estômago desprotegido. Mas por que diabos o elfo estava sem armadura?

— Estava indo libertá-la junto com as outras moças. – ele disse com dificuldade, sua voz soando esganiçada.

— Fique em silêncio, por favor. – Pedi, notando que sangue jorrava quando ele falava. Rasguei um pedaço da barra do meu vestido e tentei estancar o mesmo – Por céus, onde está Thranduil!

— Meu senhor... pediu para libertá-la e leva-la até ele. Mas os orcs...

— Eu entendi. Por favor, fique em silêncio. – Exigi desesperada. Maldito Thranduil! – Eu vou buscar ajuda, por favor, fique quieto onde está.

— Tome... cuidado... orcs. – Ele disse, me apontando sua espada caída ao seu lado. Aparentemente ele foi pego de surpresa.

— Certo, certo. – Concordei, pegando aquele pesado objeto afiado com extremo cuidado.

Levantei-me e encarei a multidão caída, eu precisava buscar ajuda, mas acreditava que os povos remanescentes tinham plena consciência de que ali haviam ainda pessoas a serem socorridas. Corri, mais uma vez, até o meio da cidade de olho em quem eu encontrava pela frente, rezando internamente para não ver Kirkel, Bard ou até mesmo Thranduil mortos em algum canto.

A cidade estava praticamente vazia, apenas uma ou outra pessoa ainda permanecia lá prestando socorro aos que agonizavam ao chão. A guerra, aparentemente, havia mesmo chegado ao seu fim.

— Onde estão os demais? – perguntei a um dos homens que descansava seu corpo recostado a uma casa enquanto estancava um ferimento em sua perna.

— Alguns no abrigo... – ele respondeu com certa dificuldade. – Outros ao pé da entrada da montanha. Dizem que o rei e os príncipes de Érebor estão mortos.

Eu não sabia dizer se essa informação me causou tristeza ou alívio. Nesse momento eu compartilhava o ódio por anões assim como Thranduil, mesmo sabendo que esse não é um sentimento honroso após tomar conhecimento da morte dos líderes deles.

Que se ferrem todos eles!— pensei, me dando ao luxo de não sentir pesar por suas angústias.

Tomei rumo dessa vez para a entrada da montanha, o elfo que Thranduil confiou minha vida estava prestes a morrer e eu não podia deixa-lo sem ajuda.

Mas, antes mesmo de conseguir avistar a multidão ou ouvir algum barulho vindo de lá, percebi a figura do rei vindo em direção ao meio da cidade. Ele estava ao lado de três dos seus guerreiros, que foram pegos de surpresa por quatro orcs que estavam escondidos numa casa. Ambos pularam do andar superior em cima dos elfos, que tomaram suas espadas e recomeçaram uma pequena batalha ao lado de Thranduil. Me escondi atrás de um muro e esperei os elfos tomarem conta da situação antes de qualquer coisa. Nunca havia visto o rei daquela maneira, lutando bravamente e exibindo suas habilidades com extrema facilidade e sem perder a sua altivez. Ele e seus companheiros domaram os orcs após alguns segundos de peleja e os colocaram ao chão, prendendo-os. A cidade estava, provavelmente, ainda infestada por eles e imaginei que cada passo meu era vigiada por algum.

E não estava completamente errada. Porém, quem era vigiado por mais um deles era o rei, que teve seu rosto na mira de uma flecha do orc cinza logo à minha frente, que se mostrou cauteloso acima da emboscada que seus companheiros fizeram, mas fracassaram. Ele não percebeu minha presença atrás do muro, e estava prestes a atirar a maldita flecha bem no meio dos olhos do rei quando este estava distraído fazendo perguntas aos capturados.

Eu precisava fazer alguma coisa, mas o orc estava perto demais de mim para eu gritar avisando Thranduil. Se me denunciasse ali o alvo seria mudado facilmente para mim.

Mas por que eu deveria fazer algo para alertar Thranduil? O mais fácil era deixa-lo morrer tão estupidamente depois de uma guerra vencida. Ele merecia, e eu queria vê-lo definhar em sua arrogância e orgulho.

Contudo não foi isso o que fiz. A espada estava em minha mão e antes mesmo que eu pudesse raciocinar sobre o prazer que me geraria vê-lo morto pelas mãos do orc, fui em direção ao asqueroso com toda a ferocidade e ódio produzido pelo meu corpo. Arranquei seu braço com extrema brutalidade antes mesmo que ele conseguisse soltar a flecha, fazendo-o urrar de dor e chamar a atenção dos elfos à frente. Ele caiu prostrado diante mim, encarando o ser que ousou feri-lo, mas antes mesmo que ele dissesse alguma coisa naquela maldita língua, desferi mais um golpe em seu coração.

— Desgraçados! – berrei, sentindo o ardor na garganta se dissipar até o meu peito. Eu queria esfolar aquele maldito até não sobrar mais raiva alguma dentro de mim. – Filhos do inferno!

O Orc caiu para trás, colocando a mão que ainda restava no buraco feito pela espada. Não satisfeita com os dois golpes dados, acertei mais um em seu olho, que explodiu em uma gosma branca que voou em meu rosto. E depois outro no estômago, na perna, no pescoço, no peito, e em todos os lugares possíveis até que por fim senti os braços de Thranduil envolver-me a cintura e me puxar para si.

Notas finais
Acho que me empolguei um pouco nesse capítulo né? Pois então, eu disse que a Melrise era sofredora. Eu reli esses dias a fanfic - pq eu consertei algumas coisas nos capítulos anteriores para postá-la no wattpad - e me peguei pensando no quanto eu fiz a bixinha sofrer por causa desse rei... mas vocês acreditam que seria diferente se alguma de vocês tivesse a coragem de namorar Thranduil? Era exatamente isso o que eu queria passar quando pensei em escrever essa história. Claro que nada daria certo como um passe de mágica, nós estamos falando de Thranduil... e até eu conseguir provar o porque ele age daquela maneira em Príncipe Légolas (que eu me lembro que foi criticada a postura dele pq o rei não era aquilo no filme) não seria um trabalho nada fácil. Estamos caminhando para Príncipe Légolas agora. O nascimento de Belle deve demorar mais uns capítulos, mas não está muito longe. O contexto do capítulo (essa conversa entre a Mel e o Thranduil) não estava no meu plano, mas achei que ambos deveriam te-la, mesmo com essa troca de acusações. ;)Obrigado a quem acompanha! Não desistam da história shuauhshuahusuhahusuha ela está demorando a ser escrita mas tá indo. Eu adorei esse capítulo, espero que vocês também. Beijos ♥